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É Obrigatória a Realização da Verdadeira Vontade para ser Thelemita?

por Jonatas Lacerda em Lei de Thelema

É Obrigatória a Realização da Verdadeira Vontade para ser Thelemita?
Filosofia

É Obrigatória a Realização da Verdadeira Vontade para ser Thelemita?

por Jonatas Lacerda

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Em outro momento já afirmei que somente o indivíduo pode se dizer Thelemita e que isso independe do envolvimento direto ou indireto com organizações que aceitam O Livro da Lei[1] e a Lei de Thelema. Todavia, uma questão foi levantada: “Somente são Thelemitas aqueles que já tomaram conhecimento e realizaram suas Verdadeiras Vontades?”, essa questão é um tanto quanto delicada e para mim, certamente pode gerar uma confusão sobre onde se encaixa cada coisa.

Podemos concordar facilmente que O Livro da Lei não propôs um sistema iniciático específico, ele propôs que o profeta purificasse os rituais do velho tempo que fossem bons e com isso, de certa forma, aplicasse a esse processo uma nova perspectiva, que podemos considerar como a evolução heliocêntrica, saindo completamente da visão antiga de verdade, para uma nova, que se baseia na aplicação de fórmulas para o crescimento da humanidade e de seu pensamento (de forma contínua e científica). O Livro declara uma nova palavra (ou fórmula) mágica e uma nova palavra de Lei.

A nova fórmula mágica age certamente no núcleo dos sistemas desenvolvidos por Crowley e a nova palavra de Lei age diretamente na mudança de visão e no ponto crucial que, deixa de ser uma entidade externa para ser o próprio indivíduo. Dessa forma, a mudança de visão age em todos os pontos que naturalmente eram baseados na ideia de divindade externa. Portanto, o ponto principal de análise é a vontade do indivíduo e essa análise deve evoluir para outras camadas, como um casal, um grupo, uma sociedade, a humanidade. A palavra de Lei apresenta como os valores éticos e morais devem ser avaliados e com a aplicação das fórmulas apresentadas em O Livro da Lei podemos certamente evoluir em todas as camadas. Faze o que tu queres é uma via de mão dupla e a consciência dessa via, evita o choque de duas estrelas (evitar o choque não é o mesmo que evitar a luta ou mesmo o embate, significa que uma não age para tirar a outra de sua órbita em particular, isto não representa de forma alguma a criação de uma sociedade passiva).

Não adianta aplicar a fórmula mágica e ignorar a fórmula ética, fazê-lo é garantir o insucesso e normalmente vemos isso claramente quando ouvimos a afirmação de que ser Thelemita é ver tudo dar errado ou se tornar um escravo do ego. Auto-observância é essencial para a aplicação das fórmulas encontradas em AL e essa aplicação age diretamente no desenvolvimento de um homem (ou mulher) mais forte, mais consciente de si, do outro e do ambiente, cônscio de seu papel e de como fazer sua vontade de forma livre e desimpedida de quaisquer elementos divinos externos. Para descobrir e consequentemente realizar sua Verdadeira Vontade, é necessário avaliar as variáveis envolvidas e focar em Vontades menores para atingir o objetivo final. O Livro da Lei não traz o sistema final, ele traz a fórmula para o entendimento de como qualquer sistema pode ser utilizado para seguir nesta luz. “Sim! não acrediteis em mudanças; vós sereis como sois e não outro. Portanto os reis da terra serão Reis para sempre: os escravos servirão. Não existe ninguém que deverá ser rebaixado ou elevado: tudo é sempre como foi. Ainda assim há mascarados que são meus servidores: pode ser que aquele mendigo ali seja um Rei. Um Rei pode escolher as suas vestes como quiser: não há teste exato: mas um mendigo não consegue esconder a sua pobreza.” – AL II:58[2]. Isto quer dizer que não há a necessidade de se reinventar a roda, a necessidade é olhar de outra forma para a roda e trabalhar na evolução do conceito da roda, sem se guiar por fatídicas estórias que procuram explicar fenômenos por meio de análises parcas e estáticas. Tudo está em constante mudança e a prova disso é a evolução que a história dos últimos cem anos nos prova.

Voltando ao ponto principal, “Somente são Thelemitas aqueles que já tomaram conhecimento e realizaram suas Verdadeiras Vontades?”, podemos, com facilidade, afirmar que não. Uma coisa não obriga a outra e ao obrigarmos uma à outra, criamos Restrição e Restrição não é a ideia dessa era.

O primeiro ponto a ser avaliado é aquele que diz “Mas ela disse: os ordálios Eu não escrevo, os rituais serão metade conhecidos e metade ocultados: a Lei é para todos.” – AL I:34[3], se a Lei é para todos, podemos facilmente constatar que nem todos serão Iniciados ou trilharão esse caminho ao mesmo tempo, esse processo iniciático é longo e pode demorar mais de uma vida para ser concluído, veja-se as próprias análises de Crowley sobre suas vidas passadas. O importante, neste caso, é perceber que os Iniciados serão poucos e secretos, mas mesmo assim, os muitos e os conhecidos, os quais os primeiros regem (ou derramam sua luz) também estão sob os mesmos princípios, isto é, o Æon também existe para eles e mais ainda, a Lei, sendo para todos, também é para eles. Portanto, vemos apenas uma premissa, aceitar O Livro da Lei, AL que é a base desta era de Hórus, a Criança Coroada e Conquistadora.

