Ensaios

Entrevista de um ex-membro da Ordo Templi Orientis

por Euclydes Lacerda de Almeida em Entrevistas, Iniciação, Lei de Thelema, Ordo Templi Orientis

Entrevista de um ex-membro da Ordo Templi Orientis
História

Entrevista de um ex-membro da Ordo Templi Orientis

por Euclydes Lacerda de Almeida

Em entrevista a nós concedida, um ex-membro da Ordo Templi Orientis[1] declarou-se bastante aliviado em não mais pertencer a qualquer ramo da Ordem, ou de quaisquer outras organizações ou alianças esotéricas a esta ligadas, cultivando, promovendo ou divulgando Thelema, como o único e verdadeiro sistema de treinamento espiritual. A esta postura ele denomina Thelemismo. Também faz uma advertência para que não se confunda, no texto, Thelema com thelemismo, e thelemita com thelêmico Usa o termo thelêmico para definir aqueles que se julgam ou se têm como únicos Thelemitas no mundo.

O Conhecimento Ocultista é uma faca de dois gumes, e quem procura desvendar os seus segredos e descobrir os seus mistérios deve estar cônscio da séria responsabilidade e do perigo inerente a essa tarefa.

P.: O que lhe fez afastar-se de Thelema e das ordens ligadas a este Sistema?

R.: Eu não me afastei de Thelema, mas sim do thelemismo e dos thelêmicos. Basta você observar com cuidado o que acontece com as ordens, fraternidades e/ou grupos thelêmicos para obter, por si mesmo, uma resposta. Se isto não for o bastante, posso dizer que o aparecimento de inúmeros documentos, outrora mantidos em sigilo, somados a fatos recentemente acontecidos, testificam jogadas não éticas, usadas por grupos “thelêmicos”, para com isto manterem pessoas sob a ilusão de serem eles os verdadeiros herdeiros de uma tradição vinda desde Rebalais, passando por Crowley até nossos dias, e evidenciam motivos mais que suficientes para minha decisão neste sentido. Thelêmicos vivem num verdadeiro caos mental e emocional, onde várias facções se digladiam incessantemente, sem mesmo saberem por quê. E nenhum desses grupos fez alguma coisa, até agora, para dar um fim a isto. Evidentemente, o caos os favorece a manterem as aparências perante seus seguidores e o público ignorante.

P.: Considera mesmo que tais grupos nada fazem para mudar este contexto?

R.: Se fazem, nada vimos que ateste esta ação nos últimos vinte anos de nossa vivência nos meios esotéricos deste país.

P.: Quais eram suas metas ao ingressar em Thelema?

R.: Da mesma forma que todo ser humano normal tem um sonho, um anseio, eu também tenho um sonho, e procuro sempre compartilha-lo com aqueles que de mim se aproximam. E eu o tenho compartilhado com muitos daqueles que, se passando por meus amigos e irmãos, trairiam esta confiança na primeira oportunidade.

P.: Que sonho é este?

R.: O sonho de um Brasil livre, dono de seu destino, sem interferências externas, por mais bem intencionadas que possam, ou pareçam, ser; um país sem as enormes desigualdades sociais em que o nosso povo está mergulhado; sem crianças e jovens atolados na violência, no vício degradante, etc.; sem desempregados; sem idosos humilhados; sem uma polícia brutalizada; sem políticos corruptos, etc. Sonho de ver meus irmãos com o fácil acesso a tudo que têm direito, não necessitando, para exercer seus direitos, vender suas almas à pessoas ou grupos sem qualquer legitima autoridade ou qualidade espiritual que protestam possuir auto proclamando-se “mestres”, “guias”, e outras coisas do gênero. Se continuarmos seguindo este caminho caótico, o mundo que nos espera será exatamente aquele descrito por George Well em seu romance “1984”, ou talvez pior.

P.: Não seria este seu sonho uma utopia?

R.: Pode ser que sim. Isto depende. Há alguns anos atrás, o sonho de ir a Lua também era considerado uma utopia. Julio Verne escreveu “Viagem à Lua” e foi, por isso, considerado louco, visionário, etc.; no entanto, em nosso século o homem pisou na superfície de nosso satélite. Foi um sonho utópico, uma visão ou uma previsão de Julio Verne? Todo sonho tende a se realizar quando muitos sonham e trabalham juntos em busca de qualquer realização.

Esta é uma Lei da Magia que todos já deveriam saber. Entretanto, o que impera e prevalece entre thelêmicos é a discórdia, a concorrência desleal, as acusações mútuas, etc. Julgo que, infelizmente, os thelêmicos têm abraçado uma doutrina totalmente equivocada que nada tem a ver com Thelema.

P.: Teríamos condições em terminar com este estado de coisas?

R.: Não querendo ser negativo, penso ser agora muito difícil, pelo menos em médio prazo. Os thelêmicos, com sua política, facilitaram a abertura de nosso Círculo à terríveis inimigos de Thelema que, assim, ganharam posições e forças no decorrer dos últimos anos.

P.: Que inimigos são esses?

R.: Eles são facilmente identificados, pois seguem os ditames de uma doutrina cujo fito é nos destruir como indivíduos autoconscientes. Eles abjuram Liber OZ, etc.. Eu os chamo de “homens da face negra”.

P.: Poderia ser mais específico?

R.: Vejamos: existem grupos, já dominados há muito tempo por esta força, com o único propósito de arruinar as reais bases da evolução humana em direção à Real Espiritualidade. Tais grupos vivem na ilusão de que são, realmente, representantes de um poder evolutivo. E nisto eles se parecem bastante com os seguidores das igrejas ditas cristãs. Estes grupos se fortalecem através do poder político e financeiro, impostos por uma casta sem a mínima moralidade. Alguns destes grupos procedem, ou estão ligados, à forças internacionais ricas, mas cuja riqueza foi, e é, baseada na exploração dos povos e dos países mais pobres e no massacre econômico dos fracos, sem que estes tenham qualquer possibilidade de reação, a não ser numa heroica, mas suicida, luta armada, o que complica ainda mais o problema, como é lógico. Você não pode vencer uma luta usando pedras contra artilharia pesada. Vide a “via-crucis” dos Palestinos nos dias de hoje.

P.: Os ensinos thelêmicos não são direcionados à evolução?

R.: Os Thelemitas são, os “thelêmicos” não. Você como outros confunde Thelema com “thelemismo”. Confunde “magia” com crescimento espiritual. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Poderes mágicos, por si sós, jamais testemunham crescimento espiritual. Caso os poderes mágicos traduzissem crescimento espiritual não existiriam aqueles aos quais chamamos Magos Negros; isto é, indivíduos (se é que são indivíduos) de grandes poderes “sobrenaturais”, ou mentais, ou o que quer que seja, mas nenhuma moral ou ética espiritual.

P.: Não estou entendendo.

R.: É simples: qualquer pessoa possuidora de paciência, inteligência e uma certa dose de determinação pessoal pode desenvolver, em si mesmo, poderes mágicos. Mas espiritualidade não. Você pode obter poderes mágicos os mais incríveis; mas isto não significa jamais que você tenha desenvolvido Sabedoria, Compreensão, Amor, Beleza, etc. Estamos cansados de ver pessoas dotadas de alta inteligência, carisma pessoal, etc., usando estes dons para o crime, para a guerra, para a destruição e para enriquecer ilicitamente.

Existem vários exemplos deste tipo de homens e mulheres. Você não deve julgar que um corpo astral bem desenvolvido seja sinal de alta espiritualidade; isto seria o equivalente de supor que um halterofilista de enormes músculos é necessariamente uma pessoa de elevados sentimentos e nobres intenções. Portanto, nada de confundir aptidão mágica com progresso espiritual. Os graus da A∴A∴[2], por exemplo, marcam estágios de perspectiva na evolução da raça: poderes mágicos ou místicos apenas representam detalhes nesse progresso.

P.: Qual o maior equívoco dos thelêmicos?

R.: Julgarem os donos da grande solução. A presunção deles é enorme, e está enraizada na ilusão do ego, em que se recusam a admitir o que está visível para todos, isto é, que a doutrina deles (como Frater Achad já o havia visto claramente) é uma doutrina doentia, criada por uma mente desvairada, etc. Muita gente não compreendeu Achad, e o tomam como louco.

Muitos deles, na ânsia de poder temporal, lutam para uniformizar práticas e teorias sob o domínio de um Poder Central que, na realidade, não existe e jamais existiu. Isto jamais dará certo. Vejam, por exemplo, a Igreja Romana que cresceu em poder temporal, mas decaiu no espiritual. Eles se esquecem de levar em consideração as necessidades e diferenças particulares de cada indivíduo. O Brasil, por exemplo, possui suas próprias. Por aqui aportaram, ao longo dos anos, representantes de muitos povos e com eles novas culturas.

O sincretismo entre estas culturas tornou-se inevitável e perfeitamente compreensível, e deram nascimento a uma cultura própria bem diferente da norte americana, ou da inglesa, ou da japonesa, etc. A Ordo Templi Orientis, por exemplo, tem origem germânica. Nós, brasileiros, jamais poderíamos nos “adaptar” às tradições, ou padrões, ou ao modo de vida germânicos. Isto é evidente. Só não vê quem não quer. Portanto, a Ordo Templi Orientis, no Brasil, tem que seguir seus próprios caminhos, caso contrário jamais sairá do caos em que se encontra. Mas isto para nós é uma bênção, pois evita que doutrinas importadas e criadas antes e pós-Crowley evoluam em nosso país.

P.: Se você fosse thelemico, como então agiria para superar estas dificuldades?

R.: Não posso aceitar a hipótese de ser thelêmico, eu que sou thelemita. A preocupação maior de um thelemita brasileiro deve ser com a nossa independência política e econômica. Cortar os liames com as tradições arcaicas vindas de além mar. Nossa preocupação deveria se dirigir à Essência da Doutrina. Mas atento para o fato de que Padronizar é um erro fatal. O único código unificador está nas obras básicas de Thelema. Mas penso que os thelêmicos jamais farão isto, pois estão perdidos em especulações originadas de cérebros apodrecidos.

P.: E quanto à vida prática?

R.: Liber OZ é a base de tudo. E Liber AL contém todos os “rituais” necessários. Tem gente por ai perdendo tempo precioso com rebuscados rituais… vindos não sei de onde.

P.: Qual seria, portanto, o melhor caminho de uma pessoa que queira ser Thelemita?

R.: Na minha opinião ela deveria estudar, pesquisar e praticar Liber AL e Liber OZ para poder facilmente diferenciar seus desejos de sua Real Vontade, e mais à frente perceber a diferença entre thelemismo e Thelema, e o quanto o primeiro é prejudicial ao ser humano. Num tempo seguinte pesquisar as verdadeiras origens da Ordo Templi Orientis e quais os verdadeiros objetivos da Ordem antes e pós Crowley.

Mas respondendo a sua pergunta, supondo-se que o thelemismo fosse realmente um caminho a ser seguido (o que realmente não é), eu diria não existir um caminho padrão. Padronizar é uniformizar – a Natureza nos criou diferentes um dos outros. Somos estrelas, cada qual com sua órbita individual. Thelema abomina padrões estabelecidos. Eis aí mais uma razão pela qual a Ordo Templi Orientis brasileira não deva seguir quaisquer regras ou padrões estabelecidos na ordem original, claramente não Thelemita.

Para melhor compreensão, o caminho para a vivência e interpretação do Sistema são os livros básicos de Thelema (quais livros são esses? Com exceção de Liber AL e Liber OZ, os outros ficam a critério de cada um). Tudo mais está sujeito à análise e à compreensão dos princípios desta doutrina.

P.: Pelo modo que você fala, parece-me ainda ser um thelemita, concorda?

R.: Já afirmei que sou Thelemita, mas não thelêmico. Jamais neguei isto, apenas não considero Crowley, ou Achad, ou Germer, ou Marcelo Motta, ou qualquer outro, livres de quaisquer erros, ou infalíveis em suas opiniões ou conclusões.

P.: Você acha que deveria haver um Poder Central disciplinando todos os grupos Thelemitas?

R.: Inicialmente devo dizer não existirem grupos Thelemitas. Thelemitas constituem um só bloco, coeso, forte, etc., muito embora sejam livres em ação e pensamento. Thelemitas admitem que “A palavra da lei é Thelema e que “Amor é a lei, amor sob vontade”. Muita gente não entende isso.

Se por um lado seja importante se evitar o surgimento de seitas “thelemitas”, como ocorreu com o cristianismo (e mesmo com thelêmicos), que já no primeiro século contava com mais de cem ramificações, por outro não se pode esquecer as inúmeras gradações mentais dos homens. Thelema jamais será compreendida da mesma forma por todas as pessoas. Isto também é válido para o esoterismo em geral. Ai está o maior obstáculo da, assim chamada, ciência esotérica. Conforme você evolui espiritualmente os “significados” mudam, sua “mente” “abre-se” para níveis mais profundos, maiores, sua visão vai mais longe, etc. Segredos são segredos pela única razão de não poderem ser compreendidos por profanos, ou seja aqueles que ainda não tiveram a experiência iniciática e seus inúmeros níveis..

A não ser que você tenha atingido aquele nível ideal de compreensão você não “compreenderá” que a Vontade é, ao mesmo tempo, universal e única. Que todos nós devemos nos mover de acordo com nossas próprias Vontades, que são cada qual única, entretanto coerente à Vontade Universal.

P.: O que vem a ser uma ordem ou sociedade secreta?

