A Totalidade da Lei
Filosofia

A Totalidade da Lei

por Aleister Crowley

“There is no law beyond Do what thou wilt.” – AL III:60[1]

Naturalmente, existem leis menores do que esta, sendo detalhes, casos particulares, da Lei. Porém, a totalidade da Lei é Faze o que tu queres, e não existe lei além desta. Este assunto é tratado completamente em Liber CXI Aleph, e o estudante deve consultá-lo.

Muito melhor, que ele assuma que esta Lei seja a Chave Universal para todos os problemas da Vida, e que então a utilize para um caso em particular depois de outro. Conforme ele venha gradualmente a compreendê-la, ele ficará surpreso com a simplificação que ela provê para as questões mais obscuras. Então ele assimilará a Lei, e a tornará a norma do seu ser consciente; isto por si mesmo será o suficiente para iniciá-lo, para dissolver os seus complexos, para revelá-lo a si mesmo; e então ele alcançará o Conhecimento e a Conversação do seu Santo Anjo Guardião.

Eu mesmo pratiquei constantemente para provar a Lei através de muitos modos diferentes e em diversas esferas de pensamento, até ela ter se tornado absolutamente fixada em mim, de tal forma que ela pareça uma “equação idêntica”, realmente axiomática, e ainda assim não uma banalidade, porém uma autêntica Espada da Verdade para cortar qualquer nó ao seu toque.

Como prática ética da Lei eu formulei, a partir das palavras de um plano de estudos, a minha declaração dos

DIREITOS DO HOMEM

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Não existe deus além do Homem.

O Homem tem o direito de viver pela sua própria Lei.
O Homem tem o direito de viver do jeito que quiser.
O Homem tem o direito de se vestir como quiser.
O Homem tem o direito de morar onde quiser.
O Homem tem o direito de se mover como quiser sobre a face da Terra.
O Homem tem o direito de comer o que quiser.
O Homem tem o direito de beber o que quiser.
O Homem tem o direito de pensar como quiser.
O Homem tem o direito de falar como quiser.
O Homem tem o direito de escrever como quiser.
O Homem tem o direito de moldar como quiser.
O Homem tem o direito de pintar como quiser.
O Homem tem o direito de esculpir como quiser.
O Homem tem o direito de trabalhar como quiser.
O Homem tem o direito de descansar como quiser.
O Homem tem o direito de amar como quiser, quando, onde e a quem ele quiser.
O Homem tem o direito de morrer quando e como quiser.
O Homem tem o direito de matar aqueles que lhe negarem estes direitos.[2]

Esta declaração não deve ser considerada como individualismo degenerado. Sua harmonia com o estadismo é demonstrada nos Capítulos do Liber Aleph já citado – vide comentário sobre o Capítulo II verso 72[3].

O pensamento moderno, mesmo aquele mais superficial, é obrigado por Aiwaz a confirmar a Sua Lei, sem se saber sobre o que se trata. Por exemplo: “O sopro de Deus vindo de nenhum lugar que é chamado de Vontade; e é a única desculpa dos homens sobre esta terra”, foi escrito por um Homem Gordo tão trivial quanto Gilbert Keith Chesterton em A Hospedaria Voadora.[4]

COMENTÁRIO: AL II:72

“Strive ever to more! and if thou art truly mine — and doubt it not, an if thou art ever joyous! — death is the crown of all.” – AL II:72[5]

Não existe fim para o Caminho – a morte é a coroação de tudo.[6]

Este esforço deve ser vigoroso. Nós não devemos vender nossas vidas pelo preço de um alfinete. “Soltem-me, cavalheiros! Farei um fantasma daquele que me impedir!”[7]. A Morte é o Fim que coroa a Obra.

A evolução opera através da variação. Quando um animal desenvolve uma parte de si mesmo além dos outros, ele infringe a norma da sua espécie. Primeiramente, esse esforço é feito à custa de outros esforços, e parece como se, tendo sido afetado o equilíbrio geral, a Natureza estivesse em perigo. (Obviamente deve parecer assim aos olhos do observador casual – que provavelmente reprova e persegue o experimentador). Mas quando esta variação tem a finalidade de possibilitar uma mudança nova, ou mesmo prevista, no ambiente, e é recompensada por alguma parte excedente, ou alguma parte agora supérflua, embora uma vez útil para atender uma qualidade do ambiente que não mais ameaça o indivíduo, a adaptação é biologicamente proveitosa.

