Moralidade
Filosofia

Moralidade

por Aleister Crowley

Cara Soror:[1]

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Tu l’as voulu[2], Georges Dandin!”. Eu sabia desde o começo que o seu punhal astuto, insidioso e venenoso, que penetrou por entre as minhas costelas, cedo ou tarde envolveria uma exposição completa sobre todo o tema da Moralidade.

Lá vamos nós! O que é isso realmente? A palavra vem de Mos, latim para costume, modos. Similarmente, ética: do grego ΕΘΟΣ, costume. “Isso não se faz” pode ser a gíria moderna, mas está correto. É interessante estudar o uso de “moeurs” e “manières[3] em francês. ”Maneira” de “manus” – mão: é “o modo de manipular as coisas”.

Mas o conceito teológico se desviou para uma direção muito errada, mesmo para teologia; trazida da Determinação Divina, da Consciência e de toda uma tropa de espantalhos. (Velas em nabos ocos não enganam ninguém fora de um cemitério!).

Então nós nos encontramos discutindo sobre uma ideia fantasma “palidamente errante” cujas conotações ou extensões dependem do tempo, do lugar e da vítima. Nós conhecemos “os crimes do casto Clapham em Martaban”, e a diferença entre a moralidade do Velho e do Novo Testamento sobre tais assuntos como a poligamia e a dieta; enquanto as penas voam quando dois eruditos professores baixam o nível como um ataque esperto de Odium Theologicum[4], e estão prestes a destruir toda uma civilização por causa da dúvida se está certo ou errado para um sacerdote (ou presbítero? ou ministro?) vestir uma camisola branca ou preta no púlpito.

Mas o que você quer saber é a diferença entre (a) moralidade comum ou de área, (b) Iogue—ou moralidade do “homem santo”, e (c) a Moralidade Mágica do Novo Æon de Θελημα.

1. Moralidade de Área: Este é o código dos “Deuses—Escravos”, analisado, pulverizado e desinfetado muito profundamente por Nietzsche em seu Anticristo. Ele consiste de todos os vícios mais desprezíveis, especialmente a inveja, a covardia, a crueldade e a ganância: tudo baseado na subjugação através do Medo. Medo do tipo pesadelo. Com este íncubo, os ricos e poderosos inventaram um mecanismo para reprimir os pobres e os fracos. Eles são igualmente pródigos com relação a ameaças e promessas em Castelo e Nuvem—Terra do Cuco de Ogre Bogey. “A religião é o ópio do povo”, quando eles não fogem mais do chicote fantasma.

2. As Oito Lições sobre Yoga oferecem uma explicação razoável sobre a essência deste assunto, especialmente nas discussões sobre Yama e Niyama. (Um livro sobre este assunto poderia muito bem incluir algumas citações, especialmente dos parágrafos 8, 9 e 10 do primeiro). Ele poderia ser resumido como “fazendo aquilo, e somente aquilo, que facilita a tarefa em mãos”. Uma linha de conduta se torna um costume quando a experiência tiver demonstrado que segui-la leva ao sucesso.

“Não pressione!” ”Jogue com o bastão erguido!” “Não empurre para cinco!” não envolva considerações abstratas de certo e errado. O Hinduísmo Ortodoxo violou esse sistema puro, e criou um código bastardo que fede a religião. Uma manobra política da casta Brâmane.

Suponha que nós relaxemos por um momento, desçamos até a terra, e observemos o que era a moralidade muito famosa do Homem Santo, e como é na prática real. Você achará útil esmagar baratas Teosofistas e Antroposofistas tanto quanto as tênias[5] Cristãs comuns quando estas lhe atacarem.