R.: É toda ordem ou sociedade cuja existência é desconhecida do público. Toda ordem ou fraternidade ou organização secreta é, sequer, imaginada existir, caso contrário não seria secreta. De um modo geral, ela exerce influência no mundo através de ordens (ou fraternidades, ou mesmo associações civis, etc.) secundárias que mantêm contato com o mundo externo. Muitas das vezes estas ordens secundárias sequer desconfiam estar sendo inspiradas por aquela ordem secreta. As ordens que mantêm contato com o público denominam-se ordens externas. Esta é a regra geral, podendo haver exceções.

Esta influência pode ser benigna ou maligna, dependendo, logicamente, do caráter da ordem secreta dominante, ou do ponto de vista particular de cada pessoa. Tudo é relativo. O mal para um pode ser o bem para outro, tal como calor é bom para café mas ruim para sorvete.

Atualmente, a Maçonaria, as “Ordens Rosacrucianas”, e várias outras, são exemplos vivos de organizações semi-secretas. Suas origens, atuação e façanhas sendo conhecidas no mundo externo. Nestas ordens, apenas seus rituais (de um modo geral) são ocultos. Não me reportarei aqui as decisões políticas ou econômicas discutidas em suas reuniões secretas.

P.: Que são ordens maçônicas?

R.: Existem várias definições oferecidas ao público. Em um sentido geral são aquelas ordens cujos rituais são celebrados em conjunto. Geralmente são consideradas benignas, trabalhando para o bem estar da humanidade, seja no sentido espiritual ou social. Nos últimos anos a Maçonaria, tendo se dedicado com mais afinco ao plano social, parece-me um tanto afastada do plano espiritual. Várias destas ordens não seguem qualquer filosofia religiosa ou “espiritual” (no real sentido da palavra). Também existem aquelas de cunho maligno e/ou criminoso como, por exemplo, a Máfia, a S.S. Nazista, a K.K.K., etc..

P.: A Ordem dos Cavaleiros Templários seria um exemplo de ordem secreta?

R.: Em absoluto. Se assim fosse, nem ela e nem seus membros seriam aqui sequer mencionados. A prova disso está no fato dela ter sido perseguida, seus membros presos, torturados e assassinados a mando do Rei Felipe, de França, com a ajuda do Papa Clemente V, em 1307.

P.: Por que os Templários foram perseguidos?

R.: Eles foram acusados (justa ou injustamente, depende de sua opinião, ou da profundidade de seus conhecimentos) de crimes inomináveis e heresias. Esta é a versão oficial da Igreja de Roma. Porém, na realidade, pesou grandemente contra os Templários o problema político-financeiro. Felipe, o belo, Rei de França, devia vultuosa quantia aos Templários. Por várias vezes, solicitara ingresso na Ordem, porém este ingresso lhe foi negado (os Templários conheciam muito bem a falta de caráter do Rei). Sabe-se, historicamente, que ele ambicionava as colossais riquezas da Ordem.

Indignado com a recusa de seu ingresso, levado pela ambição desmedida e pelo espírito de vingança, voltou-se contra os Templários. Mediante chantagem, convence ao fraco Papa Clemente V, de que os Cavaleiros do Templo se fortaleciam para o derrubar do Trono de São Pedro. É bem sabido que o Papa ocupara o trono de São Pedro após uma eleição fraudulenta, manipulada pelo Rei Felipe. Comprometido com esta “ajuda”, o Papa viu-se pressionado pela chantagem do Rei e não pôde recusar as solicitações reais, mesmo sabendo-as injustas, mentirosas, etc.

P.: Como dito anteriormente, sempre há uma ordem oculta por detrás das ordens conhecidas. O mesmo é verdadeiro em relação à Ordem dos Templários?

R.: Correto. Hoje se sabe que por detrás da Ordem do Templo encontrava-se uma outra, cujo nome presume-se ser “Priorato de Sião” (esta denominação pode ser uma máscara, não o sabemos com certeza), e que o fito dos Templários consistia em salvaguardar um grande segredo relativo ao, assim chamado, Santo Graal. Segundo Michael Baigent e seus colegas (vide “O Santo Graal e a Linhagem Sagrada” – Ed. Nova Fronteira), “….. os Templários eram o ramo administrativo e militar de uma ordem secreta que atuava por detrás deles. Esta ordem, que funcionou sob uma variedade de nomes diferentes, é mais conhecida como “Monastério do Sinai” (Prieurè de Sion).” Também é dito que os Templários foram enviados à Terra Santa com o expresso objetivo de encontrar alguma coisa altamente secreta. Isto é deduzido pelas inúmeras escavações que eles iniciaram sob os alicerces do Templo de Salomão, nesta época já em ruínas. O que procuravam, não foi até hoje, determinado, e nem sabemos ao se encontraram.”

No entanto, em 1128, seis dos nove (dez se contarmos com o Conde de Campagne) Cavaleiros originais que habitaram o Templo de Salomão em Jerusalém durante nove anos, regressaram à França “para conseguirem a aprovação e os estatutos da ordem, no Concílio de Troyes, Foram estes: Hugo de Payens, Mondidier, Archambaud de Sainte Armand, Godoffroy Bisol, Rozal e Gondefroy. Isto quer significar que, em teoria, permaneceram em Jerusalém somente quatro templários aguardando o regresso de seus camaradas.

É bem sabido que, nestes nove anos, nenhum deles entrou em combate e, segundo testemunhas, temiam a chegada deste momento.

Segundo Charpentier e outros estudiosos do assunto, é de se deduzir que os cavaleiros enviados à Terra Santa já haviam cumprido a missão a eles confiada, ao regressarem à França em 1128.

Que descobriram os Cavaleiros Templários nas dependências do Templo? Seria um tesouro de incalculável valor? Ou um objeto de poder? Ou uma arma secreta, como dito por alguns pesquisadores mais ousados? A última hipótese incentivou políticos, militares e estadistas do Século XIX, e mesmo do Século XX, no início da Segunda Guerra Mundial, ao se aprofundarem no estudo das atividades templárias, como foi o caso dos nazistas.

Muitos sustentam que os Cavaleiros do Templo não se estabeleceram em Jerusalém para proteção de peregrinos, mas sim para procurarem algo extremamente importante, cuja existência sabiam antecipadamente.

P.: Qual era, então, o principal objetivo dos Templários?

R.: Entre várias hipóteses destacamos três delas.

  1. Encontrar a Arca Sagrada, ou Arca da Aliança.
  2. Encontrar o Santo Graal.
  3. A Lança de Longinos.

A Arca da Aliança (não confundir com Arca de Noé) refere-se a um recipiente com duplo forro de ouro, fechado por uma tampa de ouro maciço (tal como as caixas contendo material radioativo). Encimava esta tampa dois “Querubins”, também fundidos em ouro, cujas asas abertas e erguidas para a frente, tocavam levemente suas pontas (igual as estátuas de Isis, ou outros deuses egípcios alados). Haviam também duas capas: uma de tela e a outra de couro para proteger àqueles que a transportavam (proteger de que?). No Antigo Testamento conta-se a história da morte dos filhos de Aarão, Nadib e Abihu, cujos corpos foram retirados do acampamento, o mais rápido possível, por expressa ordem de Moisés.

Segundo o escritor Hancock (“The Sign and the Seal”), o poder mortífero da Arca é patente a partir da exegesis dos textos bíblicos, pois estes a apresentam como uma mortífera arma, cujos efeitos são devastadores (efeitos estes muito parecidos aos efeitos da “Arma de Bima”, no Mahabarata). Veja-se, também, como outros exemplos, os textos a respeito das Muralhas de Jericó, dos Filisteus (Sam I, 5 e 6), dos habitantes de Bet Demes, quando morreram mais de 5.000 homens (Sam. I, 6 – 9; Cron. 13) e a destruição de Sodoma e Gomorra.

É crença de Charpentier que os primeiros Templários encontraram a Arca Sagrada nas cavalariças do Templo, e que um grupo de Templários a conduziram até a França em segredo, e que ela permaneceu em lugar determinado, desaparecendo outra vez dos olhos da humanidade. O filme “Caçadores da Arca Perdida”, relata em compasso de aventura (Indiana Jones) a respeito do poder da Arca.

No entanto, o “Kebra Nagast”, manuscrito etíope do Século XIII, menciona a história bíblica da visita da Rainha de Sabá ao Rei Salomão, em Jerusalém, mas depois da apresentação da rainha à corte, a narrativa toma um rumo inesperado. A rainha de Sabá teria dado ao rei um filho, que ao crescer volta a Jerusalém e rouba a Arca. Esta “estória” constitui um fator fundamental nas crenças dos etíopes. A partir disso, a Arca da Aliança teria migrado, por vários séculos, através a península arábica e rio Nilo abaixo, até encontrar seu Santuário final na Igreja de Santa Maria do Sião. Esta ‘estória’ obviamente invalida aquela ligada aos Templários.

O Santo Graal

A “lenda” do Graal é por demais conhecida, explorada e comentada nos círculos “esotéricos” e exotéricos e, principalmente, nas óperas de Richard Wagner (Parzival, etc..).

O Graal é a taça em que, assim é dito, José de Arimateia colheu o “sangue” de Jesus, que correu de seu ferimento causado pela lança de Longinos.

Segundo uma nova corrente, o Santo Graal é uma corruptela de “Sangre Real”, referindo-se não ao sangue contido na taça, mas a herança familiar (genética) de Jesus. (Sobre o assunto será feito um resumo ao fim desta entrevista). Se nos aprofundarmos no tema, poderíamos dizer que, como afirmam certos pesquisadores, o grande Segredo do Priorato de Sião, é que seus líderes são ascendentes dos Reis Merovingios, e estes descendentes de Jesus e Maria de Magdala. Outros afirmam serem eles descendentes de extra-terrestres.

A Lança de Longinos

Em 1097, o exército dos Cruzados toma, após sangrentas e dificílimas batalhas, a poderosa cidade de Antioquia; mas, em seguida, é cercado pelas tropas do Sultão de Mosul. Durante o cerco, um sacerdote de nome Pedro Bartolomeu, afirma ter sonhado que Santo André lhe revelara onde estaria a Lança de Longinos (Longinos, assim diz a lenda, foi um centurião romano que participou da crucifixão de Jesus), e usou sua lança para atravessar o peito do crucificado do Golgota (repare a ligação desta Lança com o Santo Graal). Baseados no sonho de Pedro Bartolomeu, encontram a Lança no subsolo de uma igreja da cidade cercada. Após isto os Cruzados rompem o cerco, liberam a cidade e marcham triunfantes sobre as tropas do Islã. Dois anos depois conquistam Jerusalém.

Esta lança, um poderoso talismã, daria ao seu possuidor o poder de nunca sofrer qualquer derrota militar, passou às mãos dos Templários.

Assim, o neo-Templarismo dos Séculos XIX e XX, deu considerável importância a este objeto “mágico”, cuja posse, segundo alguns comentaristas, foi o real objetivo, projetado secretamente, da invasão da Áustria pelas tropas de Hitler. A Lança devia encontrar-se no Tesouro Imperial de Habsburgo (atualmente na Schatzkemmer da Hofburg de Viena) juntamente com outros tesouros e objetos de significado esotérico-religioso.

O Tesouro Imperial de Habsburgo de Viena contém também joias e objetos pertencentes a Ordem do Tosão de Ouro, fundada em 1423 por Felipe, o Bom, Duque de Borgonha, entre os quais a Cruz de Juramento da Ordem e o Colar, onde se dependura o Cordeiro, representando o Velocino de Ouro da lenda de Jasão – todos símbolos tradicionais de profundo significado mágico.

P.: Onde entra a Nazismo em tudo isto?

R.: Durante o período nazista, Hitler se apossou da lança Sagrada (1938-1945) e a enterrou em Nuremberg, em local somente conhecido por ele próprio.

Neste contexto, outro fato bastante significativo ocorreu com Hitler quando, ainda menino, aluno de Lambach. Esta Abadia foi visitada por um monge da Ordem de Cister (Adolf Lanz). Este monge procurava reunir uma série de “provas” afim de reforçar o ponto de vista que sustentava sobre a história da Raça Ariana. A Ordem de Cister fora reformada por Bernardo de Claraval (o mesmo São Bernardo dos Templários). Consideremos também que Bernardo seria o continuador de uma antiga tradição druídica e celta disfarçada dentro do cristianismo.

Este Adolfo Lanz reaparece mais tarde em Viena, fundando, em 1900, a Ordem do Novo Templo (nos moldes da original Ordem Templária), proclamando-se Grão-Mestre e dizendo-se “iniciado” por um Mestre sucessor de Jacques de Molay, o último Grão-Mestre dos Templários originais.

É historicamente conhecido que a Alemanha, nesta época, estava sendo impulsionada por uma rápida e poderosa revolução industrial e necessitando militarizar-se para poder fazer frente à competição industrial inglesa. É neste momento que surgem várias publicações nacionalistas e esotéricas. Uma delas é o jornal chamado Ostara (1905), fundado por George Lanz von Liebenfels, que não é outro senão o próprio Adolf Lanz. O jornal adotara a Swastika sinistrógena como seu logotipo. Vária testemunhas e historiadores afirmam que Hitler era um constante leitor do jornal.

O jornal anuncia um renascimento religioso, sexual e racista entre os arianos, trazendo a redenção e libertando-os dos “demoníacos homens bestas”. Assim, preconiza o extermínio das raças inferiores.

