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Aleister Crowley: O Mago de Mil Faces

por Carlos Raposo em Biografias

Aleister Crowley: O Mago de Mil Faces
História

Aleister Crowley: O Mago de Mil Faces

por Carlos Raposo

“A red rose absorbs all colours but red;
red is therefore the one colour that is not.
This Law, Reason, Time, Space,
all Limitation blinds us to Truth.
All that we know of Man, Nature, God,
is just that which they are not;
it is that which they throw off as repugnant.”
“Uma rosa vermelha absorve todas as cores, menos a vermelha;
Vermelha, portanto, é a única cor que ela não é.
Essa Lei, Razão, Tempo, Espaço,
toda Limitação, cega-nos à Verdade
Tudo o que sabemos sobre o Homem, Natureza, Deus,
é apenas aquilo que eles não são;
é aquilo que rejeitam como repugnante.”

(Aleister Crowley, Liber CCCXXXIII, Cap. 40)

Um homem cuja vida sempre esteve simultaneamente compartilhada por genialidade e loucura, por criação e destruição, amor e ódio, encanto e desafeto. Que mistérios estarão ocultos na vida e obra desse homem cujo propósito sempre esteve muito além de todo o dogma e de qualquer moral, além de todo êxtase, de toda vida e morte. Talvez poucos tenham as respostas e conheçam os motivos que moveram o pior homem do mundo a reviver o assim chamado Culto das Sombras.

Aleister Crowley

Aleister Crowley

APRESENTAÇÃO

O ano de 1875 da era comum foi de grande importância para o mundo dito Oculto e para o estudo do assim chamado simbolismo esotérico. Entre tantos e vários acontecimentos, nesta época ocorridos, podemos destacar: a morte de Eliphas Levi, a fundação da Sociedade Teosófica e a primeira publicação de Ísis Revelada por Helena P. Blavatsky. Em 1875 também nasceram Carl G. Jung e Albert Schweitzer. Além disto, este mesmo ano testemunhou todo o movimento de grandes Ordens Ocultas que nos legaram boa parte, senão tudo, daquilo que hoje é conhecido como Tradição da Magia Ocidental. Um outro fato porém, viria, depois, consolidar-se como um dos mais importantes relacionados à história do ocultismo mundial: o nascimento, na Inglaterra, de Edward Alexander Crowley (1875-1947), mais conhecido como Aleister Crowley.

Mas quem é Aleister Crowley?

Muito já foi escrito a respeito dessa singular figura que, considerando-se um Santo, foi tido o mais perverso homem da face da terra; desse homem, cuja vida sempre esteve simultaneamente compartilhada por genialidade e loucura, por criação e destruição, amor e ódio, encanto e desafeto; cujo propósito sempre esteve além de todos os dogmas, todo êxtase, além de toda vida e morte. Crowley, segundo suas próprias palavras, um Himog[1], paradoxalmente a este conceito, adotou, quando assumiu o Grau de Magus da A∴A∴, o Mote TO MEGA THERION (A Grande Besta, ou, simplesmente, como passou a ser conhecido, Mestre Therion), que sintetizaria a razão de sua existência e o propósito de seu trabalho, sendo essa a divisa com qual viria a se tornar o mais expressivo Mago do século XX. Sim, muito já foi escrito sobre sua pessoa e existe tanto material de qualidade a respeito, quanto tolices e absurdos[2]. Tanta é a variação de opiniões que, por vezes, o trabalho de pesquisa sobre sua biografia se revela difícil ao extremo. Entretanto, mesmo sendo imenso o volume de material disponível, curiosamente, em português, nossa língua natal, pouco, ou quase nada, consta referindo-se a Aleister Crowley. Tudo a respeito de sua biografia (ou hagiografia, como Crowley preferiria enfatizar), ou mesmo de sua obra, está à mercê de um não favorável crivo editorial que vem, insistentemente, negando espaço aos trabalhos dos estudantes da Lei de Thelema. Apesar dessas fortes resistências continuarem se antepondo à possibilidade de apresentar a Obra de Crowley, agora, após muito trabalho, já vislumbramos hipóteses contrárias.

Então, aqui intentamos não só apresentar ao público interessado um resumo biográfico de Aleister Crowley, mas também mostrar como o trabalho desse Mago influenciou e continua influenciando diversos segmentos do ocultismo internacional.

ALEISTER CROWLEY
UM ESBOÇO BIOGRÁFICO

Na última hora do dia 12 de outubro de 1875, em Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra, nascia Edward Alexander Crowley.[3]

Sua infância esteve marcada por rígidos padrões de comportamento impostos por seus pais, Edward Crowley e Emily Bishop, ativos membros de uma extremada seita Cristã chamada Irmandade de Plymonth (fundada por John N. Darby). Seu pai, um rico cervejeiro aposentado, e fanático Irmão de Plymonth, fez com que Crowley, ainda criança, freqüentasse a sua seita, forçando-o a diversas leituras da Bíblia Cristã e acostumando-o à vida religiosa da Irmandade. Este fato, muito embora viesse ser de grande valia bem mais tarde, quando da compreensão dos Mistérios com os quais esteve em contato, naquele momento apenas fez nascer na criança que se formava, uma intensa repulsa quanto a dogmas, em espécie aqueles de natureza “cristã”.

Em 1886, com o falecimento de seu pai, Crowley fica sob os cuidados de seu tio e tutor Tom Bishop. Tamanha era a crueldade de seu tio, que Crowley se refere a este período de sua vida como “A Infância no Inferno”.

Em sua adolescência, a busca por aventuras o conduziu ao alpinismo. Praticou com afinco esse esporte, chegando a destacar-se no mesmo. Sua carreira de alpinista chegou ao ápice nos anos de 1902 e 1905, quando participou das primeiras tentativas de escalar o Chogo Ri (K2) e o Kanchenchunga, duas das maiores montanhas do mundo, situadas no Himalaia.

Estudou, destacando-se em todas as disciplinas, em Trinity College, Cambridge, onde ficou no período de 1895 a 1898. Nesta época, Crowley, leitor voraz, estudou intensamente, tomando contato com o que de importante havia na literatura inglesa, francesa, além de diversas outras obras em Latim e Grego clássicos, inclusive filosofia e alquimia; se dedicou a canoagem, ciclismo, montanhismo e xadrez, atividade esta em que ganhou notoriedade e que exerceu por toda sua vida. Praticando o montanhismo, Crowley viria a conhecer um homem o qual passou a admirar profundamente: Oscar Eckenstein. Eckenstein, que, segundo Crowley, era um singular exemplo de dignidade e nobreza, ensinou-lhe, naquele momento, o alpinismo. Alguns anos depois, Eckenstein demonstraria que seu conhecimento não se limitava apenas à conquista de elevadas montanhas.

