Ensaios

A Importância das Nossas Saudações Convencionais, etc.

por Aleister Crowley em Novo Æon

A Importância das Nossas Saudações Convencionais, etc.
Metodologia

A Importância das Nossas Saudações Convencionais, etc.

por Aleister Crowley

Cara Soror:

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

De tempos em tempos, tenho lhe estimulado através da minha eloquência costumeira a jamais negligenciar as Saudações prescritas: mas também acho justo reunir as várias considerações relativas ao seu uso — e nas “Saudações” eu incluo “afirmar a Vontade” antes de fazer as refeições, as quatro adorações diárias do Sol – (Liber CC, vel Resh) e a saudação a Nossa Senhora, a Lua. Eu proponho lidar com o assunto dos rituais combinados como um todo, e não com as virtudes especiais de cada um separadamente.[1]

A prática do Liber III vel Jugorum é o complemento destes costumes reunidos.[2] Através da autopunição física severa quando você pensa, diz ou faz qualquer coisa que seja aquilo que você determinou para si mesmo evitar fazer, você envia uma sentinela ao portal da sua mente, pronto para intimidar todos os entrantes, e assim adquire o hábito de permanecer alerta. Tenha isto em mente, e não terá qualquer dificuldade em seguir o raciocínio desta carta.

Quando você está praticando Dharana[3], se dá conta de si mesmo durante muitos minutos.  É um esforço estável, sustentado. A mente luta constantemente para escapar do controle. (Eu espero que você se recorde da sequência de “pausas”. Caso não consiga, eu as resumirei).

  1. Interrupções físicas imediatas: O Asana deverá cessá-las.
  2. Coisas que estão “na sua mente”.
  3. Devaneio, e “Ajudaria se eu fizesse— ?”
  4. Ruídos — por exemplo, vozes aparentemente de alguma fonte alienígena.
  5. Desvios do próprio controle; e do próprio resultado.  (Lembre-se da prática de algumas escolas Hindus: “Nem isto, nem aquilo!” para qualquer coisa que se apresente como Tat Sat — realidade, verdade).

É necessário que eu a lembre do quão impetuoso será com certeza o desejo de escapar, o quão fantásticos são os truques e desculpas da mente, muitas vezes chegando a uma revolta deliberada?  Em Kandy[4] eu fugi em fúria e me lancei para Colombo com a intenção de pintar o próprio ar tão vermelho quanto as cusparadas de bétel nas calçadas! Mas após três dias de uma busca fútil por uma devassidão que me satisfizesse eu voltei à razão e, com certeza, simplesmente eu havia ficado fora de mim; o relaxamento me acalmou e estabilizou; retomei a disciplina com energia redobrada, e Dhyana aconteceu antes que uma semana tivesse se passado.

Eu menciono isso porque este é um hábito normal da mente organizar estes contra-ataques que tornam sua tarefa tão fácil. O que você precisa é de uma mente que o ajude ao invés de colocar obstáculos à sua Obra por meio de sua função normal.

Eis onde entram as Saudações, as afirmações da Vontade e as Adorações.

Isto não é propriamente uma prática de concentração; não tenho uma palavra adequada para isto. “Concentração em segundo plano” ou “concentração a longa distância” são termos grosseiros, e não muito precisos. De fato, é muito mais do que uma escola pública.  Não se está constantemente “fazendo algo melhor do que tudo que já tenha sido feito;” não se está deixando os óculos caírem a cada dois minutos, ou sendo um pequeno cavalheiro no ato de escovar o cabelo. A questão é que se está treinando a si mesmo para reagir adequadamente a cada momento de surpresa. Esta tem que se tornar uma “segunda natureza” para “Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei”. Saltar à frente da mente quando se é apresentado para um estranho, ou quando se toma o café da manhã, ou quando se ouve o chamado do telefone, ou quando se observa a hora da adoração, (estas devem ser reações superficiais, como se levantar instintivamente quando uma dama entra na sala), ou por outro lado, em momentos de perigo imediato, ou de súbita apreensão ou, quando durante a meditação, a pessoa se aproxima das camadas mais profundas.

Não é necessário ser dogmático acerca do uso destas palavras especiais. Deveria ser escolhida uma fórmula para representar a Verdadeira Vontade particular de alguém. É mais ou menos como Cato, (ou Scipio, que tal?) que concluía cada discurso, fosse a respeito das Regulamentações das Saunas Romanas ou a proposta de recuperar um pântano de Maremma, com as palavras: “E mais ainda, na minha opinião, Cártago deveria ser destruída”.[5]

Entendeu?