Outra raiz do pensamento nazista, esta pouco conhecida, tem sua origem na Sociedade de Thule, criada pelo Barão von Sebottendorf, e aliada à Ordem Templária dos Germanos, fundada, ao que parece, em 1912.

O Barão de Sebottendorf desde sua juventude era atraído irresistivelmente pelo esoterismo islâmico. Em uma de suas viagens à Turquia, conhece iniciados drusos, e afirma ter recebido ensinamentos do “Mestre do Mundo” (compare-se com a Teosofia, Golden Dawn, etc.), o Senhor de Thule e de Shambala.

Por mais chocante que possa nos parecer, estas doutrinas racistas nasceram com H.P.Blavatsky. Os ensinamentos da Teosofia sobre as raças e sub-raças e um tipo de ser humano espiritualmente desenvolvido na Era de Aquárius, foram tomadas literalmente e de modo deturpado pelos nacionalistas alemães.

P.: O Rei Felipe, o Belo, conseguiu destruir totalmente a Ordem Templária?

R.: Evidentemente que não. Grande número de Cavaleiros do Templo conseguiram se refugiar em outras Ordens, mantendo e transmitindo, assim, o “Segredo” do qual, é dito, eram guardiões. Mas penso que com o tempo, o verdadeiro segredo se perdeu na lenda. A principal Ordem que deu guarida aos Templários, que conseguiram fugir da morte, foi a Ordem de Cristo que teve seu maior desenvolvimento em Portugal. A história conta o seguinte: “D. Diniz indignou-se vivamente no trato dado aos Templários, e, ele próprio Cavaleiro, Fiél de Amor e Trovador, ignorou as ordens papais e do Rei de França para que prendesse os Templários de Portugal”. Estrategicamente, D. Diniz anula a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Jerusalém e apoia a fundação da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, mais conhecida como Ordem de Cristo, constituída pelo antigos Templários.

P.: A partir disto qual foi o destino dos Templários? A que eles se dedicaram, após a destruição da ordem original?

R.: Para que possamos discorrer sobre o assunto, devemos fazer um rascunho sobre certos fatos os quais, a priori, nos pareçam sem quaisquer ligações entre si.
Começaremos por assimilar que os desbravadores dos mares “antes nunca navegados” surgiram numa mesma específica época, e que a grande maioria deles eram membros da Ordem de Cristo, isto é, um nome sob o qual se ocultaram os Cavaleiros Templários que conseguiram escapar à sanha assassina de Felipe, o Belo, Rei de França.

Sob este nome, os Templários dedicaram-se às atividades marítimas. Vasco da Gama era Grão-Mestre da Ordem. Todos os navios dos Cavaleiros de Cristo ostentavam, em suas velas, a Cruz da Ordem Tenplária. A Cruz adotada pelo Templo foi aquela conhecida como “pátea”, que havia sido reconhecida oficialmente.

Colombo cruzou o Grande Mar (Atlântico) para “descobrir” um caminho marítimo para as Índias pelo Ocidente, e acabou por “descobrir” o Continente Americano. Pedro Alvares Cabral, indo para as Índias “descobriu o “Brasil”, a “terra do Fogo Sagrado”, e uma antiga “lenda” entre os povos nórdicos.

Colombo era casado com a filha de um ex-cavaleiro de Cristo. É dito que seu sogro o presenteara com o famoso “mapa de Piris Reis”, do qual é informado, por vários pesquisadores, que somente poderia ter sido desenhado por alguém que estivesse situado numa órbita terrestre, isto é, no espaço. (Maiores detalhes deste mapa podem ser encontrados em meu livro ‘A Torre de Babel’).

Gostaria de acrescentar aqui uma curiosidade:

O nome de Cristovão Colombo deriva-se de Cristoforus, ou seja, “aquele que carrega Cristo” (como São Cristovão, carregando o “menino Jesus – Hórus – nos ombros”.). Disso o “santo” ser o padroeiro dos viajantes, motoristas (atualmente), etc. Tudo isto puro simbolismo. Colombo, obviamente, Columbus, uma pomba, referindo-se ao Espírito Santo. Da mesma forma existe uma outra curiosidade no nome de Pedro Alvarez Cabral, que antes de partir em sua viagem “para as Índias” (e vindo a descobrir o Brasil, que já possuía este nome muito tempo antes de 1500) chamava-se Pedro Alvarez de Correia. Cabral vem de “cabra” (o escudo da família de Cabral ostentava a figura de uma Cabra). Isto nos faz lembrar do “bode” maçônico e de Capela, uma estrela de grande importância para esoteristas, situada na Constelação do Cocheiro – nome que, por sua vez, nos lembra o ATU VII, O Carregador do Graal (A Carruagem).

A maior parte dos Templários sobreviventes às perseguições, dedicou-se às empresas marítimas, ao comércio e às artes. Afirma-se que outros tantos retornaram à Terra Santa e ali se tornaram membros de Ordens Islâmica.

Todos nós sabemos que a Ordem do Templo manteve relações estreitas com a Ordem dos Assessins (no singular, Assas, “Guardiões”; no plural, “Assassinos”, formada nos meados do século XI, vanguarda esotérica dos Ismaelitas xiitas, intitulando-se, assim como os Templários, “Guardiões da Terra Santa”, sempre geograficamente incerta mas no fundo Paraíso Original, Pátria do Prestes João ou João Sem Terra.
A Doutrina dos Assassinos situava-se na linha do Hermetismo, da Qabalah e da Alquimia. A esta Ordem pertenceu o maior poeta do Islã: Omar Khayan.

P.: Como surgiram as ordens Templárias em nossos dias, já que a original foi dissolvida?

R.: Somente após quatrocentos anos da ‘dissolução’ da ordem, é que ocultistas europeus se interessaram pela história templária e passaram a explora-la em benefício próprio.

Mais ou menos no Século XVIII, alguns mações, tendo galgado os graus mais elevados de sua ordem, chegaram à conclusão (certa ou errada) de que as atividades dos Templários, e o fato do simbolismo dos Três Primeiros Graus da Maçonaria (Azul), centralizados na “construção” do Templo de Salomão, indicava algum elo histórico entre as duas Ordens. Assim, rapidamente surgiram numerosas fraternidade clamando-se “Templárias”. Entre estas as principais são: a Estrita Observância, a Royal Order (Escócia), e a Ordem do Templo (França), esta última usando uma versão não ortodoxa dos Evangelhos de São João.

Entretanto, esta conclusão teria sido um tanto apressada. Em minha opinião pessoal, a maçonaria nada tem a ver com os Templários, pelo menos no que diz respeito as atividades e fitos dos famosos Cavaleiros Monges. A não ser que venhamos a considerar que, na Escócia, quando alguns templários procuraram abrigo nas Lojas Maçônica, formando este elo. Entretanto, nesta época, a Maçonaria ainda era uma Associação de Pedreiros, destituída do caráter esotérico que hoje tornou-se uma de suas características.

No Brasil conhecemos duas organizações ditas templárias: A Ordem Civil e Militar dos Cavaleiros do Templo, e a Ordo Templis Orientis. Sobre a Ordem Civil e Militar não possuímos muitos dados, a não ser que teve suas atividades, em nosso país, até os anos 40, quando suas portas foram cerradas, ressurgindo em 18 de janeiro de 1985. O fundador deste ciclo é o atual Grão-Mestre Príncipe Asklepio D’Sparta.
Quando à Ordo Templi Orientis, não podemos afirmar ser realmente uma Ordem Templária nos moldes da Ordem do Templo de Salomão. As duas se distanciam, e mesmo se antagonizam grandemente em vários itens.

“Apesar de se ver hoje em dia estas e aquelas, às dezenas, todas reclamando “legalidade sucessória”, ditas “Ordens Templárias” que não passam de templistas, repletas de lúdica nostalgia e quimera, a verdade não pode passar despercebida e é muito simples: foi o Papa quem extinguiu a Ordem do Templo e só poderá ser o Papa a aprová-la novamente. Ora, isto é um fato em que só a primeira parte é verdade té o momento. Ademais, e não há a esquecer, os Templários forma reconhecidos em Duzentos, canonicamente, por bula Papal e aprovação de toda a Cúria vaticânica.

P.: Em que consiste a Ordo Templi Orientis? Quais são suas características?

R.: No sentido de responder estas questões, teremos que, antes, fornecer alguns dados sobre o Sistema Thelemita, ou Lei de Thelema, sob o qual alguns ramos da ordem se colocaram.

Thelema é um Sistema esotérico, surgido em 1904, e baseado numa suposta mensagem (chamada Liber AL vel Legis, ou Liber AL, também chamado O Livro da Lei), ditada por uma entidade præter-humana, denominada Aiwass (ou Aiwaz), ao conhecido ocultista Aleister Crowley (também conhecido como Frater Perdurabo, Therion, etc.). O recebimento desta mensagem deu-se na Cidade do Cairo, nos dias 8, 9 e 10 de Abril de 1904. A entidade afirmava ter sido, em encarnação anterior, Ankh-f-n-khonsu “Ministro” de Hoor-paar-kraat, uma divindade egípcia. O insólito acontecimento, segundo Crowley, inaugura o chamado Æon de Hórus, ou Era de Aquárius-Leo. Entretanto, segundo outros esoteristas, entre eles Vitor Manuel Adrião, e a própria astrologia tradicional, a Era Aquariana deverá ter início em 2005.

O Sistema se baseia no texto desta mensagem.

Nas palavras de Crowley: “… o conteúdo do Livro prova, de maneira estritamente científica, e demonstrável como tal, que Aiwass possui conhecimento e poder além de tudo que foi até agora associado com faculdades humanas… O livro anuncia uma Nova Lei para a humanidade… Ele substitui as sanções morais e religiosas do passado, que em toda parte se deterioraram, por um princípio válido para cada homem e mulher no mundo inteiro, e evidentemente por si mesmo” (Livro Quatro Parte IV).

A Chave de todo o Sistema está na Palavra THELEMA (VONTADE em Grego), cuja soma cabalística é 93.

Porém, uma dúvida paira sobre a veracidade da “história” de Crowley a respeito da gênesis do Livro da Lei. Crowley afirma que encontrara a Estela da Revelação (classificada sob o n. 666) no Museu de Boulaq em 1904. Mas isto é impossível, visto que em 1902 o Museu do Cairo foi inaugurado e, para esse novo Museu, que é o atual, foram transportadas todas as coleções do antigo Museu de Boulaq. Como poderia então Crowley encontrar a Estela da Revelação no Museu de Boulaq em 1904 se ele não mais existia desde 1902?

Em 1998 estive no Cairo e, certamente, em seu museu. Para minha grande frustração verifiquei que no catálogo computadorizado do Museu não consta a Estela Funerária de Ankh-f-n-khonsu.

P.: Como surgiu a Lei de Thelema no Brasil?

R.: Em 1962 – uma data memorável para muitos, e para outros o início do desastre em suas vidas – pela primeira vez o Sistema Thelemita revelou-se ao público brasileiro. A revelação deu-se através um pequeno livro intitulado “Chamando os Filhos do Sol”. Ali a Doutrina thelêmica era tratada, e com detalhes inéditos, pela primeira vez no Brasil. Além do mais, oferecia a oportunidade de se contatar o Sistema em nosso próprio país, via endereço postado no fim do livro.

Entretanto, a bem da verdade, apareceram ligeiras referências (mas totalmente deturpadas) sobre o assunto Thelema em uma muito antiga, e não mais existente, publicação mensal chamada “CABALA”. A pequena revista era distribuída sob a responsabilidade de uma organização esotérica conhecida como AGLA AVID (reparem nas iniciais deste nomes), liderada por uma mulher conhecida sob o nome de Yaradasã (nome mágico, naturalmente). Essa organização “mágica” teve efêmera existência, assim como a publicação já referida. Em determinado exemplar, eram dadas notícias muito vagas de um tal Alcister Crowley (note-se o erro na grafia do nome), tratado como líder de uma sociedade sacreta praticando magia negra usando o “poder da vontade”(isto é: Thelema). Nada mais era dito, e jamais, através este periódico, apareceu publicamente qualquer outra referência ao tal mago negro, ou sobre a tal ordem secreta.

P.: Já ouvi rumores de que a F.R.A. está inserida no Sistema de Thelema e, portanto, foi a primeira, no Brasil, a divulgar a Lei de Thelema. Isto é verdadeiro?

R.: Afirmar que a F.R.A. divulgava publicamente, e em época anterior a 1962, a Lei de Thelema é mostrar total ignorância (e muitas das vezes má fé) dos fatos e desconhecer o ambiente em que a sociedade brasileira vivia naqueles tempos no tangente ao esoterismo. A F.R.A., fundada por Krumm-Heller (Frater Huiracocha), adotava, é verdade, a Lei de Thelema; mas isto era feito de maneira bastante velada, distorcida e restrita ao ambiente de membros iniciados em graus mais elevados. Tanto isto é verdade que os rituais iniciáticos dos três graus daquela fraternidade ‘rosacruciana’, reportavam-se à Thelema de maneira muito sutil e, em sua totalidade, permaneciam dentro dos padrões maçônicos osirianos. A revista GNOSE, editada há vários anos pela F.R.A., era distribuída (ou vendida, não sei ao certo) somente a membros reconhecidamente iniciados na organização. Pelo menos foi o que me informou um antigo membro da F.R.A., o Senhor P.(infelizmente o Sr. P. faleceu recentemente). Se alguns exemplares desta publicação foram encontrados em alguma livraria ou sebo de nossa cidade, é porque quem os possuía (fosse o possuidor original, ou algum parente herdeiro deste) desejou desfazer-se deles. Eu mesmo possuo alguns exemplares editados entre 1949 e 1973. Comprei-os num sebo existente na Rua República do Líbano, há alguns anos atrás. Por coincidência em um deles encontrei um poema de Marcelo Ramos Motta, atestando que, de fato, meu falecido Instrutor fora um iniciado daquela Fraternidade.