Em Cambridge, seu espírito, como era bem próprio à natureza da Besta, ansiando por um volume maior de conhecimento e aventuras, encontrava-se perturbado com a insubstancial perspectiva futura. Em 1898, antes de sua graduação, Crowley abandona os estudos para se dedicar a algo não comum e de maior profundidade do que o oferecido por uma promissora carreira acadêmica.

Mas o que exatamente seria este algo mais profundo?

Por volta de 1896, Crowley havia iniciado a leitura de alguns livros sobre magia e misticismo[4]. Algo começava a tomar forma dentro de seu inquieto ser; porém a leitura de Nuvem sobre o Santuário[5], obra lhe recomendada por A. E. Waite (1867-1940), é que faz com que Crowley decida dedicar sua vida ao estudo do Ocultismo e da Magia, empenhando-se com afinco no sentido de encontrar a Grande Fraternidade Branca[6] mencionada no inspirador livro de Eckhartshausen. E aqui começa a carreira mágica de Aleister Crowley[7].

Em 1898, através de dois amigos, Julian Baker e George Cecil Jones (respectivamente Frati D.A. e Volo Noscere, ambos membros da G∴D∴), Crowley é apresentado a Samuel Liddell “MacGregor” Mathers (1854-1918), Frater D.D.C.F. (Deo Duce Comite Ferro), um dos líderes da Ordem Hermética da Aurora Dourada (The Hermetic Order of the Golden Dawn, mais conhecida pela sigla G∴D∴), uma das mais influentes Ordens do século XIX, que proporcionou a Crowley sua primeva Iniciação e o contato com os primeiros mistérios mágicos que tanto procurava.

Aleister Crowley

Aleister Crowley

A G∴D∴ fora fundada pelo próprio Mathers, junto com William Winn Westcott (1848-1925), conhecido pelo mote Frater N.O.M. (Non Omnis Moriar) e William Robert Woodman (1828-1891), cujo mote era Frater V.O.V. (Vincit Omnia Veritas), em 1887. Segundo seus fundadores, a existência da G∴D∴ era devida à orientação e à ordem de uma alta iniciada alemã chamada Anna Sprengel, Soror S.D.A. (Sapiens Donabitur Astris), que autorizara a abertura de uma Loja na Inglaterra que representasse a suposta Ordem ancestral a qual pertencia[8]. Diga-se de passagem que, a G∴D∴, mesmo levando em conta o possível conciliábulo de sua criação, constitui uma das mais importantes Ordens jamais inventadas pelo espírito humano, conseguindo reunir em seu corpo de iniciados a nata da intelectualidade inglesa e européia da época. A informação que circula nos meios ocultistas atuais diz que nomes como o prêmio Nobel de Literatura em 1923, Willian Butler Yeats, além de Gustav Meyrink, Florence Farr, A. E. Waite, Sax Homer, Bram Stocker[9], F. L. Gardner, Arthur Machen, o próprio Crowley e tantos outros, pertenceram a esta notável organização.

Crowley, iniciado por Mathers em 18 de novembro de 1898, ao Grau de Neophytus (0º=0), tomava, como Mote Mágico, o significativo nome de Perdurabo (eu perdurarei até o fim), iniciando, assim, seus estudos na G∴D∴, tendo como primeiro Instrutor Frater Volo Noscere (G. Cecil Jones). Em dezembro do mesmo ano, Crowley atinge o Grau de Zelator (1º=10).

Sua capacidade de assimilação de conhecimentos e sua dedicação ao estudo e a prática do Ocultismo o conduziram, também sob a instrução de Frater Iehi Aour (Allan Bennett), a ascender rapidamente aos Graus subsequentes da G∴D∴; assim, respectivamente em janeiro, fevereiro e maio do ano seguinte, em 1899, Crowley conquistou os Graus de Theoricus (2º=9), Practicus (3º=8) e Philosophus (4º=7). Bennett, considerado por Crowley um autêntico Guru, o ensinou várias técnicas mágicas oferecidas pela G∴D∴, técnicas como Cabala e Magia Cerimonial, consagração de Talismãs, evocação de Espíritos, etc.

Este período de sua vida foi fortemente marcado por duas atividades principais. Quando Frater Perdurabo não estava estudando ou praticando, Crowley, sob o pseudônimo de Conde Vladmir Svareff ou Aleister MacGregor, custeava as edições de seus escritos (normalmente algum tipo de pornografia ou poesia), além de cultivar uma intensa vida sexual, a qual escandalizou alguns membros da G∴D∴. Sua grande atividade e principal preocupação, no entanto, continuava a ser a o estudo e prática da Magia.

Entretanto, e isto deveu-se menos aos escândalos promovidos por Frater Perdurabo do que ao ciúme e inveja de certos Adeptos londrinos, e mesmo Crowley tendo demonstrado capacidade e talento em magia, sua iniciação à Segunda Ordem fora negada[10], em fins de 1899, pelos chefes da seção inglesa da G∴D∴. Nesta época, Mathers, agora único líder da Ordem, residia em Paris.

Mesmo contrariando a opinião dos líderes londrinos, em 16 janeiro de 1900, em Paris, Mathers, fazendo valer sua autoridade dentro da Ordem, inicia Crowley ao Grau de Adeptus Minor (5º=6), sob o Mote Parzival. Alguns estudantes identificam aqui o fato que marca o inicio da ruína da G∴D∴.

Pouco antes de sua iniciação, seu grande amigo e Instrutor, Allan Bennett, decide partir para Ceilão, e tornar-se monge Budista.

A insatisfação dos membros da G∴D∴ com Mathers já era mais que um fato nessa época. Provavelmente o caso Crowley tenha servido como impulso e álibi necessários para o grupo londrino, liderado por Yeats, entre outros menos conhecidos, declarar-se independente de seu mentor e líder, MacGregor Mathers.

O que se seguiu após a rebeldia londrina resultou em histórias fantásticas de ataques mágicos envolvendo Crowley e uns demônios versus Yeats e, é claro, mais uma horda de demônios. Depois o próprio Mathers teria entrado na briga, junto, evidentemente, com uma outra legião de encapetados amiguinhos. Mas essa estória não escapa nem a mais tola crítica. O fato é que Crowley e Mathers ficaram praticamente sozinhos e a outrora grande G∴D∴, agora conduzida pelos autoproclamados novos chefes, ia progressivamente implodindo, ou se esfacelando, resultando num sem número de Ordens Cristianizadas, sem o élan da G∴D∴ original.[11]

Crowley, que abandonara um importante trabalho mágico para ajudar Mathers, vê-se só[12]. Parte para Nova York e depois vai para o México.

A estadia no México constituiu um período bem produtivo a Crowley. Além de Tannhauser, escrito em ininterruptas 67 horas, consequência de uma bem sucedida Opera Sexualis, esse período na América Central representou uma decisiva conquista no magista que se formava.