Nas terras do Hinduísmo e (em menor extensão) do Islã, do Sultão, do Dewan, do Marajá, do Emir, ou seja lá como for que chamem “o Próprio Grande Pandjandrum, com o pequeno botão redondo no alto”, é quase cem por cento certo que o botão está solto e perdido! Mesmo nos círculos menos exaltados, qualquer regente absoluto, por menor que seja a escala, está sujeito a agir de um modo excepcionalmente extravagante. Ninguém pode contradizê-lo, e ele não vê motivo algum para se controlar. Isto satisfaz muito bem a quase todos; o sagaz Wazir pode governar enquanto o seu “mestre” completa “As Taças do Rei” (precisamos experimentar uma quando a champanhe estiver novamente a um preço razoavelmente barato) e todas as outras generosas delícias sensoriais e sensuais. O resultado é que na ocasião em que ele tiver vinte anos—ele provavelmente se casou aos 12—ele não estará mais apto para cumprir com o seu verdadeiro primeiro dever perante o Estado, a produção de um herdeiro.

Muito ao contrário disso é a carreira do “Homem Santo”. Acostumado com a mais severa estafa física, habituado a todos os rigores do clima, indiferente a qualquer excesso pernicioso, ele se torna um verdadeiro campeão de virilidade. (Naturalmente, existem exceções, mas o “homem santo” médio é um camarada relativamente bem dotado em si mesmo). Mais ainda, ele foi particularmente treinado para esta forma de ascetismo através de todos os tipos de métodos e práticas secretos; sendo que alguns destes, pelo jeito, eu consegui aprender sozinho, e achei surpreendentemente eficazes.

Então nós temos a lei da oferta e da procura em ação, tão tolerantemente quanto de costume: o Homem Santo ora pela Dinastia ameaçada, abençoa a Rainha Estéril; e todos vivem felizes para sempre. Este não é um Conto das Mil e uma Noites da Antiguidade; ele é o mesmo hoje em dia:  há muito poucos ingleses que passaram algum tempo na Índia e que não tenham sido abordados com propostas deste tipo.

Condições similares, curiosas o suficiente, existiram na França; o “fils à papa” era geralmente um biltre sem esperanças, e sua esposa muitas vezes recorria a um famoso monastério na Riviera, onde havia uma Imagem excepcionalmente santa da Abençoada Virgem Maria, cujas preces a ela dirigidas eliminavam a esterilidade. Mas quando M. Combes expulsou os monges, a Imagem de alguma forma perdeu a sua virtude.

Agora pegue a sua Bíblia e procure Lucas VIII:2! Quando o sal volátil[6] tiver agido, vá para João XIII:2,3 e pergunte a um estudioso o que um Grego daquela época teria entendido através das expressões técnicas que foram ali empregadas inequivocamente.

Nesse momento, espero que você tenha começado a se perguntar se, afinal, a “moralidade” das classes médias do século dezenove, nos países Anglo—Saxões, é tão evidente quanto o que você foi ensinado a supor.

Por favor, deixe-me enfatizar o fato de que eu vi e ouvi essas condições nos países orientais com os meus próprios olhos e ouvidos. Vivekananda—com certeza o melhor dentre os modernos escritores Indianos sobre o Ioga—queixava-se amargamente que as velhas bruxas de greymalkin[7] de Nova Iorque, que chamavam a si mesmas de suas discípulas, tinham que ser evitadas com infinita precaução sempre que ele queria passar uma tarde no Tenderloin. Por outro lado, o Xeique de Mish—e ele era um Xeique muito santo—apresentou o seu “namorado” como tal para mim quando eu o visitei no Saara, sem a menor vergonha ou constrangimento.

Acredite em mim, a mentira sobre a “moralidade” neste país e nos E.U.A., sim, mesmo no Continente em círculos piedosos, é o Fantasma nº. 1 no caminho do Sábio. Se você for enganado por ele, você nunca conseguirá sair do lodo fétido das frases vazias vulgares dos “Mestres” inventados.  Eu devo me referir ao fato de que a maioria dos unco’ guid[8] são absolutamente hipócritas. Um pouco menos vis são aqueles cujos preconceitos são de caráter Freudiano, que são “feitos para os pecados aos quais estão predispostos, e condenando aqueles que não estão inclinados a fazê-lo”.

Mesmo quando, moluscos pobres de espírito, eles são honestos, toda aquela tolice é Negação.  “Pendure suas roupas num galho de nogueira, e não chegue perto da água!” não produz nenhuma Gertrud Ederle. Graças a Deus, a garota moderna perdeu ao menos um de seus grilhões—o ceinture de chastété[9]!