Os dirigentes da F.R.A. temiam tanto que ficasse evidente a ligação da F.R.A. com Thelema, ou mais especificamente com Therion (Aleister Crowley) que, um retrato de Crowley, exposto aos olhos públicos nas dependências da Ordem (por volta de 1948), foi retirado. Um dos antigos membros da F.R.A. contou que, certo dia, logo após sua iniciação, tendo comentado a respeito do retrato com um membro mais antigo, este lhe dissera, demonstrando surpresa ante a pergunta, que aquele era o retrato de THERION, um dos mestres mais importantes da fraternidade. Pareceu assombrado de ver este novo membro tão ignorante a respeito e, repentinamente, não quis mais falar do assunto.

Aos que interessa encobrir a ligação de Crowley com a F.R.A., dizendo que esta ligação jamais existiu, transcrevemos aqui as próprias palavras de Krumm-Heller em “Logos Matram e Magia” – Ed. Kier S.A. – 1990: “Al iluminado maestro del invisible cuyo nombre no se debe estampar, a los maestros Basilides, Perdurabo y Recnartus…”. ora, Perdurabo não é outro senão o próprio Crowley, que usou este moto mágico em sua passagem pela Golden Dawn.

Ao morrer, Krumm-Heller legou a F.R.A. a seu filho Parzival Krumm-Heller. Entretanto, o Ramo da F.R.A. Brasileira negou-se a aceitar Parzival como líder mundial da Ordem. Nisto seguiu a linha de pensamento de S. Clymer e Samael Aun Weor.

Com respeito a Parzival Krumm-Heller existem dois detalhes interessantes. Primeiro, ele teria sido o introdutor de Marcelo Ramos Motta em Thelema. Posteriormente, apresentou Motta a seu futuro instrutor na A∴A∴, o Sr. Karl Germer (Frater Saturnus X° Ordo Templi Orientis). Segundo, por vontade de seu pai (Krumm-Heller) ele foi matriculado na famosa NAPOLA.

P.: O que vem a ser NAPOLA?

R.: A chamada Napola consistia num conjunto de escolas alemães para estudantes, entre 10 e 18 anos. Em 1941 haviam 32 dessas escolas, onde 6000 estudantes eram educados como Nacionais Socialistas (Nazis), eficientes em corpo e “mente”, para servirem o povo e o estado. Ali se formava a elite da juventude nazista. Portanto, há que se ponderar sobre as diretrizes deste “iniciado” alemão…

P.: Qual o destino de Parzival Krumm-Heller?

R.: Após muitos anos sem dar notícias, reapareceu há pouco tempo, estando agora, ao que parece, ligado ao Caliphado.

P.: Quem foi Samael Aun Weor?

R.: Era um dos discípulos de Arnold Krumm-Heller (Huiracocha) que freneticamente combatia Thelema. Chamava-se a si mesmo Buddha Maitreya, Kalki Avatara da Nova Era de Aquárius, e fundou o Movimento Gnóstico Cristão Universal que, no Brasil, obteve muitos seguidores. Seu livro “O Matrimonio Perfeito” foi bastante divulgado em nosso país

Em outro de seus inúmeros livros, “Rosa Ignea”, publicado pelo Ramo Brasileiro do Movimento, Samael Aun Weor declara o seguinte a respeito de Parzival Krumm-Heller (pag.25): “… esta magia sexual negativa, que ensina o traidor Parsival Krumm-Heller, e o sinistro Baal Omar Cherenzi Lind”

P.: Voltando a questão anterior: como surgiu a Ordo Templi Orientis, e quais suas finalidades?

R.: A Ordo Templi Orientis foi criada, segundo alguns estudiosos, no início do Século XX. Seu idealizador teria sido um alto graduado mação de nome Karl Kellner. Este mação e industrial germânico (assim é dito), em uma de suas várias viagens através da Europa, América e Ásia, contatou inúmeras organizações iniciáticas. O entusiasmo de que foi tomado nestes contatos fez nascer em Karl Kellner o desejo de criar uma Academia Maçônica de Altos Estudos, que facilitaria aos irmãos interessados se tornarem familiarizados com todos os existentes graus e sistemas maçônicos existentes no mundo. Algumas versões informam, como verdade, que ele teve contato, em uma de suas viagens, com três adeptos – um árabe e dois hindus – mas nada existe de concreto sobre o assunto.

Essa ‘estória’ de encontros com Adeptos e Chefes Secretos é muito repetitiva nos anais esotéricos de quase todos os sistemas existentes. É a mesma que encontramos na biografia de MacGregor Mathers, Blavatsky, e outros tantos, inclusive na de Aleister Crowley. De qualquer forma, a “estória”, e o nome dos três adeptos contatados, aparecem em vários comentadores. Os nomes desses adeptos são os seguintes: o árabe Soliman ben Aipha, e os dois yogis Bhima Shen Pratad e Sri Mahatma Paramahansa.

P.: Existiram mesmo estes três Adeptos?

R.: Se realmente existiram, ou se foram puramente criação da mente de Kellner, torna-se uma questão sobre a qual não temos em mãos quaisquer dados suficientes para avaliar com exatidão, a não ser o bom-senso.

P.: Quando a Ordo Templi Orientis foi realmente fundada?

R.: Supõem-se que Kellner tenha fundado a ordem em 1895. Mas se assim foi, a ordem seria então uma organização bastante seletiva e secreta, pois nada sabemos dela até 1904.

P.: Karl Kellner trabalhou sozinho nesta empreitada?

R.: John Yarker, Cabeça de vários ritos pseudo-maçônicos, patenteou três ocultistas alemães com o intuito de estabelecer na Alemanha uma Grande Loja trabalhando no ANTIGO E PRIMITIVO RITO DE MENPHIS E MIZRAIN, E NO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO DE CERNEAU. Estes três ocultistas foram Theodor Reuss, Franz Hartmann e Klein.

A Grande Loja foi fundada e imediatamente foi publicado um periódico informativo chamado ORIFLAMME, tratando de assuntos maçônicos e ocultos.

Em 1904, este periódico anuncia a Ordo Templi Orientis liderada por Kellner. É de se deduzir que ele teve a ajuda desses ocultistas.

P.: A Ordo Templi Orientis sempre foi ligada ao Sistema Thelêmico?

R.: Não! A história é aproximadamente a seguinte: Com a morte de Karl Kellner, a liderança da ordem passou para as mãos de Theodor Reuss. Esse Theodor Reuss possuía um caráter bastante singular. Era agente pago pelo Serviço Secreto Alemão. Algumas vezes apresentava-se como ardente seguidor do Socialismo marxista. Usando esse disfarce, infiltrou-se no Movimento Socialista Britânico, e ali passou a espionar a filha de Karl Max. Finalmente, sob suspeitas foi expulso da Liga Socialista.

Sob a liderança de Theodor Reuss, a Ordo Templi Orientis experimentou modesto sucesso, patenteando irmandades ocultas na França, Dinamarca, Suíça, América do Norte e Áustria. A Patente de Papus é dessa época.

A entrada de Crowley na ordem deu-se de maneira ainda não bem esclarecida, devido as várias versões existentes. Provavelmente ele já era membro do VI° desde 1910 (Crowley pertencia a inúmeras Ordens Secretas e maçônicas. A Ordo Templi Orientis era uma delas, a qual ele julgava ser uma Ordem maçônica a mais.), quando Reuss o encontrou pela primeira vez. Mas não existe qualquer documentação comprovando a respeito deste ingresso anterior a seu encontro com Reuss. De uma maneira ou de outra, Crowley, “por convite de Reuss”, ingressou diretamente no IX° em 1912, tornando-se “SUPREMO E SAGRADO REI DA IRLANDA, E DE TODOS OS BRITÂNICOS NO SOBERANO SANTUÁRIO DA GNOSIS”.

Este Ramo da Ordem, liderado por Crowley, denominava-se MYSTERIA MYSTICA MAXIMA.

Crowley que já havia, em 1904, recebido Liber AL vel Legis, dando início ao Movimento Thelêmico no mundo, iniciou a utilizar-se da Ordo Templi Orientis como veículo para divulgação do Sistema. Certos autores afirmam que Reuss foi contrário a esta iniciativa de Crowley, proibindo-o de fazê-la. Não deveria misturar Thelema com a Ordo Templi Orientis Mas como Crowley insistiu em prosseguir neste caminho, é dito que Reuss o expulsou da Ordem. Suponho que um estudo mais demorado e imparcial deveria ser feito para podermos chegar a uma conclusão definitiva deste tópico. Mas, de qualquer forma, existem certos escritos de Reuss em que a separação entre Crowley e ele encontra-se implícita.

Em 1921 Theodor Reuss deu uma Patente da Ordo Templi Orientis a S. Lewis, e em 1930 S. Lewis alia-se a outro ocultista alemão chamado H. Tranker (1880-1956). H. Tranker nomeia a si próprio como sucessor de Theodor Reuss na liderança da Ordo Templi Orientis. Usando o moto mágico Recnartus, Tranker funda a Societas Pansophia. Em seguida, ele e Lewis criam a sede Internacional do Supremo Conselho da AMORC, na cidade de Berlim. A partir disso, Lewis inicia a propalar suas ligações com os rosa-cruzes germânicos.

P.: Como pode Crowley ingressar na Ordem diretamente no IX°? Não seria isto contrario as normas da Ordo Templi Orientis?

R.: Não. Em primeiro lugar existe uma tradição na Ordem que permite isto. Todo e qualquer homem ou mulher que “descubra, por si mesmo, o Segredo Central da Ordem, ou toma posse, ou recebe, por qualquer circunstância, Liber C vel AGAPE, automaticamente recebe o grau. Isto aconteceu com vários membros da Ordem, entre os quais citamos: Frater Hymenæus Alpha, Frater Parzival, Frater Aster, Frater Quif, Frater Iskurus e outros.

Em segundo, no caso de Crowley, ele havia publicado o segredo em “THE BOOK OF LIES[3]”, demonstrando conhece-lo profundamente.

P.: Como se seguiu a Sucessão na Ordo Templi Orientis?

R.: Tudo indica que em 1921, Theodor Reuss abdicara seu posto de Líder da Ordem (O.H.O.) em favor de Crowley, ou mais corretamente em favor de Frater Baphomet (moto mágico de Crowley), fazendo dele o líder mundial da Ordem. Este também é um assunto bastante discutido. Existem afirmativas de que Reuss abdicara à seu posto por imposições de um atentado. E neste ponto começam as discussões até hoje não resolvidas, mesmo por Líderes dos vários Ramos da Ordo Templi Orientis existentes no mundo.

P.: Por quem e por que, Theodor Reuss fora ameaçado?

R.: Até hoje este ponto também não foi esclarecido. Em vários livros somos informados que ele, aparentemente executara um tático retiro, devido a recusa de várias Loja Alemães em aceitar o Livro da Lei como Canon da Ordem, mais explicitamente o Terceiro Capítulo. Porém, em outros lugares é informado que isto não corresponde à verdade, e que Theodor Reuss, em 1920 – época em que é dito ter sido o atentado – ele estava participando de um Congresso Maçônico em Zurich. Além do mais, Crowley, em seu Diário Mágico de 1921, diz textualmente: “Eu proclamei a mim mesmo O.H.O.”. E em carta dirigida a Heinrich Tranker (1924), Crowley, admite que Reuss em tempo algum o houvera escolhido como sucessor na Ordem.

P.: Como, então, após estes fatos, prosseguiu a sucessão na Ordem?

R.: Seja qual for a história, a liderança da Ordo Templi Orientis não mudou de mãos facilmente. Grande parte das Lojas Germânicas e de outros países, ergueram-se em forte oposição a Crowley. Algumas delas desejavam simplesmente trilhar seus próprios caminhos. E isto era um direito delas. Outras romperam definitivamente com Thelema devido, como acima dito, ao Livro da Lei. A maior oposição às mudanças thelemitas, partiram dos membros germânicos, cujo Ramo, ao que parece, caíra sob controle de Heinrich Tranker.

P.: Nada foi feito para mudar este cenário?

R.: Evidentemente. O problema cada vez mais se agravava quando, em 1925, Crowley, Lea Hirsig, Dorothy Olsen e Normann Mudd, reuniram-se com Tranker, Helena Grau (esposa de Tranker), Eugene Grosh, Karl Germer, Martha Kuntzel. Hopfer, Birven e outros líderes ocultistas da época. O propósito desta reunião – conhecida como “Conferência de Weida” – era discutir a aceitação ou rejeição da Lei de Thelema, e a discussão da possibilidade de unirem-se várias facções ocultas sob a chefia de THERION (Aleister Crowley).

P.: Chegaram a um acordo?

R.: Infelizmente não. O resultado desta Conferência foi aquele que todos esperaríamos: Grosh, Kuntzel, Karl Germer, Lea Hisig e Normann Mudd colocaram-se ao lado de Crowley. Grau, Hopfer, e outros mais, ficaram com Tranker. Assim, a Ordo Templi Orientis mais uma vez sofria divisão. Realmente, a ação da Loja Negra estava bastante fortalecida.

