Moralidade Sexual
Metodologia

Moralidade Sexual

por Aleister Crowley

Cara Soror:

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Obrigado! Eu vou cobrir toda a questão sobre sexo em poucas palavras bem escolhidas? Eu deveria supor que você quer dinheiro emprestado? Tal bajulação servil sugere uma abordagem indireta.

De fato, sua proposta não é tão ultrajante como pode parecer à primeira vista; pois, dentro do alcance da língua inglesa, na verdade dificilmente existe alguma coisa que valha a pena ler.  98,138 por cento desta é o que Frances Ridley Ravergal costumava se referir como “cacete, blá-blá-blá, besteira, tolice, e todo o resto”.

De qualquer forma, muito recentemente eu publiquei uma Encíclica aos Fiéis com o atraente título de Artemis Iota, e eu proponho que a leiamos para registro, para evitar problemas e porque ela fornece uma lista com praticamente todos os clássicos que você deveria ler. Ela também resume informações e aconselha os “principiantes”, com a devida referência às prescrições positivas fornecidas em O Livro da Lei.

Além disso, conforme o propósito destas cartas, eu gostaria de sintetizar toda a questão. A Árvore da Vida, como de costume, proporciona um meio conveniente de classificação.

  1. Para o lado físico desta são utilizadas as leis psicológicas. “Não brinque com a serra elétrica!”, como diria John Wesley, embora eu duvide que ele não tenha se enganado.
  2. O lado “moral”.  Como no caso da voltagem de uma cissóide, não há nenhum.  Meta-se com seus próprios negócios! É a única regra suficiente.  Envolver aspectos sociais, econômicos, religiosos é irrelevância e impureza.[1]
  3. O lado Mágico. O sexo é, direta ou indiretamente, a arma mais poderosa do arsenal do Mago; e precisamente por não haver uma orientação moral, ele é indescritivelmente perigoso. Eu dei muitos avisos importantes, especialmente no Magick, e no Livro de Thoth — algumas das cartas são quase obviamente reveladoras; então eu tenho batido sempre na mesma tecla seriamente a respeito de dar fósforos às crianças como se fossem brinquedos.  Minha desculpa tem sido a de que eles já conseguiram os fósforos, que as minhas explicações têm sido orientadas para adicionar precauções conscientes às proteções automáticas existentes.

As observações acima se referem principalmente à técnica deste processo; e será um caminho muito longo para lhe dizer que você deveria ser capaz de operar com os princípios oriundos do seu conhecimento geral sobre a Magia(k), mas especialmente a Fórmula do Tetragrammaton, claramente declarada e explicada em Magick, Capítulo III.  Combine isto com a essência do Capítulo XII e você terá conseguido!

Mas há outro ponto nesta questão.  Neste, incidentalmente, é onde entram as “proteções automáticas”. “…tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade.” (AL, I:42) significa que os propósitos de “se lançar ansiosamente atrás do desconhecido” podem ser simplesmente desastrosos.  É possível, na química, provocar uma reação endotérmica; mas isto é apenas buscar por problemas. O produto carrega na sua essência a semente da dissolução.  Consequentemente, o ato preliminar mais importante em qualquer operação Mágica é se assegurar de que seu objetivo não é somente harmonioso, mas necessário, à sua Grande Obra.

Observe também que o uso deste método supremo envolve a manipulação de energias inefavelmente secretas e muito delicadamente sensíveis; ela se compara com as operações da Magia ordinária, pois a última palavra na artilharia é a do bacamarte!

Eu deveria ter mencionado o instinto ou impulso sexual em si mesmo, sem me importar com as considerações mágicas ou quaisquer outras, sejam quais forem: a coisa que lhe toma pela nuca, corta a sua garganta como um sabre de cavalaria, e lança os restos ao precipício mais próximo.

O que é essa coisa maldita, enfim?

Esta é justamente a questão; pois ela é a primeira das máscaras sobre a face da Verdadeira Vontade; e aquela máscara é a cara de blefe!

Como toda Arte verdadeira é espontânea, é talento, ela está completamente além de todo conhecimento ou controle consciente[2], assim também é o sexo. De fato, alguém poderia classificá-lo ainda mais profundamente do que qualquer Arte; pois a Arte pelo menos se esforça para encontrar um meio inteligível de expressão. Ela está muito mais próxima da sanidade do que o desejo cego do impulso sexual.  O gênio mais louco observa a partir de Chokmah não apenas para Binah, mas para o fruto daquela união em Da’ath e a Ruach; o impulso sexual não tem mais utilidade para Binah compreender, interpretar, transmitir.  Ele quer nada mais do que um instrumento que o destruirá.