Você ensina a mente a empurrar seu pensamento automaticamente para a própria coisa da qual ele estava tentando se desviar. “Sim, eu compreendo você, Stephen! … Mas, Tio Dudley, seja claro, você sempre faz tudo aquilo sozinho? Às vezes não se sente constrangido, ou teme que você possa destruir o efeito da sua carta, ou “fazer uma cena” no meio da rua quando você de repente para e faz estas excentricidades, ou simplesmente esquece de tudo?”.

Sim, faço.

Peccavi.

Mea culpa, mea maxima culpa.[6]

Eu não sou o seu velho e valoroso amigo, Adam Qadmon, o Homem Perfeito.

Sou uma espécie muito medíocre.

Nada sou em relação à Lung Peng Choung, ou Himi, ou Monsaivat.[7]

De fato eu esqueço ocasionalmente; embora, fico feliz em dizer, nem tanto quanto eu costumava. (Assim que o hábito é adquirido, ele tende a se fortalecer). Mas muitas vezes eu me omiti deliberadamente em cumprir a minha tarefa. Realmente tenho receio disso. Ofendo-me com isso. Sinto que isso me aborrece muito.

Como disse acima, Adam Qadman não é o meu sobrenome.

Muito bem, agora tenho algum resto de desculpa? Sim, de alguma forma; não acho que seria de bom tom empurrar as minhas idiossincrasias goela abaixo nas pessoas, e não quero parecer mais excêntrico do que necessito. Isso poderia depreciar minha influência pessoal, e então fazer mal de verdade à Grande Obra que estou tentando realizar…

“Sim, está tudo muito bem, Alibi Ike; você é extremamente bem conhecido como um Satã que cita as Escrituras, como um Past-Master[8] em auto justificação. Treinado desde a infância pela Irmandade de Plymouth, que por casuística deixa os Jesuítas no cargo!” “Sim, sim, mas — — —.”

“Não me venha com seu mas… mas…, seu bode velho!  Não foi certa vez um tal Jonas Hanway, o primeiro homem a ostentar um guarda-chuva? A sua prática não seria natural, e correta, e o máximo das boas maneiras logo que algumas centenas de pessoas começassem a fazê-la? E Thomas, Richard e Henry, três meses depois, não passariam a considerá-la mais importante e começariam a dar o melhor de si?” (Isto foi a Consciência falando).

Tudo bem, você venceu.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Fraternalmente,

666[9]