P.: Como continuou a Ordem após esta divisão?

R.: Crowley continuou a liderar o Ramo Inglês. Com sua morte em 1947, este Ramo passou às mãos de Karl Germer (Frater Saturnus) o qual, após a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para os Estados Unidos da América. Germer reduziu drasticamente o número de iniciações na Ordem, passando a dedicar-se tão somente à publicação das obras de Crowley. Ao que nos parece, este era seu plano para dissolver definitivamente a Ordem da maneira como se apresentava e estava estruturada. Mas esta é apenas uma opinião pessoal minha, que não deve ser aceita a priori.

P.: Por que você pensa assim? Em que se baseia esta opinião?

R.: Crowley, como dito, morreu em 1947 (ataque cardíaco) sem nomear claramente seu herdeiro ou sucessor. Nos últimos anos de sua vida, seu braço direito era Karl Germer. Crowley havia iniciado Germer diretamente ao IX° Ordo Templi Orientis sem que ele tivesse passagem pelos graus mais baixos. Já expliquei como pode ser isto.

Torna-se bastante curioso que, embora Crowley visse Germer como sendo seu sucessor, ele não se deu ao trabalho de treiná-lo para a posição de líder da Ordem, e nem mesmo se preocupou se Germer queria ou não o cargo. Crowley, ao morrer, deixou para trás um confuso estado de coisas com respeito à Ordem e sua própria sucessão na liderança dela. Embora fosse seu desejo que Germer o sucedesse, este sentiu-se não estar capacitado para o trabalho, e declinou tornar-se o O.H.O. – uma posição bem diferente daqueles que vieram depois dele – assim preferiu permanecer como Grande Tesoureiro Geral da Ordem, assumindo o papel de curador de uma ordem que estava efetivamente inativa, com exceção das Lojas que se recusaram a seguir Crowley e ao Livro da Lei.

Nos anos seguintes à morte de Crowley, a Ordo Templi Orientis estava sem comando e em total desordem. Algumas Lojas ainda tentaram permanecer ativas, mas em pouco tempo fecharam.

Substanciando a recusa de Germer em assumir o cargo de Líder Mundial, transcrevo alguns trechos de cartas escritas por ele e dirigidas a Kenneth Grant, na época ainda não expulso da Ordo Templi Orientis Kenneth Grant foi expulso através uma carta (registrada) enviada por Germer em 20 de julho de 1955. Mas, particularmente, duvido que Germer tivesse o direito de expulsar K. Grant.

Em 24 de setembro de 1948, Germer escreve o seguinte a K. Grant:

“… você deve estudar tudo que está publicado a respeito da Constituição, etc., da Ordo Templi Orientis Você deve saber que eu não sou o O.H.O. Não sei sequer se devo aceitar o trabalho se ele me for imposto…” (os grifos são meus).

Fica bastante claro, do acima, que o trabalho ainda não lhe fora imposto, e que ele estava relutante em ser recrutado para o cargo. Em outra carta datada de 25 de maio de 1951, está escrito:

“… Em primeiro lugar, não se dirija a mim como seu superior. Isto é verdade em um estrito e limitado senso. O que eu pareço ser na Ordo Templi Orientis me foi empurrado contra minha vontade. Eu farei o que posso, mas recuso fazer declarações que vão contra minha índole. Estritamente falando eu sou o Grande Tesoureiro Geral da Ordo Templi Orientis nem mais nem menos! A total situação clama por alguém que tenha a vontade e a firmeza e a capacidade para crescer como líder supremo. Se ele aparecer terá meu total apoio. Mas pessoalmente não irei clamar falsas pretensões. Já disse a todos que nunca aprendi os Rituais, nem os vi serem executados; nem mesmo a Missa; em resumo, não tenho qualquer atração para organização da ordem.” (os grifos são meus).

Germer repetia constantemente não ser o O.H.O., e que nem deseja ser, e sentia-se inadequado para o cargo. Ele era um Mestre de Templo da A∴A∴ e, como tal, avesso à ordens maçônicas. Além do mais, tinha a intuição no que dão estas ordens…

Em 18 de janeiro de 1952, escreveu:

“… Eu nunca passei sistematicamente pelos graus, etc. Portanto, não posso instruí-lo neste particular trabalho…”.

E mais adiante, na mesma carta, estende-se:

“… você me pergunta: o que está acontecendo com a Ordo Templi Orientis… Não existe uma Loja ativa, nos USA, da Ordo Templi Orientis”.

Como se pode constatar, está mais do que evidente que Germer jamais se considerou o O.H.O. da Ordem. E surpreendente de como existem pessoas repetidamente (e teimosamente) afirmando isto: de que Germer era o Cabeça Externa da Ordem. Germer literalmente desprezava estes cargos, títulos, comendas e graus puramente formais. Mas atualmente, existem grupos de beócios lutando entre si exatamente pela “posse” desses cargos, títulos, etc.. É de rir, se eu tivesse tempo para isto.

P.: Por que houve tanta confusão na Ordo Templi Orientis thelêmica após a morte de Germer?

R.: Seguindo a morte de Germer (1962), e precisamente em virtude de seu dúbio testamento (esta é para mim mais uma prova de que Germer tencionava, por motivos e razões além da minha percepção, que a ordem, como se apresentava, fosse dissolvida), a confusão na Ordem foi total e, em consequência vários líderes se apresentaram como genuínos O.H.O.s, querendo assumir a liderança mundial. Já declarei, em outros lugares, minha opinião particular sobre o testamento de Germer. Entretanto, chamo a atenção para a falta de precisão do mesmo. Como poderia Germer deixar os bens da ordem para “os Cabeças da Ordem” (a palavra cabeça, em Inglês (Head) está escrita, no Testamento, no plural – Heads), se na realidade só pode existir uma Cabeça? Não me conformo com a estapafúrdia versão de que Germer teria confundido O.H.O. (Outer Head of the Order – Cabeça Externa da Ordem) com “Kings” (Kings of the Order – Reis da Ordem). Isso seria considerar Germer um perfeito analfabeto na língua inglesa, e sem nenhum conhecimento sobre os Estatutos da Ordo Templi Orientis Isto é um absurdo. Reis podem existir vários, cada qual reinando em seu país. Mas O.H.O. só pode existir UM. Germer jamais teria trocado os cargos. Por que, então, ele escreveu Heads (Cabeças). Qual foi sua intenção ao escrever isto? Não sabemos… talvez.

P.: Percebo ser este um problema bastante intricado. Mas, diga-me, quais foram os que reivindicaram o cargo?

R.: Na Inglaterra, Kenneth Grant assume publicamente o título e, para isto, emite um Manifesto. Sua primeira medida é dissolver a estrutura maçônica da Ordem e reformular sua particular visão da Ordo Templi Orientis.

Kenneth Grant fora patenteado em 1951 ou 1952, para trabalhar com os Três Primeiros Graus da Ordem. Tudo ia bem entre ele e Germer até 1955, quando Grant fundou uma Loja (Loja Nova Isis) trabalhando com Onze Graus, e cujos rituais foram elaborados por ele próprio. Em seguida publica o manifesto acima citado, enviando cópia a Germer, mas recusando-se a enviar cópias dos Rituais, alegando que poderiam ser manuseados por mãos indevidas. Em virtude disso sua expulsão, etc. Mas Grant jamais levou a sério esta expulsão e continuou seu trabalho independente.

Kenneth Grant, considera a Ordo Templi Orientis como tendo suas origens em uma certa “Tradição Estelar”. Esta Tradição, segundo ele, teria sido mantida através dos séculos, desde a Antiguidade Egípcia (existem também certas veladas referências à Atlântida, Lemúria, e a seres do Espaço Exterior.). Em 1955, Grant, anuncia através seu Manifesto a “descoberta” de um planeta transplutaniano, ao qual denominou ISIS.

A Ordo Templi Orientis reformulada por K. Grant é atualmente conhecida por Ordo Templi Orientis Typhoniana, e confere iniciação sem o uso de rituais. O que, sob meu ponto de vista, constitui um avanço. Na realidade, ele transformou a Ordo Templi Orientis numa ordem seguindo as diretrizes da A∴A∴.

É necessário dizer-se que a Ordo Templi Orientis Typhoniana não cobra sequer um centavo para iniciar, ou solicita qualquer outra contribuição. Sua integridade neste ponto (iniciático) é absoluta.

P.: Por que você diz que Sr. Kennet Grant, talvez, não pudesse ser expulso por Germer?

R.: Pelo simples fato de ele era, na época, um IXº Ordo Templi Orientis. E, assim sendo, somente poderia ser expulso por um tribunal constituído pelos Reis Mundiais. Seguindo com a lista dos reinvindicantes temos:

Na Suíça, Hermann Metzger que foi, segundo alguns autores, ilegalmente eleito O.H.O. por seus seguidores, isto é, por membros de sua própria Loja.

Metzger fora iniciado na Ordem (Mysteria Mystica Veritas) em plena Segunda Guerra Mundial. Foi estudante de um dos sobreviventes membros da Ordo Templi Orientis Suiça, liderada por Theodor Reuss.

Em 1940, Germer, o iniciou no Sistema Thelemita. Metzger trabalhou durante vários anos seguidos sob a supervisão de Frederic Mellinger, alto graduado da Ordem. É de nosso conhecimento que Germer acalentou grandes esperanças em Metzger. Não obstante, muitas dessas esperanças não foram realizadas senão após a morte de Germer. No correr dos anos ele recebeu outras nomeações: Grão-Mestre da Ordo Illuminatorum, Grão-Mestre da Fraternitas Rosicruciana Antiqua para a Suíça, e Patriarca da Igreja Católica Gnóstica.

Theodor Reuss e Engel foram os fundadores da Ordo Illuminatorum, mas se separaram em 1902. O primeiro uniu-se a Hertmann e Klein, o outro permaneceu na Ordo Illuminatorum até 1931, quando faleceu. Seu lugar foi ocupado por um tal Mier.

Quando Metzger se fez votar Cabeça Externa, o fato não foi comunicado a seu superior hierárquico (Frederic Mellinger), a não ser tardia e indiretamente. Mellinger como co-executor do testamento de Germer para assuntos ligados à Ordo Templi Orientis, nada pode fazer para reparar o ato de Metzger, muito embora o tenha tentado. É extremamente improvável que possamos desfazer certas iniciativas neste particular campo. Qualquer um, e a qualquer momento, pode se dizer O.H.O. da Ordo Templi Orientis ou o mais graduado ser vivente na A∴A∴, sem que alguém possa fazer qualquer coisa a respeito. Mas que esta pessoa assuma as consequências de seus atos e declarações. Vemos que, mesmo expulso da Ordo Templi Orientis, K. Grant, prosseguiu a se apresentar como membro e Líder da Ordem. Isto perdura até hoje, e nada pode ser feito. Nenhum tribunal do mundo externo tem poder para impedir isto. No caso de Metzger, o problema complica muito mais, porque além de ser um Alto Graduado na Ordem, ele possuía outros títulos dando-lhe respaldo.

Metzger é apresentado por Marcelo Motta como um desses tolos que se auto convenceram de ser o “Filho Mágico” prometido em AL. Em carta, datada de 23 de março de 1965, Frater Parzival (M.R.M.), procura mostrar à aquele irmão a tolice de sua pretensão. Se Metzger deu ou não ouvido às palavras de Parzival nós não sabemos. Entretanto, o próprio Marcelo Motta, por sua vez, assume ser este ‘Filho Mágico’. É tudo questão de ponto de vista ou, no dizer de muitos, bastante confuso…

Nos Estados Unidos da América, surge Grady McMurtry – Hymenæus Alpha[4] (O Tolo do Casamento, como lhe apelidara Crowley, em seu contundente humor).
É bastante estranho que McMurtry só soube da morte de Germer após passados sete meses do desenlace. Disso, somente podemos concluir três coisas: ou ele não dava a mínima para seu Superior, ou não estava tão “ligado” à Ordem, ou que a Ordo Templi Orientis nos USA se encontrava, na época, totalmente desorganizada, ou em estado de dormência.

McMurtry fora iniciado na famosa “Loja Agape”. Sendo oficial do Exército Norte Americano durante a Segunda Guerra Mundial, embarcou para a Inglaterra a serviço. Encontrando-se com Crowley, esse lhe transmitiu o Segredo Central da Ordem, fazendo-o membro do IX (1946).

Em consequência da morte de Germer, McMurtry usou duas “cartas de emergência” a ele dadas por Crowley, proclamando-se “Calipha” e líder mundial da Ordem.

Existe uma versão afirmando que McMurtry comprara a Patente do Nono Grau. Isto não deve escandalizar ninguém. Era uma ocorrência comum nas diversas ordens maçônicas existentes. Na própria maçonaria ortodoxa o fato era comum (compra de Patente). Temos, entretanto, dúvidas que Crowley tenha concordado com esta “venda”, mesmo que devesse alguma coisa a McMurtry, como afirmado por vários autores. Mas se a venda foi realizada, então poderíamos deduzir haver, por detrás dos bastidores, algo muito importante para que Crowley assim o fizesse.

Porém, em toda esta história o que nos chama mais a atenção é o fato de que McMurtry só tenha tido notícias da morte de Germer, após passados sete meses. A notícia lhe foi dada por Mildred Burligame. Mas em 1985, McMurtry mente ao afirmar, perante o Juiz da Corte da Califórnia, que estando em Washington, D.C., somente foi informado da morte de Germer em 1968.

No Haiti.

