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Dos Propósitos Políticos da Ordem

por Marcelo Ramos Motta em Política

Dos Propósitos Políticos da Ordem
Filosofia

Dos Propósitos Políticos da Ordem

por Marcelo Ramos Motta

Política vem de polites, palavra grega que significava “cidadão”, e que por sua vez derivava da palavra grega polis, que queria dizer “cidade”. Portanto a palavra política significa etimologicamente “ciência (ou arte) da vida em comum em sociedades organizadas”.

Todos os sistemas políticos da atualidade têm um ponto em comum: apoiam o princípio do sacrifício do indivíduo em favor do grupo. Democracia, socialismo, fascismo, comunismo, estão todos baseados nesta concepção.

O conceito thelêmico de política é inteiramente diverso desses. Está estruturado nas mais recentes descobertas das mais avançadas ciências sociais e biológicas: a Genética, a Ecologia, e a Psicologia (a Parapsicologia é apenas um ramo, e ainda muito rudimentar, da Psicologia). Estas ciências são tão recentes que ainda não puderam ser emocionalmente assimiladas pela mente coletiva.

Consequentemente, o conceito thelêmico de política é difícil de compreender. O autor das presentes linhas voltou à sua terra natal em 1961 e.v.. Há quinze anos que ele vem experimentando a hostilidade e o ostracismo tanto da extrema direita quanto da extrema esquerda brasileiras. Curiosamente, porém, ele tem sido mais ativamente atacado pelos “moderados” de ambos os lados: a “esquerda festiva” e os “democratas liberais”. O ataque tem sido sob a forma de “listas negras”, em que ele é usualmente descrito como “fascista” (pela esquerda festiva) ou como “anarquista” (pelos falsos liberais).

Note-se que esses “moderados” compõem a classe dos “intelectuais”, isto é, os indivíduos que utilizam o intelecto como meio de vida. Não nos referimos aqui, de forma alguma, a cientistas ou pensadores: referimo-nos àquelas pessoas que, não sendo dotadas de suficiente originalidade criadora para serem pensadores ou artistas, buscam interpretar ou representar as descobertas ou teorias alheias: críticos, professores, escritores de segunda classe, teólogos, jornalistas e políticos.

O problema de tais pessoas é a falta de originalidade. A esmagadora maioria da humanidade não tem qualquer controle sobre as faculdades intelectuais, mas no caso dos gênios criadores isto é um problema secundário; tais indivíduos utilizam o intelecto apenas como instrumento da Vontade, e seu dinamismo é tão grande que o intelecto não tem tempo de se tornar confuso ou dispersivo.

As pessoas de menos energia criadora mas de intelecto ativo, entretanto, a não ser que se dediquem ao controle de suas faculdades mentais, jamais serão capazes de sair da mediocridade de uma pseudo-inteligência. Elas estão cônscias de tal mediocridade, e manipulam ansiosamente o intelecto para justificarem sua própria existência.

Aquele que escreve estas linhas não é um pensador original: ele pertence precisamente ao grupo que acaba de descrever. Entretanto, ele treinou seu intelecto para ser instrumento de sua Vontade, e aliou a sua Vontade à Vontade muito mais poderosa e original do MESTRE THERION. Ele fez isto porque, tendo decidido dedicar-se ao Serviço da Humanidade, e reconhecendo sua incapacidade para contribuir algo realmente original ao progresso dos seus semelhantes, procurou encontrar alguma coisa deste tipo no trabalho de outros indivíduos mais ativos. Ele nada encontrou que se equiparasse ao Livro da Lei, e portanto resolveu dedicar sua existência à promulgação da Lei de Thelema. Se a reencarnação é um fato, ele espera, através da vivência adquirida no Serviço à Lei de Thelema, tornar-se capaz, eventualmente, de contribuir, em outra vida, algo tão original quanto a obra de THERION ao mundo. Se a reencarnação não é um fato, ele está suficientemente satisfeito em saber que, aliando-se ao trabalho de THERION, terá contribuído muito mais à vida da humanidade do que se tivesse se tornado um marxista — ou um “socialista”, “democrata”, ou “intelectual”.

Ou se tivesse tentado fundar seu próprio sistema, como fez Marx, apenas para procurar compensar sua frustração interna ante a mediocridade do seu pensamento comparado ao pensamento de Freud e Darwin.

A única contribuição original que Marx fez ao conhecimento humano (admitidamente, mais do que o autor destas linhas jamais fará), foi chamar atenção para a necessidade imperiosa de incluir fatores econômicos no estudo dos grandes movimentos históricos. Mas ao enfatizar estes fatores em excesso (atitude emocional, com a finalidade de aumentar seu senso de auto importância, e assim apaziguar a consciência de sua insuficiência criadora), excluindo de sua tese os fatores urgidos pela obra de Freud e a de Darwin, ele criou um sistema de filosofia cuja finalidade básica é amainar a frustração dos intelectuais de segunda classe, e convencê-los de que são tão grandes e tão importantes para a sociedade quanto os gênios que têm contribuído algo realmente NOVO ao progresso humano.

Marx pode ter se iludido e pensado que seu trabalho emanciparia o proletariado. O que ele realmente conseguiu foi criar um sistema político que fornece a burocratas intelectuais um conjunto de racionalizações através do qual eles podem crer que têm tanto direito de se considerarem o Estado quanto teve Luiz XIV.

Sem dúvida, do ponto de vista thelêmico, eles têm este direito. O problema é que, além de que todo mundo tem este direito, Luiz XIV foi um péssimo burocrata: prepotente, intelectualmente desequilibrado, emocionalmente condicionado.