Foi apresentado a Don Jesus Medina, um dos altos chefes da Maçonaria local, Rito Escocês. Crowley afirma que Medina, o convidou para iniciar-se em sua Loja. Ainda segundo Crowley, ele rapidamente galgaria os graus Maçônicos, alcançando, por graça, o mais alto Grau do Rito. Crowley, no entanto, jamais foi considerado um Maçom regular.

Mas a chegada de seu amigo e mentor, Oscar Eckenstein, é que daria novos rumos a seu aprendizado. Eckenstein, revelando-se, para a surpresa de seu pupilo, um grande instrutor, demonstrou que Crowley não tinha controle sobre seus próprios pensamentos, qualificando sua atitude para com a magia como apenas mera fascinação romântica. A partir daí, Crowley decide dar um tom científico a seus experimentos, estudando com Eckenstein, uma série de métodos de controle mental.

Após algum tempo de alpinismo e treino mental, Crowley decide ir para o Oriente, com o propósito de encontrar Bennett, seu antigo instrutor, no Ceilão. Antes, entretanto, combina, com Eckenstein, a escalada do K2, no Himalaia, aventura a se realizar na primavera de 1902.

Bennett, agora Bhikku Ananda Meteya, que aprendera Yoga e Budismo, instrui Crowley nestas disciplinas.

Boleskine

Boleskine

No outono de 1902, após a expedição ao K2, Crowley retorna a Paris. Seu novo encontro com Mathers o decepciona a tal ponto que só lhe restou a boêmia vida parisiense. Retorna a sua recém adquirida mansão em Boleskine, nas proximidades do Lago Ness, na Escócia, em 1903 e então, procurando algo suficientemente prosaico para si, intitula-se Lorde Boleskine. Em agosto deste mesmo ano, casa-se com Rose Kelly.

Mas o ano seguinte revelaria a Crowley o mistério que o acompanharia até seu último momento: A Lei de Thelema.

Casado com Rose Kelly, de acordo com Crowley, “uma da mais brilhantes e inteligentes mulheres do mundo”, viaja pela Europa e Egito. De acordo com os relatos de Crowley, enquanto estavam no Cairo, após uma série de Rituais e Invocações, um ser, identificando-se como Aiwass, transmite a Crowley, nos dias 8, 9 e 10 de abril, o Liber Al vel Legis ou, como passaria a ser conhecido, O Livro da Lei. Àqueles que conhecem todo esse processo, é significativo saber que esse Livro foi o primeiro escrito de Crowley, de cunho místico & mágico.[13]

Entre tantos significados atribuídos pelos seguidores da doutrina de Crowley, Liber Al vel Legis proclamaria o fim de uma Era (ou Æon) marcada pelo sofrimento, pela intermediação entre Deus e o homem, pelo deus sacrificado, etc. Em seu lugar, nasceria a época do deus de alegria, onde o homem teria a liberdade de realização de sua própria vontade. A epígrafe “Faze o que queres há de ser o todo da Lei”, contida em Liber AL e maciçamente utilizada nos escritos de natureza thelêmica, sintetiza a própria regra de conduta a ser tomada como tônica do Æon nascido.

Essa experiência, levou Crowley a assumir o Grau de Adeptus Major, 6º=5 da G∴D∴, sob o novo Mote de O.S.V.[14].

De volta a Boleskine, Crowley imediatamente trata de expor sua consecução mágica a Mathers, revelando ter, finalmente, feito contato com os Mui Misteriosos Mestres Secretos que tanto havia procurado. Como costume, Mathers não aceita a revelação. Consequentemente, o mundo do esoterismo novamente, é palco para ataques mágicos de Mathers a Crowley e vice-versa[15]. Mas o incontestável fato é que isso representaria o fim da convivência entre os dois magos.

Em 1905, mais uma expedição ao Himalaia: desta vez o alvo era o Kanchenchunga.

Aleister Crowley

Aleister Crowley

Cansado de suas birras com a G∴D∴, em 1907, Crowley funda a A∴A∴; a Argenteum Astrum, Ordem da Estrela de Prata, que – segundo Frater O.S.V. – substituiria a G∴D∴, herdando sua estrutura de graduação. Entre tantos significados possíveis, particularmente um inspirou Crowley na escolha desse nome para a Ordem. Segundo ele, o dourado amanhecer (Golden Dawn) é o que precede a Estrela Dalva (Vênus, ou Lúcifer), a prateada estrela da manhã que “anuncia” o Sol[16]. Crowley, em 1909, dá início ao primeiro período aberto a Probacionistas a sua A∴A∴ e, com a publicação da série The Equinox, “destrói” magicamente a G∴D∴[17].

No período de 1907-1911, Crowley, consagrando seu tempo ao estudo, a prática e a escrita, publicaria cerca de uma dúzia de livros de cunho poético-mágico (excluindo a série The Equinox). Neste período também, após a morte de sua filha em 1906, Crowley separa-se de sua esposa, Rose Kelly, em 1909. Nesse mesmo ano, Crowley assume o Grau Adeptus Exemptus 7º=4, agora na sua A∴A∴, com o Mote OU MH. Em 3 de dezembro de 1909, durante uma a Visão do 14º Æthyr, toma o Grau de Magister Templi, sob o Mote V.V.V.V.V., 8º=3 da Ordem da Estrela de Prata[18]. Em 1911 Crowley escreve Liber CCCXXXIII, O Falsamente chamado Livro das Mentiras, que publicaria mais tarde, em 1913.

Em 1912 porém, outro acontecimento daria novo rumo a sua vida.

Crowley, com o seu Livro das Mentiras, curiosamente, mesmo antes de sua publicação em 1913, chamaria a atenção de, nada mais nada menos, Theodor Reuss, membro do serviço secreto germânico, ocultista, cantor e falso maçom, Frater Merlin Peregrinus X, então O.H.O. de uma Ordem chamada Ordo Templi Orientis, a O.T.O.[19].

Reuss, tendo lido Liber CCCXXXIII, para seu espanto, lá identificara o segredo central da O.T.O.[20].

A O.T.O. era uma organização de cunho maçônico, místico e mágico, fundada por Karl Kellner, em 1902. Kellner, segundo a lenda, teria viajado pelo oriente onde havia sido iniciado por um faquir árabe, chamado Solimam ben Aifha, e pelos yoguis hindus Bhima Shen Pratap e Sri Mahatma Aganya Guru Paramahansa, recebendo os mistérios da Filosofia e do Yoga da Mão Esquerda, a Magia Sexual[21].