Talvez estejamos agora relaxados o suficiente; vimos que o “Homem Santo” não é tão tolo quanto parece; e podemos prosseguir com as nossas excursões sobre a “Moralidade” da Lei do Novo Æon, que é o Æon de Hórus, a criança coroada e conquistadora: e—“A palavra da Lei é Θελημα”.

3. Grande parte de O Livro da Leilida direta ou indiretamente com a moral que citar passagens relevantes seria meramente desconcertante. Não que este estado de espírito falhe em resultar da primeira, segunda, terceira e nonagésima—terceira leitura!

Quando o Dever berra alto Tu deves!
A juventude responde
Pico ou Busto de Pike[10]!’”

Está tudo muito bem, ou deveria estar, se o berro fornecesse maiores detalhes. E a impressão total da pessoa pode muito bem ser a de que Thelema não apenas dá plena permissão para cometer qualquer tolice que venha à cabeça de alguém, porém ela insiste nos termos mais enfáticos, reforçados pelos apelos mais eloquentes em linguagem soberba, por resplandecentes promessas e por certeza categórica de que nenhum mal poderá resultar daí, da realização apenas daquele tipo específico de ação, de manter apenas aquela linha de conduta, que é mais severamente depreciada pelos sumos sacerdotes e juristas de toda religião, todo sistema de ética, que já existiu debaixo do sol!

Você pode baixar com amargura o nariz antes erguido maliciosamente, ou gritar “Oba!” e ir para o Circo Piccadilly: em qualquer caso você estará errado; você não terá compreendido o Livro.

Em vergonhosa confissão, um de meus próprios Chelas (desse modo mais incrivelmente relatado a mim) disse recentemente: “A autodisciplina é uma forma de Restrição”. (Esta, você lembra, é “A palavra de Pecado…”.)  A maior de todas as burrices proferidas! (De qualquer forma, ele era um “centro de pestilência” por discutir o Livro de qualquer forma.) Cerca de 90% de Θελημα, em uma suposição, é nada mais do que autodisciplina. É permitido se fazer qualquer coisa e todas as coisas apenas a fim de ter uma esfera de ação maior para exercitar aquela virtude.

Se concentre em “…tu não tens direito a não ser de fazeres a tua vontade”. A questão é, que qualquer ato possível deverá ser realizado se este for um fator necessário naquela Equação da sua Vontade. Qualquer ato que não constitua tal fator, por mais inofensivo, nobre, virtuoso que seja ou não, é na melhor das hipóteses um desperdício de energia. Porém não existem barreiras artificiais em qualquer tipo de ato em geral. A norma de conduta tem um simples critério. Pode haver—haverá—todo tipo de dificuldade para determinar se, por este padrão, qualquer ato é “certo” ou” errado”: entretanto não deverá haver confusão. Nenhum ato é correto em si mesmo, mas apenas com referência à Verdadeira Vontade da pessoa que se propõe a realizá-la. Esta é a Doutrina da Relatividade aplicada à esfera moral.

Eu acho que, se você tiver entendido isto, toda a teoria estará agora ao alcance da sua mão; segure-a firme e guarde-a em você!

Naturalmente, devem existir certos cursos de ação que, falando de modo geral, estarão corretos para quase todo mundo. Alguns, per contra[11], geralmente serão proibidos, por interferir com o igual direito do outro. Alguns casos serão tão difíceis que apenas um Magister Templi poderá julgá-los, e um Magus poderá realizá-los sabiamente. Terrível responsabilidade, eu poderia dizer, aquela dos Mestres que começaram a construção do Novo Æon acarretando estas Guerras!

(Eu realmente desejaria que tivéssemos o bom senso de tirar as nossas ideias sobre as condições de Paz da Bíblia, como os nossos regentes tão espalhafatosamente professam que o fazem. O Inimigo sabe muito bem que não há outro modo de manter uma guerra.).