Em 1963, Jean Maine encontrou-se com Michael Bertieux e o introduz na Ordo Templi Orientis, encarregando-o de organizar um Ramo da Ordem nos Estados Unidos da América totalmente independente daquele que fora liderado por Germer, até 1962, e na América do Sul. Michael Bertieux era líder de uma organização “secreta” chamada “Monastério dos Sete Raios”, que inclui o “Culto da Serpente Negra” (La Couleuvre Noire); um tipo de Voodoo. A este adepto, Kenneth Grant ligou-se recentemente. Aqui podemos observar o quanto a Ordo Templi Orientis tornou-se terra da ninguém.

Neste mesmo ano, e devido ao estado de Ortier, Jean Maine é consagrado Patriarca e Chefe da Ordo Templi Orientis A. (Ordo Templi Orientis Antiqua), e em 1970 passa o cargo a Bertieux. Mais uma Ordo Templi Orientis surge, agora com um “A” acrescentado à sigla.

No Canadá, um dos mais expressivos discípulos de Crowley, C. Jones (Frater Achad), já havia sido iniciado na Ordo Templi Orientis, e em 1948, um ano após a morte de Crowley, e baseando-se no desenvolvimento de suas próprias pesquisas do Livro da Lei, anuncia o AEON de MAAT – quarenta anos após o Equinócio dos Deuses anunciado por Crowley em 1904, quando Aiwass proclamou o nascimento do Novo Æon, o qual deveria durar aproximadamente 2.000 anos. Frater Achad denominou a Nova Era de MA-ION, o Æon de Verdade e Justiça.

Achad firmou sua teoria de Ma-Ion sobre uma ‘revelação’ a qual, ele afirma, encontrara no próprio Livro da Lei – exatamente no último verso do Cap. I. As circunstâncias envolvendo esta história são demasiadamente técnicas para serem aqui discutidas. Mas, de certa forma, são bastante importantes para thelemitas.

Há de se convir que Frater Achad estava completamente obcecado pela ideia de ser um novo messias, bastante potente para redimir o homem de suas calamidades advindas do Æon de Hórus, as quais, a julgar por sua correspondência particular, Achad, atribuía à maquinações de Aiwass. Após uma certa época, Achad passou a considerar Aiwass como um demônio.

Tudo indica que Achad tentara a “Atravessia do Abismo”, e que depois disto apresentou fortes características de loucura. Mas esta é outra história que prefiro discutir em outra ocasião. O importante é que muitos aderiram às teorias de Achad e, assim, criaram um novo Ramo da Ordo Templi Orientis seguindo os preceitos do Æon de Maat. Kenneth Grant apendeu à sua organização um grupo destinado a desenvolver-se nestas linhas. Isto, e mais outras coisas, resultou no “Culto de Lam”, no qual os “deuses lovecraftianos” são cultuados.

Achad fora patenteado por Theodor Reuss, não por Crowley, como julgado por muitos. Ele era um dos IX°, juntamente com Crowley e Tranker. O mais importante fato de sua carreira é que descobriu a Chave do Livro da Lei, e considerado, pelo próprio Crowley, seu Filho Mágico.

No Brasil, Marcelo Ramos Motta (Frater Parzival XI), dileto discípulo de Germer, desconsidera Kenneth Grant como o O.H.O., separa-se do inglês, funda uma Loja, proclamando-se Líder Mundial da Ordem e sucessor direto de Germer, baseando-se nas últimas palavras ditas por Germer, em seu leito de morte. Estas palavras lhe foram transmitidas por Sascha. Germer (esposa de Germer) em uma carta datada de 30 de outubro de 1962:

“A Marcelo Motta:

Nosso amado mestre está morto.

Ele sucumbiu a 25 de outubro às 22hs 55min em horríveis circunstâncias.

Você é o seguidor[5].

Por favor aceite isto de mim, pois ele morreu em meus braços e foi sua última vontade.”

Muito mais tarde, Marcelo Motta vê-se obrigado a mudar o nome de sua organização de Ordo Templi Orientis para S. Ordo Templi Orientis – Sociedade Ordo Templi Orientis (com filiais nos Estados Unidos da América e Austrália) por motivos jurídicos.

Marcelo Motta morreu em 1987 na Cidade de Teresópolis (Estado do Rio de janeiro). Morreu só. Seu corpo somente foi encontrado, pela faxineira, um dia após seu falecimento. Seus restos mortais jazem no cemitério daquela cidade serrana. Segundo informações por mim obtidas de seus vizinhos, foi uma mulher quem cuidou de todas as despesas do funeral. Não obtivemos a identificação desta mulher. Porém, devido a certos fatos ocorridos recentemente, sabemos agora que esta mulher era Claudia Cannuto (Soror K.A.).

Estes são, sumariamente, os eventos ocorridos após a morte de Germer.

P.: Após a morte de Marcelo Motta no Brasil e McMurtry nos Estados Unidos da América, como ficou a Ordo Templi Orientis?

R.: Como é de seu conhecimento, meu interesse pelo Ocultismo (ou Esoterismo, use a palavra que mais lhe aprouver) remonta à minha juventude, quando tive a oportunidade de ler vários autores, dentre os quais destaco: Eliphas Levi, Blavatsky, Lytton, Krumm-Heller, Annie Besant, Papus, Prentice Mulford, Jorge Adoun, etc. Também é desta época minha atração pelas ordens secretas: Rosa Cruz, Maçonaria, e outras mais. Neste caminho iniciei-me na Maçonaria (Grande Oriente do Brasil), na FRA, na Sociedade Teosófica Brasileira, na Ordo Templi Orientis e, finalmente na A∴A∴.

Meu primeiro contato com o Thelema deu-se em inícios da década dos anos sessenta, ao ler “CHAMANDO OS FILHOS DO SOL”, da autoria de Marcelo Ramos Motta – sendo a primeira publicação brasileira tratando da Lei de Thelema abertamente, e apresentando as organizações vinculadas ao Sistema. Neste livro, Marcelo Motta apresentava-se como Præmonstrator da A∴A∴, uma das mais importante ordens iniciáticas inserida no Sistema.

Atraído pelo conteúdo do livro, escrevi imediatamente ao autor, solicitando minha filiação em uma das ordens ali apresentadas. O resto da história você conhece muito bem.

Permaneci sob instrução de Marcelo Motta até 1975, quando fui – suspenso da Ordem por “má conduta” (veja “Equinócio dos Deuses” – Sendo O Equinócio no Brasil Nota Final – pag. 153 e 154 – 1976). Desligado do Ramo de Marcelo Motta liguei-me ao Ramo Inglês de Kenneth Grant com o qual, tempos antes, havia entrado em contato através do próprio Marcelo Motta. Isto parece ser uma ironia do destino…
Mais à frente filiei-me ao Ramo Americano, liderado por Hymenæus Beta. Minha permanência com Grant não foi duradoura. Eu ainda pensava, na época, que a Ordem constituía um só bloco. Mais tarde percebendo o que se passava, e não concordando com as atitudes de Kenneth Grant, afastei-me de sua organização, dando ensejo que ele me enviasse um manifesto, no qual registrava meu desligamento da Ordo Templi Orientis Typhoniana (1992).

Já em 1975, fundara a Sociedade Novo Æon, e com esta organização iniciei a divulgar Thelema no Brasil dentro de minhas possibilidades. Neste tempo o Caliphado ainda era desconhecido em nosso país. Em 1995 iniciei-me naquele Ramo, com o qual mantive relações até 1996, quando pedi meu desligamento, devolvendo minha Patente. Duas razões me fizeram tomar esta atitude: primeiro, minha iniciação fora realizada utilizando os rituais da Ordo Templi Orientis publicados por Francis King. Desiludido com, e conhecendo as implicações, deste fato, vi-me no direito de desligar-me do Caliphado; segundo: não concordei com a nomeação do Sr. Marcelo Santos como Mestre do Acampamento. Esta nomeação deveria ter sido oferecida a outra pessoa – assim eu julgava na época. Mas hoje percebo o erro desta minha atitude com relação ao Sr. M. Santos (Frater I.).

Diante de todos estes acontecimento assumi, por moto próprio, a posição de Frater Superior para o Brasil, prossegui meu trabalho de divulgação da Ordem utilizando-me da Sociedade Novo Æon como base material. Era um direito que me cabia como IXº Ordo Templi Orientis, Zelator da A∴A∴, e Iniciado da Ordem de Thelema. Em 1966, juntamente com outros Frati e Sorores que permaneceram ao meu lado, criei a O.C.T. (Ordem dos Cavaleiro de Thelema), uma ordem trabalhando no sistema maçônico, mas com Rituais elaborados por Marcelo Ramos Motta, nos anos 70. Neste trabalho adotamos algumas ideias de Frater Achad e de Jack Parsons, por julga-las de interesse para a Ordem e estando dentro das diretrizes Thelemitas. Alguns rituais foram modificados, reformulados dentro da Lei de Thelema e seguindo observações particulares, a mim dadas, por Frater Parzival.

P.: Marcelo Motta teve outros seguidores?

R.: Claro que sim. É um engano pensar que fui o único discípulo dele no período entre 1962 e 1976. Ao falecer deixou três sucessores. Um deles foi B. Stone que, segundo soube, através uma particular correspondência entre nós, prosseguiu, ao que parece, o trabalho da A∴A∴ nos Estados Unidos da América. Outro, chamado Willian Barden, emigrou para a Austrália, criando a Fundação Parzival XIº. Segundo informações de pessoa abalizada, Willian Barden é um louco. Convenceu ao grupo remanescente da S. Ordo Templi Orientis a segui-lo. Usando das prerrogativas a ele concedidas por este grupo, vendeu indevidamente uma grande quantidade de obras de Marcelo Motta estocadas no Brasil, sob custódia da Loja Nuit. Tardiamente os integrantes desta Loja descobriram a fraude. Mas a estas alturas, ele já conseguira eleger-se “Supervisor Geral” e passou a exercer sua ‘autoridade”.

O terceiro herdeiro foi Claudia Cannuto, uma valorosa Soror que acompanhou Marcelo Motta até a morte dele. Claudia Cannuto é uma Adepta da Grande Ordem e IXº Ordo Templi Orientis. Claudia abriu mão de sua nomeação como herdeira, afastou-se e, atualmente, seu paradeiro é “desconhecido”.

Mas há um quarto herdeiro no Brasil, do qual pouco se conhece, mas que tem seguido criteriosamente os passos do Instrutor. Para salvaguardar sua privacidade e localização, mantendo-o fora do alcance mágico de nossos inimigos, nada mais sobre ele será dito aqui, a não ser que pertence a um Alto Grau da Grande Ordem e é um Xº Ordo Templi Orientis Seu principal trabalho é restaurar uma verdadeira Ordo Templi Orientis Brasileira, a despeito de tudo contra.

Recentemente, e proveniente de evadidos do Ramo de Frater A., apareceu uma organização totalmente acéfala, que nada tem a ver com a Ordo Templi Orientis e muito menos com Thelema. Felizmente, este grupo foi diluído como, aliás, previsto por Frater M..

P.: Como você vê a Ordo Templi Orientis atualmente?

R.: Me parece que em alguns Ramos da Ordem está em andamento um processo de transmutação e ressurreição em planos mais elevados. A responsabilidade pró ou contra esta transmutação deverá, conforme o caso, cair sobre seus dirigentes. Porém, também tenho observado que outros Ramos se curvaram ante os ataques da Loja Negra (por favor, não confundir com Fraternidade Negra, que é coisa bem diferente.).

P.: Pode explicar?

R.: Quando a Espada do Islam ergueu-se na “Terra Santa” contra as conquistas da Igreja de Roma, algumas sociedades secretas, mascarando-se como organizações místicas, absorveram o conhecimento Harraniano, e aliaram-se, secretamente, à Loja Negra.
Tanto os Templários quanto os Cavaleiros de Hassan-i-Sabah (mais conhecidos como “Os Assassinos”) deram intenso combate a estas ordens demoníacas. Entretanto, grupos destes Cavaleiros foram infiltrados e influenciados por discípulos da “Grande Feitiçaria” que, eventualmente, deram início a uma Sociedade Magica puramente cristista.

Anos após as Cruzadas, o Rei Felipe de França, ao ser-lhe negado ingresso na Ordem do Templo, ingressou nas fileiras desta Ordem Negra e conseguiu destruir, em parte, os Templários, com a evidente ajuda de Roma.

Conseguido seu intento, os Agentes da Grande Feitiçaria, fundaram organizações maçônicas espúrias, e iniciaram uma campanha mundial contra as Reais Fraternidades, penetrando em várias delas, aproveitando-se da fraqueza de seus líderes. Esta campanha já vinha de longas eras, tornando-se mais aguerrida e potente durante o período histórico chamado de Idade Negra. A Santa Inquisição representou um dos braços mais forte desta Fraternidade.

A Loja Negra usa métodos derivados da Grande Ordem para confundir os incautos, e finge aceitar Liber AL vel Legis, mas o repudiam e deturpam tanto quanto a Liber OZ, ao qual condicionam certas “explicações” e “comentos” claramente fundamentados em conceitos crististas. É a isto que chamo thelemismo.

Nos últimos anos, a deterioração das ordens e fraternidades ditas secretas, liga-se diretamente ao nível espiritual alcançado por seus líderes. Tudo aquilo que estes líderes, por falta de uma base fundamentada no tangente às suas qualidades morais, éticas e maior ou menor abertura à penetração dos agentes da Loja Negra, deixaram de fazer em prol de suas ordens e membros das mesmas, começa agora a dar seus frutos. Não compreendem estes líderes que, assim agindo, abrem uma porta para que aquela maldita Ordem Negra penetre no “círculo mágico de suas organizações” grandemente enfraquecidas por suas próprias ações.

