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Euclydes Lacerda de Almeida – Memórias e Reflexões

por Marcio Beck em Entrevistas

Euclydes Lacerda de Almeida – Memórias e Reflexões
História

Euclydes Lacerda de Almeida – Memórias e Reflexões

por Marcio Beck

Marcio Beck e Euclydes Lacerda

Marcio Beck e Euclydes Lacerda

Índice

Apresentação

Se eu fosse líder de uma poderosa seita de adoradores do demônio, ia morar num apartamentinho mixuruca desses?

Foi com essas palavras e um sorriso sarcástico no rosto que Euclydes Lacerda de Almeida me recebeu, em uma manhã de sábado.

O “apartamentinho” ficava na Zona Norte do Rio de Janeiro, numa rua pacata, silenciosa, arborizada e ecumênica. Nas redondezas, convivem de forma aparentemente harmoniosa uma academia de yoga, um centro espírita e uma cartomante.

Mais que modesta, a decoração era mínima. A quantidade de livros no armário da sala e em uma das paredes de um pequeno corredor chamava a atenção, tanto pelos títulos variados tratando dos mistérios da Maçonaria, Teosofia e Rosacrucianismo, entre outros, quanto pela presença ostensiva de uma Bíblia Sagrada (“Que eu leio sempre!”, enfatizou ele) e de obras sobre o Vaticano e o catolicismo.

A figura, por sua vez, chamava atenção pelo físico de aspecto frágil, bastante magro, com óculos de modelo antigo de lentes escurecidas cobrindo os olhos. Tinha sempre um cigarro à mão, mas sabia bem que não se tratava de um hábito inofensivo. “Já sobrevivi a quatro ataques cardíacos e um câncer de próstata”, disse, sem orgulho.

Nos anos 1970, os iniciados em Thelema, sistema filosófico-mágico criado pelo inglês Edward Alexander “Aleister” Crowley em 1904, o chamavam de frater (“irmão”, em latim) Zaratustra, nome tirado do clássico de Friedrich Nietzsche. Era o motto (“lema”, também conhecido pelos thelemitas como “nome mágico”) sob o qual atuava Euclydes Lacerda de Almeida.

Demorou três anos até Euclydes concordasse em falar. Em 2005, a primeira vez que tentei obter uma entrevista, por intermédio de um amigo em comum, foi rechaçada sem que ele nem pestanejasse. Considerava não ter nada a dizer que pudesse interessar a alguém, ainda mais sobre “esses assuntos”, sobre os quais ele já havia escrito bastante a respeito. Voltei a abordá-lo, por intermédio de outro amigo, no ano seguinte, também sem sucesso.

A intenção inicial era que o depoimento dele fizesse parte de um livro abordando de forma objetiva e o mais documentada possível as ligações de Raul Seixas e Paulo Coelho com os princípios de Aleister Crowley – que hoje Coelho rejeita. A ideia surgiu de minha própria breve experiência com uma organização de cunho thelêmico, há pouco mais de dez anos, quando cheguei a ser apresentado a Euclydes por meus instrutores. Precisei lembrá-lo deste detalhe, quando nos reencontramos.

Em 2008, com o lançamento de dois livros de jornalistas de peso sobre Paulo Coelho, a biografia feita por Fernando Morais (O Mago) e a análise da obra musical do escritor feita por Herica Marmo (A canção do mago), o nome de Euclydes, antes restrito aos círculos ligados à Thelema, foi finalmente trazido para o grande público junto ao de Raul Seixas e Paulo Coelho – a quem instruiu diretamente, por determinação de Marcelo Motta.

Apesar de a maneira como a jornalista o apresentou tenha sido equilibrada, o mesmo não se pode dizer de Morais, que resume Thelema a “adoração do demônio” e seus propagadores, a “adoradores do demônio” ou, ainda mais simplesmente, satanistas. Imaginei que ele rejeitaria a alcunha, e pensei em tentar obter seu depoimento para refutar as descrições feitas por Morais das práticas realizadas na ordem a título de treinamento mágico. Tentaria vender o trabalho como freelance a uma revista.

No começo de junho, logo em seguida ao lançamento do livro de Morais, entrei em contato com outro amigo em comum, Keron-ε (motto) membro, como Euclydes, da ordem thelêmica conhecida como Astrum Argentum (A∴ A∴). Três meses de negociações se seguiram, intermediadas por este amigo. Sentia que desta vez, ele estava prestes a ceder, ou teria dispensado a ideia logo de início, como das outras vezes. A resposta, no entanto, não saía. Cansado das evasivas e impaciente, enviei em 25 de setembro um e-mail curto e grosso, anexando uma notícia sobre um filme a respeito de Raul Seixas que entraria em produção:

Peço que repasse o texto abaixo para o Euclydes analisar, com o seguinte adendo: cansei. se ele não tiver uma resposta até o fim do mês, a proposta, de minha parte, está retirada. entendo que ele tenha todas as considerações a fazer, mas não posso ficar parado, só assistindo o tempo passar.

Como você sabe, tenho muitos projetos em andamento, muitas coisas a fazer… e por mais que essa fosse uma que eu realmente queria fazer, não vou ficar forçando a barra para convencê-lo da importância disso. Achei que ele reconheceria a oportunidade e teria interesse em aproveitá-la. Se não for o caso, sem ressentimentos.

Em 10 de novembro, recebi o recado simples de Keron-ε: “O Euclydes está disposto a conversar com você. Me procure”. No mesmo dia, falei com ele e iniciei o contato direto com o futuro entrevistado. Nos primeiros e-mails, nos tratávamos formalmente, “sr.”. Logo de saída, tentou se esquivar:

Pode ser por e-mail mesmo. Mande as perguntas e eu responderei”.

Expliquei, pacientemente, que só realizo entrevistas por e-mail quando não há outro meio disponível. Dada a complexidade do assunto, exigiria várias idas e vindas, perguntas e réplicas, o que tornaria o processo muito extenso e cansativo. Além disso, esclareci, me preocupava em ter o registro em áudio dos encontros, para evitar inconsistências de minha parte. Ele então baixou a guarda, passou a me tratar por Marcio. A primeira sessão foi na manhã do dia 22 de novembro, um sábado. Foram cinco ao todo, com cerca de três horas de duração cada, que se estenderam por dezembro e o começo de janeiro.

Ao longo de 2009, as tentativas subsequentes de vender a matéria como serviço freelance não foram bem sucedidas. Continuamos nos encontrando para conversar e passamos a discutir a produção de um site em que ele pudesse apresentar suas reflexões e disponibilizar material de seu vasto arquivo. Até que recebi, no dia 28 de junho de 2010, a informação de sua morte, quatro dias antes. Decidi dar prosseguimento à ideia de colocar no ar um site sobre Euclydes, agora in memoriam.

Como nossos diálogos não foram registrados integralmente, os três textos que serão apresentados foram produzidos com base no material efetivamente gravado por mim em áudio digital e transcrito por uma auxiliar especialmente contratada, sem vínculos com o tema. O presente trabalho não tem a intenção de ser um registro preciso da historiografia do sistema thelemico. Suas informações foram extraídas, essencialmente, das entrevistas e de consulta a algumas fontes básicas como os sites da A∴A∴[1] e do pesquisador Peter König[2], estudioso do que chama de “Fenômeno da Ordo Templi Orientis” (grupo que Crowley comandou por cerca de 40 anos).

Marcio Beck

Parte 1: O Enigma a se Decifrar

O ser humano tem o direito de viver por sua própria lei, de viver da maneira como quiser viver; de trabalhar como quiser; de brincar como quiser; de descansar como quiser; de morrer quando e como quiser.”

Liber OZ

Euclydes Lacerda de Almeida

Euclydes Lacerda de Almeida

Euclydes entrou em contato com Thelema em 1962, por meio de Marcelo Ramos Motta[3], que se tornaria conhecido pelos fãs do “Maluco Beleza” Raul Santos Seixas, como coautor de algumas das suas mais famosas composições carregadas no misticismo, como Gîta e Tente outra vez. Sua primeira ligação com assuntos espirituais veio da própria família, de umbandistas. “Eu era espírita nessa época, kardecista”, lembra.

Por pouco, ele e Motta não se conheceram no Colégio Militar; ingressou em 1950, dois anos depois de o outro ter se formado. “Fui um dos fundadores do Núcleo Espírita Horácio Lucas, que funciona no Colégio até hoje. Também fazia yoga nessa época, o Hermógenes foi meu instrutor durante muito tempo. Depois, fui para a Sociedade Teosófica junto com o Hermógenes, mas fiquei pouco tempo”, conta.

Iniciado na Grande Oriente do Brasil, também havia chegado ao grau 18 da Maçonaria, com a qual se mostrava decepcionado. Ligado à Teosofia, não demorou a se interessar por outros autores ocultistas, como os europeus Gerard Encausse (Papus) e Alphonse Louis Constant (Eliphas Levi Zahed). Motta, por sua vez, havia pertencido à representação brasileira da Fraternitas Rosicruciana Antiqua (FRA), que primeiro divulgou a Lei de Thelema no Brasil; era fascinado pela “tradução mágica” da obra de François Rabelais feita por Crowley.

Motta afastou-se da FRA no começo da década de 1960, quando o então cabeça da ordem no Brasil, Duval Ernani de Paula, expurgou os rituais dos elementos que remetessem à doutrina do inglês. Acabou entrando em contato com o alemão Karl Johannes Germer, que após sérias disputas internas sucedeu Crowley como líder da Ordo Templi Orientis[4] (Ordem do Templo do Oriente, O.T.O.) quando este morreu, em 1947.

Editado pelo próprio Motta na Gráfica Lux, no Rio de Janeiro, “Chamando os filhos do Sol” pretendia, de acordo com o autor, “trazer notícia ao público” sobre a existência do sistema mágico desenvolvido por Aleister Crowley. Motta, que assinava apenas “M”, colocou um endereço para correspondência, para os eventuais interessados. “Naquele tempo não tinha e-mail, né? Nem orkut, blog, essas coisas. Hoje em dia, é muito diferente, até eu tenho um blog, apesar de raramente mexer nele”, ironiza Euclydes.

O livro foi retirado de circulação pelo autor logo em seguida – assim que Motta detectou um erro que prejudicaria a interpretação do símbolo da Cabala judaica conhecido como a Árvore da Vida (Otz Chiim)[5]. Recolheu quase todos. Os compradores podiam ser contados nos dedos de uma mão. Euclydes estava entre eles. “Um dia, minha mulher me pediu para comprar um livro, cujo nome não me recordo. Nas estantes da livraria, vi o ‘Chamando Os Filhos do Sol’. Aquilo me interessou, comprei e li”. Era diferente de tudo o que havia lido até então. “Foi um choque”.