Obviamente, a ideia total de exercitar, mental ou fisicamente, é para desenvolver os órgãos envolvidos de uma maneira fisiológica e psicologicamente apropriada.

É pernicioso forçar qualquer faculdade para viver conforme uma lei alheia. Quando os pais insistem para que um garoto siga uma profissão que ele detesta, porque eles mesmos a preferem; quando Florence Nightingale lutou para abrir as janelas dos hospitais da Índia à noite; então o Ideal mutila e mata.

Todo órgão tem ‘nenhuma lei além de Faze o que tu queres’. Sua lei é determinada pelo histórico do seu desenvolvimento, e pelas suas atuais relações com os seus concidadãos. Nós não fortalecemos os nossos pulmões e os nossos membros por métodos idênticos, ou buscar os mesmos sinais de sucesso ao treinar a garganta do tenor e os dedos do violinista. Mas nisto todas as leis são iguais: elas concordam que poder e tom resultam de se praticar persistentemente o exercício apropriado sem sobrecarregar. Quando uma faculdade está sua função livremente, ela se desenvolverá; o teste é a sua disposição para ‘lutar sempre por mais’; ela se justifica por ser ‘sempre prazerosa’. Segue-se que a ‘morte é a coroação de tudo’. Pois uma vida que tenha cumprido todas as suas possibilidades cessa de ter um propósito; a morte é o seu diploma, por assim dizer; ela está pronta para se disponibilizar às novas condições de uma vida maior. Da mesma forma um estudante que tenha realizado o seu trabalho, morre para a escola, reencarna em barrete e toga, triunfa nas viagens, morre para os claustros e é renascido para o mundo.

Observe que o Arcano “Morte” no Tarô se refere a Escorpião. Este signo é tríplice: o Escorpião que se mata com seu próprio veneno, quando o seu ambiente (o anel de fogo) se torna intolerável; a Serpente que se renova ao trocar a sua pele, que é coroada e encapuzada, que se move por ondulações como a Luz, e concede Sabedoria ao homem ao preço de Trabalho Pesado e Mortalidade; e a Água que se ergue, com seus olhos sem pálpebras ousadamente curvados para o Sol. A “Morte” é, para o iniciado, como uma hospedaria à margem da estrada; ela marca um estágio cumprido; ela oferece um refresco, repouso e aconselhamento quanto aos seus planos para o amanhã.

Mas neste verso a questão principal é que a morte é a ‘coroa’ de tudo. A coroa é Kether, a Unidade; “Amor sob vontade” tendo sido aplicado a todas as possibilidades-Nuith de todas as energias-Khu de qualquer Estrela-central-Hadit, que a própria Estrela tenha exaurido perfeitamente, completando um estágio do seu curso. Portanto ela é coroada pela morte; e, sendo totalmente ela mesma, vive novamente ao atrair a sua Contraparte igual e oposta, com quem o ‘amor sob vontade’ é a realização da Lei, numa esfera mais sublime.

Porém não existem regras até que se as tenha encontrado: um homem que esteja partindo da Irlanda para o Saara faz bem em descartar coisas ‘indispensáveis’ e ‘apropriadas’ tais como capa impermeável e bengala de passeio por um turbante e uma adaga.

O homem ‘moral’ está vivendo pelas Leis da não-razão, e isto é estúpido e inadequado mesmo quando as Leis ainda são boas; pois ele é um mero mecanismo sem recursos, caso algum perigo que ainda não tenha sido previsto para ele no seu projeto original venha a ocorrer. Respeito pela rotina é a marca do homem de segunda-classe.

O homem ‘imoral’, desafiando as convenções ao falar alto na igreja, pode de fato estar ‘murmurando’; mas igualmente ele pode ser um sensitivo que tenha sentido o primeiro tremor de um terremoto.

Nós de Thelema encorajamos todas as variações possíveis; nós saudamos todo novo ‘esporte’; seu sucesso ou fracasso é o único teste do seu valor. Nós deixamos o filhote de galinha recém-saído do ovo cair na água, e rimos da sua agitação; e nós protegemos o ‘patinho feio’, sabendo que o Tempo nos dirá se ele é um jovem cisne.

Herbert Spencer[8], condenando inexoravelmente os Incapazes à forca, apenas fez eco ao Sumo Sacerdote que protegeu Paulo dos Fariseus. Biologia saudável e teologia saudável são finalmente reunidas!

A questão sobre os limites da Liberdade individual é totalmente discutida em Liber CXI (Aleph), que recomendamos ao estudante. Os quatro capítulos seguintes darão uma ideia geral sobre os princípios mais importantes.

