Ensaios

O Advento do Æon de Hórus

por Aleister Crowley em Lei de Thelema, Novo Æon

O Advento do Æon de Hórus
Filosofia

O Advento do Æon de Hórus

por Aleister Crowley

Este capítulo é o clímax deste livro[1]. Seu conteúdo é tão extraordinário, ele exige uma explicação preliminar ampla e profunda, a tal ponto que fico em desespero. Isto é tão sério para mim que a minha responsabilidade me esmaga. Toda a minha vida anterior não foi nada mais do que uma preparação para este evento, e toda a minha vida subsequente não foi meramente determinada por ele, mas comprometida com ele.

Eu fiz várias tentativas para escrever a história destas poucas semanas, em particular aquela seção de O Templo do Rei Salomão que apareceu em O Equinócio, vol. I, nº. VII. Eu não posso incorporar esses documentos no corpo deste livro com exatidão literária, porém eles são apresentados num apêndice, juntamente com o texto d’O Livro da Lei[2].

Durante a maior parte dos nove anos passados da minha vida eu estive preocupado, a cada ano mais plenamente do que no anterior, com o problema de provar para a humanidade em geral as questões envolvidas. A fim de tornar os elementos de minha tese tão claros e distintos quanto possível, eu tentarei separá-los em seções.

Ouarda[3] e eu partimos de Helwan para o Cairo (Data indeterminada, provavelmente em 11 ou 13 de Março [1904]). Nós alugamos um apartamento (endereço indeterminado) na Quarta feira, 16 de Março. Um dia, não tendo nada em especial para fazer, eu realizei a ‘Invocação Preliminar’ acima referida. Eu não tinha alguma intenção mais séria além de mostrar a ela os silfos[4], assim como eu poderia tê-la levado ao teatro. Ela não pôde (ou se recusou a) vê-los, mas ao invés disso entrou em um estado mental estranho. Eu jamais a tinha visto antes numa situação como aquela. Ela prosseguia repetindo como num sonho, porém intensamente, ‘Eles estão esperando por você’. Eu fiquei aborrecido com o seu comportamento.

17 de Março. Eu não me recordo se repeti minha tentativa de mostrar os silfos a ela, mas provavelmente o fiz. É do meu temperamento persistir. Ela entrou novamente no mesmo estado e repetiu as suas observações, acrescentando, ‘É tudo sobre a criança’. E ‘Tudo Osíris’. Eu acho que devo ter me aborrecido com a sua teimosia. Talvez por este motivo eu invoquei Thoth, o deus da sabedoria, provavelmente através da invocação impressa no Liber Israfel (O Equinócio, Vol. I, nº. VII), que eu sabia de cor. Eu também posso ter estado a me perguntar subconscientemente se não haveria algo nas suas observações, e queria ser esclarecido. O registro diz, ‘Thoth, invocado com grande sucesso, habita em nós’. Porém este ‘esboço’ me chocou até certo ponto num espírito de complacência, se não de arrogância. Eu não me lembro de nada sobre qualquer resultado.

18 de Março. Possivelmente eu repeti a invocação. O registro diz, ‘Revelado que aquele que espera era Hórus, a quem eu havia ofendido e a quem deveria invocar’.

‘O que espera’ soa como um sarcasmo. Eu achei que fosse pura insolência de Ouarda oferecer observações independentes. Eu quero que ela veja os silfos.

Eu devo ter me impressionado em um ponto. Como Ouarda sabia que eu havia ofendido Hórus? Os problemas de Mathers eram devidos à sua excessiva devoção a Marte, que representa um lado da personalidade de Hórus, e sem dúvida eu estava predisposto a errar na direção oposta, a negligenciar e antipatizar com Marte como sendo a personificação da violência ignorante.

Mas o seu acerto preciso seria uma casualidade? Sua menção de Hórus me deu uma chance de interrogá-la. ‘Como você sabe que é Hórus quem está dizendo tudo isso a você? Prove a identidade dele’ (Ouarda conhecia Egiptologia menos do que noventa e nove turistas cairotas[5] dentre cem). As suas respostas eram assombrosas. As probabilidades das suas respostas estarem certas eram de uma em muitos milhões.

Eu deixei que ela fosse em frente. Ela me instruiu sobre como invocar Hórus. As instruções, do meu ponto de vista, eram pura bagatela. Eu sugeri que fossem melhoradas. Ela se recusou enfaticamente a permitir que um único detalhe fosse alterado. Ela prometeu sucesso (qualquer coisa que pudesse significar) no Sábado ou no Domingo. Se me tivesse restado alguma aspiração, esta seria a de alcançar o Samadhi[6] (o que até agora eu ainda não havia conseguido). Ela prometeu que eu conseguiria. Eu concordei em colocar em prática as suas instruções, de modo a mostrar abertamente para ela que nada poderia acontecer se você quebrasse todas as regras.