Por ora, eu espero que tenhamos conseguido limpar as águas deste pântano excepcionalmente lamacento da moralidade de toda a sua sujeira infectante e tóxica; muitas vezes também o Aspirante à Sagrada Sabedoria não encontra chão firme sob os seus pés; o Charco da Respeitabilidade atola aquele que busca o Jardim das Delícias; logo estouram as últimas bolhas dos seus pulmões asfixiados; ele é engolido no Pântano do Desespero.

Nos elementos passivos da Terra e da Água não há virtude criativa para se limparem de tal impureza quando ocorre de serem infestados por ela; portanto, é de importância primordial vigiá-los, protegê-los, manter sua Pureza imaculada e purificada; ficará o Santo Graal repleto de veneno de Víboras, e a Patena dourada será corrompida com o Pão da Iniquidade? Vinde Fogo, vinde Ar, purificai-vos e resplandecei os puros instrumentos, que o Espírito possa habitar, animar, inspirar o pleno, o Único Sacramento Contínuo da Vida!

Uma vez que nós ponderamos sobre esta Moralidade a partir de muitos pontos de vista diferentes; moldamos sutilmente e cuidadosamente até o formato final, você não deverá encontrar maiores dificuldades para compreender totalmente pelo menos os aspectos teóricos e abstratos do assunto.

Mas, com relação tanto à sua capacidade de julgamento quanto às regras gerais do seu Código Moral privativo, o que é “certo” e o que é “errado” para você, surgirá somente após uma longa autoanálise tal como o trabalho principal da Espada no processo da sua Iniciação.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Fraternalmente,

666

P.S.: A maior parte desta é declarada ou indicada em AHA!

MARSYAS .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  Sejas sempre como podes
Um simples e honesto cavalheiro!
Corpo e modos sejam à vontade,
Não inflamados e ornados de santidades!
Quem luta tal como o soldado—santo?
E vide a pintura do artista—adepto!
Fracas são as almas que temem a pressão
Da terra sobre a sua santidade!
Elas jejuam, comem alimentos irreais,
Tagarelam sobre feijões e fraternidade,
Calçam sandálias, tem cabelo comprido, e polainas,
E acham que aquilo os torna Arahats!
Como pode o homem cessar esta tormenta espiritual?
Trajes racionais e Correção Alimentar!
OLYMPAS Eu conheço tais santos.
MARSYAS                                                          Um vício fácil:
Tão incrivelmente bem eles o anunciam!
Oh, suas almas mesquinhas estão satisfeitas
Com o vento do orgulho espiritual.
Todos eles são negação. ”Não coma;
Que veneno para a alma é a carne!
Não beba; não fume; negue a vontade!
Vinho e fumo nos faz mal”.
Magia é vida: a Vontade de Viver
É uma Afirmação suprema.
Tudo isso que desiste da Vida
Não vale mais para o Céu do que para a Terra.
Afirme o eterno Sim!
OLYMPAS Aqueles santos são bem sucedidos apenas em um ponto:
A perfeição do seu pedantismo!
MARSYAS É o suficiente. A alma é sutilmente alimentada
Com o vinho e o pão da meditação.
Esqueça as falhas deles e as suas próprias;
Fixe todos os seus pensamentos apenas no amor!

Cara Soror:[12]

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

O conteúdo da sua carta me assustou. Eu esperava que você tivesse abandonado para sempre aquela qualidade de pensamento. Ela é impura. Ela é enfadonha e flácida. Você escreve sobre um assunto sobre o qual talvez possa não ter qualquer informação, e o que você diz não é nem ao menos uma boa suposição; é simplesmente contrário ao fato. Isso também mostra que você falhou em compreender a natureza da O.T.O.. A sua principal raison d’etre[13], à parte dos planos social e político, é o ensinamento e o uso de um método secreto para alcançar certos resultados. Esse segredo é um segredo científico; ele está protegido contra traição ou abuso através de um dispositivo automático muito simples. Seus guardiões não podem estar “em extinção” mais do que os eletricistas enquanto classe.