DE LIBERTATE JUVENUM
Da Liberdade das Crianças
[9]

Ó tu, que és a Criança de minhas próprias Entranhas, como te escreverei Eu sobre as Crianças? Pois aí está o Nó Górdio em nossa inteira Corda de Sabedoria e não pode ser cortado com Espada, não, nem mesmo a de um maior que Alexandre-de-Dois-Chifres. E é um Equilíbrio como aquele do Ovo e a violência de um Colombo apenas rachará a Casca tenra que devemos antes de tudo preservar.

Agora, como Sentinela daquela Fortaleza existe certo Paradoxo de Aplicação geral, e desta Maneira genérica Eu o declararei, para que seu Sentido particular possa de agora em diante iluminar-te a Mente. E este é o Paradoxo: que existem Laços que levam à Escravidão e Laços que levam à Liberdade. Todos nós somos amarrados com muitos Laços pelo nosso Ambiente, e em grande Parte, somos nós que devemos decidir se tais Laços nos escravizarão ou nos emanciparão. E Eu te tornarei clara esta Tese por Meio de uma Ilustração.

DE VI PER DISCIPLINAM COLENDA
Sobre o Cultivo da Força via a Disciplina
[10]

Refleti sobre a Limitação de Clima frio, como este torna o homem um Escravo; ele deve obter Abrigo e Alimento através de uma Labuta feroz. Ainda assim, ele se torna forte contra os Elementos, e a sua Força moral aumenta, de forma que ele é Mestre dos Homens que vivem em Terras de Sol onde as Necessidades corporais são satisfeitas sem Luta.

Refleti também sobre aquele que deseja exceder em Velocidade ou em Batalha, como ele nega a si mesmo a Comida que ele necessita, e todos os Prazeres naturais para ele, colocando-se sob a Ordem severa de um Treinador. De modo que através desta Limitação ele obtém, por fim, a sua Vontade.

Assim sendo, para um através de um modo natural, e para o outro de modo voluntário, a Restrição trouxe cada um a uma Liberdade maior. Isto é também uma lei geral da Biologia, pois todo Desenvolvimento é Estruturação; isto é, Limitação e Especialização de um Protoplasma originalmente indeterminado, que mais tarde consequentemente poderá ser chamado de livre, na definição de um Apêndice.

DE ORDINE RERUM
Da Ordem das Coisas
[11]

No Corpo, toda Célula está subordinada ao Controle fisiológico geral, e nós que queremos aquele Controle não perguntamos se cada Unidade individual daquela Estrutura é conscientemente feliz. Porém realmente cuidamos para que cada uma cumpra a sua Função, e que o Fracasso de mesmo umas poucas Células, ou sua Revolta, possa envolver a Morte de todo o Organismo. Ainda assim mesmo aqui as Queixas de umas poucas, o que chamamos de dor, é um Aviso de Perigo geral. Muitas Células cumprem seu Destino através de Morte rápida, e sendo esta a sua Função, de modo algum elas se ressentem disso. Caso a Hemoglobina resista ao Ataque de Oxigênio, o Corpo pereceria, e a HEMOGLOBINA não salvaria nem a si mesma. Então, ó meu Filho, refleti então profundamente sobre estas Coisas na sua Ordenação do Mundo sob a Lei de Thelema. Pois cada Indivíduo no Estado deve ser perfeito na sua própria Função, com Satisfação, respeitando sua própria Tarefa como sendo necessária e santa, não sendo invejoso daquela dos outros. Pois somente assim tu poderás construir um estado livre, cuja Vontade dirigente será unicamente direcionada ao Bem-estar de todos.

DE FUNDAMENTIS CIVITATIS
Dos Fundamentos do Estado
[12]

NÃO digas, ó meu Filho, que neste Argumento Eu estabeleci limites à Liberdade individual. Pois cada Homem neste Estado que Eu proponho estará satisfazendo sua própria Verdadeira Vontade por sua pronta Aquiescência na Ordem necessária ao Bem-Estar de todos e, portanto, também dele mesmo. Mas vê bem que estabeleças um elevado Padrão de Satisfação e que a cada um sobre após seu Trabalho, Lazer e Energia, de forma que, sua Vontade de Autopreservação estando satisfeita por sua Execução de sua Função no Estado, ele possa devotar o Restante de seus Poderes à Satisfação das outras Partes de sua Vontade. E como o Povo é frequentemente ignorante, e não compreende o Prazer, faz com que seja instruído na Arte da Vida: como preparar Comida agradável e sadia, cada qual a seu Gosto; como fazer Roupas cada qual de acordo com sua Fantasia, com Variedade de Individualidade e como praticar as múltiplas técnicas do Amor. Estas Coisas, sendo antes de tudo asseguradas, depois tu poderá guiá-los aos Céus da Poesia e do Conto, da Música, da Pintura e da Escultura e ao Estudo da Mente mesma com sua insaciável Alegria de todo Conhecimento. Daí deixa que eles levantem voo!