A O.T.O., assim como muitas outras das assim chamadas Ordens Templárias, reivindica exclusivamente para si a detenção do conhecimento outrora pertencido aos legendários Cavaleiros do Templo. A O.T.O., de acordo com a sua muito questionável história oficial, assim como ocorreu com a G∴D∴, diz ter reunido entre seus Adeptos vários eminentes maçons e ocultistas da época, alguns dos quais, a partir dos fundamentes adquiridos nessa Ordem, ou fundaram ou em muito colaboraram em outros movimentos da época. A título de exemplo temos: Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia; Franz Hartmann, um dos mais importantes colaboradores do movimento Teosófico; Krumm-Heller, responsável pela expansão da Fraternitas Rosacruciana Antiqua (F.R.A.); Gerald Gardner, considerado como o “pai” da Wicca; Karl Germer, sucessor de Crowley como líder da O.T.O.; Kenneth Grant, que muitos consideram o verdadeiro herdeiro mágico de Crowley, lideraria uma variação da Ordem na Inglaterra; H. Spencer Lewis, fundador de um bem conhecido movimento neo-rosacruciano denominado AMORC[22]; além do próprio Crowley.

Conforme dito por Crowley, seu aparentemete bizarro primeiro encontro com Reuss, definitivamente, marcaria o destino da Ordem alemã. Crowley, após ter sido acusado de divulgar abertamente este segredo, expõe a Reuss que este teria sido aprendido por ele quando de sua viagem ao Oriente e que já o praticava há muito[23]; sendo-lhe impossível saber ser este o mesmo Santo Segredo cultivado pela O.T.O..

Nesta época, Reuss, desejoso de ver sua O.T.O. expandida pela Europa, costumava conferir a alguns nomes de expressão no cenário ocultista, patentes de Reis Nacionais de sua Ordem. Assim, o desenvolvimento da conversa entre ambos, levou Reuss a nomear Crowley líder da O.T.O. para os países da língua Inglesa. Essa tarefa foi exercida por Crowley através do Mote Baphomet.

Crowley então, passaria a escrever (e também reescrever) os Rituais da O.T.O. sob a luz de seu Liber Legis.

Um pouco depois, em 1914, acompanhado de Mary d’Esté Sturges (Soror Virakam), escreve seu famoso Magia em Teoria e Prática (conhecido por “Magick”), mais tarde, quando acrescentado de outras três partes, seria publicado como o Book Four, também chamado de Liber ABA.[24]

Em 12 de Outubro de 1915, em seu quadragésimo aniversário, Aleister Crowley toma o Mote de TO MEGA THERION, 666, para o 9º=2, o Grau de Magus da A∴A∴.

E, como 666, Crowley concebe uma das mais belas páginas da literatura esotérica, Liber Aleph, The Book of Wisdow or Folly, uma Epístola de 666 a seu Filho 777 (Frater Achad, Charles S. Jones). Em 1919, publica o primeiro número do terceiro volume do The Equinox.

Um dos mais curiosos feitos da Besta, teve lugar com a fundação, em 2 de abril de 1920, da Abadia de Thelema, em Cefalu, Sicília, Itália. Depois, Crowley, em secreto juramento, assume, em maio de 1921, o Grau de 10º=1 A∴A∴, Ipississimus. A Abadia funcionou até 1923, quando Crowley foi expulso da Itália por Mussolini.

Em 1925 Theodor Reuss falece. Crowley é convocado para uma reunião internacional da O.T.O., onde os rumos da Ordem de Reuss seriam traçados. Crowley é “convidado” a ser o Chefe Internacional da Ordo Templi Orientis. Aceita e toma o Santo Mote de Deus est Homo.[25]

Durante os anos seguintes, Crowley viveu alternadamente na França, Alemanha e Norte da África. Nesta época ele viria a conhecer duas pessoas que, além de serem discípulos e amigos, seriam depois importantes personagens dentro da história de Thelema: Karl Germer e Israel Regardie[26]. Expulso da França em 1929 sob acusação de ser agente alemão, Crowley retorna à Inglaterra.

A publicação de suas Confissões, em 1930, proporcionou a Crowley um interessante encontro com um dos maiores gênios da literatura portuguesa. Estamos falando de Fernando Pessoa (1888-1935). Pessoa, que além de célebre poeta era um competente astrólogo, fascinado pelas ciências esotéricas, envia, neste mesmo ano, uma carta a Crowley, indicando erros em seu mapa natal. Crowley, entusiasmado com o conhecimento do poeta lusitano, contesta sua carta, dando-lhe razão, e expressa seu desejo de conhecê-lo.

Pessoa, mesmo incomodado e receando tal encontro, recebe-o no porto de Lisboa. A lenda diz-nos que estranhos acontecimento tiveram vez naquela tarde, como um inexplicado nevoeiro que, descendo na cidade de Lisboa, atrasou o barco que conduzia a Besta ao encontro do criador de Álvaro de Campos. E tanto foi a admiração e fascínio de Pessoa para com o pior homem do mundo, que, no famoso caso da Boca do Inferno, onde Crowley simulou um trágico suicídio, Pessoa testemunhara, confirmando o que supostamente teria ocorrido a seu novo amigo.

Pessoa, que vira naquele estranho inglês um irmão nos Mistérios, a partir do encontro e da amizade com Crowley, em muito mudou o tom de sua poesia. Adentrou-se no estudo do simbolismo, publicando obras de notável valor, até sua prematura morte, em 1935.[27]

Crowley segue e, entre casos amorosos e escândalos sexuais, drogas, e causas judiciais, publica nos anos 30 uma série de ensaios e instruções que comporiam os números subsequentes de The Equinox Vol. III, o qual fora iniciado em 1919. O já citado The Equinox of the Gods, relatando suas experiência no Cairo e a escritura de Liber Legis, é publicado privadamente em 1936.

Trabalhando com Lady Frieda Harris, Crowley, ao longo de cerca de cinco anos, concebe um Tarot de modo que a imagem do Æon fique registrada. O resultado final é o maravilhoso The Book of Thoth, onde a principal mensagem de sua obra está apresentada de forma sintética. Durante esse trabalho com Lady Harris, em 1942, na forma de um manifesto da O.T.O., Crowley publica Liber OZ, a Carta dos Deveres e Direitos dos homens e das mulheres. Alguns seguidores de Crowley são enfáticos quando afirmam que algo muito parecido seria elaborado alguns anos depois pela ONU.

Seus últimos anos, a partir de 1945, são vividos em Hastings, onde uma série de novos discípulos continuam recebendo instruções. E assim Kenneth Grant, John Symonds, Grady McMurty, conhecem a Besta. Desta época, vem sua última obra, consistindo numa coletânea de cartas dirigidas a uma jovem discípula, que foram publicadas bem mais tarde, após a sua morte, como Magick Without Tears.

No primeiro dia de dezembro de 1947, aos 72 anos, Aleister Crowley, serenamente segundo alguns, exultante segundo outros, e ainda perplexo, segundo terceiros, falece, vítima de bronquite crônica e complicações cardíacas.