O contato entre os dois começou por cartas, em 1963. Trocavam ideias sobre a filosofia thelêmica e sobre a instalação de uma sucursal da Ordo Templi Orientis (OTO) no Brasil. Logo, as discussões passaram a ser em pessoa. “Tenho todas as cartas que ele me mandou 63, por aí, em que ainda me chamava de ‘senhor Euclides’. Depois é que ele passou a me chamar pelo nome mágico. Um dia, o Marcelo me telefonou, disse que ia me visitar e eu o recebi. A partir desse momento, tornei-me discípulo dele”, lembra.

À época, supõe ele, Motta devia ter mais um ou dois dispostos a ajudá-lo na missão auto-imposta de divulgar Thelema no Brasil. “Devia ter discípulos nos Estados Unidos, que eu não conhecia. Na AA você só conhece quem lhe inicia e quem você inicia. Na O.T.O. é diferente. É uma ordem maçônica, trabalha em conjunto. Todo mundo se conhece. Na AA é muito difícil contato entre irmãos fisicamente, digamos assim”, explica.

O golpe militar de 1 de abril de 1964 fez os dois se afastarem. Ainda mais porque em julho do mesmo ano, Motta esquivou-se de um pedido formal de Euclydes para ingresso na O.T.O., segundo relato deste. Alegou que sua autorização para criar uma representação brasileira da ordem inglesa havia sido enviada pelo Correio pelo mestre alemão residente nos Estados Unidos e sido “subtraída” não se sabe por quem.

Os dois tentavam garimpar outros interessados. Distribuíam cartões pelas ruas, com os versos de uma das obras de referência de Crowley, o Liber OZ, libelo deste sobre o que julgava serem os direitos do ser humano – boa parte deles, completamente senso comum. Só conseguiram causar a revolta de alguns com o trecho final, que afirma que o homem “tem o direito de matar aqueles que tentarem negar seus direitos”.

Euclydes nega que seja uma sanção para assassinatos, como interpretam os críticos da ordem: “Esse ‘matar’ aí não é no sentido literal. Tem certas tendências negativas, entre aspas, que têm que ser mortas. Não é matar fisicamente, nada disso”. O discípulo de Motta afirma sempre ter defendido que as palavras de Crowley em suas obras ditas mágicas não podem ser tomadas de forma literal. “O próprio Crowley dizia que ninguém devia acreditar nele, cada um devia acreditar em si próprio, devia seguir seu próprio caminho. Seja qual for o caminho. Seja católico romano, umbandista, kardecista… não importa. Para nós, não importa o caminho, contanto que a pessoa seja honesta e cumpra à risca aquilo que escolheu”.

Com a morte de Karl Germer, eclodiu uma nova disputa interna na sucessão, que durou anos, outro argumento usado por Motta para justificar a falta de uma autorização “oficial” na representação brasileira. Em 1968, Euclydes foi transferido na Petrobras, para um terminal em construção em Paraíba do Sul, município no interior do estado do Rio de Janeiro. O contato com o instrutor foi retomado graças à aparição de outro discípulo de Motta, que fora instruído a procurar Euclydes na nova cidade.

Como seria de se esperar, os diálogos entre os dois não se limitavam às questões mágicas e filosóficas. Conversavam normalmente, falando de futebol e política. As instruções mágicas eram passadas, basicamente por meio de manuscritos. Euclydes lembra que Motta o criticou por não saber ler fluentemente em inglês. Motta, professor da Cultura Inglesa, o alertava para o perigo das traduções. “Ele dizia: ‘Aprenda inglês, porque é necessário para você ler livros de Crowley… lendo em português, as traduções são meio deturpadas’. Descobri que muitas vezes as palavras não têm o sentido que deveriam”. Em 10 de dezembro de 1971, Motta enviou carta a Euclydes afirmando que a sucessão de Germer fora resolvida e o novo cabeça da O.T.O era o inglês Kenneth Grant, discípulo direto de Crowley. Euclydes recebeu patente do grau 3 da ordem passou os dois anos seguintes praticando os exercícios que Motta lhe passava. Todos os dias, durante duas horas. Certo dia, inspirado por uma experiência ritualística, escreveu um poema carregado de símbolos e o enviou ao instrutor.

Tive contato com algo. Uma visão de uma entidade lindíssima, por acaso feminina, que me transmitiu muitas coisas. Fiquei deslumbrado com aquele acontecimento. Depois de ler, o Marcelo me disse: ‘Você atingiu o grau de neófito, então receba-o. E eu recebi”.

No dia 8 de dezembro de 1973, Euclydes assinou seu juramento de Neófito da A∴A∴, tendo Motta como instrutor. A relação pessoal também se aprofundou. “Era um cara afável, pessoalmente. Falando-se em Thelema, era exigente. Lembro-me de uma Copa do Mundo em que ele estava lá em casa e assistimos o jogo. O Brasil ganhou, e o pessoal saiu em carreata pela cidade. Ele também saiu com o carro, festejando e tudo isso. Era um cara como outro qualquer”.

Os dois delineavam uma sociedade dedicada à difusão de Thelema. A pedido de Motta, Euclydes conta que fez várias sugestões para o nome do grupo e a maioria foi rejeitada. Um deles mereceu uma alfinetada especial do instrutor: Sociedade Spartacus. “Ele me respondeu: ‘Spartacus é aquele que liberta escravo. Nós não estamos aqui pra libertar ninguém, cada um que se liberte a si próprio!’, aí eu coloquei Sociedade Novo Æon ele disse, ‘Bom, esse nome é um nome inócuo, vamos usar’. Na época, não chegamos a registrar, depois eu registrei”, explica.

Obter novos adeptos, sem as facilidades eletrônicas de hoje, era uma tarefa mais árdua. Por diversos motivos, mágicos inclusive, Motta estabelecera o número 11 como o mínimo para iniciar os trabalhos. Em novembro de 1974, chegaram a 14, mais do que o suficiente. Em julho de 1975, instrutor e discípulo romperam rumorosamente, como Euclydes relatou com amplos detalhes em seu ensaio Marcelo Ramos Motta – Um enigma. Motta ficou furioso porque os estatutos da Sociedade Novo Æon seguiram para publicação em Diário Oficial, registrando oficialmente o grupo, sem que ele os tivesse vistoriado.

No ano seguinte, o ex-instrutor seria acusado de ter aliciado duas alunas suas da Cultura Inglesa e as levado para seu apartamento na Rua Saint Roman, em Copacabana, para usar ácido lisérgico, cocaína e maconha. O caso acabou arquivado[6] por falta de provas, após a casa de Motta ser alvo de batida policial, e ser interrogado na Delegacia de Entorpecentes. Euclydes sustenta que Motta só tinha um vício: vinho. “Quando ia à minha casa, sempre tinha uma ou duas garrafas de vinho para bebermos”, lembra.

Apesar da maneira abrupta como terminou a relação dos dois, Euclydes refere-se a Motta com evidente consideração. “Quero ressaltar um ponto: embora eu tenha tido atrito com Marcelo Motta, tenho profunda admiração por ele até hoje. Não o venero, como dizem por aí, que eu tenho osso dele guardado em casa!”, diverte-se, contando em seguida o rumor de que teria ido ao cemitério de Teresópolis, onde Motta foi enterrado, e retirado de lá os ossos do antigo instrutor. “Não sei se foi o crânio, a tíbia, o fêmur… não sei nem qual foi! E que trouxe pra casa e uso como se fosse um ídolo, para adoração”.

Parte 2: um tipo de mágicka

Friso ainda que futuramente, se for possível, gostaríamos de iniciar uma experiência social semelhante à de Crowley em Céfalu.”

Paulo Coelho para Euclydes Lacerda – 18/04/1974

A Recompensa do Gigante

A filosofia de Thelema (Θελεμα, em grego, “vontade”) de Edward Alexander “Aleister” Crowley foi inspirada em um dos capítulos da fantasiosa crônica “Cinco Livros sobre as vidas, feitos heróicos e ditos de Gargantua e seu Filho Pantagruel”, obra do francês François Rabelais[7] na segunda metade do século XVI.

No fim do livro I, o autor narra que ao derrotar um rei inimigo, o gigante conquistador Gargantua oferece a seus principais ajudantes enormes recompensas em terras e dinheiro. A um monge que participara da guerra a seu lado, oferece o controle de toda abadia sob seus domínios, que se estendem até perder de vista. O monge, porém, recusa-se a governar outros religiosos.

Como posso ser capaz de comandar os outros se nem tenho controle total sobre mim mesmo?”, rebate, e pede que Gargantua permita a construção de uma abadia diferente de todas as outras, onde as pessoas não seriam obrigadas a votos de castidade, pobreza e obediência e poderiam juntar-se ao monastério e abandoná-lo de acordo com sua vontade.

A primeira referência aparece no capítulo 52, “Como Gargantua fez ser construída para o Monge a Abadia de Thelema”. Em seguida, Rabelais conta “Como a abadia dos Thelemitas foi construída e guarnecida” (capítulo 53), descrevendo em minúcias as belezas e riquezas da construção e mostra “A inscrição colocada sobre o grande portão de Thelema” (capítulo 54), que, em forma de poema, trata jocosamente das diversas personas cujas presenças seriam bem-vindas à abadia ou banidas dela. As duas listas são longas.

O autor conta “Que maneira de viver os thelemitas tinham” (capítulo 55), repletas de imagens de abundância, “Como os homens e mulheres da ordem religiosa de Thelema estavam vestidos” (capítulo 56), onde prosseguem as descrições de belezas e riquezas infindáveis. Por fim, “Como os thelemitas eram governados, e de sua maneira de viver”. Lá, proclamava Rabelais, a vida não seria “gasta em leis, estatutos, ou regras”. Não havia horários pré-estabelecidos para dormir, beber, comer, trabalhar ou dormir, nem poderia haver relógios, pois gastar tempo contando-o era um exemplo perfeito de futilidade.

Só havia uma cláusula a ser observada:

Faze o que tu queres.

Pois homens que são bem nascidos, bem criados, e acostumados a companhias honestas, têm naturalmente um instinto que as impele a ações virtuosas e os afasta dos vícios, que é chamado honra.

O resultado deste sistema libertário, segundo a descrição do médico e escritor francês, idealizada em meio à sátira aos costumes pródigos de determinados monges do século XVI, seria uma versão ainda mais romantizada da mítica Camelot dos bretões. “Nunca foram vistos cavaleiros tão valorosos, tão nobres e dignos (…) Nunca foram vistas mulheres tão apropriadas e belas”. A partir de 1904, as palavras de Rabelais ecoariam e se tornaram realidade – não tão romântica quanto em sua obra – justamente na Inglaterra. Seu realizador, no entanto, estava longe dos ideais de nobre cavaleiro medieval preconizados pelo Monge que recebeu a recompensa de Gargantua.