Nós de Thelema achamos vitalmente correto permitir a um homem tomar ópio[13]. Ele pode destruir o seu veículo físico dessa forma, mas ele poderá produzir outro Kubla Khan. É da sua própria responsabilidade. Também sabemos muito bem que “se ele for um Rei” isto não irá feri-lo–por fim. Nós confiamos que a Natureza protege seus filhos, e sua Sabedoria será justificada. É superficial contestar que se deveria evitar que um homem arruíne e mate a si mesmo, por causa dele mesmo ou “daqueles dependentes dele”. Alguém que é incapaz de sobreviver deveria ser deixado para morrer. Nós queremos apenas aqueles que podem conquistar a si mesmos e ao seu ambiente. Quanto “àqueles dependentes dele”, um dos nossos principais objetivos é abolir a própria ideia de dependência dos outros. Mulheres com filhos, e crianças pequenas, não são exceções, como possa parecer. Eles estão fazendo sua vontade, uma classe para reproduzir, a outra para viver; o estado deve considerar o seu bem estar como seu primeiro dever; pois se no momento estes são dependentes dele, ele também é dependente deles. Um homem poderia muito bem arrancar o seu coração se o mesmo estivesse fraco, e necessitado de tratamento cauteloso. Porém ele seria não menos estúpido se tentasse evitar que os elementos desgastados se eliminassem a si mesmos do seu corpo. Nós respeitamos a Vontade-de-Viver; nós devemos respeitar a Vontade-de-Morrer. A raça é autointoxicada ao suprimir os processos de excreção da Natureza.

Cada caso dever naturalmente ser julgado pelos seus méritos. Seus próximos fazem bem em prestar assistência àquele que está fraco por causa de acidente ou desgraça, se ele desejar se recuperar. Porém é um crime contra o estado e contra os indivíduos em questão impedir que o viciado em jogo, o alcoólatra, o libertino, o defeituoso congênito, de se dirigir rumo à morte, a menos que estes provem por sua própria determinação obstinada que podem controlar as circunstâncias, que estão aptos a colocar o seu peso na Arca de Noé da humanidade.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Não existe lei além de Faze o que tu queres.” – AL III:60 (Disponível em: www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/livros/al-o-livro-da-lei/). – Nota do Editor. ↵ voltar
  2. Texto base para Liber OZ (disponível em www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/livros/liber-lxxvii-vel-oz/). – Nota do Editor. ↵ voltar
  3. Disponível abaixo nesta edição em COMENTÁRIO: AL II:72. – Nota do Editor. ↵ voltar
  4. The Flying Inn, G. K. Chesterton, 1914 e.v.. – Nota do Editor. ↵ voltar
  5. Esforça-te cada vez mais! e se tu és verdadeiramente meu – e não duvides disto, e se tu és sempre jubiloso! – morte é a coroa de tudo.” – AL II:72 (Disponível em: www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/livros/al-o-livro-da-lei/). – Nota do Editor. ↵ voltar
  6. Comentário Antigo de Mestre Therion. – Nota do Editor. ↵ voltar
  7. Hamlet i, 4. – Nota do Editor. ↵ voltar
  8. Filósofo Britânico (1820-1903). – Nota do Editor. ↵ voltar
  9. Liber Aleph, capítulo 36. – Nota do Editor. ↵ voltar
  10. Liber Aleph, capítulo 37. – Nota do Editor. ↵ voltar
  11. Liber Aleph, capítulo 38. – Nota do Editor. ↵ voltar
  12. Liber Aleph, capítulo 39. – Nota do Editor. ↵ voltar
  13. Mesmo acreditando ser vitalmente correto, é necessário ter em mente a Lei vigente do país onde se está. – Nota do Editor. ↵ voltar

© 2016 e.v. - O.T.O. - Ordo Templi Orientis





A Totalidade da Lei

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 17/10/2013 e.v.

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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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