Quatro dias depois, no crematório de Brighton, assistido por um reduzido número de admiradores e discípulos, é realizada a cerimônia que ficou conhecida como “O Último Ritual”, com a leitura de trechos da Missa Gnóstica, e de seu maravilhoso Hino a Pã.

Realizara-se, assim, a última vontade da Besta.

O LEGADO

Durante boa parte de sua vida, Aleister Crowley buscou incansavelmente, e isto de fato era uma gigantesca obsessão para ele, reconhecimento de seu trabalho. Sua vida, marcada pela excentricidade, drogas, excessos sexuais, nunca lhe permitiu reconhecimento do valor de sua Obra. Isto porém, e mesmo ele o saberia quando de seu amadurecimento mágico, só viria a acontecer após seu falecimento. Aliás, Crowley dizia estar meio deslocado no tempo e, como também afirmado por seu curioso, Liber Al vel Legis, ele entendia ser o sucesso o seu grande ordálio, a grande prova de sua existência. Mas seu sucesso, de modo paradoxal, ocorrendo em vida, seria a cabal prova de seu fracasso, pois, segundo Crowley, o estado mental da absoluta maioria dos seus contemporâneos, ainda não suportando a revelação contida em suas obras, o rejeitaria por completo. A aceitação delas seria, neste caso então, o incontestável argumento e prova de sua falha.

Esta opinião poderia ter sido, muito bem, apenas mais uma jactância da presunçosa personalidade da Besta, ou simplesmente uma tola desculpa arquitetada como álibi a ser usado quando de seu fracasso, isto não fosse a imparcialidade da história demonstrando e confirmando a gabolice do pior homem do mundo.

Alguns de seus discípulos diretos se tornaram os principais responsáveis pela maior parte do que se vê em termos de vanguarda ocultista internacional. Entre tantos dignos de nota, citaremos somente aqueles mais conhecidos cujo importante trabalho é apenas um aspecto da forte influência exercida por Aleister Crowley. Personagens como Arnold Krumm-Heller (Fra. Huiracocha), Kenneth Grant (Aossic Aiwass), Austin Osman Spare (Zos vel Thanatos), Karl J. Germer (Saturnus), Louis Grady McMurty (Himenaeus Alfa), Cecil Frederick Russel (Genesthai), Charles Stanfeld Jones (Achad), Gerald Brosseau Gardner, entre outros, estiveram sob direta instrução de Crowley.

Todos estes, cada um de acordo com a própria vontade, estabeleceram ou formaram novas Ordens, desenvolveram Ritos e criaram movimentos cuja base é a Lei de Thelema. Assim, Krumm-Heller herdou e estabeleceu a F.R.A., onde a palavra da Lei é (ou pelo menos era) Thelema; Kenneth Grant, líder mundial de um ramo da Ordo Templi Orientis e fundador da New Isis Lodge na Inglaterra, sendo ele um dos principais divulgadores da obra de Crowley; Austin Osman Spare, um talentoso artista plástico inglês, que desenvolveu um culto totalmente pessoal denominado Zos Kia; Karl J. Germer, que alguns consideram um Magister Templi da A∴ A∴), torna-se, por herança, o O.H.O. da O.T.O.; Louis G. McMurty, um outro discípulo direto de Crowley, funda um outro ramo da O.T.O., hoje conhecido como o ramo americano ou californiano, também chamado de “Califado”; Cecil F. Russel fundou o Choronzon Club, grupo que mais tarde viria a ser conhecido como Great Brotherhood of God, a G∴B∴G∴; Charles S. Jones, considerado o filho mágico de Crowley, descobriu a chave matemática do Liber Al vel Legis; e Gerald B. Gardner, a partir de Rituais escritos por Crowley, escreve seu Book of Shadows, concebe e funda a Wicca moderna.

Mas a influência de Crowley não acaba aí. Uma interminável relação de Ordens poderia ser citada como, se considerando ou não seguidores da Lei de Thelema, fruto direto ou indireto de seu trabalho. Estas Ordens constantemente utilizam a farta obra de Aleister Crowley não só como referência, mas como sendo básicas a seus trabalhos e imprescindíveis ao desenvolvimento de seus Adeptos.

Novamente aqui citaremos apenas as mais conhecidas Ordens e movimentos que, de uma forma ou de outra, são frutos do trabalho de Lorde Boleskine.

Desta forma, temos a própria Ordo Templi Orientis Antiqua, a O.T.O.A., movimento fundado no Haiti, como dissidência da O.T.O., por Lucien-Francois Jean-Maine em 1921. Um inovador e interessante movimento conhecido na Inglaterra como Kaos Magick e a curiosa IOT (Illuminates of Thanateros) de Peter James Carrol, baseados nas obras de Crowley e Spare, tiveram vez nos anos 80. Os membros da IOT consideram-se herdeiros da Tradição da A∴A∴ e do Culto Zos Kia, têm em Liber Null and Psychonaut, um grupo de ensaios de boa qualidade, um de seus mais importantes escritos.

No que diz respeito aos seguidores de Crowley, há de se ressaltar o lamentável exemplo da já citada versão Californiana da Ordo Templi Orientis, informalmente fundada por Louis G. McMurty (Hymenaeus Alfa) no início dos anos 70. Atualmente dirigida por William Breeze (Hymenaeus Beta), esta ramificação da O.T.O. tem se destacado das demais agremiações de natureza thelêmica, por seu envolvimento em escândalos, por processos judiciais, perseguições, etc., tudo para garantir apenas a este grupo o direto legal (Copyrights) de exploração comercial da Obra de Aleister Crowley.

Felizmente, como já dito, a Lei de Thelema não se resume a versão americana da O.T.O. Atualmente existe uma enorme variação de Ordens espalhadas pelo mundo sob as mais diversas nomenclaturas. Cada uma a seu modo, na Inglaterra, Suíça, Espanha, Venezuela, França, Austrália e no Brasil, trabalham para a promulgação da Lei de Thelema.

Devemos aqui, também, mencionar um interessante fenômeno dos anos 60, que até hoje permanece conquistando uma considerável gama de interessados em ocultismo. Trata-se da Igreja de Satã, movimento fundado na Califórnia, por Anton Szandor La Vey, que, muito embora não tenha uma direta ligação com Crowley, consiste numa espécie de simplificação de seus mais básicos escritos. Outro que adquiriu certa notoriedade, nessa mesma época, foi Alex Sanders, um discípulo de Gardner que se auto denominou Rei dos Bruxos. Sanders utilizou alguns rituais elaborados por Crowley, desenvolvendo seu próprio controvertido sistema de Witchcraft.