Simpatia pela Besta

A história de Crowley é amplamente documentada e frequentemente lida sob vieses negativos. Foi uma personalidade escandalosa para sua época e habitat, a então sisuda e puritana Inglaterra do fim do século 19 – nasceu em 12 de outubro de 1875 – e começo do século 20 – morreu em 1 de dezembro de 1947. Enquanto era vivo, já pesava sobre ele a acusação de satanista, que ora refutava ora incentivava. A definição se tornou indelével depois que suas práticas inspiraram cultos deturpados de suas teses originais, como o da família Manson, responsáveis por crimes bárbaros na década de 1960, e a Igreja de Satã de Anton Szandor La Vey[8], ícone do hedonismo narcisista que encantou alguns hollywoodianos.

Herdeiro de uma pequena fortuna ao ficar órfão, Crowley chegou à juventude dando provas de voracidade espiritual, intelectual e sexual incomuns. Em Trinity College, Cambridge, onde estudou, conheceu dois jovens que o levaram a conhecer a Ordem Hermética da Aurora Dourada[9] (Hermetic Order of Golden Dawn). Juntou-se em 1898 ao clube secreto de nobres e intelectuais europeus que se dedicava a estudar os mistérios antigos do Egito e práticas de meditação orientais com ramificações filosóficas.

Em pouco tempo, Crowley se destacou no grupo, alcançando os graus mais elevados. Ao chegar no topo, entrou em conflito com os mais antigos da ordem, especialmente com o líder do grupo, o escocês Samuel Liddell Mathers[10]. Expulso, tomou uma atitude impensável nos meios ocultistas, no qual o conhecimento é geralmente considerado como algo reservado a poucos “capazes de lidar com as enormes complexidades da existência”. Publicou, em uma compilação intitulada The Equinox[11] (O Equinócio) todos os rituais da Aurora Dourada, descritos em detalhes, eliminando para sempre o caráter “secreto” de que a ordem até então dispunha.

Não foi uma simples vingança, como muitos sugeriram, mas o princípio de uma mudança de paradigma. Àquela época, a transmissão de conhecimentos básicos, como as relações numéricas entre as letras hebraicas e os números, base da Cabala, era reservado aos “merecedores”. Crowley foi o primeiro a tornar transparente uma organização secreta, cujo maior “ativo” por definição é o sigilo de palavras e gestos de identificação (“de passe”, as populares senhas) e os rituais que praticava.

Insatisfeito com a experiência da Golden Dawn, Crowley criou seu próprio grupo, a Astrum Argentum, com uma estrutura diferente. Os iniciados não mantém contato como grupo, não há reuniões e cada integrante conhece apenas seu iniciador e seus iniciados – pelo menos, em tese. Na organização, aplicava o conceito de Thelema e de magick, que formulou a partir de 1904, em uma viagem ao Egito com a primeira esposa, Rose Kelly. De volta à Inglaterra, Crowley apresentou ao seu instrutor, George Cecil Jones, um livro que disse ter sido comunicado a ele por uma entidade “preternatural” intitulada Aiwass (um fundamental trocadilho com “I was”, eu era) ditado pela essência do escriba dos deuses do Egito, Ankh-f-n-Khonsu, refletindo as palavras dos próprios Ísis, Osíris e Hórus. Jones recebeu a obra com desdém: ”Eu não aprecio poesia”. Algum tempo se passaria até que adotassem a lei de thelema.

O próprio título tinha uma explicação que desafiava os que ousassem lê-lo: “Liber AL vel Legis sub figurâ CCXX [220], como entregue por XCIII [93] = 418 a DCLXVI [666]”. O número 220 aludia à quantidade de versos espalhados ao longo dos três capítulos que descrevem as diferentes eras (æons, em grego) da humanidade. O 93 se tornaria um número precioso para os nascentes thelemitas, representando a soma da palavra da Lei, Thelema (Vontade, em grego), e passando a ser usado como saudação. O 418 representava um personagem-chave da trama, e o 666 era o novo título de Crowley, perfeito para chocar a sociedade vitoriana.

A frase tão repetida nas músicas de Raul Seixas, via de regra, é citada fora de seu contexto. Encontra-se no primeiro capítulo do Livro da Lei, na “manifestação de Nuit” (Ísis), o primeiro æon, da energia feminina, que anuncia ser Thelema a “palavra da lei”. Ela afirma que chamá-los (os seguidores desta, presume-se) de “thelemitas” não seria um erro, mas alerta que a palavra conteria três graus, ou facetas: o eremita, o amante e o homem da terra. No original, a frase em questão é Do what thou wilt shall be the whole of the Law. Na tradução de Marcelo Ramos Motta, Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Nuit/Ísis explica que se a palavra da Lei é Vontade, a do Pecado é a Restrição. Incentiva os maridos a não recusarem suas esposas, e os amantes a partirem, se assim quiserem. “Não há laço que possa unir os que estão divididos a não ser o amor. Todo o resto é maldição”, sentencia, seguido de um praguejar contra os “malditos”. A deusa continua, dizendo que uma pessoa não tem direito a não ser fazer o que quiser, e que, fazendo isto, não seria contrariado por ninguém. “Pois a vontade pura, desembaraçada de propósito e livre do desejo de resultado, é todavia perfeita”, condiciona, estabelecendo os elementos básicos para que a vontade seja considerada verdadeira dentro do sistema. Pura, desembaraçada de propósito e livre do desejo de resultado.

No segundo capítulo, sob a manifestação de Hadit (Osíris), as palavras se tornam mais ásperas. Neste æon, o poder masculino torna-se proeminente. Surge a divisão entre fortes e fracos, servos e escravos. Surge então outra frase que ecoaria nos ouvidos da juventude de 1970 em diante: “Nada temos com o pária e o incapaz: deixe-os morrer em sua miséria. Pois eles não sentem. Compaixão é vício de reis: pisai o retorcido e o fraco: esta é a lei do forte: esta é a nossa lei e alegria do mundo.”

Adiante, apesar de confirmar que existe uma divisão incontornável entre dominante e dominado, alerta para a possível falsidade das aparências: “Portanto os reis da terra serão Reis para sempre: os escravos servirão. Não há o que deva ser rebaixado ou elevado: tudo é como sempre foi. No entanto, há mascarados, meus servos: pode ser que aquele mendigo seja um Rei. Um Rei pode escolher sua vestimenta como quiser: não há teste seguro: mas um mendigo não consegue esconder sua pobreza”.

O terceiro æon, de Ra-Hoor Khuit (Hórus), é sem dúvida onde se encontram as palavras mais duras. “Que primeiro seja compreendido que sou um deus da Guerra e da Vingança. Eu lidarei duramente com eles”, proclama. Adiante, depois de uma série de instruções de acordo com o espírito enunciado, o irado deus falcão faz uma advertência:

Não recuses ninguém, mas tu deverás conhecer & destruir os traidores. Eu sou Ra-Hoor-Khuit; e eu sou poderoso para proteger meus servos. Sucesso é tua prova: não discutas; não convertas; não fales demais! Eles que procuram te emboscar, te suplantar, ataca-os sem piedade ou misericórdia; & destrua-os inteiramente. Suave como uma serpente enrodilhada, vire-se e ataque! Seja mais mortal ele! Arraste suas almas para eterno tormento: ria do medo deles, cuspa neles!

Ao fim do livro, um recado ameaçador, o Comentário. Nele, o mesmo escriba dos deuses que acabara de colocar no papel todas essas mensagens proibia o estudo do Livro, dizendo ser prudente destruir a cópia após a primeira leitura. “Quem desconsidera isto o faz por seu próprio risco e perigo. Estes são os mais terríveis. Todos os que discutem os conteúdos deste livro devem ser evitados por todos, como focos de pestilência”.

Apesar da proibição, ou talvez por causa dela, Crowley foi recebido pelos ocultistas como o “profeta, vate e apóstolo” que se intitulava, supostamente de forma retórica, no Livro da Lei. Passou a comportar-se como tal. Criou sua ordem, a Astrum Argentum (A∴A∴), em 1907. Três anos depois, ao publicar um livro em que insinuava, metaforicamente, a utilização da energia gerada pelo ato sexual para a realização de um objetivo específico, dentro de um ritual mágico, foi convidado a ingressar na Ordo Templi Orientis (O.T.O.), organização de origem alemã cujos níveis mais elevados desembocavam na magia sexual.

Para Euclydes, o Livro da Lei marcava, simbolicamente, a época em que o ser humano devia assumir responsabilidade por seus atos, em vez de atribuí-los a poderes superiores. O desenvolvimento completamente novo era uma espécie de religião baseada não no temor do castigo divino ou universal, mas na expressão daquilo que representasse a verdadeira vontade de cada um. Era o segundo rompimento de Crowley com a “velha ordem” da magia, do segredo. O juramento da A∴ A∴, explicou-me, continha a frase “mistério é inimigo da verdade”. “Na primeira vez que li, eu realmente destruí o livro, coloquei fogo. Aí, liguei para o Marcelo e contei o que tinha feito. Ele riu e disse: Vou te mandar outra cópia.”

Assim como ocorreu na Aurora Dourada, Crowley rapidamente dominou o que a O.T.O tinha a oferecer. Tornou-se líder da ordem na Inglaterra, e depois, passou a ameaçar o poder dos prussianos Theodor Reuss e Carl Kellner, que iniciaram a ordem em 1902, adquirindo permissões para estabelecer grupos com base em dois ramos da Maçonaria: os ritos de Mênfis e Misraim e o Rito Escocês Antigo e Aceito. Não demorou até que houvesse um rompimento com o grupo que se recusou a aceitar a Lei de Thelema como base dos trabalhos iniciáticos, e ele reivindicasse para si o título de Cabeça Externa da Ordem (OHO, na sigla em inglês).

Os detratores do bruxo inglês sequer precisavam se esforçar para fuçar motivos para condená-lo como herege, pervertido sexual, drogado. Ele mesmo fornecia os elementos para as acusações, em seus muitos escritos. Sua extensa aubiografia, reveladoramente denominada “Confissões” (Confessions of Aleister Crowley, sem tradução em português), traz detalhamento e distanciamento talvez jamais vistos numa autobiografia. Ou, como ele debochadamente a classificou, uma “auto-hagiografia”, tomando emprestado o termo usado pelos católicos para as biografias de beatos, santos, mártires e demais devotos fervorosos.