Podemos facilmente também dizer que toda pessoa que aceita O Livro da Lei, trabalha direta ou indiretamente na realização de sua Verdadeira Vontade, haja visto que a libertação de si mesmo é o primeiro passo para essa consecução, mesmo que ainda existam n passos à frente, o primeiro já está dado, como expus acima, é necessário se tornar mais forte e este fortalecimento advém da aplicação das fórmulas do Livro e da estrita observância de si mesmo, avaliando, em primeiro lugar, que faze o que tu queres é uma via bilateral que por si só apresenta limites, limites esses que devem ser respeitados conscientemente e sem outorgar a responsabilidade de seus atos para outrem, seja este um indivíduo, uma sociedade, um governo, uma causa ou mesmo uma entidade divina externa. Aceitar esta Lei acarreta invariavelmente na aceitação de sua liberdade e de sua responsabilidade por si.

Seguindo em frente, para não alongar demasiadamente o tema, vamos a algumas citações importantes: “A palavra da Lei é θελημα.[4] – AL I:39[5], a palavra é Vontade, em suma, ao se direcionar à sua vontade, por meio dessas fórmulas, o indivíduo já se coloca sob esta Lei. “Quem nos chama Thelemitas não cometerá erro, se ele apenas observar bem de perto a palavra. Pois dentro dela existem Três Graus, o Eremita, e o Amante, e o homem da Terra. Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.” – AL I:40[6], a mais importante citação de Aiwass sobre o tema e sobre ele, nada mais importante do que o Comentário de 1923 e.v.: “Os Thelemitas definidos: os três Graus de Realização. Nós que aceitamos esta Lei podemos corretamente ser chamados Thelemitas, se esta palavra for definida em termos dos seus valores secretos, como no caso da própria palavra Thelema. Existem três Graus reais na Ordem, sendo distintos dos Graus formais da AA, e estes Três Graus são descritos no meu Livro chamado A Visão e a Voz, e em outras partes. A Lei declarada e explicada. Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei – Ou seja: a Lei da Natureza de um Homem é realizar o propósito para o qual ele está verdadeiramente capacitado.”. Este último comentário (de 1923 e.v.) foi utilizado pois ele vai diretamente ao ponto da coisa toda, mas para fins de estudo é indicado que o leitor também consulte os comentários de 1921 e.v. e 1912 e.v..

Por meio dos pontos avaliados, podemos realmente concluir que não, o Thelemita não precisa realizar sua Verdadeira Vontade para ser chamado assim, ele deve apenas aceitar a Lei e querer se chamar de Thelemita, ele é livre para não fazê-lo também: “Não existe lei além de Faze o que tu queres.” – AL III:60[7].

Amor é a lei, amor sob vontade.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Liber AL vel Legis, O Livro da Lei, está disponível no Espaço Novo Æon em português, em inglês e na reprodução digital de seu manuscrito. ↵ voltar
  2. Yea! deem not of change: ye shall be as ye are, & not other. Therefore the kings of the earth shall be Kings for ever: the slaves shall serve. There is none that shall be cast down or lifted up: all is ever as it was. Yet there are masked ones my servants: it may be that yonder beggar is a King. A King may choose his garment as he will: there is no certain test: but a beggar cannot hide his poverty.” – AL II:58. ↵ voltar
  3. But she said: the ordeals I write not: the rituals shall be half known and half concealed: the Law is for all.” – AL I:34 ↵ voltar
  4. Comentário de Crowley em “O Comentário de Djeridensis” de 1923 e.v.: “θελημα a Palavra da Lei. – A palavra da Lei é θελημα. Isto é, esta palavra é definida nos mínimos detalhes através do valor secreto das letras, números, sons, virtudes na Natureza, e todas as outras funções [originalmente “qualidades”] deste nome grego para Vontade.”. ↵ voltar
  5. The word of the Law is θελημα.” – AL I:39. ↵ voltar
  6. Who calls us Thelemites will do no wrong, if he look but close into the word. For there are therein Three Grades, the Hermit, and the Lover, and the man of Earth. Do what thou wilt shall be the whole of the Law.” – AL I:40 ↵ voltar
  7. There is no law beyond Do what thou wilt.” – AL III:60 ↵ voltar

© 2017 e.v. - Jonatas Lacerda





É Obrigatória a Realização da Verdadeira Vontade para ser Thelemita?

Revisão: Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 28/09/2012 e.v.

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Jonatas Lacerda

Jonatas Lacerda é Thelemita e programador de sistemas para Internet, com ênfase no setor bancário. Fundou o Blog Thelemitas e o Espaço Novo Æon (do qual é o seu o atual editor). Há mais de 13 anos estuda e procura aplicar os princípios da Lei de Thelema em sua vida. Após um encontro com o irmão Euclydes Lacerda de Almeida, focou seu trabalho pessoal na difusão da Lei de Luz, Vida, Amor e de Liberdade: Thelema. A base desse trabalho é o estudo dos princípios filosóficos e da aplicabilidade da Lei de Thelema no contexto individual e na vida em sociedade.

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