É realmente difícil responder as suas cartas. Você percebe as coisas de um modo confuso. Você escreve sobre as constituições de duas ordens, a A∴A∴ e a O.T.O.; ainda assim você ignora a informação impressa sobre elas, a qual se supõe que você deva ter lido.

Eu tenho que responder a cada sentença da sua carta separadamente, de tão incoerente que você se tornou!

Você é uma “estudante” da A∴A∴, e se tornou uma Probacionista assim que você se submeteu e passou no exame. (Este é planejado na maior parte para ter certeza que você tem alguma noção geral sobre as principais especificações do assunto, e que conhece as correspondências mais importantes). O resto: por favor, leia Uma Estrela à Vista novamente, e pelo amor de Deus tente assimilar a informação ali fornecida muito cuidadosamente!

Esse seu ímpeto de afobação em correr de um ponto de vista para outro está terrivelmente próximo do estado mental que nós simbolizamos por Choronzon: um conjunto de declarações um tanto verdadeiro, porém arrancado com receosa agitação tal que um leitor sensível como eu chega perto de ficar perturbado.

Você diz que deve trilhar o Caminho sozinha: é bem verdade, se apenas porque qualquer coisa que exista para você seja necessariamente parte de si mesma. Ainda assim você tem que “se dirigir aos outros”, e você se torna uma verdadeira intrometida. Você cita opiniões estranhas aleatoriamente sem meios para avaliar o seu valor.

Será que eu nunca conseguirei fazê-la compreender a diferença entre um professor honesto e um desonesto? Eu sempre tive como regra jamais expressar qualquer declaração da qual eu não possa apresentar uma prova; quando eu arrisco uma opinião pessoal, ela é sempre Baseada em Total Clareza para este efeito. (eu sugiro que você consulte Magick p. 368: p. 375, parágrafos 1 e 2:. e p. 415, parágrafos 000 e 00. Nós insistimos desde o começo no caráter individual da obra, e sobre a necessidade de manter uma opinião objetiva e cética. Você está explicitamente alertada contra ter confiança na “autoridade”, mesmo aquela da própria Ordem.). Considere os meus próprios valores, pessoal, social, educacional, empírico e o resto: você não percebe que tudo o que eu tive de fazer foi exibir um pouco de mentira doce e brilhantemente colorida, e evitar pisar em muitos calos alheios, para ter tido centenas de milhares de idiotas me adorando?

Por favor, consiga um Konx om Pax seja como for, e leia a p. XII:

“É simplesmente tão fácil criar um culto,
Gritar em uma cruzada ‘Deus Vult’[14] . . . .

“Uma pitada de Bíblia, um galão de gasolina,
E eu, ou qualquer outro imbecil,
Poderia trazer para a nossa mística Missa do Luar
Aqueles Atenienses de cabeças vazias.”

e assim por diante.

Mas eu nunca esqueci que estou trabalhando na base de 2.000 anos; minha obra continuará mesmo quando todas as banalidades pomposas e as piedades agradáveis tiverem se desfeito, como bolhas iridescentes de sabão que elas são.

Sabão! Sim, realmente. Eu trabalho com ouro, e o ouro deve ser purificado com ácido.

Eu realmente não consigo compreender como você pode ser tão imprecisa, com o próprio texto diante dos seus olhos! Você escreve—“você escreveu que em Jan. de 1899, etc.”. Mas eu não. O Capitão J. F. C. Fuller escreveu isso. Um pequeno ponto; mas você deve aprender a ser cuidadosa com relação a todo mínimo detalhe.