Assim, o movimento esotérico que necessita, antes de tudo, qualidade ao invés de quantidade, transformou-se em superstição, embromação e diletantismo de tolos. Recentes acontecimentos mostram a exatidão desta afirmativa.

A gravidade do momento deve nos fazer pensar e repensar sobre as causas que nos levou a uma tal situação, e de que forma deveríamos agir para, no futuro, evitar uma maior catástrofe – se isto ainda for possível dentro do quadro atual.

P.: Poderia fornecer algum outro elemento contribuindo para esta situação, principalmente na Ordo Templi Orientis?

R.: Há algum tempo atrás, um conhecido, mas não muito estimado, ocultista ligado ao Sistema Thelêmico, alertava a todos para o fato de que se aquela Ordem insistisse em manter, em sua estrutura, o esquema maçônico osiriano, ela estaria fadada ao fracasso total. E nisso ele estava perfeitamente sintonizado com o pensamento de Crowley, quando este escreveu a Karl Germer em carta datada de 14 de março de 1942:

“Eu o indicarei meu sucessor com o O.H.O. mas em especiais termos. Está bastante claro para mim de que uma completa mudança na estrutura da Ordem, e em seus métodos é necessária…”

É verdadeiro que o próprio Crowley tentou encetar uma nova estrutura no Ramo da Ordem sob a liderança dele, mas não conseguiu desvencilhar-se da estrutura maçônica, com seus aparatos, patentes, sinais secretos, palavras de passe, rituais conferindo graus, etc..

De fato, muitos dos aspectos do Novo Sistema foi infundido nos novos rituais dos diversos graus, mas a influência maçônica não foi totalmente retirada, infelizmente.

P.: Por que isto aconteceu?

R.: Está bastante claro o motivo pelo qual esta influência maçônica osiriana permaneceu. Durante os últimos anos do Século XIX, e nos primeiros do atual, quando o “moderno renascimento do ocultismo” parece ter ganho ímpeto, muitos dos grupos ocultistas surgidos, foram iniciados por homens fortemente ligados à maçonaria osiriana. Também é fato de que a grande maioria dos líderes dessas organizações eram mações, carregando com eles preocupações com patentes, graus, palavra de passe, palavras secretas, sinais, etc.. tudo como mandado pelo figurino da maçonaria. Ora, você deve convir que qualquer estrutura de graus é – ou deveria ser – puramente funcional. Seria simplesmente um meio de progresso ordenado através de um curso de trabalho. Mas este é um meio arcaico. Além do mais, os graus funcionais são vistos como reais afirmações de um “status espiritual”, o que não são na realidade. E se pessoas se atêm a estes conceitos antigos, então seria de bom senso suprimir-se este esquema de degraus.

Ninguém pode desconhecer o incontestável fato de que o próprio Crowley estava, ele mesmo, profundamente, imerso no antigo e patriarcal esquema do Æon de Osíris. Ele, como a maioria dos ocultistas de então, era produto desse esquema e, parece-me ter sido incapaz de livrar-se da ideia estrutural do Antigo Æon. Você poderá perfeitamente constatar isto ao observar atentamente a limitada renovação da Ordem, efetuada por ele, ao assumir a liderança da lojas que aceitaram o Sistema Thelemita, como base para seus trabalhos. Mais tarde, vendo o erro cometido, ele tentou reformar tudo, mas lhe restava pouco tempo. Daí a carta à Germer. Germer, por seu lado, sentiu a grande dificuldade do trabalho e, talvez, como seria infrutífera a tentativa. Além do mais, não estava muito interessado na Ordo Templi Orientis, como todos nós sabemos. Tire suas próprias conclusões a respeito disto, e tente ligar estes fatos à estranha postura de Germer (e seu testamento) em relação a Ordem.

Um exemplo de que o vaticínio daquele ocultista citado no início deste assunto, foi correto, está patente nos dias de hoje. Não existe qualquer argumento contra o fato. É paradoxal, mas verdadeiro, que apesar das inúmeras organizações existentes, classificando-se thelemitas, exaltarem os predicados do Sistema, continuem a alicerçar suas bases no antigo sistema maçônico. Mais ainda, o estado de espírito acompanhando os membros dessas organizações é uma infantil arrogância proclamando: “Eu sei, e os que não concordam com este meu conhecimento estão errados e são meus inimigos”.

Certa vez escreveu-me um renomado instrutor thelemita:

“Desejo agora definir, para evitar desentendimentos futuros, a minha posição com relação a Ordo Templi Orientis:

Não é minha intenção que os rituais da Ordo Templi Orientis, escritos por Crowley sejam utilizados sob qualquer forma em trabalho de Loja. Estes rituais foram considerados insuficientes por TO MEGA THERION. Ele mesmo, e como consequência foram dados a público. Toda tentativa de encetar um ramo da Ordo Templi Orientis utilizando esses rituais fracassou.”

O motivo de tal injunção é que nesses rituais, além de outras coisas, Crowley tentou estabelecer uma ponte de ligação entre o velho æon e o Æon de Hórus. Isto é impossível. A passagem dos Æons é sempre catastrófica.

P.: Existe alguma ligação entre as Ordens Thelêmicas e a Ordem Rosa-Cruz?

R.: A qual “Ordem Rosa-Cruz” você se refere? Existem várias “ordens rosa-cruz” se apresentando no mundo. E cada qual se dizendo única e verdadeira.

Em primeiro lugar devo dizer-lhe que estas tais ordens (ou fraternidades) são um engodo. Um exame mais minucioso mostra que somente a partir dos Manifestos de Johan Valentim Andreia é que surgiu a documentação complementar alemã, inglesa e francesa discorrendo sobre a Rosa Cruz. Antes, nada existia neste sentido. Aliás, é fato incontestavelmente certo, confessado pelo próprio Andreia, ter sido ele o autor do chamado livro “Bodas Químicas”, atribuído ao tal Christian Rozenkreutz.

O anônimo trabalho chamado “Fama” foi publicado em 1624, tentando reafirmar o mito, procurando responder àqueles que, já naquela época, afirmavam comprovadamente sua falsa origem. Observe o que nos informa Franz Hartmann em “Uma Aventura Entre Os Rosa-Cruzes”: “O nome Rosa Cruz ou Ordem da Rosa cruz Dourada é relativamente uma invenção moderna e foi usada por Yohan V. Andreia, que inventou aquela história das “Bodas Químicas” de Christian Rozenkreutz, pelos mesmos motivos que também Cervantes inventou “Don Quixote de La Mancha”; principalmente com o propósito de ridicularizar os adeptos, magos, reformadores e alquimistas de sua época, quando ele escreveu sua célebre “Fama Fraternitatis”.

P.: Poderia explicar com mais detalhes?

R.: A obra de Franz Hartmann é uma história de ficção sobre uma imaginária rosacruz por ele idealizada. Não se refere a uma organização onde realmente o autor estivera.
Creio não haver necessidade de falar-lhe sobre as inúmeras “ordens rosacruzes” existentes no mundo. Algumas delas até afirmando que Thomaz de Aquino foi rosacruz, dando a entender que o “santo” católico romano passou pelo rosacrucionismo. Esta balela iniciou-se em França no ano de 1888, e não suporta a crítica mais elementar, pois não se sustenta em fatos históricos, mas na interpretação viciosa.

Atualmente, alguns “rosacruzes” apontam René Descartes como membro da ordem deles. Se assim fosse ele jamais teria escrito “O Discurso Sobre o Método”, onde ressalta o bom senso como uma das maiores características no trabalho científico.

Entre os mais famosos “esoteristas” e “rosacruzes”, constantemente citados em trabalhos esotéricos, encontramos Sir Bulwer-Lytton, Samuel McGregor Mathers, Max Heindell, Krumm-Heller, (Frau) Sprengel, e outros. Vejamos rapidamente o que realmente sabemos a respeito deles:

Bulwer Lytton, encontrava-se totalmente imerso numa mistura de “cristianismo/nazismo”. Veja “Os Últimos Dias de Pompeia”, romance em que ele descreve o triunfo do Cristianismo sobre o Paganismo. Em “O povo Que Há de Nos Superar”, ele realça a idéia de uma “raça superior”, tal qual os nazistas com os supostos Arianos puros. São passadas décadas, e este povo ‘superior’ até hoje não apareceu ou surgiu das imensas cavernas em que habitam (o mesmo para os Agarthianos da S.T.B.). E se apareceu, foi derrotado na Segunda Guerra Mundial.

Samuel Lidell McGregor Mathers. Como alguns afirmam, um grande iniciado. Inventou uma “história” tão ridícula sobre os “Mestres Secretos” que terminou por ser ridicularizado pelos membros da Golden Dawn, a ordem fundada por ele, de características rosacrucianas. Esta ordem durou pouco tempo, tornando-se, hoje em dia, motivo de piada entre estudiosos mais sérios. E se vamos dar ouvido à falatórios, teria sido A. Crowley quem destruiu a ordem, simplesmente publicando os rituais secretos usados por ela.

Max Heindell, era um piegas cristão que falava, falava, mas nada dizia de importante ou concreto. Se não me engano sua “Ordem Rosacruz” não mais existe, ou tornou-se quase totalmente desconhecida.

Krumm-Heller. Este um real iniciado na Ordo Templi Orientis, que deixou-se glamourizar pelo ego, e fundou a F.R.A., contrariando os conselhos de seus Mestres. Hoje em dia esta Ordem, pelo menos no Brasil, está em franca decadência e, não resistindo os ataques da Loja Negra, afastou-se do Sistema Thelemita.

Ana Sprengel (Frau). Jamais existiu tal mulher (ou adepta). Foi uma invenção descarada dos criadores da Golden Dawn, para dar suporte àquela ordem. Crowley foi um dos iniciados nesta ordem. Ele e Bennet talvez tenham sido os únicos que, verdadeiramente, atingiram uma real iniciação.

E, assim por diante, poderíamos seguir a trilha desses “mestres rosacruzes”.

P.: Quem foi Christian Rozenkreutz?

R.: Conta-se que Christian Rozenkreutz foi um sacerdote extremamente piedoso que viveu entre os Séculos XIV e XV. Após adquirir grandes conhecimentos e sabedoria durante uma longa viagem pelo Oriente. Voltou à Europa (Alemanha), e fundou a Fraternidade R.C..

Consta que morreu aos 106 anos de idade e que a localização de sua tumba foi mantida em segredo. Segundo relato da “Fama”, esta sepultura foi descoberta por membros da Fraternidade, e esta descoberta anuncia a aurora de uma Nova Era.

Já temos, assim, um motivo mítico universal – a viagem iniciática da qual o viajante retorna transformado e de posse de um novo conhecimento e sabedoria. É sempre a mesma história que vemos repetida em todos os cantos do mundo: alguém sai para o desterro, ou para uma longa e perigosa viagem, e volta totalmente mudado, conhecedor de grandes segredos, etc. e, invariavelmente, dá origem a uma nova religião ou funda uma ordem ou fraternidade. É a história de Moisés, de Buddha, de Jesus, de Blavatsky, de Karl Kellner, etc..

P.: Como puderam estas ‘ordens rosacruzes’ criar tanta fama e credibilidade entre os as pessoas?

R.: São bem conhecidas as técnicas usadas por estas ordens, fraternidades, etc., para imporem credulidade. A principal delas é dizer e fazer crer entre os incautos, que a ordem vem de tempos imemoriais, que os maiores homens e mulheres do mundo foram da confraria. Nesta onda de ancestralidade embarcam todos aqueles que procuram algo além de suas monótonas vidas.

A AMORC (prima irmã da Ordo Templi Orientis), por exemplo, afirma categoricamente ter suas origens no Antigo Egíto, e considera o faraó Amenophis IV, mais conhecido como Akhnatom, o fundador da ordem, o que é, sob nosso ponto de vista, no mínimo uma afirmativa ridícula. Se algumas pessoas olhassem para a figura de Amenophis IV (Anknaton), despida do manto romântico que o envolve, perceberiam Ter sido ele o pior dos Faraós, um desastre para a civilização egípcia, a qual retrocedeu em tudo durante o pouco tempo em que ele reinou.

P.: Que vem a ser a Fraternidade negra?

R.: É uma das Três Fraternidades que regem nosso planeta (segundo outros o total Sistema Solar), e que formam juntas a Grande Fraternidade dos Irmãos da Luz. As duas outras são a Fraternidade Amarela e a Fraternidade Branca. Estas Três Fraternidades estão simbolizadas, na Qabalah, pelos três filhos de Noé; no Novo Testamento pelos Três Reis Magos. (Baltazar, Gaspar e Melchior).

A Fraternidade Negra mantém que toda manifestação tem forçosamente que ser de natureza de sofrimento, que o fito do homem deve ser, portanto, o esgotamento do karma pessoal e absorção no Nirvana. Dessa Fraternidade foi o Buddha Gautama o maior expoente. Seu Livro Canônico é o Dhamapada.

Aquele que os homens chamam de Gautama, ou Sidharta, ou Buddha, foi um Magus. Sua Palavra (ou seja, a Lei ou Fórmula anunciada por ele) era ANATTA; pois a raiz de sua inteira Doutrina era que não existe um ATMAN, ou Alma, significando uma substância incapaz de mudança. Assim ele, como Lao-Tzé, baseou tudo sobre um movimento, ao invés de um Ponto Fixo.