Era uma personalidade desafiadora da religião desde a infância, conforme seu próprio relato minucioso. Criado por pais ultrarreligiosos integrantes da seita protestante Irmandade de Plymouth, Crowley se rebelava constantemente e acabou ganhando da mãe a alcunha da qual viria a se “gabar” no meio ocultista décadas depois: a Grande Besta do Apocalipse. Nome perfeito para provocar a sociedade vitoriana, ao qual ele acrescentou camadas e camadas de simbolismos mágicos e numerológicos, relacionando-a ao signo de Leão, outro componente astrológico da famosa “Era de Aquário”, na qual supostamente ocorreria a iluminação espiritual da humanidade.

Na Itália, montou sua versão da Abadia de Thelema, numa vila portuária chamada Céfalu, na Sicília, banhada pelo mar Tirreno. A população, que hoje provavelmente não passa dos 15 mil habitantes, certamente era bem menor em 1920. O local era denominado oficialmente Collegium ad Spiritum Sanctum, onde Crowley e sua então esposa, Leah Hirsig, preconizavam adorações ao sol, exercícios de yoga e outras práticas rituais – algumas envolvendo atos sexuais e outras envolvendo algum tipo de substância inebriante, ainda que fosse o álcool do vinho.

Três anos depois de instalada, já malvista pela comunidade local, a congregação libertária foi abatida pela morte de um de seus estudantes, Frederick Charles Loveday. Retornando à Grã-Bretanha, a esposa dele, Betty Mae Sedgewick, contou ao tablóide (sim, os tabloides já eram o mesmo que hoje na Inglaterra) The Sunday Express a história que todo jornalista sabe que vende: sexo, drogas, magia negra e morte. Ainda que a morte tenha sido causada por uma febre entérica contraída da água de um riacho e o sexo tenha sido consensual entre maiores de idade. Foi expulso da Itália por Benito Mussolini, imediatamente.

Betty Mae lançou ainda um livro, The laughing torso, acusando Crowley de praticar “magia negra”. Crowley respondeu processando-a, bem como os editores e os impressores do livro, mas perdeu. Em 1934, dirigindo-se ao júri, segundo o relato do Sunday Express, o juiz ironicamente chamado Justice Swift (“justiça suave”) foi duríssimo:

Tenho estado há mais de quarenta anos engajado na aplicação da lei de uma maneira ou de outra. Pensei que conhecia toda forma concebível de perversão. Pensei que tudo que era sórdido e ruim haviam sido apresentadas diante de mim uma vez ou outra. Aprendi, neste caso, que sempre podemos aprender algo mais se vivermos o suficiente. Nunca ouvi coisas tão tenebrosas, horríveis, blasfemas e abomináveis como as apresentadas pelo homem que se descreveu para vocês como o maior poeta vivo”.

Crowley acabou considerado culpado de pagar cinco libras por cartas de Betty Sedgewick que poderiam conter informações importantes a serem usadas no tribunal. Resumindo as palavras do juiz, passou a se intitular “o homem mais pervertido do mundo”. Uma explicação para este tipo de comportamento encontra-se no capítulo 53 de sua autobiografia, quando fala sobre o Bagh-i-Muattar, escrito em 1905, no qual inventou o poeta muçulmano do século 17 Abdullah al Haji, suposto autor do livro, bem como um major anglo-indiano que o traduziu e comentou, o editor que completou o trabalho do militar, que teria sido morto na África do Sul, e até um clérigo anglicano para discutir os temas da obra. Sempre imodesto, ele comentou:

Este espasmo de gênio é um eloquente retrato de minha mente nesta época. Eu estava absolutamente convencido da suprema importância de devotar a minha vida a obter Samadhi, a comunhão consciente com a Alma Imanente do Universo. Eu acreditava no misticismo. Entendia perfeitamente a essência de seu método e a importância de sua obtenção, mas me sentia compelido a me expressar de formar satírica e (pode parecer a alguns) quase escandalosa. Eu dava testemunho da tremenda verdade eu empilhava ficção em cima de ficção. Eu não sabia. Eu não suspeitava, mas o Bagh-i-Muattar é um sintoma de suprema significância. Eu estava à beira de um desenvolvimento completamente novo.”

Ao morrer, em 1 de dezembro de 1947, seus discípulos na O.T.O. entraram em disputas explícitas e aguerridas pelo poder. Crowley foi ambíguo em suas declarações sobre quem deveria sucedê-lo. Karl Germer, seu secretário particular, era apontado em um documento como seu “agente e representante”. Grady Louis McMurtry e Kenneth Grant, alunos destacados, foram em diferentes momentos apontados como possíveis continuadores do trabalho mágico.

Germer e o suíço Herman Joseph Metzger, líder do grupo da O.T.O. que não havia aceitado a lei de Thelema, promoveram a reunião das duas correntes. Apesar de recusar, em sua correspondência particular, que Grant o considerasse como superior na ordem, Germer se enfurecer com a aproximação deste a outra corrente e expulsou-o, provocou mais um cisma na ordem. Surgia a OTO do ramo ‘tifoniano’, liderado por Grant.

Para simplificar bastante uma longa e complicada história contada com documentos por Peter König em seu site The OTO Phenomenon[12], após a morte de Germer, houve nova rodada de disputas de poder, das quais Marcelo Motta participou, opondo-se à facção comandada por Grady McMurtry, denominada Califado. Houve ainda uma intrincada disputa pelos direitos autorais das obras de Crowley, constantemente reeditadas mundo afora até o advento da internet, que resultaram, na década de 1980, em processo judicial contra o brasileiro e processo dele contra outros executores literários do inglês. Além dos livros doutrinários de Thelema, a maioria dos quais se encontra disponível gratuitamente online, Crowley legou itens de sucesso comercial, como o baralho de Tarô

Na introdução publicado ao seu Liber 418, trabalho realizado em 1909 com o qual confirmava o Livro da Lei como resultado de uma visão inspirada, Crowley foi taxativo:

Admito que minhas visões possam não significar a outros o mesmo que significaram para mim. Não lamento este fato. Tudo que peço é que meus resultados convençam os buscadores da verdade de que existe algo realmente digno de ser alcançado, podendo usar métodos mais ou menos parecidos com os meus. Eu não quero liderar rebanhos, ser objeto de admiração de tolos e fanáticos ou o fundador de uma fé cujos seguidores são ecos de minhas opiniões. Eu quero que cada homem abra o seu próprio caminho mata adentro”.

Segundo um integrante inativo de um grupo de caráter thelêmico brasileiro, que pediu anonimato, Crowley escondeu a essência do seu pensamento com camadas e camadas de práticas místicas que, realizadas sem o rigor apropriado, podem até ser prejudiciais.

Tem de tudo, porque ele fazia uma grande miscelânea de conhecimentos. A comparação pode parecer esdrúxula, mas Crowley aplicava ao ocultismo e às religiões o que o Bruce Lee faria décadas depois nas artes marciais, absorva o útil, rejeite o inútil. Então, tem meditação, controle da mente, da respiração e da fisiologia, mas tem coisas também que os cristãos podem chamar de demoníaco, as invocações da Goécia, por exemplo, apesar de terem um significado complexo. O pessoal se contenta normalmente em parar nas frases de efeito, mas Crowley deixou as pistas dele espalhadas ao longo de seus trabalhos. É preciso aprender a lê-lo”, afirmou.

A mais equilibrada e precisa definição do sistema aperfeiçoado por Crowley foi provavelmente escrita pelo jornalista Mick Wall, biógrafo da banda de rock Led Zeppelin, criada por Page. Em Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra (Editora Larousse), ele explica:

Não estamos falando de bruxaria simples, do tipo que costuma ser encontrado nos romances de Stephen King ou nos filmes de abracadabra de Harry Potter (embora muitos outros livros, filmes e outras famosas obras de arte incorporem elementos do ritual mágicko genuíno. Segundo Eliphas Levi, mágico e escritor do século 19, o conhecimento do oculto – isto é, o conhecimento oculto dos séculos que remonta à era pré-cristã, até a serpente e o Jardim do Éden – é um produto de equações filosóficas e religiosas tão exatas quanto as de qualquer ciência. Além disso, quem for capaz de adquirir tal conhecimento conseguir usá-lo de maneira correta se tornara imediatamente mestre dos outros que não têm a mesma habilidade.

Paracelso, um dos primeiros defensores da arte dos magos, escreveu no século 16: “A magia é uma grande sabedoria escondida… não há armadura que consiga dar proteção, pois ela atinge o espírito da vida. Disso podemos estar certos”. Ou, como Aleister Crowley – talvez o ocultista mais famoso depois de Merlin – afirmou em 1928, em seu Magick in theory and practice, o primeiro livro a despertar a atenção de Jimmy Page para as possibilidades do oculto: “A Magicka é a arte e ciência da mudança em conformidade com a vontade. (O K foi acrescentado por Crowley à palavra “magic” não só para diferenciar o que ele estava falando dos truques simples empregados pelos feiticeiros, mas também por questões ligadas ao ocultismo: as seis letras da palavra “magick” em inglês representavam um equilíbrio em relação à palavra original de cinco letras “magic”, equilibrando o hexagrama e o pentagrama, 5+6=11, o número geral da mágicka, ou energia que tende a mudar, como ele afirmou em seu livro de 1909, 777.)  

A partir da década de 1960, parte de seus conceitos foram absorvidos pela contracultura. Sua clássica careca aparece na ilustração do disco dos Beatles, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), entre as figuras históricas e populares escolhidas pelo quarteto de Liverpool. Os Rolling Stones também tiveram seu flerte com as ideias  dos excessos sexuais. Os exemplos mais notórios de artistas que fizeram trabalhos de fato inspirados nele são o guitarrista Jimmy Page, o cineasta Kenneth Anger e, obviamente, Raul Seixas e Paulo Coelho. Sua mensagem se popularizou, mas não sem ruídos.

Perguntas que nunca calam

Depois da conversa inicial, em que abordamos superficialmente diversos assuntos, perguntei a Euclydes o que significava Thelema, na concepção dele. A resposta:

Psicologia pura. É o conhecimento do homem, de si próprio. É mexer com certos arquétipos que existem na psique humana. colocá-los para fora, entrar em contato com esses eles e aprender. Isso vem de longa data, através da genética. Temos um conhecimento muito profundo, mas não entramos em contato com ele. Por que? Porque a mente material, a mente mundana foi criada e o subconsciente ficou lá atrás. Quando você sonha, quem fala com você é o seu subconsciente. Ele te dá instruções, diz se você tá doente ou não. A mente que nós usamos no dia a dia é uma mente artificial, para a sociedade. Criada pelos costumes, pelos tabus. O homem não é isso. O homem é aquilo que está lá dentro”.