Então você prossegue em “não apenas chefes invisíveis[15] da A∴A∴. . . . . mas também os Chefes da Aurora Dourada[16] . . .”. A Aurora Dourada é simplesmente o nome para a Ordem Externa: vide Magick pp. 230-231. Nunca lhe ensinaram a ler cuidadosamente. Você escreve sobre Theoricus como o grau que segue ao de Neófito: mas não é.  De volta a Magick pp. 230-231! Você nunca se preocupou em me acompanhar através dos Rituais da O.T.O., ou você não faria tais perguntas. A O.T.O. é um treinamento do tipo Maçônico; não há trabalho “astral” nela de forma alguma, nem qualquer tipo de Ioga. Existe uma certa quantidade de Cabala, e aquela de grande valor doutrinal. Mas a questão realmente vital é o progresso gradual rumo à revelação do Segredo do Nono Grau. Usar aquele segredo com vantagem envolve o domínio tanto da Ioga quanto de Magia(k); porém nenhum é ensinado na Ordem. Agora, deve ser mencionado que isso é realmente muito estranho. Contudo, eu não inventei o sistema; eu devo supor que aqueles que o criaram sabiam o que estavam fazendo.

Para mim isto é (a) conveniente em várias maneiras práticas, (b) uma máquina para cumprir as ordens dos Chefes Secretos da A∴A∴, (c) em virtude do Segredo, uma arma mágica de poder incalculável.

Você não está “aprisionada”.  Você pode muito bem usar o seu Corpo Astral: muito bem, em alguns aspectos.

Mas eu acho que você necessita de mais algumas viagens comigo: você deveria alcançar o estágio onde a visão resulta de uma invocação precisa.

Por favor, esqueça de verdade todas estas declarações indefinidas sobre o “esclarecimento do sonho de vida de alguém” (significando o quê?) e a “sombra-pensamento” (significando o quê?). Estas especulações são indolentes, e a indolência é veneno. Logo no seu próximo parágrafo, você trai todo o espetáculo! “Artisticamente isto me atrai — mas não espiritualmente”. Você foi envenenada espiritualmente.

Que blasfêmia mais hedionda poderia ser escrita? Que mentira mais baixa, tão falsa, tão sórdida e que doutrina é essa, tão diabólica e mortal? Eu me sinto contaminado pelo simples fato de estar em um mundo onde tal sujeira é passível de ser concebida. Fico coberto de lágrimas ao pensar na minha amada irmã sendo torturada por um habitante tão louco do Abismo. Você não consegue enxergar nisso a raiz de toda a sua proliferação de cogumelos venenosos de misérias, de dúvidas, de medos, de indecisões?

Como uma Artista você está consagrada como Sacerdotisa Virgem, o Oráculo do Altíssimo. Ninguém tem o direito de lhe abordar, a não ser com o mais abençoado respeito, com os braços abertos como se para invocar a sua bênção. Por “espiritualmente” você quer dizer não mais do que “conforme a moralidade da classe baixa e media-baixa dos Anglo—Saxões do período quando se supunha que Longfellow e Tennyson eram poetas e pintores da Real Academia”.

Existe uma escola altamente popular de “ocultistas” que é 99% uma válvula de escape. O medo da morte é um dos espantalhos; porém muito mais profundo é o medo radical, o medo de estar sozinho, de ser a si mesmo, da própria vida. Com isso, lá se vai o sentimento de culpa.

O Livro da Leicorta diretamente pela raiz toda esta calamidade, este tecido infame de falsidade.

Qual é o significado da Iniciação? Ela é o Caminho para a realização do seu Ser como o único, o supremo, o absoluto de toda Verdade, Beleza, Pureza e Perfeição!

Qual é o senso artístico em você? Que outro existe, exceto este Único Canal sempre aberto para você através do qual esta Luz flui livremente para lhe inflamar (e ao mundo através de você) com flores de inesgotável fervor e flamas?

E você se ergue contra Aquilo que é este espectro de medo ameaçador, da vergonha, das vertigens e dúvidas, dos tremores internos, a não ser que — você esteja muito paralisada pelo pânico para conseguir perceber claramente como é o horror. Você diz “os espíritos elementais e os Arcanjos estão vigiando”(!). Minha querida, querida irmã, você não inventou esses seres para um propósito melhor do que espioná-la?

Eles estão lá para servi-la; eles são partes do seu ser cuja função é capacitá-la a avançar mais em uma direção em particular ou em outra sem interferência das outras partes, desde que você venha a necessitar deles para um serviço ou outro na Grande Obra.