Aleister Crowley

Aleister Crowley

Além destas, temos também algumas derivações da G∴D∴ e da Stella Matutina que, embora cristianizadas por seus fundadores, utilizam a Obra da Besta como importante fonte de pesquisa: Society of the Inner Light, de Madame Violet Firth (Dion Fortune), Servants of Light, de W. E. Butler e Basil Wilby (mais conhecido como Gareth Knigth). A Aurum Solis, liderada por Melita Denning e Osborne Phillipis, também consiste numa variação da Golden Dawn.

À parte os movimentos mágicos e iniciáticos, Crowley também exerceu enorme influência sobre o trabalho de vários artistas, compositores e conjunto musicais; famosos grupos e cantores de rock como Black

Sabbath, Led Zeppelin (Jimmy Page, guitarrista do Led, inclusive comprou o famoso “Castelo” de Boleskine, onde Crowley morou por alguns anos), Rolling Stones, The Clash, Beatles (no álbum Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band, sua fotografia aparece como “uma das pessoas que gostamos”), Iron Maiden, Ozzy Osbourne (que compôs o clássico “Mr. Crowley”), entre tantos outros, além de artistas do quilate de H. R. Giger, Kenneth Anger, David Bowie, etc., têm no exemplo de 666 uma fonte de inspiração para seus trabalhos e vidas.

Também na literatura encontramos vários romances que foram concebidos utilizando a imagem cultivada por Crowley, como exemplo: The Magician de W. Somerset Maugham (o mesmo autor de O Fio da Navalha), The Goat-Food God de Dion Fortune, Stranger in a Strange Land de Robert A. Heinlein, etc..

Finalizando, não poderíamos deixar de mencionar o meio artístico brasileiro, que teve no memorável Raul Seixas, o grande arauto da mensagem de Aleister Crowley. Em especial as músicas A Lei e Sociedade Alternativa (ambas de Raul Seixas e Paulo Coelho), que têm como base Liber OZ. Outras notáveis obras de sua autoria são A Maçã, Tente Outra Vez (estas em parceria com Marcelo Motta e Paulo Coelho) além de muitas outras canções do maluco beleza que apresentam, de um modo bem particular ao Raul, a Lei de Thelema.

CONCLUSÃO

Certamente o legado da Besta (como passou a ser conhecida a influência de Aleister Crowley) surpreendeu aqueles que esperavam, e até mesmo ansiavam, seu esquecimento. Esses nunca poderiam imaginar que a quantidade de estudantes, admiradores – e até mesmo discípulos – da Tradição revivida por Crowley, o Culto da Besta, ou o Culto das Sombras, aumentasse de forma “assustadora, chegando mesmo a comprometer as bases morais, nas quais nossa sociedade está erigida”.

Aleister Crowley

Aleister Crowley

Talvez esses tenham esquecidos que as tais mesmas bases morais, nas quais tão solidamente foi estabelecido aquilo que hoje denominamos sociedade, são as únicas responsáveis pela obtusa condição em que se encontram centenas de milhões de homens e mulheres, massacrados que estão pelas inópias e não qualificáveis condições de vida, seguro retorno do bimilenar investimento sócio religioso e econômico, que é a miséria.

Vontade fraca e entendimento nulo. A resultante desta insidiosa ação não poderia ser outra. E quando vontade e entendimento, dois dos princípios básicos que constituem o homem, operam sem harmonia, o espírito cai enfermo. O estudo e a prática da Lei de Thelema intentam fazer com que o conjunto Vontade e Entendimento, funcione devidamente, levando o Adepto a sua realização plena.

Sim, a Lei de Thelema. Muito já foi feito, e também muito ainda resta por fazer. Aleister Crowley representou, tão somente neste sentido, o papel de Profeta, Vate e Apóstolo. Mas sua grande aspiração reflete a aspiração de todo ser humano, sim, o anseio do homem por Liberdade. Seu trabalho não é apenas resultado dos caprichos de uma controvertida personalidade, mas, principalmente, vem da necessidade humana de tomada de consciência, necessidade de Vontade, necessidade de entendimento.

Este era todo o anseio de Crowley. Isto é liberdade, liberdade apenas para a realização de sua Vontade Verdadeira, nada mais.

É a esta demanda por irrestrita Liberdade, munidos pela Tradição, que os Adeptos e Estudantes de Thelema dedicam sua Obra. E eles, certamente, estarão sempre acompanhados, como acontece com a própria história da Magia, pela lembrança do calvo semblante da Grande Besta 666, Aleister Crowley.

CRONOLOGIA BÁSICA[28]