A abordagem da “magick” preconizada por Crowley, que escrevia detalhados diários (talvez até detalhados demais) de suas práticas, buscava o rigor científico. O discurso científico por vezes impregnava a fala de Euclydes, que se referiu aos seres humanos como partículas da grande explosão primordial. “Pela Lei de Lavoisier, a energia não pode ser criada nem destruída, só transformada. Se nós não estivéssemos lá no Big bang, não poderíamos estar aqui. Nosso nascimento foi lá. Temos um conhecimento que vem desde aquela época”, afirmou.

Na sequência, deixou escapar uma provocação velada ao ex-aluno: “Por isso certas, pessoas entram em contato com alguma coisa, se apavoram, acham que é o diabo e viram a casaca para a Igreja Católica. É difícil a gente se encontrar com a sombra. No nosso subconsciente também tem a sombra, cada um tem que se encontrar com a sua. É o chamado Guardião do Portal. Então, tem gente que entra em contato com isso e se apavora. Diz assim: ‘Ai, meu Jesus, toma conta de mim!’ e vira católico romano. Aliás, nunca vi católico romano acreditar em reencarnação”.

Com alguma dificuldade, consegui abordar a polêmica principal da vida de Crowley, que deixou um legado pesado sobre seus seguidores: o uso de entorpecentes e as práticas sexuais não-ortodoxas a que ele se dedicava e que registrava em seus escritos. Contrariado, Euclydes começou dizendo que o instinto sexual é universal. Sem isto, não haveria geração, não haveria humanidade. Contudo, prosseguiu, atualmente, o sexo está sendo “explorado comercialmente de uma maneira estúpida”.

Sexo para nós é sagrado. É um momento em que o homem se torna um criador. Sexo para nós, pode colocar essa palavra, não é sacanagem. Muita gente entra para a OTO pensando em comer a mulher do próximo, mas na minha OTO, essa minha aí entre aspas, não existe isso”, disse, em tom de desabafo, acrescentando, com um breve sorriso: “A não ser que a mulher tacitamente queira entrar em contato sexual com quem quer que seja. Isso é problema dela”.

Quanto às drogas?

E o problema das drogas, nós temos Aldous Huxley[13], que usou drogas e, no entanto, não é chamado de satanista, não é? Experiências com drogas são feitas por vários cientistas. Inclusive a CIA e o FBI utilizam drogas para alcançar certos efeitos. Mas nós não defendemos o uso de drogas. Achamos que se o cara quer se drogar e virar bicho, problema dele. Se ele não tem coragem de enfrentar a si próprio, evite usar drogas.”

Provoquei-o com uma das frases mais conhecidas de Crowley no Livro da Lei, “os escravos servirão”. Ele riu e a repetiu, em tom exclamativo, em seguida retomou a sobriedade: “Eu nunca usei drogas. As pessoas falam das drogas, mas esquecem que os iogues são capazes de obter o mesmo efeito fazendo aquela respiração forçada, que oxigena mais o cérebro. Os índios até hoje usam drogas em seus rituais, no Brasil e nos Estados Unidos tem igrejas de nativos americanos que usam”, afirmou, referindo-se à utilização cerimonial da ayahuasca, bebida obtida a partir do cipó Banisteriopsis caapi e de folhas de Psychotria viridia.

Questionei se há, objetivamente, adoração à figura de Satã dentro das práticas ditas thelêmicas – mistura que agrega elementos da yoga hindu, da cabala judaica, da astrologia e do tarô, entre outras. Ele repeliu a ideia veementemente. “Negativo! Nunca vi, nunca vi! Eu fui discípulo do Marcelo durante 14 anos, vivo até hoje como thelemita, tenho minhas práticas e nunca adorei Satã. Embora haja por aí várias seitas satânicas, claro”.

Para os thelemitas, explicou, Satã é uma “energia arquetípica” ou egrégora, força composta pela soma da energia física, mental e emocional dedicada por um grupo de pessoas a algum conceito/objeto. “Não é um deus ou uma entidade a ser adorada. Nós não adoramos nada. Satã é um arquétipo”, sentenciou. Trocamos elocubrações sobre as origens da palavra. Ele salientou a existência de um termo similar no misticismo egípcio, derivado do deus serpente Set, eu lembrei a origem semítica da palavra, shaitan, que resultou na figura do “Adversário de Deus” na Bíblia.

Euclydes disse então que as relações entre as energias tinham sido descritas e catalogadas por Crowley. O inglês preconizava que tais forças, devidamente conhecidas e combinadas, podiam ser usadas para obter resultados sobre o mundo material. Um quesito fundamental para isto, no entanto, era dominar os símbolos contidos no Liber 777 vel Prolegomena symbolica ad systemam sceptico-mysticæ viæ explicandæ hierogliphicum sanctissimorum scientiæ summæ. Tratava-se, segundo o autor, de uma imodesta “tentativa de sistematizar os dados do misticismo e os resultados da religião comparada”.

Liber 777[14] contém 183 tabelas de correspondências destes elementos místicos e religiosos. Nas compilações feitas por Crowley e amplamente utilizadas no meio ocultista em geral, é possível estabelecer relações entre as divisões da alma segundo egípcios, hinduístas e budistas; os 12 signos do zodíaco e as 12 tribos de Israel; os arcanos maiores do tarô e o alfabeto hebraico; e até os órgãos do corpo humano e seres legendários como duendes e unicórnios. Satã aparece sem destaque especial, ao lado de outros quatro nomes na tabela 108, intitulada “Alguns príncipes das Qliphoth” (termo hebraico que significa “cascas”, emanações imateriais, potencialmente prejudiciais).

Perguntei sobre Lúcifer. “Em grego, quer dizer aquele que traz a luz, o portador da tocha. É o mesmo que o Prometeu, aquele que foi ao Olimpo, roubou o fogo sagrado dos deuses e trouxe para aos homens em uma vara, com sete nós, que são os sete chacras. Ele trouxe o poder da geração através do sexo, foi preso numa rocha e tal, aquela história toda que você sabe. Prometeu é a mesma história do Satã. Aquele que se revoltou contra Deus, contra Jeová”.

Os thelemitas, explicou, podem entrar em contato com essa energia arquetípica, assim como podem entrar em contato com “energias chamadas Júpiter, Saturno, anjo Gabriel, anjo Rafael, Maria, Ísis, Vênus, Osíris, Órus, Votan, Astarte”. O trabalho, no entanto, não é direcionado para  reforçá-las (adorá-las) ou para utilizá-las de forma prejudicial a terceiros. “Para nós, tudo que não é direcionado ao conhecimento e à conversação com o Sagrado Anjo Guardião é magia negra”, sentenciou Euclydes, referindo-se à figura que, dentro do sistema idealizado por Crowley, representa o verdadeiro eu do ser humano, capaz de expressar sua verdadeira vontade, após despido do ego mundano.

Discutimos a partir daí a maneira como a rixa com o cristianismo está enraizada de forma profunda no movimento thelêmico brasileiro. Além da personalidade de Crowley, foi fortemente influenciado por um ensaio/correspondência de Marcelo Motta que ficou conhecido como “Carta a um maçom” (Motta usava a grafia “mação”). O guru dos thelemitas se dirige em tom ao mesmo tempo indignado e condescendente a um amigo, “mação osiriano”, como classifica pejorativamente. Pretende explicar-lhe a insensatez de alguém detentor de elevados conhecimentos ocultos crer na figura do Jesus Cristo apresentado pela Igreja Católica Apostólica Romana (por vezes tratada pela sigla ICAR).

Entre fontes históricas confiáveis e fontes místicas nem tanto, Motta constrói sua tese da fabricação, pelo patriarcado cristão de Roma e Alexandria, principais igrejas dos primórdios da religião, de um mito que utilizava elementos do Adônis grego, do sacerdote essênio Jonah (João Batista) e outros, para esconder as verdadeiras palavras que o profeta Yeheshua trazia: que todo ser humano é capaz de alcançar o estado de graça que caracteriza o chrestos (o ungido), iniciado que se reconhece como encarnação do Verbo Divino, o Logos (conhecimento). A figura de Jesus Cristo, argumenta ele, é uma falsidade histórica habilmente usada para domar o ímpeto revolucionário do cristianismo primitivo.

Euclydes lembrou que assumiu o primeiro nome mágico (motto), Zaratustra, porque se sentia demasiadamente influenciado, até então, pelo cristianismo. “Para combater isso, tomei um nome que era exatamente o oposto. Esse Zaratustra não é o Zaratustra da Pérsia não (profeta do século 7, fundador do masdeísmo ou zoroastrismo). É o Zaratustra de Nietzsche. Fiz isso exatamente para combater essas minhas pendências. Posteriormente, me vi ‘sozinho’ e tomei o nome de Aster, que quer dizer estrela”.

Enquanto falávamos sobre a chegada de Thelema ao Brasil e ordens secretas daqui, em geral e algumas em particular (como a Fraternitas Rosicruciana Antiqua, FRA, e a Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz, Amorc) Euclydes afirmou ser sua opinião pessoal, compartilhada por Motta quando vivo, que o verdadeiro sucesso de uma ordem ou religião está ligado à renúncia ao poder material. “Toda vez que uma ordem cresce economicamente, financeiramente, decai filosófica e espiritualmente. As ordens secretas que se tornam fortes são exatamente as perseguidas, que vivem em situação econômica difícil. Isso, o Marcelo sempre me alertou”, explicou.

Os alertas de Motta foram bem incorporados pelo discípulo. Em seu blog, Blacklight (Luz negra)[15], criticou a preocupação do Califado (O.T.O. dos Estados Unidos) com as receitas da vendas de livros de Crowley. “Compreende-se ser um dever sagrado combater quaisquer tendências contrariando este direito, ou procurando locupletar-se social ou financeiramente usando Thêlema como desculpa. Qualquer thelemita mantêm bem claro seu repúdio a esses que vêm agindo assim durante anos, seja no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo”, afirmou, em postagem de 14 de novembro de 2009.

Meses antes, em julho de 2009, num post sob o título “Alerta geral”, denunciou a utilização indevida do nome da própria ordem que criou para a obtenção de retorno material. “Este alerta é para tornar conhecido por todos que a Sociedade Novo Æon está em estado de retiro desde o ano 2001, após a morte do Sr. Tarcisio de Oliveira. “No entanto alguns indivíduos inescrupulosos estão usando o Nome da Organização para extorquir dinheiro de incautos, alegando taxas de iniciação. Saibam todos que um dos princípios básicos da Organização proíbe de maneira tácita e veemente a cobrança de taxas (dinheiro, etc.) para iniciações ou outras quaisquer atividades da Sociedade”, escreveu, assinando como supervisor geral da ordem.

