Ensaios

Do what thou wilt shall be the whole of the Law

por Jonatas Lacerda em Trabalho Thelêmico

Do what thou wilt shall be the whole of the Law
Metodologia

Do what thou wilt shall be the whole of the Law

por Jonatas Lacerda

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Sem sombra de dúvidas um dos maiores centros de controvérsia no cenário Thelêmico Brasileiro é o conjunto de onze palavras que formam o axioma que é a base central de toda a nossa Lei: “Do what thou wilt shall be the whole of the Law”. Em algumas situações é difícil dizer se a busca é pela forma mais correta de traduzí-lo para o português ou apenas para diferenciar um grupo do outro. É fato que a tradução deste axioma envolve diversos fatores individuais que por fim devem resultar em um único e exato sentido. Devemos notar que uma tradução exata é quase impossível de ser feita, já que este axioma está envolto em uma série de elementos antagônicos e duais. É de extrema importância ressaltar que a primeira iniciativa Thelêmica, declarada em terras brasileiras foi realizada por Marcelo Ramos Motta (1931-1987), com a publicação, em 1962 e.v., do livro Chamando os Filhos do Sol, por este motivo irei encarar a tradução de Marcelo como sendo a primeira.

A intenção deste texto é tentar levantar o máximo de fatores que possam levar a uma conclusão simples, clara e objetiva. De forma alguma quero atacar qualquer pessoa ou grupo, mas sim, avaliar a tradução deste axioma.

A primeira vista pode parecer desnecessário avaliar a tradução deste axioma em específico, porém este conjunto de 11 palavras tem gerado uma imensa gama dúvidas e em determinados casos podemos dizer que a tradução chega tendenciar a visão daquele que o lê. Um pequeno desvio no entendimento do axioma pode promover um completo desvio no entendimento da Lei de Thelema.

Não posso dizer que esta constitui uma versão final deste documento e digo isto calcado totalmente na verdade, haja visto que o presente documento é uma revisão completa da primeira e segunda versões dele, e como novos fatos demonstraram que as duas primeiras abordavam uma grande parte da mensagem, mas provaram que também falhavam em alguns pontos na tradução. Esta terceira versão dá uma nova visão sobre a tradução e está totalmente aberta para o recebimento de novas evidências que possam guiar à tradução mais correta e coerente.

Espero que as linhas que seguem possam ajudar de alguma forma a clarear mais esta tão delicada e importante questão.

Para começar, quero expor algumas traduções do axioma para o português:

  1. Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei (Marcelo Ramos Motta);
  2. Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei;
  3. Faz o que tu queres será o todo da Lei;
  4. Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei;
  5. Faze o que tu queres será o todo da Lei;
  6. Faze o que tu queres há de ser toda a Lei;
  7. Fazei o que quereis há de ser tudo da Lei;
  8. Faz a tua vontade é a totalidade da Lei.

Para prosseguir, irei dividir o axioma em duas partes para facilitar o trabalho; irei começar então por “Do what thou wilt”: o grande problema nesta primeira parte é o verbo fazer, que inicia a frase. Como conjugá-lo? Faz, Faze ou Fazei? o locutor ordena que o leitor faça o que ele quiser, portanto o verbo fazer está sendo empregado no modo imperativo, que é usado para pedir, rogar, suplicar, ordenar. Neste caso, o modo imperativo é usado na segunda pessoa do singular (tu), portanto ele deve ser empregado no presente do indicativo, sem o “s” no final, que resulta em: “Faze o que tu queres”.

Para alicerçar as palavras supracitadas, nas linhas subsequentes exponho um extrato de um artigo de Cristina Verreda, publicado pela “Revista Opção”: Saiba Quando Usar a Linguagem Correta e a Coloquial:

…‘Faz um 21’, que lembrou recentemente o mestre Pasquale Cipro Neto. À luz da gramática o correto é: ‘Faze um 21’. Já pensou como não soaria bem! Isto ocorre porque o verbo fazer está sendo empregado no modo imperativo, que usamos para ordenar, suplicar, pedir, rogar. Quando usamos o imperativo na segunda pessoa do singular (tu), empregamos o presente do indicativo, sem o ‘s’ no final, que fica: Faze um 21…

Deste modo não é correto traduzir a primeira parte de axioma como Faz o que tu queres ou ainda Fazei o que quereis. Mas ainda acho muito importante expor algumas das observações de um grande amigo e irmão, Frater Pan:

“A tradução da palavra “DO”, foi perfeita mas, o que restou? Restou “what thou wilt shall”; “WHAT” é óbvio: o que; “THOU” é óbvio também: Você, em inglês arcaico. Porém agora sobrou “WILT SHALL” e é a partir daqui que começa a confusão! “WILT” pode ser uma tensão da forma arcaica de WILL, ou pode ser a palavra WILT por si só e através desta podemos chegar as seguintes traduções:

  1. Se WILT for uma tensão arcaica de WILL:
    1. Indicador de futuro, sua tradução depende do verbo que o segue: no caso SHALL;
    2. Vontade;
    3. Testamento.
  2. Se WILT for tratado na sua tradução natural:
    1. Definhar;
    2. Esmorecer; Enfraquecer;
    3. Murchar; Secar.
  3. E, finalmente o SHALL, pode ser traduzido como:
    1. Vontade;
    2. Intento;
    3. Obrigação;
    4. Verbo auxiliar para formar a tensão de futuro.