Algumas Verdades Científicas que Desagradam aos Intelectuais

O conceito thelêmico de política está baseado em certos fatos científicos que demagogos evitam mencionar ou então negam:

1. O nível de inteligência de qualquer ser humano é produto de herança genética e não pode ser significativamente aumentado por quaisquer processos educacionais conhecidos.

2. O condicionamento cultural de um indivíduo não é geneticamente transmissível à sua prole.

3. A evolução de qualquer espécie depende do aparecimento de variações da norma mais aptas (no senso que Darwin deu a este adjetivo) à interação com o meio ambiente do que a norma.

4. A projeção (no senso usado por psicólogos para esta palavra) é o mais comum mecanismo de defesa da mente humana.

Como Intelectuais Interpretam estas Verdades e como elas são Interpretadas por Cientistas

1. O fato de que o nível de inteligência de um ser humano é uma função da herança genética significa que o nível intelectual de qualquer pessoa não pode ser aumentado por educação ou treino. Do ponto de vista daqueles que desejariam uma sociedade “sem classes”, isto é uma verdade muito desagradável. Estudos estatísticos comprovam que o quociente de inteligência varia inversamente ao número de seres humanos. Isto significa que os muito inteligentes são sempre minoria. Só uma pessoa em cada cem, por exemplo, possui um quociente de inteligência acima de 130 na escala Stanford-Binet. Para aumentar o nível de inteligência da sociedade seria necessário controlar a reprodução dos cidadãos de forma a evitar que os menos inteligentes pudessem ter filhos.

Estudos recentes comprovam que certos indivíduos podem ter um aumento de até 20 pontos na escala Stanford-Binet embora sua herança genética seja “normal” ou “inferior”. Estes casos excepcionais, entretanto, são os de indivíduos que sofreram severa subnutrição na infância, ou foram limitados em seu desenvolvimento intelectual por fatores anormais. Exemplo: Uma criança mantida acorrentada por seus pais durante anos, ao ser libertada demonstrou um aumento de 15 pontos na escala Stanford-Binet com um ano apenas de vida normal. Mas tendo alcançado seu limite genético normal, seu desenvolvimento intelectual estacionou.

Outro fator: tais avanços de nível intelectual só são possíveis se esses indivíduos desfavorecidos forem estimulados antes da adolescência. Uma vez a maturação intelectual se tenha completado em meio ambiente hostil, é impossível estimular os subnutridos ou subinstruídos por quaisquer meios atualmente conhecidos.

Estes fatos universalmente admitidos por cientistas são ferozmente combatidos pelos intelectuais, quer os “liberais” de direita, quer aqueles pertencentes a “esquerda festiva”. Combatidos ao ponto de aqueles que os mencionam, ou buscam divulgá-los, serem taxados de “reacionários” ou “fascistas” mesmo em sociedades supostamente desenvolvidas, como por exemplo, os Estados Unidos da América. Mas estes fatos são importantíssimos, porque deles podemos tirar as seguintes conclusões da maior utilidade para os educadores:

A. É da máxima importância que as crianças sejam bem alimentadas desde o nascimento até completarem a adolescência.

B. É da máxima importância que as crianças recebam estímulo intelectual adequado durante o mesmo período.

C. É inútil tentar “melhorar” o nível intelectual de uma pessoa jovem, passada a fase da adolescência.

D. Desde que o desenvolvimento intelectual depende da hereditariedade, é importante dar menos atenção a fatores puramente intelectuais na educação de jovens pós-adolescentes, e maior atenção a fatores menos conhecidos, como criatividade, originalidade e espiritualidade.

E. O nível intelectual de uma cidadã ou de um cidadão não é um fator importante de comparação social. Este é um ponto extremamente difícil de ser compreendido pelos intelectuais, devido precisamente ao fenômeno psicológico da “projeção”, a que já nos referimos. Tentaremos esclarecer este conceito dando um exemplo concreto. Faz uns dez anos, estávamos escrevendo roteiros para a televisão brasileira (e sendo vigiados por diversos serviços secretos de esquerda e direita então ativos neste país). Um intelectual pertencente a esquerda festiva nos propôs o seguinte problema: ele conhecia dois irmãos, um deles trabalhador braçal, o outro empregado doméstico da família dele. Por motivos de sua crença marxista, esse intelectual (que dispunha de recursos, como todo membro da esquerda festiva) procurou dar meios aos irmãos de melhorarem sua posição social através do estudo. O trabalhador braçal estudou, formou-se, e se tornou um profissional liberal. O empregado doméstico, no entanto, não demonstrou nenhum interesse pelo estudo. O patrão me disse que embora censurasse o rapaz constantemente, não conseguia estimulá-lo a imitar o “sucesso” do irmão. Eu lhe perguntei:

— Ele é bom empregado?

— Excelente.

— Ele está contente como empregado?

— Sim, mas não devia estar!

— Por que não? — eu lhe retruquei. — Você faz muito mal em tentar forçá-lo numa direção para a qual ele evidentemente não está capacitado.

Recordo-me até hoje do olhar de completa hostilidade que esse rapaz me lançou. Nunca mais me dirigiu a palavra, e através do irmão que escrevia para uma cadeia de televisão que estava na época sendo formada, e para a qual eu também trabalhava, conseguiu tornar minha situação dentro da empresa tão intolerável que eventualmente fui forçado a pedir demissão. Anos mais tarde, quando produzi um filme de longa metragem com parcos recursos, fui acusado numa revista da qual o irmão era editor de “passar para trás” os meus empregados na produção.[1]

(O filme, por sinal, recebeu uma acolhida da crítica cinematográfica — toda ela de “esquerda festiva” — de tal tipo que ainda não se pagou até hoje.) No entanto, justamente o meu esforço para pagar os meus contratados me colocou numa situação financeira da qual só agora, cinco anos depois, estou começando a me recuperar.