As sucessões conturbadas no meio thelêmico colaboraram para desvirtuar o foco dos trabalhos mágicos, segundo meu entrevistado, que manteve contato por correspondência com Kenneth Grant, discípulo direto de Crowley por mais de uma década. “Ele (Grant) começou a se ligar a um sistema que chamamos de tifoniano, misturando (thelema) com aquelas histórias de seres extraterrestres e tal, confundiu a coisa toda. A minha organização aqui era registrada no santuário interno da O.T.O., mas depois comecei a me afastar dele. Quem começou a se ligar a ele foi uma pessoa de Minas Gerais, que começou a inventar um monte de coisa que não interessa saber, mas ele tem o direito de fazer o que ele bem entender. A coisa começou a degringolar, começou a surgir O.T.O. para tudo que é lado”.

Na esteira desta proliferação de ordens secretas, disse ele, houve até a insólita vinda ao Brasil do escritor e ocultista americano Lon Milo DuQuette[16] – especialista na obra de Crowley, “oficial administrativo nacional e internacional” da O.T.O. desde 1975 e “vice grão mestre” da ordem nos Estados Unidos desde 1994, segundo seu website. DuQuette, famoso por sua visão bem-humorada sobre o ocultismo, foi a um hospital do Rio encontrar Euclydes, que convalescia de seu terceiro enfarte.

Eles me pediram ao médico pra me liberar, vim pra cá e me iniciaram aqui, nesse apartamento. Tiramos até fotografia”, contou, divertindo-se, acrescentando que eles vieram acompanhados de um brasileiro, autodenominado frater Iskuros, que seria o líder do ramo oficial do grupo no país. “Fui a uma certa reunião e tive uma desavença com ele, infelizmente. Aí, me afastei com-ple-ta-men-te da OTO americana. Hoje em dia, somos amigos, nos telefonamos, nos falamos, tudo isso. Aproveitei que eu já tinha fundado a sociedade da Novo Æon, comecei a trabalhar com a Novo Æon e fundei a O.C.T., que é a Ordem dos Cavaleiros de Thelema.”.

Sua irritação com as organizações thelêmicas era visível. “Existe um grupo aí que está formando, a OTOM. Ordo Templis Orienti Mundi. Eles vão trabalhar nisso aí e eu vou apoiá-los até o ponto em que eu achar que estão seguindo corretamente a lei de Thelema. Se não estiver, eu saio fora. Não estou… eles sabem disso, perfeitamente, não to aqui pra isso não. Já tô muito velho!

Seis meses depois desta afirmação, ele romperia, também pelo blog, com a O.T.O.M., num post intitulado simplesmente “A quem interessar possa”:

Informo para conhecimento de todos que eu, Euclydes Lacerda de Almeida, NÃO SOU MEMBRO DA ORGANIZAÇÃO DENOMINADA OTOM, como explicito em documento aqui postado, e que meu nome e foto foram publicadas no “blog” desta organização sem minha permissão. Não concordo com as filosofias e conceitos pertencentes a Organização acima mencionada, e quem afirmar ao contrário está enganado ou enganando. Sou Thelemita e não coaduno com idéias um tanto esdrúxulas com ressaibos de outras correntes de pensamento contrários à doutrina Thelêmica que não abraça, concorda ou emitem idéias de diferença de raças e outros preconceitos estranhos à nossa Doutrina em que “Todo homem e mulher é uma estrela”. Sou, e sempre serei um representante de Thêlema em nosso em nosso pais, mas não o único. Outrossim, desejo avisar, a todos os interessados, que estou às ordens de quaisquer pessoas que desejem maiores esclarecimentos a respeito do assunto. Mas que as questões sejam feitas dentro dos padrões de respeito usados por pessoas civilizadas e educadas.”

As palavras de Crowley sobre não querer seguidores ecoavam as do emblemático Jiddu Krishnamurti[17], para o qual Euclydes chamou minha atenção em determinado ponto das conversas. Educado desde os 13 anos pela Sociedade Teosófica – do qual seu pai era secretário – para ser o Instrutor do Mundo, o indiano dissolveu, em 1929, a Ordem Internacional da Estrela do Oriente, criada para ser seu veículo. Declarou que nenhuma seita ou religião organizada daria acesso à “terra sem caminho” da Verdade. Apesar de rejeitar a autoridade de guia espiritual, Krishnamurti, caso de rara honestidade intelectual no meio ocultista, continua sendo praticamente idolatrado e seus ensinamentos, tratados como a palavra de um mestre.

Comentei como parecia difícil ter a lucidez de negar o papel de proeminência que todos ansiavam por lhe oferecer. “Eu o admiro muito por causa disso. Ele podia ter assumido tudo! Mas disse ‘não, eu não sou nada disso, sou um cara como outro qualquer’”. Euclydes concordou comigo que Crowley possuía a mesma característica. “É, sim, ele mesmo dizia: ‘não acreditem em mim!’”. Afirmei, então, acreditar que Crowley deliberadamente não deixara um herdeiro inequívoco. A reação foi entusiasmada. “Ele fez igual ao Alexandre (Magno). Você sabe o que o Alexandre fez? Pegou os quatro generais dele e disse ‘o mais forte será o meu sucessor’. Apareceu Ptolomeu, apareceu uma porção de gente. Ele não entregou nada! O cara que tomasse! É o que tá escrito no Livro da Lei. É a Lei do mais forte. ‘Os escravos servirão’. Quem segue Crowley como homem é um escravo, porra! É um escravo!

Parte 3: rumo à cidade das estrelas

Mergulho nas memórias

Em uma das sessões de entrevistas, fomos acompanhados por Keron-ε, intermediário do pedido de entrevista. Ele veio ao Rio de Janeiro especialmente para a ocasião, a convite de Euclydes, que havia concordado em falar especificamente sobre Paulo Coelho, de forma mais aprofundada. Começou lembrando que, quando conheceu Coelho, este morava na Rua Voluntários da Pátria, no bairro de Botafogo, na Zona Sul carioca, e não aparentava passar por dificuldades financeiras. “Morava num belo apartamento, sustentado pelos pais”.

Interrompeu a conversa, indo ao quarto que ficava grudado na sala: “Vou mostrar uma raridade a vocês”. Pediu que eu desligasse o gravador. Do armário, tirou uma pasta plástica preta com as cartas de Paulo Coelho e a caixa de sapatos com as fitas gravadas por Marcelo Motta. Falamos sobre o material por algum tempo, sem que eu gravasse, e voltamos.

Com o livro em mãos, mostrei seu nome no índice onomástico. Nove referências. Tentei repassar todas, mas não obtive 100% de sucesso.

Quanto à primeira, que dizia que Paulo Coelho “se sentia um discípulo da falange da besta. Determinado a integrar as forças malignas que haviam conquistado de Lennon a Charles Manson, iniciava seu processo para ser aceito na O.T.O como probacionista, o primeiro grau na hierarquia da seita”, fez um reparo técnico: “O.T.O não tem probacionista. Nunca teve”. No mais, lembrou-me do que já havíamos discutido sobre as conexões ditas satânicas de Thelema.

À época do primeiro encontro com Motta, Euclydes trabalhava na Petrobras. Contou-me que cursou Economia na Faculdade de Valença e acabou indo trabalhar como bancário no Rio antes de passar em concurso. Me interrompeu, rindo, quando li sobre ele ser, na época em que conheceu o escritor, “funcionário graduado” da empresa. “Erro! Era um simples operador de terminal, puxava cabo de navio”. Completei: “Residente da cidade fluminense de Paraíba do Sul, a 150km do Rio”. “Ah, sim, nessa época eu era chefe de setor”, corrigiu-se.

A menção seguinte dizia respeito à mensagem em que Paulo Coelho contava da carta que havia recebido de Motta, proibindo-o de entrar em contato direto. Euclydes, frater Zaratustra, seria seu instrutor. “Recebeu uma carta, mal-criada como sempre, do Marcelo. Escreveu Paulo a Frater Z ao saber da notícia: ‘Estou proibido de entrar em contato com ele a não ser por você’. Era mesmo um refrigério ter como instrutor um homem polido como Euclydes e não o grosseirão Marcelo Motta que tratava seus subordinados a coices.”

Ainda bem que ele tratava a coices, porque se não tratasse…”, divertiu-se Euclydes.

Euclydes conferiu a carta com o original, e mostrou-nos algumas outras, inclusive um bilhete escrito a mão por Paulo Coelho, que datilografava todas as cartas, em viagem aos Estados Unidos em 1974. “Pedi para ele comprar um livro pra mim lá, mas parece que ele não tinha ‘magia’ para comprar”, zombou. Disse que não lembrava exatamente de como Marcelo lhe havia informado da transferência de discípulos. Além de Paulo Coelho, Euclydes “herdaria” também a instrução da própria companheira de Motta, Claudia Canuto. Segundo Euclydes, era um símbolo do respeito que o líder do grupo tinha por seu principal discípulo.

O Marcelo deve ter falando comigo por telefone, me telefonado. Naquela época, eu estava em Paraíba do Sul, então me comunicava muito com ele através do telefone, quando eu queria saber alguma coisa. Embora ele constantemente me mandasse cartas. A maior parte das cartas que o Marcelo mandou, ainda tenho. Só não estão comigo agora, estão em outro lugar”, explicou, quando pedi que as mostrasse também.

Ele disse não se lembrar da tentativa, relatada pelo próprio Paulo Coelho, de promover um curso no Mato Grosso do Sul usando técnicas preconizadas pela ordem. No caso, os supostos ensinamentos de Hermes Trismegisto, figura mítica greco-egípcia que representaria o grande e sábio deus da magia, descritos por Fernando Morais como tendo “13 mandamentos tão megalômanos quanto os de Crowley”.

Em seguida, menciona como Paulo Coelho oferecia os espaços que conquistava na profissão de jornalista a serviço da ordem. “Se conseguisse entrar lá [no Globo] disporia de um instrumento de verdade para difundir o ideário da O.T.O. Várias vezes em suas correspondências com frater Zaratustra, ele colocara a página semanal que ele tinha na Tribuna à disposição da seita. Mas nunca lhe haviam pedido nada.”

Euclydes nos mostrou as cartas, cujo conteúdo me vejo impossibilitado de publicar. Sua permissão para que eu as utilizasse foi verbal, não escrita. Sua viúva, que entrou em contato comigo por telefone após a publicação da segunda parte, também negou a autorização. Disse, com ar resignado, que Paulo Coelho não tinha entendido uma das principais lições do Livro da Lei: “Não convenças, não convertas, não fales demais”. “Ser thelemita não é sair querendo evangelizar todo mundo”, sentenciou. “Ele falava essas coisas e na maioria das vezes, eu nem respondia, ou dizia que iríamos pensar.

Implicou com a utilização da palavra “seita”, e acabou entrando em uma digressão sobre um tema polêmico no meio ocultista: as patentes, documentos que atestam o pertencimento de um indivíduo a uma determinada linhagem de uma escola de pensamento.