Aleister Crowley

Aleister Crowley

1875 Em 12 de Outubro, Edward Alexander Crowley nasce em Leamington Spa. Warwickshire.
1887 Seu pai, Edward Crowley morre.
1895 Matricula-se no Trinity College, Cambridge.
1896 Primeira experiência mística.
1898 Publica seu primeiro poema, Aceldama.
Conhece Gerald Kelly.
Deixa Cambridge.
Conhece George Cecil Jones.
Escreve Liber Berashit, seu primeiro texto místico.
18/11/1898 É iniciado na Ordem Hermética da Aurora Dourada [Hermetic Order of the Golden Dawn]. Assume o nome de Frater Perdurabo isto é, “eu perdurarei até o fim”.
1899 Conhece Allan Bennet e recebe instruções mágicas mais intensas.
Conhece o Chefe da Aurora Dourada, ‘MacGregor’ Mathers.
Adquire a Mansão Boleskine, nas proximidades do Lago Ness, Escócia.
1900 Cisma na Aurora Dourada.
Mathers inicia Crowley no Adeptado em Paris.
Crowley parte para o México.
1901 Exercícios de Concentração e alpinismo no México com Oscar Eckenstein.
Escreve Alice: um Adultério.
Vê Allan Bennet e estuda/pratica Yoga com ele no Ceilão. Atinge o Dhyana.
1901-2 Viagens pela Índia.
1902 Visita Bennet em Burma.
Expedição ao K2 liderada por Eckenstein.
Chega em Paris.
1903 Retorna a Boleskine.
Conhece Rose Kelly, irmã de Gerald, e a desposa.
1903-4 Viagens em Lua-de-mel para Paris, Nápoles, Cairo e Índia.
09/02/1904 Retornam ao Cairo.
20/03/1904 Equinócio dos Deuses.
16/03/1904 Frater Perdurabo tenta divertir a sua esposa mostrando-lhe os silfos. Esta fica subitamente “inspirada” e repete sem cessar que “Eles estão esperando por você!”
17/03/1904 “É ‘tudo sobre a criança’. Também ‘tudo Osíris’.”
18/03/1904 É “revelado que o que o aguardava era Hórus”, o qual Frater Perdurabo teria “ofendido” e “deveria invocar”. Identificada a Estela da Revelação no Museu do Cairo sob o número 666.
19/03/1904 Realizada a Invocação de Hórus.
8, 9 & 10/04/1904 Recepção do LIVRO DA LEI.
1904-5 Crowley rejeita intelectualmente o Livro e perde o manuscrito.
1905-7 Publicação das “Obras Completas de Aleister Crowley”.
1905 Expedição a Kangchenjunga.
1906 Viagens pelo Sul da China com Rose e sua filha, Lilith.
Invocações do Augoeides.
Lilith morre.
Atinge Nirvikalpa Samadhi e completa a Operação de Abramelin.
Escreve o 777.
Reconhecido como Mestre por George Cecil Jones.
1907 Inicia-se a Recepção dos “Livros Sagrados”.
Fundação da A∴A∴
Amizade com o Capitão J.F.C. Fuller.
1908 Realiza o “João São João” em Paris.
1909-1913 Publica os dez primeiros números de “O Equinócio”.
1909 A A∴ A∴ é aberta a novos membros.
Encontra o manuscrito perdido do LIVRO DA LEI (28/06/1909).
Rose se divorcia de Crowley.
A Visão e a Voz é recebido no Saara com Victor Neuburg.
Crowley formalmente aceita o Grau de Mestre do Templo.
1910 Conhece Leila Waddell – que seria L.A.Y.L.A.H.
Os Ritos de Elêusis realizados em Caxton Hall.
1911 George Cecil Jones processa o jornal The Looking Glass por perdas e danos.
Jones, Fuller e outros rompem com Crowley.
Outra visita ao Saara com Neuberg.
Conhece Mary d’Este Sturges.
É realizado o Trabalho de Abuldiz.
1912 Livro Quatro – Partes 1 & 2 – publicado como resultado do Trabalho de Abuldiz.
Theodore Reuss inicia Crowley na Ordo Templi Orientis e o aponta como Cabeça do Ramo Britânico.
1913 Visita à Moscou com “The Ragged Rag-Time Girls”.
Escreve o Hino a Pan, entre outros Trabalhos.
Publicação de O Livro das Mentiras.
1914 O Trabalho de Paris – The Paris Working – com Victor Neuberg.
Parte para os Estados Unidos.
1915 Compõe LIBER XV – A MISSA GNÓSTICA.
Trabalha no livro Astrology com Evangeline Adams.
Envolve-se com Jeane Foster – depois conhecida como Soror Hilarion & A Gata.
Trabalha com Charles Stansfield Jones – Frater Achad – em Vancouver.
Crowley assume o Grau de Magus, o Profeta do Novo Æon.
1916 Retiro Mágicko em New Hampshire.
Período de privações em Nova Orleans.
1917 Se torna editor do The International.
Começa a pintar.
1918 Finaliza Liber Aleph.
Trabalho de Amalantrah com Roddie Minor.
Retiro Mágicko na Ilha de Esopo.
Versão de Crowley do Tao Teh King.
Conhece Leah Hirsig.
1919 O Equinócio Azul, Volume III, número 1, publicado.
Volta para a Inglaterra com Leah.
Recebe uma herança de 3000 libras.
1920 Abadia de Thelema fundada em Cefalu, Sicília.
Anna Leah (Poupeé), filha de Crowley e Leah, morre.
Ninette Shumway na Abadia ; chegada de Jane Wolf.
1921 Crowley assume o Grau de Ipisissimus mas jura jamais divulgar o fato.
1922 Publicação de Diary of a Drug Fiend.
Na Inglaterra, a Imprensa move uma campanha contra Crowley.
1923 Raul Loveday morre em Cefalu.
Crowley expulso da Itália por Mussolini.
Completa As Confissões de Aleister Crowley (Uma Autohagiografia).
1925 Crowley é convidado a ser o Cabeça Internacional da Ordo Templi Orientis (O.T.O.).
1928 Israel Regardie une-se a Crowley em Paris e se torna o seu Secretário.
1929 Crowley, Regardie & a então amante de Crowley, Maria Teresa de Miramar, expulsos da França.
Retorno à Inglaterra. Magick in Theory and Practice publicado em Paris e Londres.
Crowley casa-se com Maria em Londres.
1930 Publicados os dois primeiros volumes de As Confissões.
1930-4 Viagens a Alemanha e Portugal.
1932 Regardie e Crowley se afastam.
1934 Crowley perde um processo que havia movido contra Nina Hamnett e Constance & Co.
1935 Crowley vai a falência.
1937 Publicação de O Equinócio dos Deuses.
1939 Publicação de Oito Lições de Ioga.
Sugere o sinal do “V” da Vitória ao Governo Inglês.
1944 Publicação de O Livro de Thoth com as cartas de Tarot pintadas por Frieda Harris.
1945 Crowley muda-se para ‘Netherwood’, Hastings.
Trabalha no Magick without Tears.
1947 – 1 Dezembro Morre Aleister Crowley aos 72 anos de idade e de causas naturais, em Hastings.
5 Dezembro Seu corpo físico é cremado em Brighton.

 