Tudo isto devido ao fato de que esse rapaz achava que um “profissional liberal” é “melhor” do que um empregado doméstico…

É a isso que se chama de “esquerda festiva”. Supostos “liberais de direita”, entretanto, sofrem da mesma presunção de que a capacidade de armazenar informação no intelecto, por si só, prova que um ser humano tem mais valor do que outro.

2. O fato de que o condicionamento cultural de um indivíduo não é geneticamente transmissível à sua prole foi tão repugnante para a esquerda que na época de Stalin um cientista russo foi subornado para afirmar o contrário. Este cientista, Lysenko, universalmente respeitado até então pela comunidade científica internacional (a qual, em que pese aos burocratas, não dá grande importância a divergências de ordem ideológica ou política), escreveu uma série de artigos e até um livro defendendo a ideia de que características adquiridas são geneticamente transmissíveis. Foi recompensado por Stalin com postos administrativos muito bem remunerados e de grande prestígio burocrático na Rússia, mas ficou tão desmoralizado perante os cientistas quanto Galileu, em célebre ocasião, por motivos pouco menos desprezíveis.

Compreende-se que irrite aos comunistas — e aos “liberais” de direita — o fato de que, por mais cultura que tenha um ser humano, ele não poderá transmitir esta cultura hereditariamente aos seus filhos. Conjugado ao fato a que nos referimos anteriormente (que o nível de inteligência de qualquer pessoa é inato e não varia), isto é mais um argumento esmagador contra a “sociedade sem classes” que é o ideal dos socialistas e dos pseudo-liberais de direita. Significa que não podemos nivelar “desigualdades sociais” através de processos educativos — pelo menos processos conhecidos atualmente. Para por a coisa cruamente, quem nasceu para centavo não chegará a cruzeiro, e se por acaso for condicionado para agir e falar como se fosse cruzeiro, não conseguirá transmitir esta camuflagem à sua prole, a qual tenderá estatisticamente a ser tão centavo quanto os genitores.

3. Se conjugarmos esses dois fatores com o terceiro — o fato de que qualquer espécie viva depende de variação da norma — perceberemos que a tendência educacional das sociedades modernas — quer as de esquerda, quer as de direita — é totalmente ineficiente. Mais, até: é perigosa. Nós estamos tentando nivelar a humanidade a um só padrão, quando deveríamos estar tentando estimular a criatividade e a originalidade em todas as camadas sociais. E estamos utilizando como padrão precisamente aquela faculdade humana que comprovadamente tende a ser estável, a não variar, através das gerações: o nível de intelectualidade.

4. Esta padronização intelectual que estamos tentando impingir aos nossos semelhantes é o resultado da projeção psicológica por parte dos intelectuais de segunda categoria.

Uma pessoa que tenta “salvar” o próximo está, na realidade, tentando salvar a si mesmo. E quando ela se fixa na ideia de que esta “salvação” depende de um aumento de capacidade intelectual, ela está admitindo sua total insatisfação com sua própria inteligência.

Quando a pessoa tenta “nivelar” as classes sociais, ela anuncia ao mundo que não está satisfeita com o seu próprio “status”. A pessoa tenta se elevar quando tenta elevar seus semelhantes.

À primeira vista, isto parece uma atitude bem mais nobre do que aquela do egoísta irredutível que está apenas interessado em seu próprio conforto e seu próprio progresso, e para o inferno com os outros. Mas o fato científico é que o egoísta declarado é menos prejudicial à sociedade humana que uma pessoa afetada pelo “complexo de salvador”. Por que isto? Simples: o egoísta irredutível está tentando estabelecer uma variação (ele mesmo) na norma social. Mas o altruísta, ao projetar seus próprios recalques e anseios na sociedade em geral, está tentando estabelecer um padrão ao qual seus semelhantes devam se conformar — e este padrão, por mais excelentemente utópico que seja, resultará sempre em um aumento de restrição, consequentemente numa diminuição no aparecimento de variações, das quais qualquer espécie viva depende para evoluir.

Do ponto de vista racial, não tem a mínima importância que o marxismo seja um ideal mais “nobre” (se é que realmente é mais nobre) do que o fascismo. O que importa é que tanto um quanto o outro são tentativas de limitar o progresso da espécie a um padrão instituído por uma minoria.

Sem dúvida alguma uma leitora ou leitor mais arguta ou mais arguto mencionará aqui que isto não deixa de ser uma manifestação da influência de uma variação da norma humana (no caso mencionado, Marx e Mussolini) sobre a norma mesma.

Mas este tipo de influência se manifesta há milhares de anos sem melhorar em nada a evolução da humanidade. O que nos interessa é estabelecer uma situação social que encoraje a manifestação de variantes e ao mesmo tempo impeça essas variantes de padronizarem a sociedade à força. A estrutura política de qualquer nação, para ser realmente científica (tanto quanto no presente podemos compreender os fatos da ciência), deve ser suficientemente fluída para permitir a manifestação espontânea tanto de fascismo quanto de comunismo (ainda com relação ao caso mencionado) simultaneamente, e rígida o suficiente para impedir que adeptos de qualquer um dos dois sistemas possam impor suas predileções sobre outros através da força bruta ou da opressão ideológica ou econômica. Que impede os comunistas de serem comunistas, e os fascistas de serem fascistas, e coexistirem dentro da mesma nação, e provarem o sucesso de suas teorias com fatos, em vez de pressões? É bem possível que para certos tipos de atividade de grupo o sistema comunista seja mais eficiente enquanto em outros o sistema fascista seja melhor. Mas como descobriremos se isto é fato enquanto os dois sistemas, em vez de cada qual tratar de sua vida, buscam se destruir mutuamente, e no processo envolvem gente que não quer pertencer nem a um nem a outro, e até acredita que seu sistema de vida é bem melhor que ambos?