Perceba como o SHALL por si só é antagônico, dual, Vontade vs. Obrigação. Como podemos traduzir a frase por completo???? Veja acima as combinações possíveis; na verdade é praticamente impossível traduzi-la corretamente. No entanto ela é por si só correta. A frase é constituída por dois sentidos totalmente antagônicos, como no Tao: o TAO é único, porém ele é Yin e Yang ao mesmo tempo…

Ao passo que assim percebemos que a nossa Verdadeira Vontade é nada mais que a nossa Obrigação, ou a nossa Obrigação é fazer a nossa Vontade. Não importa como seja traduzida, será sempre “toda a Lei”.”

Como pudemos perceber, a intenção do axioma só pode ser compreendida ao analisarmos as possibilidades e o jogo de palavras que tem uma conexão incrível, o que foi acima colocado fica explícito quando lemos o AL I:42: “Deixai esse estado de multiplicidade limitada e desgosto. Assim com teu todo; tu não tens direito senão fazer tua vontade”.

Neste ponto encontrei uma falha que corrompeu as duas primeiras versões deste texto. Em suas primeiras versões, shall foi avaliado distante de be, quando na verdade shall be demonstra claramente a formação de tensão de futuro, orientando que Faze o que tu queres deverá ser[1], em forma de ordem, claramente porque ainda não é uma realidade em termos de ação, haja visto que o Æon não está estabelecido, mas sim, declarado. Este pequeno ponto muda o contexto da segunda parte da tradução e estabelece uma nova visão.

Irei seguir com shall be the whole of the Law:

Literalmente, a frase pode ser traduzida da seguinte forma: “deverá ser o todo da Lei”. Portanto: Faze o que tu queres. Mas por que eu devo fazer o que eu quero? Porque isto deverá ser o todo da Lei.

Unindo as duas partes, obtemos uma tradução de onze palavras do axioma: Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei. É importante pontuar que a união shall be é encontrada diversas vezes no Livro da Lei e essas diversas aparições chamaram minha atenção para o fato de que o caminho que foi seguido nas primeiras versões deste texto não estava certo e, portanto me levaram a fazer esta revisão.

As duas primeiras versões também continham uma análise da tradução feita por Marcelo Motta, mas eu optei por não incluí-la no presente, já que esta parte precisa de uma grande revisão e porque achei mesmo necessário desvincular uma da outra, mas em breve devo publicar aqui esta segunda parte.

Para finalizar peço apenas que atentem para o que está escrito em AL III:39, “Tudo isto e um livro para dizer como tu chegaste aqui e uma reprodução desta tinta e papel para sempre – pois nisto está a palavra secreta e não apenas no inglês – e teu comento sobre este Livro da Lei será impresso belamente em tinta vermelha e preta sobre belo papel feito à mão; e, para cada homem e mulher que encontres, seja para jantar ou para beber com eles, esta é a Lei a ser dada. Então eles terão a chance de permanecer nesta felicidade ou não; isto não é problema. Faze isto rapidamente!”.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. O uso de dois verbos seguidos se enquadra, neste caso, na regra de “verbo auxiliar modal”, onde, o verbo principal carrega a maior carga semântica da forma verbal composta e o verbo auxiliar é responsável por marcar o tempo, o modo, o número e a pessoa daquela forma verbal.

    O verbo auxiliar modal expressa o modo como o locutor enxerga aquela ação verbal. Junto com o verbo principal ele forma uma locução verbal.

    O ponto de vista de ação do verbo é do locutor, portanto, “deverá ser” está correto nesta sentença e seguindo isso, o verbo “ser” não é flexionado. – Nota de Sr. XVI e Fr. H.P.K.. ↵ voltar

© 2017 e.v. - Jonatas Lacerda





Do what thou wilt shall be the whole of the Law

Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 02/04/2011 e.v.

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Jonatas Lacerda

Jonatas Lacerda é Thelemita e programador de sistemas para Internet, com ênfase no setor bancário. Fundou o Blog Thelemitas e o Espaço Novo Æon (do qual é o seu o atual editor). Há mais de 13 anos estuda e procura aplicar os princípios da Lei de Thelema em sua vida. Após um encontro com o irmão Euclydes Lacerda de Almeida, focou seu trabalho pessoal na difusão da Lei de Luz, Vida, Amor e de Liberdade: Thelema. A base desse trabalho é o estudo dos princípios filosóficos e da aplicabilidade da Lei de Thelema no contexto individual e na vida em sociedade.

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