“Aqui eu digo, Mestre, tenha um coração!”

Insensatez! (eu continuo) O que eu digo é o simples fato, e você o sabe muito bem! Mais, amaldiçoado, escondido, distorcido e torturado como tem sido pela religião e pela moralidade e todo o resto disso, ele e prendeu a se disfarçar, a aparecer numa miríade de formas de psicose, neurose, verdadeira insanidade dos tipos mais perigosos. Você não precisa procurar mais além de Hitler! Seu poder e seu perigo derivam diretamente da realidade fatal de que, em si mesmo, ele é a Verdadeira Vontade na sua forma mais pura.

Qual é então o remédio mágico? Óbvio o suficiente para o Qabalista. “Amor é a lei, amor sob vontade”. Ele deve estar ajustado às suas primeiras manifestações com sua própria Binah, de modo a fluir livremente ao longo do Caminho de Daleth, e restaurar o Equilíbrio perdido.  As tentativas de suprimi-lo são fatais, sublimá-lo é falso e fútil. Porém guiado sabiamente desde o início, com o tempo ele se torna forte e aprende como usar suas virtudes tirando o máximo de vantagem.

E quanto ao instinto paralelo em uma mulher?  Exceto em casos (muito raros) de doença ou deformidade congênita, o problema nunca é tão agudo.

Para Binah, mesmo enquanto ela pisca um olho para Chokmah, mantém o outro olho bem aberto, virado para Tiphareth.  Sua Verdadeira Vontade é, portanto, dividida por Natureza desde o início[3], e sua tragédia é se ela falhar em unir estes dois objetos. Ó, meu Deus, sim, eu sei tudo sobre “spretæ injuria formæ” e “furens quid femina possit”; mas isso é apenas porque quando erra sua mordida ela se sente duplamente perplexa, roubada não apenas do Presente extático, mas também do Futuro glamoroso. Se ela comer do Fruto da Árvore da Vida independentemente do fato de não estar maduro, ela não apenas sentirá um gosto ruim na boca, mas também terá uma indigestão em seguida. Então, vivendo como tanto ela o faz no mundo da imaginação, vivenciando constantemente imagens das sombras do seu Desejo, ela não está tão suscetível às violentas insanidades de puro desejo cego, como no caso do homem. A diferença essencial é indicada por aquilo relacionado aos seus respectivos orgasmos, os femininos sendo ondulatórios, os masculinos sendo catastróficos.

O quanto acima, tomado em sua integridade, pode não ser completamente abrangente, não totalmente satisfatório para a alma, mas cada coisa por sua vez, é suficiente para uma vaca seguir ruminando.

Boa noite!

Amor é a lei, amor sob vontade.

Fraternalmente,

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Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Como ocorre com todos os pioneiros, Crowley estava um pouco confuso a respeito dos seus objetivos. Quando se referia a ‘aspectos morais’, ele estava pensando em termos de moralidade abstrata baseada em códigos religiosos obsoletos. Porém esta carta na sua íntegra e a própria Artemis Iota, são um sermão sobre moralidade. Moralidade Thelêmica. Uma moralidade que é prática e real, baseada em descobertas científicas. – Nota de Marcelo Ramos Motta. ↵ voltar
  2. Você pode e deveria, contudo, adquirir controle consciente sobre a técnica de execução; e é sobre isso que ele está falando. – Nota de Marcelo Ramos Motta. ↵ voltar
  3. Ele se refere à mulher, não à Binah, no que segue. Deveria ser ponderado, entretanto, que no tocante ao treinamento místico ou mágico, este problema pode afetar ambos os sexos. – Nota de Marcelo Ramos Motta. ↵ voltar

© 2017 e.v. - O.T.O. - Ordo Templi Orientis





Moralidade Sexual

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 04/09/2011 e.v.
Nota:

Moralidade Sexual é a 15ª carta publicada no livro Magia Sem Lágrimas (Magick Without Tears) de Aleister Crowley. A presente versão utilizou como base diversas edições do livro e traz alguns comentários de Marcelo Ramos Motta (realizados em sua edição, Magick Without Tears Unexpurgated Commented), não foram adicionados comentários em que Motta fazia referência à edição de Israel Regardie. Regardie suprimiu diversas partes do texto original (o que é extremamente condenável), mas não vemos motivos para continuar dando demasiada ênfase ao fato, o importante é o esforço para levar o texto completo ao leitor. É importante frisar que Crowley adicionou o Liber DCLXVI - Artemis Iota vel de Coitu Scholia Triviæ como um anexo à carta, mas não o reproduzimos no corpo da presente edição, no entanto o leitor poderá encontrá-lo em www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/livros/artemis-iota-vel-de-coitu-scholia-triviae.


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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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