Se existisse no mundo atualmente uma estrutura social e política que permitisse a qualquer grupo humano existir de acordo com suas convicções dentro do sistema sem interferir com outros e sem ser oprimido por outros, essa estrutura seria o que chamamos (no estágio presente de nossa compreensão do significado do LIVRO DA LEI) uma estrutura thelêmica.

A definição do problema nos levou a esta introdução prolongada. Passaremos agora a uma linguagem mais direta e mais simples.

Do Egoísmo em Política

A base da filosofia política thelêmica é o egoísmo inteligente.

O homem das cavernas começou a caçar em grupos porque em grupos ele podia matar mais mamutes. O esforço era menor do que caçando sozinho, e havia mais carne para todos.

A sociedade moderna frequentemente exige da cidadã ou do cidadão mais esforço do que eles fariam sem ela, e oferece menos recompensa pelo esforço feito do que eles obteriam por si sós.

Quando você protesta, a sociedade lhe lembra (quer esteja organizada como “democracia”, “ditadura”, “socialismo” ou “comunismo”) os seus “deveres morais” de abnegação, resignação, humildade, paciência e auto sacrifício. Ela lhe lembra a posição fundamental do Velho Æon, de que o indivíduo é função da sociedade.

Numa sociedade thelêmica, a sociedade é que é função dos indivíduos. Uma cidadã ou um cidadão deve sempre se perguntar se LUCRA sendo membra ou membro da sociedade. Se você dá mais do que recebe, a sociedade não está bem organizada, e deve ser modificada. Se não puder ser modificada, deve ser destruída, e outra, mais eficiente, erigida em seu lugar.

Certos moralistas dizem que é bom treinar os seres humanos na prática do auto sacrifício. Esta concepção data do Velho Æon, e está tão arraigada emocionalmente na espécie que até Marx caiu nesta armadilha.

O resultado de um tal treino é sempre duplo: indivíduos de vontade fraca (sempre a maioria), treinados em auto sacrifício, se tornam um joguete dos indivíduos de vontade forte. Estes, também treinados em auto sacrifício, assumem automaticamente a liderança em nome do “bem comum” e tiranizam inconscientemente os mais fracos.

Na Idade Média, o povo em países crististas[2] vivia nas piores condições de miséria enquanto o clero e os nobres desfrutavam de riqueza e conforto, com o pretexto de que consolavam (o clero) e protegiam (os nobres) os pobres. Estes eram exortados a se resignarem à vida penosa que levavam, e obedeciam devido à promessa de que quanto mais sofressem aqui na terra, mais felizes seriam mais tarde no “céu”.

Nas sociedades capitalistas modernas a classe média, que originalmente formava a camada de transição entre os pobres e os ricos, está ficando cada vez menor. Os ricos estão diminuindo em quantidade e aumentando em riqueza (inflacionada). O número de pobres está crescendo, embora estes pobres pensem que pertencem a classe média e estejam cercados de falsos confortos que auxiliam sua escravidão psíquica e econômica à classe privilegiada, que os manipula através da máquina burocrática.

Nas sociedades comunistas a disparidade entre a classe dirigente e a classe dirigida é ainda maior do que nas sociedades capitalistas. Exemplo: dois por cento da população dos Estados Unidos da América, ou seja, quatro milhões de habitantes, controla oitenta por cento da riqueza do país. Na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas o Partido Comunista conta com aproximadamente doze milhões de membros, dos quais só dois milhões ocupam posições de autoridade na burocracia. A população total ultrapassa trezentos milhões, e se resigna a tal estado de subjugação crendo na promessa de que seus bisnetos viverão, aqui mesmo na terra, num “céu” que é definido como “Comunismo Total”.

No entanto, o comunismo total é uma impossibilidade científica, não só devido às quatro verdades científicas que já mencionamos, como também devido ao fato de que as chances da estrutura genética de qualquer ser humano ser duplicada por atividade sexual natural são de menos de uma em setenta e seis trilhões.

Ora, para que todos os seres humanos pudessem ter os mesmos gostos, os mesmos talentos, e as mesmas necessidades — isto é, para que eles pudessem ser todos iguais e pertencer a uma única classe social — seria necessário que eles fossem homozigotas[3].

A promessa do comunismo total é tão falaciosa quanto a promessa eclesiástica de bem-aventurança eterna.

Vemos, portanto, que nos dois tipos básicos de sociedades modernas a atitude emocional dos cidadãos e a divisão em classes pouco diferem daquilo que existia na Idade Média. Uma pequena minoria continua controlando as fontes de conforto material, e a grande maioria depende por completo dessa minoria que controla e manipula. Talvez agora os leitores compreendam o que thelemitas querem dizer quando falam das sociedades organizadas do Velho Æon como sociedades escravas.

Se um ser humano não pode se mover à vontade sobre a terra, isto é, se lhe falta UM SÓ dos direitos reclamados para o ser humano em Liber OZ, esse ser humano é uma escrava ou um escravo.

Ora, no mundo capitalista, especialmente no Brasil, um proletário raramente tem dinheiro sequer para viajar de cidade a cidade.

No mundo comunista a cidadã ou o cidadão tem que ter um passaporte do Partido Comunista para viajar de uma cidade para outra. Um tal passaporte raramente é concedido, pois liberdade de movimento para os cidadãos é diminuição de controle para a autoridade totalitária.

Ambos os tipos de sociedade são mantidos estáveis pela paciência das massas condicionadas à ideia de que o indivíduo deve sacrificar seu egoísmo pessoal em nome do bem-estar comum.