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Mais a frente, neste mesmo texto, Crowley expõe: “Muito bem, agora tenho algum resto de desculpa? Sim, de alguma forma; não acho que seria de bom tom empurrar as minhas idiossincrasias goela abaixo nas pessoas, e não quero parecer mais excêntrico do que necessito. Isso poderia depreciar minha influência pessoal, e então fazer mal de verdade à Grande Obra que estou tentando realizar…”. Dizer que algo é importante não é o mesmo que dizer que algo é obrigatório. Para aqueles que desejam se aprimorar na via do controle da mente, todas as ações expostas são realmente muito importantes. A proposta geral não é criar um dogma, mas sim expor métodos que facilitem o processo de desenvolvimento do indivíduo. E como o conhecimento não é estático e está em constante mudança, a própria proposta evoluí juntamente com aqueles que a aplicam. O Novo Æon garante a todos que um mesmo processo pode ser realizado de diversas formas e o formato correto é aquele que não fere aquilo que é natural e inerente ao indivíduo, isto é, não existem sequer duas estrelas iguais e por este motivo não há como obrigar o mesmo método a todas as estrelas. – Nota do Editor. ↵ voltar
  2. O livro está dividido em três etapas. Na primeira, você evita dizer uma palavra que não quer dizer; na segunda, evita realizar um ato que você não deseja realizar; na terceira, de cogitar um pensamento que você não quer pensar. Como parte do treinamento, você faz um bom corte em si mesmo caso perceba que está dizendo, agindo ou pensando aquilo que você se decidiu a não dizer, fazer ou pensar. Esta prática é tanto eficaz quanto difícil. – Nota de Marcelo Ramos Motta. ↵ voltar
  3. Vide Livro Quatro – Parte I Comentada, “Yoga e Magia”. – Nota de Marcelo Ramos Motta. ↵ voltar
  4. No Ceilão, onde ele foi para estudar Hatha Yoga sob a tutela de Allan Bennet, naquela época, Bhikkhu Ananda Metteya. – Nota de Marcelo Ramos Motta. ↵ voltar
  5. Então, eles finalmente foram e destruíram-na, talvez desta forma fundando uma civilização há mil anos atrás. – Nota de Marcelo Ramos Motta. ↵ voltar
  6. Do latim, “Peccavi. Mea culpa, mea maxima culpa.”, “Eu pequei. Minha culpa, minha máxima culpa.”. A expressão tem origem na prece “Confiteor” (do latim, “Eu confesso”) da Missa (Missale Romanum) da Igreja Católica Romana (Ecclesia Catholica Romana); o texto original em latim é: “Confiteor Deo omnipotenti, beatæ Mariæ semper Virgini, beato Michaeli Archangelo, beato Joanni Baptistæ, sanctis Apostolis Petro et Paulo, omnibus Sanctis, et tibi pater: quia peccavi nimis cogitatione verbo, et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Ideo precor beatam Mariam semper Virginem, beatum Michaelem Archangelum, beatum Joannem Baptistam, sanctos Apostolos Petrum et Paulum, omnes Sanctos, et te Pater, orare pro me ad Dominum Deum Nostrum.”, cuja tradução livre seria “Eu pecador me confesso a Deus todo-poderoso, à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado são Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado são João Batista, aos santos apóstolos são Pedro e são Paulo, a todos os Santos e a vós, Padre, porque pequei muitas vezes, por pensamentos, palavras e obras: por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Portanto, rogo à bem-aventurada Virgem Maria, ao bem-aventurado são Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado são João Batista, aos santos apóstolos são Pedro e são Paulo, a todos os Santos e a vós, Padre, que rogueis a Deus Nosso Senhor por mim.”. – Nota do Editor. ↵ voltar
  7. Todos são locais sagrados lendários. – Nota de Marcelo Ramos Motta. ↵ voltar
  8. Do inglês, Mestre Instalado, um termo Maçônico. – Nota do Editor. ↵ voltar
  9. Um comentário puramente pessoal aqui. Eu normalmente não digo “Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei” quando sou apresentado a um estranho. Entretanto, se eu me sentar para comer ou beber com qualquer pessoa, direi “Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei”. Eu apenas abro e fecho minhas cartas com a Lei quando estou me dirigindo a Thelemitas ou candidatos a Thelema, ou quando quero enfatizar ao meu correspondente que eu sou uma daquelas pessoas satanicamente más, um “seguidor de Aleister Crowley”; e nas ruas ou em público eu geralmente pratico as Adorações interiormente, meramente fazendo o Sinal do Silêncio discretamente. Eu costumava há muitos anos atrás, abrir todas as minhas cartas com a Lei, não importando a quem eu estivesse me dirigindo. Tudo o que consegui foi ser espionado constantemente pelos serviços de “inteligência”, e o consequente boicote que isto invariavelmente implica. Não me arrependo de ter sido um entusiasta, mas hoje em dia eu acho que se deve viver e deixar viver. Se eles desejam ser escravos, este é o privilégio deles. Nem prevejo muito favoravelmente o dia quando todo mundo sairá dizendo “Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei” uns para os outros. Isso lembra o tipo de dogmatismo que igualmente “distingue” as crenças estabelecidas. A moderação, creio, impressiona mais do que frases vazias proferidas aos berros. Algum dia, talvez, haverá um Jerry Falwell (sempre há um Jerry Falwell) divulgando a Lei de Thelema na televisão. Neste dia, será melhor que Maat se manifeste rapidamente! – Comentário de Marcelo Ramos Motta. ↵ voltar

© 2016 e.v. - O.T.O. - Ordo Templi Orientis





A Importância das Nossas Saudações Convencionais, etc.

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Nina Castro
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 25/09/2011 e.v.
Nota:

A Importância das Nossas Saudações Convencionais, etc. é a 18ª carta publicada no livro Magia Sem Lágrimas (Magick Without Tears) de Aleister Crowley. A presente versão utilizou como base diversas edições do livro e traz alguns comentários de Marcelo Ramos Motta (realizados em sua edição, Magick Without Tears Unexpurgated Commented), não foram adicionados comentários em que Motta fazia referência à edição de Israel Regardie. Regardie suprimiu diversas partes do texto original (o que é extremamente condenável), mas não vemos motivos para continuar dando demasiada ênfase ao fato, o importante é o esforço para levar o texto completo ao leitor.


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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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