A Fraternidade Amarela mantém que toda manifestação, sendo forçosamente resolvida de cima, deve ter razão de ser; e que, portanto o fito do homem deve ser adaptar-se plasticamente às condições de manifestação, eliminando fricção, e jamais presumindo de modificar, de uma maneira ou de outra, os processos da Natureza. O maior expoente dessa Fraternidade foi Lao-Tsé, e seu Livro Canônico foi o Livro do Tao.

A Fraternidade Branca mantém que o fito do homem é tornar-se aquilo que Madame Blavatsky chamava um Nirmanakaia; que a Grande Obra é a transmutação progressiva, primeiro dos metais pessoais em ouro, depois dos metais planetários em ouro, e finalmente dos metais universais em ouro; e que o propósito e divertimento do Adepto deve ser fazer com que o deserto floresça de beleza e perfume. O maior expoente dessa Fraternidade foi e é a Grande Besta do Apocalipse, e seu Livro Canônico, que não é seu, mas pertence a Nossa Senhora das Estrelas, ao Fogo Divino e à Criança Solar, é o Livro da Lei.

E porque tu não possuis Sabedoria, não saberás se essas Três Fraternidades, que sempre se antagonizam e competem umas com as outras, fazem uma ou fazem três.

P.: Quem foi Lao-Tse?

R.: Lao-Tse veio ao mundo e disse que o Tao que pode se concebido não é o verdadeiro Tao. Portanto, os homens se reuniram e, depois de sua morte, fizeram um Salvador de Lao-Tse; e hoje se livro é um joguete dos tolos e pedantes.

P.: Quem foi Buddha?

R.: Buddha veio ao mundo, e disse que não havia nem salvador nem salvação, que dores e macerações não conduzem o homem à paz divina; que toda manifestação era necessariamente da natureza de um sofrimento, e que a essência da sabedoria consiste na extinção. Portanto, os homens se reuniram e, depois de sua morte, fizeram um Salvador de Buddha, rezaram penitência em seu nome, e imploraram a ele que os conduzisse à libertação.

P.: Quem foi Diônisios?

R.: Diônisos veio ao mundo, ele, Osíris Ressurrecto, e ensinou aos homens que n o processo de geração, com sua morte e ressurreição, está contido o supremo mistério da construção do Templo do Espírito Santo, do Verbo manifestado em carne, do Reino na Terra. E, portanto os homens adoram-NO sob muitos nomes, inclusive o de Jesus, e rogam-lhe que os conduza à salvação. E, no entanto, Ajuda-te, que Deus te ajudará, diz a sabedoria do povo.

P.: Quem foi Mohammed?

R.: Mohammed veio ao mundo e destruiu parcialmente a grande feitiçaria da Loja Negra, engendrada após a extinção metódica da Igreja Gnóstica Exotérica, e perseguição que durou vinte séculos da Igreja Gnóstica Esotérica. Glória a Mohhamed, Espada de Deus! Profeta parcial, mas profeta contudo, da Unidade de Deus e da Virilidade do homem.

E agora vos é dito: Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.[6]

P.: Quem foi Thoth?

R.: Thoth (mas realmente Tahuti) veio ao mundo e disse que a sabedoria consiste em estruturar a mente de uma forma tão orgânica, tão flexível e tão fluida, que a mente se torna um veículo adequado para o Verbo Criador. Portanto, os homens se reuniram e, depois de sua morte, fizeram um Salvador de Thoth; e hoje Seu Livro é em parte usado como base de jogos de salão.

Thoth, ou Tahuti confirmou a Palavra de Dionysus continuando-a; por isso Ele mostrou como é possível dirigir através da Mente as Operações da Vontade. Por Critério e pelo registro da memória o Homem evita Erro, e a repetição de Erro. Mas a verdadeira Palavra de Tahuti era AMOUN. Pela qual Ele fez os Homens compreenderem a Natureza secreta deles, isto é, a Unidade deles com seus Verdadeiros Entes; ou, como eles então expressavam isto, com Deus. E Ele lhes desvelou o Caminho desta Consecução, e a relação deste caminho com a Fórmula de INRI. Também, por seu Mistério de Número ele tornou fácil para seu Sucessor que declarasse a natureza do Universo inteiro em sua Forma e sua estrutura, como se fosse uma Análise deste, fazendo pela Matéria aquilo que o Buddha estava designado para fazer pela Mente. (A. Crowley).

P.: Que é Cristo?

R.: Cristo vem da palavra grega Chrestus, significando Ungido no Sistema grego.

P.: Que é Jesus?

R.: É uma palavra hebraica (IHShVH – Yod He Shin Vau He) que também significa “Ungido”. Deriva-se do Tetragrama Sagrado IHVH, acrescentando-se a letra Shin (Sh) em seu meio, assim: IH(Sh)VH. Esta letra Shin (valor numérico 300) tanto representa o Elemento Fogo quanto o Elemento Espírito. Colocado no centro do Tetragrama Sagrado, significa que o Espírito “domina” ou “equilibra” as Quatro Forças Cegas do Demiurgo. Assim, a Palavra Jehovah – a Palavra de Moisés – transforma-se em Jeheshua – a Palavra de Jonas.

P.: Que vem a ser, então, “Jesus Cristo”?

R.: “É um nome híbrido dos títulos pelos quais os Essênios e os Gnósticos, respectivamente, chamavam o Iniciado que tivesse atingido a Esfera de Tiphareth – que dizer a Sephira ou “Plano de Consciência” o qual, no Sistema da A∴A ∴ corresponde ao Grau de Adeptus Minor e, na Maçonaria (Rito Escocês Antigo e Aceito) ao 33º grau. Isto em outras palavras quer dizer que o Iniciado atingiu o grau de um Cristo (Ungido).
Embora a Igreja de Roma tenha roubado este nome para criar o “Jesus” dela, nada há de mais sagrado e puro do que se oculta neste no nome.

P.: Que representa Jesus?

R.: É qualquer Adepto, ou melhor dito, qualquer indivíduo (homem ou mulher) que tenha alcançado o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião

P.: Quem é Jesus Cristo?

R.: É o nome usado pela Igreja de Roma ao criar sua mentirosa versão do LOGOS DO ÆON DE OSIRIS, cuja Palavra foi INRI, e que thelemitas conhecem sob o nome de Diôniso.

P.: Que é Æon?

R.: O termo Æon era usado pelos Gnósticos significando a hierarquia de seres no Universo. Æon também pode ser fragmentos de duração ou períodos de tempo espacializados e substanciados, elementos ou personagens de um drama mitológico.

P.: Quem é Cristo?

R.: É todo Adepto, no Sistema Grego, cujo nome corresponde ao Essênio Jeheshua. Na prática é o Título usado para designar o LOGOS AIONOS.

P.: Quem foi Perdurabo?

R.: Perdurabo é simplesmente o moto mágico de Aleister Crowley na Golden Dawn. Perdurabo quer dizer: “Eu perdurarei até o fim”.

Mas se prestarmos mais atenção veremos que no fim nada havia para perdurar… O nome termina em um “O” – Zero – Nada – Perdurab(o).

P.: O que é Maçonaria Ortodoxa ou Osiriana?

R.: É aquela ordem semi-secreta que baseia seus rituais na lenda de Hiran Abif, o Construtor do Templo de Salomão. A lenda de Hiran é mesma de Osíris, e de Jesus, com algumas variantes. Muitas Ordens maçônicas não são “a Maçonaria”.

P.: O que é a Árvore da Vida?

R.: É um esquema geométrico onde estão alocadas as Dez Sephiroth (plural de Sephira) ou Emanações Divinas. Segundo Crowley “é o mais completo esquema simbólico do Homem e do Universo, e a inter-relação entre os dois. A Árvore da Vida, ou Árvore Sephirotica, é a base da Qabalah prática.

P.: O que é Sephira?

R.: É uma palavra hebraica, e pode ser traduzida como “Emanação” ou “Número”. As Sephiroth (plural de Sephira) são as emanações da divindade em sua “queda” ou condensação ao criar o Universo visível.

P.: Quantas Sephiroth existem?

R.: Existem Dez Sephiroth visíveis e uma invisível, chamada Daath. Daath é considerada, por muitos ocultistas, como sendo uma falsa Sephira. Outros dizem que ele é o Portal do Abismo. Daath começa pela letra “D” (Daleth). Daleth em Hebraico quer dizer “janela”.

As Sephiroth são as seguintes:

  1. Kether
  2. Chockmah
  3. Binah
  4. Chesed
  5. Geburah
  6. Tiphareth
  7. Netzah
  8. Hod
  9. Yesod
  10. Malkuth

P.: O que vem a ser Æon, no Sistema Thelemita?

R.: É um ciclo de tempo de, aproximadamente, 2500 anos. O presente Æon é dito ser o Æon de Hórus, tendo iniciado em 1904. Ele sucedeu o Æon de Osíris, que está tipificado pelo erguimento e queda de Sistemas Religiosos e Esotéricos tais como o Judaísmo, cristianismo, Buddhismo, Islam, Maçonaria ortodoxa, etc. O Islam pode, sob certo ponto de vista, ser considerado como uma “ponte” entre estes dois Æons.

P.: O que vem a ser, afinal, a Loja Negra?

R.: Inicialmente devemos repetir que a Loja Negra nada tem a ver com a Fraternidade Negra. São duas coisas totalmente distintas.

Loja negra é aquele menstruo que se afirmou no Concílio de Nicéia. É a (des)ordem ou o caos formado pelos Irmão Negros, cujos maiores são representados pelos padres da Igreja Romana Alexandrina, em especial os Jesuitas. A Loja Negra luta contra a evolução da humanidade, e para isso procura, de toda forma possível, manter o homem na ignorância e sob domínio de seus abomináveis dogmas, tirando-lhe a liberdade de exercer a Real Vontade. O mais execrável dogma criado por esta gente (se é que seja gente) é aquele do “pecado original”, fruto de toda carga do complexo de culpa que a milhares de anos nos impede realizarmos a Nossa Vontade como seres divinos e livres que somos.

A Loja Negra é uma perversão. É ela que mantém constante guerra contra a Loja Branca; mas, como já dito, nada disso tem a ver com a Fraternidade Negra, ou Amarela, que fazem parte da Grande Fraternidade dos Irmão da Luz. Ser membro da Loja Negra não que dizer, em absoluto, que uma tal pessoa seja má no sentido comum que damos à palavra ou que nossa sociedade considera. O assunto não fica assim totalmente discutido. Muita coisa existe além dos véus, e que não seriam compreendidos por estudantes que iniciam sua carreira em magia e misticismo. Muito pelo contrário, a confusão seria maior em sua mente ainda não treinada.

P.: Aproveitando que estamos falando de Loja Negra, o que é, afinal, a Magia negra?

R.:Qualquer uso de forças sutis para a produção de efeitos materiais é quase sempre magia negra. Milagres são produzidos diariamente em muitas partes do mundo, principalmente por espiritistas. Entretanto, sob o ponto de vista iniciático são realizações indesejáveis. As forças dos planos sutis devem ser utilizadas para aumentar nosso conhecimento e capacidade naqueles planos; não para nos restituir a saúde física, ou prolongar nossa existência material, ou nos angariar a chamada boa sorte em termos de fama, amor e fortuna. Como já disse anteriormente, se não me engano, toda magia que não é direcionada ao Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião é magia negra.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Euclydes Lacerda de Almeida. ↵ voltar
  2. Referência externa: www.astrumargentum.org/arquivos/ht/aa.htm. ↵ voltar
  3. O Livro das Mentiras. ↵ voltar
  4. Uma das muitas ironias de Crowley. Ele mesmo havia escolhido o Moto Mágico de Murtry, o qual não entendeu que quando Crowley escolheu este moto estava ironizando a iniciativa de MacMurtry casar-se. Hymenæus (Casamento, em Grego) e Alpha (a letra do Trunfo 0 = O Tolo). Mas, tudo podendo ser visto de duas maneira, poderia ser dito que Crowley deu esta moto a Murtry ao perceber que ele (MacMurtry) teria atingido a União com “O Tolo”, isto é, que havia atingido o Caminho do Tolo, ligando Chokmah a Kheter e, portanto, alguém que havia atravessado o Abismo. Casamento é Agape = 31, o mesmo valor para Thelema (Vontade). A Qabalah é um jogo de letras e números baseados no qual podemos deduzir o que quisermos, principalmente aquilo que nos agrada particularmente. – Nota de T. ↵ voltar
  5. “The Follower”, em inglês. ↵ voltar
  6. A tradução de Marcelo Motta das onze batidas, “Do what thou wilt shall be the whole of the Law” foi mantida, pois era de muita importância para Euclydes, entretanto, indicamos a leitura do ensaio Do what thou wilt shall be the whole of the Law (www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/ensaios/do-what-thou-wilt-shall-be-the-whole-of-the-law/), que aborda o assunto a partir de outro de vista. ↵ voltar

© 2016 e.v. - Euclydes Lacerda de Almeida





Entrevista de um ex-membro da Ordo Templi Orientis

Revisão: Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 03/06/2012 e.v.

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Euclydes Lacerda de Almeida

Euclydes Lacerda de Almeida (1936 – 2010), Frater Thor A∴ A∴, foi um dos grandes difusores do pensamento Thelêmico no Brasil e dedicou-se, de diversas formas, ao contínuo e intenso trabalho da Iniciação.

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