Perguntamos: que bem-estar? Qual é o proletário brasileiro que tem facilidade de viajar pelo mundo? De conhecer seu próprio país? De comer aquilo que ele quer, vestir-se como quer, divertir-se como quer? Ou de sequer ter casa própria decente por um preço razoável?

O proletário brasileiro nem sequer tem condição de pagar os falsos confortos que ajudam a condicioná-lo a uma escravidão cada vez maior (o aparelho de televisão, por exemplo) com dinheiro à vista.

Os abusos inqualificáveis que a maioria sofre nas mãos da minoria privilegiada devem-se ao fato de que estamos condicionados à ideia de altruísmo, abnegação, sacrifício pessoal em prol do grupo. Os nossos tiranos não nos tiranizam conscientemente. Eles são tão estúpidos quanto nós. O processo é inteiramente mecânico. É a inevitabilidade histórica de uma sociedade psicologicamente organizada em termos da síndrome emocional do Velho Æon, o Æon de Auto Sacrifício, o Æon dos Deuses-dos-Escravos.

É preciso que ensinemos uns aos outros que a única proteção que temos contra essa escravidão doentia e estúpida é o egoísmo sadio e inteligente.

Ajudemo-nos a nós mesmos. Pois, como diz a vontade inconsciente coletiva através da voz da sabedoria popular: “Ajuda-te, que Deus te ajudará”.

Nós somos Deus. Não existe outro Deus que não nós mesmos.

Das Tendências Presentes nas Sociedades Escravas e em Particular na Sociedade Brasileira

Karl Marx escreveu um enorme volume tentando provar que o capitalismo conduz invariavelmente ao comunismo.

No que concerne ao capitalismo tal como está sendo aplicado no Brasil e em outros países, ele tinha toda a razão. Mas Marx achava que o comunismo é a perfeição do que o capitalismo é apenas uma fase transitória.

Thelemitas afirmam que o comunismo é a fase final da decadência inevitável das sociedades escravas que seguem o regime capitalista.

Consideremos o momento presente brasileiro. Periodicamente há um aumento de salário mínimo. Imediatamente após este aumento, os comerciantes elevam seus preços na exata proporção em que o salário foi aumentado — isto, quando não elevam mais! — pretextando prejuízos. O resultado é que o aumento do salário mínimo nada significa. Os preços aumentando, o salário permanece o mesmo em poder aquisitivo. O que ocorre é uma desvalorização progressiva da moeda, provocando a assim-chamada espiral inflacionária.

O salário mínimo foi estabelecido para ser a QUANTIA MÍNIMA que qualquer empregador possa pagar aos empregados. Mas os empregadores definem esse salário mínimo como “salário modelo”. Se eles pudessem era só isso que pagariam a todo mundo.

Os lucros obtidos com esta política de baixos salários e exorbitância de preços, os empregadores aplicam ou no aumento de suas atividades doentias ou em empresas maiores do que as deles, portanto mais doentias ainda. Eles aumentam progressivamente de riqueza no papel, mas o valor desta “riqueza”, o valor real, aquisitivo, pouco a pouco se inflaciona. O dinheiro se desvaloriza. Aqueles que ganham mais, sentem menos o arrocho: se você ganha de cem mil cruzeiros por mês para cima, uma desvalorização mensal de dois a três por cento não lhe afeta muito[4]. No fim do ano você está ganhando pelo menos o equivalente a setenta mil cruzeiros por mês.

Mas aquele que ganha o salário mínimo sente a diferença na carne. Para quem recebe salário-fome, uma diferença de dois cruzeiros representa um pão para os filhos, ou uma passagem de ônibus para ir ao trabalho.

O dinheiro que os empregadores empatam em suas empresas viciosas, ou em outras maiores e portanto mais viciosas ainda, leva à formação de empresas tão grandes que se tornam monopólios. A iniciativa individual, a formação de pequenas empresas, vai se tornando cada vez mais difícil. Os gigantes do capital absorvem tudo. O governo federal começa a intervir na iniciativa privada para evitar o roubo ou auxiliar aos ladrões. Em qualquer dos dois casos, o governo federal vai crescendo na exata proporção em que crescem os monopólios ou as tentativas de monopólios. Eventualmente temos um puxa-puxa em que o cidadão médio é a corda, e os governos e as grandes empresas são os contestantes. Só há duas possíveis consequências finais: os governos vencem, absorvem os cartéis e se tornam o único monopólio do país (Isto é chamado de “comunismo” ou de “socialismo”, dependendo do grau e da forma como funciona.); ou então as grandes empresas vencem e os governos se tornam simplesmente empregados dos cartéis (Isto é chamado de “democracia” ou de “socialismo”, dependendo de como as grandes empresas manejam seus departamentos de relações públicas.). Em qualquer dos dois casos, quem perde é a cidadã ou o cidadão comuns, que passam a ser encarados como empregados do governo, usualmente chamado de “pátria” ou de “estado”.

A tendência atual da sociedade brasileira é para o socialismo (quer o de esquerda, quer o de direita — lembramos aqui que o de esquerda é ainda mais autoritário e paternalista que o de direita) que Marx previu como consequência inevitável do capitalismo. Esta tendência é encorajada por marxistas que trabalham dentro da burocracia governamental ou dentro do mercado de capitais. Há duas maneiras de levar um país ao comunismo: uma é aumentar de tal modo os abusos dos ricos contra os pobres que estes se rebelam e põem os marxistas no poder, com os resultados evidentes na Rússia e na China. A segunda maneira, mais lenta, porém mais segura, é promover a estatização progressiva do país, e infiltrar totalmente as camadas burocráticas de alto nível. Esta é a forma pela qual os marxistas brasileiros chegarão inevitavelmente ao controle total do país, se a sociedade brasileira continuar em seus rumos presentes. Caso haja uma reviravolta em favor do “capitalismo” (isto é, das multinacionais que já infiltraram totalmente a economia), o resultado será análogo, embora seja chamado por nomes diferentes. A escravidão total do indivíduo ao estado sufocará até mesmo os imensamente ricos. (A maioria das multinacionais já está funcionando de maneira inteiramente mecânica.) Uma triunfante comprovação do determinismo histórico de Marx, com esta única ressalva: nem comunismo total, nem capitalismo desenfreado, mas sim um triunfo dos intelectuais de segunda classe na posição de burocratas, quer de esquerda, quer de direita.