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. HIMOG: Um Notarikon de Holy & Iluminated Man of God (Santo e Iluminado Homem de Deus). Uma brincadeira bem típica de Crowley. ↵ voltar
  2. Sobre o assunto recomendamos The Eye in the Triangle de Israel Regardie, The Legacy of the Beast de Gerald Suster, e The Magical World of Aleister Crowley de Francis King, as quais são consideradas boas obras de referência. Não podemos deixar de mencionar o volumoso The King of the Shadow Realm (edição revisada de The Great Beast) de John Symonds, uma das mais conhecidas biografias de Crowley; apesar de uma escrachada antipatia para com Crowley, Symonds, mesmo enfatizando as supostas bizarrias da Besta, não consegue refutar seu amor e admiração por seu biografado. Caso o leitor esteja disposto a dedicar seu tempo a obras não tão valiosas quanto as já citadas, indicamos a leitura dos sofríveis The Nature of the Beast de Colin Wilson, e também The Beast de Dan Mannix. ↵ voltar
  3. Hora corrigida por Fernando Pessoa: 11:16 pm. ↵ voltar
  4. Principalmente The Book of Black Magic and of Pacts de Arthur Edward Waite (1867-1940), norte-americano, maçom, erudito e autor de diversas obras sobre Cabala, Maçonaria, Rosacrucianismo, etc.. ↵ voltar
  5. Der Wolke vor dem Heiligthume (1802), de autoria de Karl von Eckhartshausen (1752-1803), bibliotecário, místico e autor alemão (Baviera). ↵ voltar
  6. Devemos lembrar que isto ocorreu ao final do século passado, quando o termo “Grande Fraternidade Branca” de fato significava algo mais interessante do que se vê hoje. ↵ voltar
  7. Aleister é apenas a forma gaélica de Alexander, e não, como muitos pensam, uma oculta referência a algum tipo de terrível demônio. ↵ voltar
  8. Para maiores informações sobre a trama e a história da G∴D∴, ver The Magicians of the Golden Dawn de Ellic Howe. ↵ voltar
  9. Sax Homer, autor de Dr. Fumanchu, e Bram Stocker, autor de Drácula, segundo consta no best-seller de Louis Pauwels e Jacques Bergier, Le Matin des Magiciens, pertenceram a G∴D∴ (essa informação, entretanto, é refutada por Howe). Em relação a Gustav Meyrink, sua participação na G∴D∴ também é negada por alguns pesquisadores. ↵ voltar
  10. A G∴D∴ era dividida em três sub-ordens: a primeira consistia dos cinco primeiros Graus (de Neophytus a Philosophus), a segunda de Adpetus Minor à Exemptus, a terceira e última comportava os Graus de Magister Templi e Magus. Uma excelente explanação sobre a G∴D∴ (é dada por Israel Regardie, em seu memorável The Complete Golden Dawn System of Magic). ↵ voltar
  11. Exemplos: Stella Matutina de Waite, Inner Light de Dion Fortune, Servants Of Light de W. E. Butler e Gareth Knight, além das diversas “Golden Dawns” espalhadas pelo mundo afora. ↵ voltar
  12. A Operação de Abramelin. ↵ voltar
  13. Para uma descrição detalhada do ocorrido com Crowley e Rose, bem como a respeito de Aiwass, ver The Equinox of the Gods, do próprio Crowley. ↵ voltar
  14. O.S.V. são as iniciais de “Ol Sonuf Vaoresagi”, parte da Primeira Invocação Enoquiana, e que significa “Eu Reino sobre Ti”. ↵ voltar
  15. Crowley, segundo se afirma, enviou o Sr. Beelzebub e seus 49 “comparsas” para rechaçar um ataque mágico desferido por Mathers. ↵ voltar
  16. Isto é apenas um sentido poético. Existindo outros, inclusive de natureza tântrica, associado com o trabalho interno da Ordem. ↵ voltar
  17. Isso apenas se constituiu em mais um glamour. A G∴D∴, nessa época, já se encontrava em processo de fragmentação e em nada poderia ser mais prejudicada com a publicação de suas Instrução na série The Equinox. Diga-se ainda que, o fato de uma Organização qualquer, ver publicado seus próprios Rituais não significa, em hipótese alguma, que seus trabalhos tenham deixados de ser válidos. Pensar assim seria o mesmo que supor estarem há muito inválidadas as várias posições sexuais contidas no Kama-Sutra, visto ter ele sido publicado. Resumindo, a experiência, prática e pessoal, sempre valerá. ↵ voltar
  18. Como resultado da operação temos o Liber CDXVIII, The Vision and The Voice. ↵ voltar
  19. O.H.O, do inglês Outer Head of Order, ou Chefe Externo da Ordem. Reuss, assim como Crowley, fez bastante esforço para ser aceito como um maçom regular. No entanto, apesar de ambos terem adquirido fama da maçons, não são reconhecidos como tal por nenhuma Loja Regular da maçonaria mundial. ↵ voltar
  20. Não se sabe ao certo como Reuss teria adquirido o Liber CCCXXXIII (O Assim Falsamente Chamado Livro das Mentiras), antes de sua publicação. Supõe-se que isto poderia ter sido um ardil, preparado por Crowley, para impressionar Reuss. Resumidamente, o Segredo Central da O.T.O. está exposto no capítulo XXXVI do Livro das Mentiras, onde Crowley descreve uma opera magica na qual o Mago armado com sua Baqueta Mágica (O Pênis) faz uso de um Cálice (Vagina), consumindo o produto desta operação. ↵ voltar
  21. A jornada pelo oriente e o contato com os altos iniciados compõe versão oficial da criação da Ordo Templi Orientis. Está versão, contudo, não passa de mera ficção cuja base está na lenda apresentada pela jornada de Cristian Rosenkreutz, lenda está que dá origem a Escola Rosacruz. Não existem registros de que Kellner, aliás, assim como Reuss, agente do serviço secreto germânico, tenha realmente estado engajado numa viagem de tal tipo; sendo possível que estes “segredos” tenham sido meramente obtidos quando de sua passagem, em Paris, através da Brotherhood of Light, a qual pertencera – este sim, notável – Pascal B. Randolph. ↵ voltar
  22. Para melhor explanação sobre H. Spencer Lewis e a criação da AMORC, sugiro a leitura do ótimo Os Mistérios da Rosa Cruz, de Christopher Mcintosh (Edições Ibrasa). ↵ voltar
  23. Que, diferindo da viagem de Kellner, de fato ocorrera. ↵ voltar
  24. Mais conhecido pelo título genérico de Magick. ↵ voltar
  25. Como Líder da O.T.O., Crowley ficou mundialmente conhecido como Frater Baphomet. No entanto, de acordo com o curioso The Magical Revival, de Kenneth Grant, seu Mote Mágico era mesmo Deus est Homo. ↵ voltar
  26. O primeiro, como já dito, sucedeu Crowley como O.H.O. da O.T.O., e o segundo tornou-se seu secretário particular. ↵ voltar
  27. Fernando Pessoa, ao contrário do que é afirmado por alguns thelemitas, jamais pertenceu qualquer organização de cunho iniciático. ↵ voltar
  28. Esta Cronologia Básica da vida de Aleister Crowey – originalmente postada na Lista de Discussão Arte Magicka, foi desenvolvida pelo autor de “O Mago de Mil Faces”, Carlos Raposo, que contou com a colaboração de Noé Thanatos. A cronologia, ora apresentada, tem como base o texto de Gerald Suster encontrado em The Legacy of the Beast – Segunda Edição de 1990. ↵ voltar

© 2016 e.v. - Carlos Raposo





Aleister Crowley: O Mago de Mil Faces

Versão: 1.0 – 16/07/2011 e.v.
Nota:

A primeira versão deste artigo foi originalmente escrita em meados de 1989 e somente publicado na Revista Safira Estrela nº 0, de Março de 1995. Devido a ampla aceitação por parte dos leitores, diversas versões do texto, com pequenas correções e substanciais acréscimos, têm sido feitas. O texto aqui apresentado inclui a última revisão feita pelo autor, em 21/09/2002, Equinócio de Primavera, revisão especialmente concebida à presente edição deste Site. As eventuais diferenças - ou mesmo aparentes contradições - encontradas entre os textos anteriores e esta versão final devem ser entendidas como naturais, pois nada representarem senão a evolução do conhecimento e pensamento de seu autor, após anos de pesquisa e estudo sobre o tema.


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Carlos Raposo

O autor, Carlos Raposo, é historiador. Também é Maçom, M∴I∴ e grau 33 do R∴E∴A∴A∴. Pode ser contatado através do blog http://carlosraposo.wordpress.com/.

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