A O.T.O. não é uma seita, a O.T.O. é uma ordem maçônica. Pode não ser reconhecida por outras ordens maçônicas, chamadas de ‘regulares’. Eu não sei quem deu diploma a quem. A Grande Loja se diz regular. O Grande Oriente do Brasil se diz regular. Um dos dois está enganado. Sempre ouvi falar do Grande Oriente do Brasil. Fui iniciado no Grande Oriente do Brasil, que seria a única e verdadeira ordem maçônica no Brasil! Agora, se você for nas lojas da Grande Loja, vão dizer que as únicas que as regulares são as lojas da Grande Loja. Foi exatamente esse dilema, essas dúvidas, que me fizeram me afastar da maçonaria. Era, vamos dizer assim, uma briga política. ‘Ah, eu é que sou verdadeiro’. Quem é que deu diploma para Moisés? Foi Jeová? Pô! Entendeu o que eu quero dizer? Ninguém pode dizer que ‘eu que sou o único e verdadeiro’. Se você for retrocedendo no passado, vai chegar a um ponto que a coisa surgiu, apareceu”.

Rindo zombeteiramente, como parecia ser seu costume em certos assuntos, disse que tinha mais de vinte patentes, de diferentes ordens, algumas das quais nunca tivera sequer contato, apenas recebera o documento.

Passei adiante, num trecho em que menciona que o futuro escritor, na época, demonstrava deslumbramento maior pelos supostos poderes da magia do que pelas drogas. Ele franziu a testa e respondeu zangado. “Quando eu conheci Paulo Coelho e Raul Seixas eles já tomavam drogas. Não foi O.T.O nem A∴A que fizeram eles tomarem drogas não!”, em seguida, concordou que Paulo Coelho se mostrava interessado, mas um pouco deslumbrado. “Ele estava bem… como eu vou dizer? Ele via magia como uma criança vê um mágico no palco: fazendo aparecer coelho de cartola… magia não tem nada disso que essa turma fala por aí. É uma coisa totalmente oposta ao que se diz por aí”.

Interrompi, lembrando-o do que conversamos a respeito da “psicologia aplicada”, e ele se acalmou. Embarcamos a partir daí em mais uma digressão, desta vez sobre a definição de magia. Ele resgatou a definição clássica de Crowley, “a arte e ciência de provocar mudança em conformidade com a vontade”, e tentou separá-la do misticismo. Em determinado ponto, tentei levar de volta a conversa para o livro:

O plano era criar uma comunidade inspirada na experiência desenvolvida por Aleister Crowley no começo do século XX em Céfalu, na Sicília. O lugar escolhido para sediar a Cidade das Estrelas, como Raul a batizara, era a cidade de Paraíba do Sul, onde vivia o iniciado Euclydes Lacerda, aliás, Frater Zaratustra. O roqueiro baiano incorporara com tal rapidez o mundo das drogas e da magia que um ano depois de se conhecerem, ele nem de longe lembrava o executivo que aparecia na redação da revista A Pomba para falar com Paulo Coelho de discos voadores.

Euclydes pediu que eu repetisse, tinha se perdido na longa citação. Repeti, enfatizando os nomes-chave, e perguntei se era previsto que ele tivesse participação na gestão do local:

O terreno era meu. Eu iria ceder esse terreno, não o cedi. Da Cidade das Estrelas não tinha [participação], não. Posteriormente construí uma casa lá, depois vendi. Tive pneumonia, tive enfarte e tive que vir embora. O meu negócio, naquele tempo, era a Sociedade Novo Æon.”

Digo a ele que além da Sociedade Alternativa ou cidade das estrelas, os dois citavam a Sociedade Novo Æon na música Novo Æon, no disco de mesmo nome. Num trecho falado na última estrofe da música, diz Raul Seixas: “Sociedade Alternativa, Sociedade Novo Æon / É um sapato em cada pé / É o direito de ser ateu ou de ter fé / Ter o prato entupido da comida que você mais gosta / Ser carregado ou carregar gente nas costas / Direito de ter riso, de prazer, e até direito de deixar … Jesus sofrer”.

Havia a Sociedade Novo Æon e essas que eles queriam fazer, mas que eu saiba não fizeram nada. Chegaram a fazer alguma coisa? Não sei. Sociedade Novo Æon foi feita, registrada, e funcionou durante algum tempo em Paraíba do Sul. Mas aí, o Raul Seixa e o Paulo Coelho já não estavam mais na jogada. Nem Marcelo Motta, diga-se de passagem. Quem estava era Euclydes Lacerda de Almeida. A Sociedade Novo Æon foi registrada no meu nome e no nome da minha mulher. Nesse tempo eu já tinha me afastado do Marcelo”, contou, mostrando o documento amarelado da inscrição do grupo no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ).

Levante sua mão sedenta

A parte seguinte fala da “semana negra” de Paulo Coelho e Adalgisa Rios, sua namorada na época – ou seja, o suposto encontro com o demônio no apartamento e a prisão dos dois pelo aparato repressivo da ditadura militar, que torturaria a ambos. Morais narra que Euclydes teria sido procurado, por telefone, pelo discípulo em apuros, e os dois teriam marcado um encontro ao qual, segundo o relato do livro, quem compareceu foi Marcelo Ramos Motta. Sua reação, diferentemente do episódio da viagem de Paulo a Mato Grosso, foi enfática:

Um instantinho só: nunca aconteceu isso! Ele não telefonou pra mim, ele não me procurou, não marcou encontro nenhum, de dia, de noite e de tarde. Isso aí não aconteceu não!

Menciono as palavras de Motta a Paulo Coelho, segundo Morais: “Você sempre soube que conosco vale a lei do mais forte. Lembra que te ensinei isso? Na lei do mais forte, quem segura a barra passa, quem não segura a barra dança e ponto final. Você foi fraco e dançou.

Euclydes ficou pensativo. Comentou, quase para si, ser difícil para um leigo como Morais abordar a iniciação. Falou por quase dois minutos, sem que o interrompêssemos.

Se você for fazer uma prova, como um vestibular… se você não estudar, você também dança. Se você estudar, você não dança, você faz a prova. Acontece a mesma coisa na iniciação. Se você seguir os ensinamentos reais iniciáticos com assiduidade, com respeito, com amor, você vai chegar a certos pontos e vão acontecer certas coisas com você. Como quando você entra na faculdade você leva trote também! Não é? Você tem que ser testado. Um avião a jato e tal, não é dado de mão beijada a um piloto. O cara tem que ser testado, para ver se ele ‘tá hábil a pilotar aquele tipo de aeronave! Mesma coisa a iniciação! Existem pontos críticos, nós chamamos ordálias, outros chamam ordálios, eu gosto da palavra ordália, me soa melhor, em que você tem que passar. Se você falhar, dançou mesmo. Fica onde você tá. Tenta de novo! O próprio Marcelo Motta dizia. Se você cair, como naquela música, ‘levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!’. Se me acontecer alguma coisa aí eu vou me desesperar? Como já me aconteceu, como está me acontecendo atualmente! Eu estou passando por uma fase que não é brincadeira! Estou sendo testado por tudo que é lado. Agora, por causa disso é o diabo que está fazendo isso comigo? Não! Sou eu mesmo que estou fazendo. Meu próprio eu, meu próprio ser interno, e estão começando a vir à tona muitas coisas, que estavam guardadas, de infância, de juventude. Para quem acredita em outras encarnações, de outras encarnações. O que aconteceu com o Paulo Coelho foi que ele teve uma prova e não aguentou. Ele teve um encontro, como eu disse a você, com a sua própria sombra. Nós temos uma parte positiva e uma negativa também. Senão não haveria luz. Se você não ligar o polo positivo com o polo negativo não tem luz. Agora, se você tem medo de você próprio aí o problema é outro. Mas não é por causa disso que eu vou correr lá pro Edir Macedo, pedir perdão, porque eu pequei, fiz e aconteci”.

Depois do evento, segundo ele, Paulo Coelho não entrou mais em contato. Euclydes disse que encontraram uma vez por acaso, em uma oficina mecânica em Botafogo. Não foi capaz de precisar a data nem o local específico. Mas relatou um diálogo convincente no qual nenhum dos dois abordou assuntos iniciáticos.

Nós tomamos um cafezinho na esquina e batemos papo. Ele perguntou como eu estava, e eu disse: ‘Estou tendo muita experiência na Petrobrás, porque estou entrando em contato com tripulantes de navios de outros países, estou conversando com eles, estou começando a conhecer certas coisas de outros países através desses tripulantes’. Navio russos… no tempo da Revolução, né. Eu liberei dois navios russos, navios da Sibéria, navios americanos. Participei de um abastecimento da frota americana, que estava aí fazendo manobra, fui lá abastecer no terminal. Tive contato com os americanos e, inclusive, um dos oficiais do navio era maçom, bateu papo comigo e tal. Nossa conversa foi assim, muito profana, p’ra você entender (risos). Conversamos sobre carros, conversamos sobre uma porção de coisas”, contou.

Menciono a tal carta escrita pelo ex-discípulo a Motta, pedindo o desligamento. Uma das características peculiares da A∴A era não haver trabalhos em grupo. Cada aluno só se comunicava com seu instrutor e com seus eventuais discípulos. Motta não possuía, pela lógica da ordem, autoridade sobre o discípulo de Euclydes. “Acontece que o Paulo Coelho assinou o juramento comigo. Então, eticamente…”, começou Euclydes. Percebendo onde ele quer chegar, tentei completar: “A praxe seria ele pedir o desligamento…” Ele interrompeu: “P’ra mim! Então, para mim, Paulo Coelho, apesar de tudo, ainda é probacionista da A∴ A∴, sobre minha jurisdição, infelizmente! IN-FE-LIZ-MEN-TE!

Após algum esforço, diz que se lembra de outro encontro com Paulo Coelho “quando ele morava em Copacabana, em um apartamento no subsolo, algo assim”. “Aliás, um apartamento bom e grande. Ele tava montando uma estrutura para publicar livros dos outros. Conversamos sobre a publicação de um livro que eu estava escrevendo”, disse, com um suspiro que denunciou uma mágoa antiga. “Esse livro foi… A história é longa… e triste”, continuou, já sorrindo melancolicamente. “Vamos a ela”, insisti. Ele recusou, mas resumiu o caso.