É este fracasso total da liberdade individual que a Lei de Thelema foi promulgada para evitar.

Definição Thelêmica de Moral Social e Política

A consciência social de um indivíduo sadio deve ser nada mais nada menos do que um prolongamento do seu instinto natural de autopreservação. Em outras palavras, a moralidade de uma cidadã sadia ou de um cidadão sadio é a expressão de um egoísmo inteligente.

Você como cidadã ou cidadão deve sacrificar em prol da sociedade apenas aquelas das suas regalias que você considera uma troca justa pelas outras das suas regalias as quais você deseja cultivar, e que você espera sejam incrementadas pela sua vida na sociedade. Se você se priva de qualquer das suas regalias e ainda assim vê diminuir aquelas que lhe são mais importantes, você deixa de ser uma cidadã ou cidadão para se tornar uma escrava ou um escravo.

Por exemplo: quando eu pago impostos, é porque espero que a sociedade em que vivo será beneficiada com isto, e eu com ela. Espero que o governo — meu empregado, pois o salário dele é pago com dinheiro que sai do meu bolso — se dedicará efetivamente ao meu serviço, como todo empregado honesto, tendo chegado a um acordo com um empregador, se dedica a cumprir a sua parte enquanto receber o salário do patrão.

Se o governo não quer trabalhar para mim, não precisa me pedir dinheiro. Não gosto de mendigos, e não dou dinheiro à toa.

Também, com relação ao meu “próximo” — isto é, outro cidadão ou cidadã — meu sentimento de solidariedade humana deve ser apenas a expressão da minha conveniência pessoal. Eu e meu próximo ou próxima somos dois caçadores atrás de um mamute. Se você coopera para aumentar meu bem-estar, eu coopero para aumentar o seu. Mas se você não coopera para aumentar o meu, não tenho a mínima obrigação de aumentar o seu; e se você interfere ativamente com o meu bem-estar, tenho o DEVER MORAL de reagir, e de matar você, se necessário, para garantir a minha liberdade. “Os escravos servirão”.

Em suma: assim como dentro do meu organismo minhas células sadias combatem, expelem ou destroem as células doentes (de uma outra forma eu não poderia continuar vivo), assim também no organismo social, do qual eu sou uma célula, tenho o dever para comigo mesmo de exigir, por cada esforço que eu fizer, um lucro MAIOR do que o esforço que eu fiz.

Se os dois caçadores, caçando juntos, não vão conseguir mais carne com menos perigo, então para que caçarem juntos?

O thelemita ou a thelemita, portanto, espera sempre da sociedade MAIS do que contribui para ela. A sociedade deve pagar MAIS ao indivíduo do que você gasta com ela. Senão, para que viver em sociedade?

Se um negócio não dá lucro, o comerciante sensato muda de ramo. Qualquer ventura comercial TEM QUE DAR LUCRO; e a vida em sociedade é essencialmente uma ventura comercial.

Uma sociedade que não PROVA A TODO MOMENTO aos cidadãos que é mais vantajoso para a conveniência pessoal deles serem membros dela do que estarem sozinhos, ou serem membros de outra sociedade, é uma sociedade escravizadora. É uma sociedade que força os cidadãos ao papel de uma pessoa que dá mais do que recebe, que gasta mais do que ganha, que dedica sua vida e sua energia sem compensação suficiente, em suma: ao papel de trabalhadores que são forçados a trabalhar sem salário.

Esta é a definição básica de um escravo.

Um thelemita ou uma thelemita, portanto, mede a sociedade em que se move, a cada momento, pelo padrão básico de sua conveniência individual.

Eu faço menos esforço para realizar minha Vontade na sociedade do que faria fora dela? Então a sociedade é uma sociedade thelêmica.

Eu faço mais esforço para realizar minha Vontade na sociedade do que faria fora dela? Então a sociedade é uma sociedade escrava.

Um thelemita ou uma thelemita insiste em que o dever social consiste na busca da vantagem pessoal cada vez maior, ao custo de um esforço cada vez menor, por parte de TODO E CADA cidadão ou cidadã.

Se TODOS os cidadãos defenderem sua vantagem pessoal, será impossível a qualquer cidadão abusar de outro. A sociedade é compelida a funcionar com a eficiência máxima. Mas no momento em que qualquer cidadão ou cidadã abdica de sua conveniência pessoal em favor de terceiros, ou de algum ideal de auto sacrifício, ele ou ela não só está em perigo de ser escravizado ou escravizada, mas também diminui a eficiência da sociedade inteira. Nenhuma corrente é mais forte do que qualquer dos seus elos.

Portanto os thelemitas, para protegerem a si mesmos, para melhorarem cada vez mais o seu meio-ambiente, procuram estimular os seus “próximos” a serem inteligentemente egoístas, a sempre defenderem o que é seu. É claro que faz parte deste estímulo dar um exemplo de conduta: uma sociedade só pode estar completamente dedicada ao bem-estar de cada cidadã ou cidadão quando cada cidadã ou cidadão exige da sociedade que ela se dedique ao bem-estar dela ou dele.