Por favor, limpe a sua mente de uma vez por todas dessa ilusão, desastrosa e muito execrável, de que pode existir oposição entre duas partes essenciais da sua natureza.

Eu acho que essa ideia é um crescimento monstruoso do terreno encharcado de tétano do seu medo dos “sentidos”.  Observe como todos estes pedantes aduladores desenvolvem a sua falta de confiança na Vida até que sobre apenas uma ação que não seja “perigosa” ou nociva de alguma forma. Eles não ousam fumar, beber, amar—fazer qualquer coisa natural para eles. Eles estão certos!! O Ser dentro deles é a Culpa, um pântano miasmático de pestilência abominável. Por fim, uma vez que “a natureza, embora seja expulsa com um forcado, sempre volta”, eles cometem os seus “pecados” em segredo, e amontoam hipocrisia sobre o topo de todos os seus outros vícios.

Eu não consigo escrever mais; isso me entristece muito. Eu espero que não seja necessário. Seja você mesma[17] de verdade, a radiante Filha da Musa!

Com aquela ordem eu volto a me ocupar de outras tarefas.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Sempre fraternalmente,

666

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Aqui inicia a carta de nº. 70 do Magick Without Tears, intitulada, Moralidade (1). – Nota do Editor. ↵ voltar
  2. Do francês: Você quis. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  3. Do francês: “moeurs” e “manières”, ‘a moral e os costumes’. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  4. Do latim: “Ódio à Teologia”. – Nota do Editor. ↵ voltar
  5. Tipo de parasita. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  6. Sal Volátil: Uma solução de amônio carbonato em álcool ou água de amônio, usada em sais de cheiro. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  7. Greymalkin significa ‘gato cinzento’. Este era o nome do gato cinzento que atuou como auxiliar das Três Bruxas no Primeiro Ato de Macbeth, de Shakespeare. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  8. Unco’ guid:O termo escocês para aqueles que são declaradamente severos em matéria de moral e religião; unco (uma alteração de uncouth) significa ‘extremamente, notavelmente’, e a expressão vem do título da obra de Robert Burns: ‘Discurso ao Unco Guid, ou o Rigidamente Correto’ (1786). – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  9. Do francês: Cinto de Castidade. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  10. Pike, Zebulon Montgomery 1779-1813: Oficial do exército americano e explorador famoso pela sua expedição ao longo do Rio Arkansas até as Montanhas Rochosas (1806-1807). O Pico de Pike recebeu o seu nome. O verso original (“When Duty bellows loud ‘Thou must!’ The youth replies ‘Pike’s Peak or Bust!’”) permite a rima em inglês, que fica prejudicada na tradução. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  11. Do latim: “pelo contrário”. – Nota do Editor. ↵ voltar
  12. Aqui inicia a carta de nº. 71 do Magick Without Tears, intitulada, Moralidade (2). – Nota do Editor. ↵ voltar
  13. Do francês:“razão de ser, de existir”. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  14. Do latim: Deus vult, Deus quer [assim] foi o brado do povo na declaração da Primeira Cruzada, do Papa Urbano II, no Concílio de Clermont em 1095. A frase aparece de outras formas como deus vult (latim clássico), dieu le veut (francês), deus lo vult (latim vulgar medieval), etc.. Deus lo vult é o mote da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém, uma ordem Católica de cavalaria. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  15. Como você sabe que eles são “invisíveis”? Eu prevejo que, cedo ou tarde você pedirá mais informações sobre eles, por isso estou planejando uma carta separada para suprir esse assunto. (Veja-se as Cartas IX, L e LXXVII). ↵ voltar
  16. Golden Dawn. – Nota do Editor. ↵ voltar
  17. Aqui há duas interpretações: Be yourself (seja você mesma) e Be your Self (seja o seu Ser, ou Self). – Nota do Tradutor. ↵ voltar

© 2016 e.v. - Ordo Templi Orientis





Moralidade

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 19/01/2013 e.v.
Nota:

Moralidade é a união de duas cartas (respectivamente as de nº. 70 e 71) presentes no Magick Without Tears de Aleister Crowley.


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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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