Esse livro foi pra uma editora para ser publicado, editado, não sei bem qual é o termo. Eu estive lá em São Paulo, mas essa editora recebeu um chega p’ra lá vindo dos Estados Unidos dizendo: ‘Se vocês publicarem o livro de Euclydes Lacerda de Almeida, não vão publicar mais nenhum livro nosso’. Não vou dizer a editora qual é… Agora, quem mandou dizer isso você sabe quem é, né? Foi a O.T.O. americana”, explicou, referindo-se ao grupo conhecido como Califado, que venceu na Justiça uma briga pelos direitos de certas obras de Crowley, reivindicadas por Motta.

Em uma das raras vezes em que recorreu a meias palavras e subterfúgios teatrais. Euclydes apontou para Keron-ε, o intermediário da entrevista. “Ele sabe quem eu sou e eu o respeito muito. O pessoal dos Estados Unidos têm muito medo de mim”, completou, como se pedisse que o colega de fraternidade avalizasse sua afirmação. E estourou num desabafo:

O problema é o seguinte: depois que eu e Marcelo nos separamos, eu continuei na divulgação da Thelema, através da Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda. Essa ordem não existe mais, funcionou em Paraíba do Sul. Era subsidiária da Sociedade Novo Æon, que era exatamente toda a propagadora da filosofia e da literatura thelêmica. Eu continuei através da Sociedade Novo Æon. Posteriormente, fundei a Ordem dos Cavaleiros de Thelema, que funcionou em Paraíba do Sul, e depois em Juiz de Fora. O líder em Juiz de Fora, nessa época, era o Tarcísio (Oliveira). Morreu. Quando ele morreu, acabou a ordem, findou com ele. E eu não dei procedimento. Porque eu cheguei à conclusão que esse negócio de grupo não resolve e não adianta! É preferível o estilo AA Quem está lá é da AA e pronto. Eu sou da AA, no entanto, eu não interfiro na vida de quem está lá e quem está lá não interfere na minha. Nunca. Mantemos nossa amizade, nossa irmandade, mantemos contato até com aqueles que brigam com a gente! Que continuam na AA também.”

Na A∴A∴, explicou, não existem rituais em grupo, como os praticados na maçonaria e em outras ordens. “Não existe! Qualquer ordem ou organização que se diga A∴A∴ e diga que tem, está mentindo. Ou está enganada, como dizia Marcelo Motta, ou está enganando”, ressaltou, citando uma das conhecidas frases de Motta. Aproveitou a menção para reforçar que apesar dos atritos dos dois, mantinha profunda admiração por seu ex-instrutor.

Receita do caos

“Tradutor, traidor”, sentencia o ditado italiano. É provável que Marcelo Motta o conhecesse. Se era o caso, não lhe deu atenção. Professor de inglês, tomou para si a tarefa de traduzir os complicados escritos de Crowley, buscando, ainda por cima, manter os significados ocultos nas combinações de palavras. Profundo conhecedor da língua inglesa, o bruxo-mestre brincava com códigos diversos, abusava dos jogos de palavras e do duplo sentido. Sem contar a utilização de técnicas da Qabalah (Gematria, Notariqon e Temurah) aplicadas à língua inglesa. Formava palavras a partir da primeira letra de cada palavra de uma frase, criava siglas, fazia equivalências de palavras a partir da numerologia… não havia limites para sua imaginação.

Buscando ativamente o papel de porta-voz público da Lei de Thelema, Paulo Coelho, em suas cartas, mostrava preocupação com a transmissão “correta” da mensagem, para o que solicitava explicações detalhadas de Euclydes. Aí estava o erro, disse-me o ex-instrutor do mago. A base da filosofia thelêmica era a experiência, a busca do próprio caminho. Se esse caminho fosse ensinado, ditado, não havia liberdade de fato. Era apenas outra escravidão.

Desde a época em que Paulo Coelho e Raul Seixas fizeram essa divulgação, não houve nada mais que fosse dirigido desta forma às pessoas em geral, ao público, à massa. Como é que você vê a difusão atual da Thelema, com ajuda de Internet e as novas tecnologias?

Como eu vejo? Eu vejo isso como um verdadeiro caos. Um verdadeiro caos!”, disse, explodindo em mais uma gargalhada, junto com Keron-ε. “Mas acontece uma coisa, e ele (Keron-ε) vai dizer se eu estou certo ou errado. Você pode ler todos os livros de Thelema. Todos os livros! Mas não vai saber os segredos. Livro da Lei tá publicado, todo mundo lê, todo mundo comenta, todo mundo fala. Mas os que sabem os segredos, até hoje, são poucos escolhidos.

Respondendo a outro questionamento meu, ele afirmou que ninguém pode se dizer “detentor da verdadeira Thelema”. O conhecimento, dentro do sistema, depende da experiência concreta, que é pessoal e intransferível – respeitando o princípio básico segundo o qual “todo homem e toda mulher é uma estrela”. Usou um exemplo prosaico.

Não existe isso. Eu acho graça nisso… quem é verdadeiro, não é verdadeiro… Verdadeiro é aquilo que está dentro de você! Quando você conhece a verdade, quando conhece alguma coisa, sabe que aquilo é verdadeiro porque você tem a intuição íntima daquilo. Você não acredita, não. Acreditar é uma coisa, saber é outra! Quando o Marcelo me mandava ficar em uma asana (posição da ioga), sem me mexer, por cinco, dez, quinze, vinte minutos, até quando eu pudesse. Quando eu cheguei a uma hora, aí eu soube porque ele me mandava ficar daquele jeito. Aí eu descobri o segredo. Mas esse segredo eu não posso revelar a ninguém. Como eu vou revelar? Como é que você pode dizer que eu estou com dor de dente ou não? Você pode dizer? Você sabe transmitir para alguém o que é uma dor de dente, se você nunca teve uma dor de dente? Eu sei o que é dor de dente porque eu já tive dor de dente! Agora, quem nunca teve não sabe o que é uma dor de dente!

Não se consegue descrever certos conhecimentos. Só pela prática, mesmo. Você pode indicar meios para alguém alcançar algo”, resumiu o convidado do entrevistado.

E você deixou de ter discípulos diretos ou ainda mantém?”, perguntei a Euclydes.

Deixei, não tenho mais. Nem quero ter. Cessou. Eu me aposentei.”

Mas deixou vários em atividade…

Deixei!”, respondeu, com certo orgulho. “Tem um aqui que está na sua frente. Tem outros também, não é só ele também. Tem outros que, inclusive, não gostam dele! Mas são irmãos nossos”, completou.

Mantenedor do site da Astrum Argentum, que tem média mensal de 2 mil acessos, Keron-ε explicou que foi instruído por um aluno de Euclydes. O link da biografia deste no site tem cerca de 130 acessos mensais, muitos vindos do exterior, principalmente dos Estados Unidos. “Agora é site, link, não entendo esse palavreado”, resmungou ele. Haveria alguma maneira, na opinião dele, de filtrar a mensagem? “Não se pode fazer nada, tem que deixar o barco correr. Thelema é liberdade plena”, disse.

Voltei a mencionar Paulo Coelho. Disse que achava que seu conceito de “lenda pessoal” remetia à busca pela “verdadeira vontade” de Crowley. Euclydes confirmou. “O primeiro livro dele foi todo baseado nisso! O diário de um mago. Ele usa até o termo diário que é usado na AA, né, Diário Mágico. Por quê? Ele não queria se desprender de tudo isso? Por que foi receber uma espada, no alto de um morro? E apresenta uma espada de samurai? São coisas que o leigo não percebe. A espada do mago tem dois gumes, é a dualidade”, afirmou.

Passei a outro trecho controvertido, em que Fernando Morais descreve o que seria a prática do Ritual Menor do Pentagrama, um dos ritos básicos da ordem A∴ A∴. Estava descrito em Liber O vel Manus et Sagitæ, mais um dos livros escritos por Crowley, miscelânea destinada a “ampliação do horizonte mental e aperfeiçoamento do controle mental” dos estudantes, no qual adaptava práticas utilizadas por grupos anteriores, como a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn).

A descrição do Ritual do Pentagrama em Liber O, mostrada por ele, é concisa. O praticante começa fazendo um sinal da cruz, invertendo os lados (tocando primeiro o ombro direito), enquanto recita uma pequena prece em hebraico. “A ti o Reino, e o Poder, e a Glória, para todo sempre, amém”. Seguem-se invocações de mais nomes em hebraico, a começar pelas quatro letras que formam Javé, um dos nome de Deus do Velho Testamento – yod, he, vau, He – e incluindo Adonai, o Senhor, outro título a ele atribuído. Por fim, invoca-se o nome de quatro arcanjos (Raphael, Gabriel, Michael e Auriel) e visualiza-se pentagramas e hexagramas flamejantes. É usado para banir ou invocar energias básicas, como as dos elementos (água, ar, terra e fogo).

Foi descrito desta forma no livro O Mago: “Outra cerimônia que se repetia com frequência era o chamado Ritual do Pentagrama Menor, mandinga que consistia em estender no chão um lençol branco sobre o qual se pintava em verde uma estrela de cinco pontas. O desenho era cercado por um fio de barbante embebido em enxofre, com o qual Paulo desenhava o símbolo de Marte. Apagadas as luzes, uma única lâmpada era pendurada no teto, bem no centro do pentagrama, de forma a simular uma coluna de luz. Com uma espada na mão, inteiramente nu e voltado para o Sul, ele pisava no centro do lençol, fazia o asana do dragão – posição na Ioga em que a pessoa se acocora no chão – e passava a dar saltos para cima, como um sapo, enquanto repetia em voz alta invocações ao demônio.”

Euclydes primeiro riu, mas assim que terminei a leitura do trecho, exasperou-se:

Pelo amor de Deus… Eu não quero nem… Sinceramente, não dá nem pra comentar. Quem ensinou a fazer o Ritual do Pentagrama Menor ao Paulo Coelho fui eu. E eu não ensinei isso não!

Parece ritual medieval”, observou Keron-ε, também incomodado.

É! Agora, se ele fez, foi porque ele quis fazer. Ninguém mandou ele fazer isso não! Olha, desculpa, eu nem vou comentar. Estou achando isso aí tão ridículo, mas tão ridículo… não tem o que comentar!”, rugiu Euclydes. Encerramos a entrevista pouco depois.

© 2017 e.v. - Marcio Beck





Euclydes Lacerda de Almeida – Memórias e Reflexões

Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 31/05/2012 e.v.
Nota:

A entrevista foi originalmente publicada no site Euclydes Lacerda de Almeida: Memórias & Reflexões, criado e mantido por Marcio Beck e esta edição conta com a autorização do autor da entrevista.


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Marcio Beck

Nascido no Rio de Janeiro (RJ) em dezembro de 1978. Jornalista profissional. Marcio Beck mantém o blog http://piramide-invertida.blogspot.com.br e o site www.euclydeslacerda.org e pode ser contatado por seu endereço eletrônico marcio.cerdeira@gmail.com.

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