Se os Irmãos considerarem o que foi dito acima, perceberão que é tão evidente, tão simples, que parece incrível que a humanidade possa ter pensado de maneira diferente em qualquer época.

A manutenção da liberdade e bem-estar de todos dependerá sempre do egoísmo vigilante de cada uma ou cada um.

Reforma Thelêmica da Sociedade

É claro que um egoísta estúpido só considera o seu lucro imediato, a curto prazo. Tal é o caso do capitalista definido por Marx.

Mas um egoísta estúpido não poderia impor sua estupidez se a sociedade inteira se comportasse com egoísmo inteligente.

Portanto, thelemitas condenam e combatem categoricamente qualquer filosofia religiosa ou política que tenha como base o conceito de “altruísmo” ou de “auto sacrifício”. É essencial que ensinemos a todos a serem egoístas; a garantirem e a defenderem os seus direitos. Esta é a essência de Liber OZ.

Deve ser claramente compreendido que a Lei é para todos: os direitos definidos em Liber OZ são os direitos básicos de todos os seres humanos, sem consideração de sexo, cor, credo religioso ou político, ou posição social.

Também deve ser compreendido que temos não só o direito, mas também o DEVER de defender nossos direitos contra todos aqueles que quereriam contrariá-los. A reação contra uma tentativa de opressão deve ser imediata, e violenta se necessário. A força bruta (em que pese aos temperamentos pacíficos) só compreende o argumento da força inteligente. Do ponto de vista thelêmico, é sempre melhor matar um tirano do que se tornar seu escravo. Mas é ainda melhor EVITAR QUE OS TIRANOS APAREÇAM.

A tirania só medra e prospera em sociedades que pregam a resignação e o auto sacrifício. Nas sociedades crististas, por exemplo, a tirania dos grandes capitalistas é a norma. Nas sociedades comunistas, a norma é a tirania dos altos burocratas.

Thelemitas, portanto, desejam viver em sociedades onde o egoísmo individual possa ser canalizado de forma a beneficiar a todos sem prejuízo de nenhum. Para tal fim, certas reformulações políticas e jurídicas devem ser encorajadas:

1. O código civil deve ser tão simples quanto possível, e defender vigorosamente os direitos básicos do ser humano tal qual estes são definidos em Liber OZ.

2. Desde que o propósito de qualquer governo é servir aos cidadãos, e não ser servido por eles, é necessário impedir que os organismos governamentais interfiram na iniciativa privada; ao mesmo tempo, é necessário impedir que a iniciativa privada interfira com o bem-estar social. O crescimento excessivo da iniciativa privada força a criação de organismos governamentais para interferirem na economia; a criação de tais organismos eventualmente encoraja os burocratas que os operam a esquecerem de que são empregados dos cidadãos, e não donos deles.

É preciso evitar tanto a opressão capitalista quanto a burocrática, esta última esmagadoramente evidente em todos os países que tentaram a solução marxista.

Talvez seja bem mais simples evitar esses dois extremos do que se pensa. Uma possibilidade seria estabelecer por lei que toda empresa privada pagasse não mais que vinte por cento dos seus lucros anuais como imposto de renda, e tivesse trinta por cento dos seus lucros para os proprietários e distribuísse cinquenta por cento diretamente entre os seus empregados, proporcionalmente ao salário de cada uma ou cada um deles. Uma tal medida teria as seguintes vantagens básicas:

A. Impediria a empresa de crescer inecologicamente. O crescimento da maioria das empresas capitalistas é canceroso, isto é, sem qualquer consideração do meio ambiente, ou do organismo social em que a empresa se desenvolve.

B. Impediria o governo de crescer demais. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, Franklin Delano Roosevelt estabeleceu o “New Deal”, através do qual, em teoria, haveria uma “distribuição equânime da renda” pelo sistema de alíquotas tributárias progressivas. Ainda em teoria, quem ganhasse um milhão de dólares por ano teria que pagar NOVENTA POR CENTO desse dinheiro ao imposto de renda. O resultado da implantação deste sistema foi o crescimento do governo federal a tal ponto que dentro de cinquenta anos a estrutura burocrática já intervinha em mais de cinquenta por cento da economia americana. As companhias gigantes conseguiram isenções de vários tipos e pagam atualmente muito menos de 90% sobre muito mais que um milhão de dólares por ano ao governo; mas o pequeno milionário, o novo rico, paga os noventa por cento. Isto redunda em que temperamentos inovadores e ativos simplesmente não podem se firmar financeiramente nos Estados Unidos sem a “boa vontade” do Sistema — e esta “boa vontade”, é claro, é comprada com dólares. A criação do “New Deal” foi um desastre do qual o povo americano provavelmente nunca se recuperará sem uma revolução, um cataclismo, ou aquele mais improvável milagre: uma redução voluntária de impostos e de burocratas.

C. Encorajaria os egoístas inteligentes a tentarem ganhar dinheiro. No sistema russo, por exemplo, a princípio se tentou implantar um salário único para todos os cidadãos. A tentativa durou exatamente três meses, pois o pessoal técnico se recusou a trabalhar por tão pouco e pode impor sua recusa pelo fato de serem insubstituíveis. Atualmente, os russos têm um sistema de estímulos salariais exatamente análogo ao dos países capitalistas. Mas o problema consiste em que esses estímulos são planejados de antemão. Isto impede o aparecimento de variações da norma, isto é, egoístas inteligentes tentando novos empreendimentos. A sociedade russa está sufocada pelo conformismo e pela burocracia. Ao estabelecerem seus negócios numa sociedade livre, com garantia de lucro pessoal, os egoístas inteligentes estariam simultaneamente inovando a economia, dando nova vivência técnica aos seus assalariados e à nação, e contribuindo para o bem-estar geral sem estimular o governo a um crescimento excessivo.

Além disto, à morte de um capitalista, vinte por cento de sua fortuna poderia ir para o imposto de renda, trinta por cento para os seus herdeiros diretos, e cinquenta por cento para os seus assalariados.

Uma objeção poderia ser levantada aqui (por comunistas!) à ideia de que a distribuição de cinquenta por cento da renda aos empregados de uma empresa deva ser proporcional aos salários. Por que não uma divisão em parcelas iguais entre todos eles?

Isto nos recorda de outra ocasião em que adquirimos mais um inimigo na “esquerda festiva”. Essa pessoa opinou que um varredor de rua deveria ganhar o mesmo que um engenheiro. Nós discordamos, e em consequência perdemos ainda outro emprego…

Porém, o motivo é muito simples de explicar a quem não está fanatizado: numa sociedade realmente equânime, um engenheiro seria capaz de realizar o trabalho de um varredor de rua, mas um varredor de rua não estaria qualificado para realizar o trabalho de um engenheiro. Se estivesse, isto seria sinal de que um homem de alta inteligência havia sido forçado a assumir um status no organismo social abaixo da sua capacidade. Em tal caso, a sociedade não seria equânime.

Por outro lado, se nos fosse perguntado: “Um engenheiro é melhor do que um varredor de rua?” nós seríamos forçados a responder que esta pergunta está no plano moral, não no plano empregatício. De acordo com o nosso conceito de moral social (que consideramos excelente, mas não buscamos impor a ninguém), se o engenheiro fosse tão honesto, competente e assíduo em seu trabalho quanto o varredor de rua no seu, os dois seriam “iguais”. Mas se o varredor de rua fosse mais honesto, mais competente e mais assíduo no seu trabalho do que o engenheiro no seu, o “melhor” seria o varredor.

Isto nada tem a ver com o fato de que o salário dos dois deva diferir. Apenas, se o engenheiro é realmente incompetente ou relaxado, seria aconselhável despedi-lo.

Dois dias após o primeiro de abril (em mais de um sentido) de 1964 e.v. nós estávamos tomando um cafezinho num botequim, e o caixeiro falando sobre o conflito, disse que simpatizava com o ideal dos esquerdistas, os quais queriam ver um prato com a mesma quantidade de comida diante de cada cidadão brasileiro.

Nós lhe replicamos: “Pois o que eu gostaria de ver seria um prato na frente de cada uma ou cada um, do tamanho que cada uma ou cada um quisesse, com a comida que cada uma ou cada um quisesse, e isto numa quantidade suficiente para sobrar se a cidadã ou cidadão não estivesse com muita fome.”.

O caixeiro do botequim arregalou os olhos e disse:

— Mas isso é muito difícil!

Como se vê, um caixeiro de botequim bem mais inteligente e politizado do que a maioria dos generais, cardeais, ricaços e demagogos brasileiros.

Difícil, sem dúvida. Mas possível. E absolutamente necessário.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. N.E.: Motta se refere ao filme “O Judoca”, de sua produção, em 1969. ↵ voltar
  2. O termo Cristista é usado como referência ao Cristianismo opressor comumente conhecido e não ao Cristianismo Gnóstico. ↵ voltar
  3. Wikipédia: Homozigoto ou homozigótico é um termo da genética para indicar que os alelos presentes em um locus genético são idênticos. Gene é uma fração de Ácido Desoxirribonuclêico (DNA) que está codificando um determinado peptídeo, como uma proteína.

    Um indivíduo é chamado de homozigoto, quando os alelos que codificam uma determinada característica são iguais. Ou seja, os alelos são iguais e ele vai produzir apenas um tipo de gameta. Por exemplo, em ervilhas, a característica sementes verdes é recessiva, portanto, homozigota, pois possui o genótipo vv, e produzirá apenas gametas v. O mesmo ocorre para sementes amarelas homozigotas, VV, que produzirão gametas V.

    Por exemplo, numa proteína com 1000 aminoácidos, pode ser que o aminoácido na posição 379 possa variar, sem que se descaracterize a proteína. O gene que indica na posição 379 o aminoácido glicina é um possível. O gene que indica na mesma posição o aminoácido alanina é outro possível. O gene é o mesmo, mas tem dois alelos diferentes. Se um indivíduo herda dos pais genes idênticos, ele é chamado de homozigoto. Neste caso, dois genes indicando glicina na posição 379 daquela proteína. Se herda o gene da mãe diferente do gene do pai, ele é chamado de heterozigoto. Neste caso, um gene indicando alanina e o outro glicina, na posição 379 da mesma proteína.

    Resumindo, podemos dizer que um ser é homozigoto quando o mesmo possui os alelos iguais, tanto o alelo materno como paterno que juntos representam um lócus. E assim, ele produzirá todos os gametas recessivos, isto é, possuindo somente uma identificação genética. Ex: BB. Vale salientar, que cada identificação “B” é proveniente de um determinado alelo, que se encontra no par de cromossomos oriundo do cruzamento genético de seus respectivos genitores. ↵ voltar

  4. Isto foi escrito em 1978 e.v.. Note-se o efeito da espiral inflacionária. Cem mil cruzeiros mensais é já uma bagatela! ↵ voltar

© 2016 e.v. - Marcelo Ramos Motta





Dos Propósitos Políticos da Ordem

Revisão: Jonatas Sas Lacerda
Versão: 1.0 – 12/07/2011 e.v.

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Marcelo Ramos Motta

Marcelo Ramos Motta (27/06/1931, Rio de Janeiro, Brasil - 26/07/1985, Rio de Janeiro, Brasil), ocultista que foi responsável pela vinda de Thelema ao Brasil, tendo Karl Germer como instrutor.

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