Em algum dia antes de 23 de Março, Ouarda identificou o deus em particular com o qual ela estava em comunicação em uma estela no Museu Boulak[7], que nós nunca havíamos visitado. Esta não é a forma comum de Hórus, mas a de Ra-Hoor-Khuit. Sem dúvida eu estava muito impressionado pela coincidência de que a peça exibida, uma estela muito obscura e comum, trazia o número de catálogo 666. Mas eu repudiei a isso como sendo uma óbvia coincidência.

19 de Março. Eu fiz um esboço do ritual e realizei a invocação com pouco sucesso. Eu fiquei desconcertado, não apenas pelo meu ceticismo e pelo absurdo do ritual, mas por eu ter de realizá-lo usando túnica junto a uma janela aberta em uma rua ao meio dia. Ela me permitiu fazer a segunda tentativa à meia noite.

20 de Março. A invocação foi um sucesso surpreendente. Me foi dito que ‘O Equinócio dos Deuses tinha chegado’; ou seja, que uma nova época tinha começado. Eu deveria formular uma conexão entre a força solar-espiritual e a humanidade.

Várias considerações me mostraram que os Chefes Secretos da Terceira Ordem (ou seja, da A∴ A∴ cujas Primeira e Segunda Ordens eram conhecidas como G∴ D∴[8] e R.R. et A.C. respectivamente) enviaram um mensageiro para conferir-me a posição que Mathers tinha perdido. Eu coloquei uma condição de que eu deveria alcançar o Samadhi; ou seja, que eu deveria receber um grau de iluminação, sendo que no caso de não cumprimento disso, seria presumível que eu fosse indicado.

21, 22 e 23 de Março. Parece ter havido uma reação após o sucesso do vigésimo dia. Os fenômenos desapareceram pouco a pouco. Eu tentei elucidar a minha[9] posição através dos métodos antigos e realizei uma longa divinação pelo Tarô que provou ser perfeitamente fútil.

23 de Março a 07 de Abril. Eu fiz averiguações sobre a estela e fiz com que as inscrições fossem traduzidas em francês pelo curador assistente em Boulak. Eu fiz paráfrases poéticas com elas. Ouarda me disse agora para entrar no quarto, onde todo este trabalho havia sito feito, exatamente ao meio dia nos dias 8, 9 e 10 de Abril, e para anotar o que eu ouvi, encerrando exatamente à uma hora. Isso está feito. Nestas três horas foram escritos os três capítulos d’O Livro da Lei.

A declaração acima é tão sucinta quanto eu pude fazê-la. Lá pelo dia 8 de Abril, eu tinha sido convencido da realidade da comunicação e obedeci às instruções arbitrárias da minha esposa com certa confiança. Não obstante eu mantive a minha atitude cética.

A REIVINDICAÇÃO D’O LIVRO DA LEI
A RESPEITO DE RELIGIÃO

A importância da religião para a humanidade é proeminente. O motivo é que todos os homens percebem mais ou menos a ‘Primeira Nobre Verdade’ – que tudo é dor; e a religião arroga-se de consolá-los através de uma negação impositiva desta verdade ou ao prometer compensações em outros estados de existência. Esta pretensão implica na possibilidade de conhecimento originada de outras fontes diferentes da investigação solitária da natureza através dos sentidos e do intelecto. Portanto, isso exige a existência de uma ou mais inteligências præter-humanas[10], capazes e intencionadas de comunicar, por intermédio de certo homem escolhido, para a humanidade uma verdade ou verdades que não poderiam de outra forma serem conhecidas. A religião é justificada ao impor a fé, uma vez que a evidencia dos sentidos e da mente não conseguem confirmar as suas declarações. A evidência de profecia e milagre é válida apenas na medida em que seja creditada ao homem através de quem a comunicação é realizada. Ela estabelece que ele esta de posse de conhecimento e poder diferentes, não apenas em grau, mas em gênero, daqueles desfrutados pelo resto da humanidade.

A história da humanidade está repleta de instrutores religiosos. Estes podem ser divididos em três categorias.

  1. Homens tais como Moisés e Maomé declaram simplesmente que eles receberam uma comunicação direta de Deus. Eles apoiam sua autoridade por diversos métodos, principalmente ameaças e promessas garantidas pela taumaturgia; eles se ressentem com a crítica da razão.
  2. Homens tais como Blake e Boehme afirmaram ter entrado em comunicação direta com uma inteligência desencarnada que pode ser considerada como pessoal, criativa, onipotente, única, idêntica a eles mesmos ou diferente. Sua autoridade depende da ‘certeza interior’ do vedor.
  3. Instrutores tais como Lao-Tzu, o Buda e os mais elevados Gnana-yogis[11] anunciam que eles alcançaram a sabedoria, compreensão, conhecimento e poder superiores, porém não tem pretensão de impor os seus pontos de vista à humanidade. Eles continuam essencialmente céticos. Eles baseiam seus preceitos na sua própria experiência pessoal, dizendo, na verdade, que eles descobriram que a realização de certas ações a abstenção de outras criou condições favoráveis para a obtenção do estado que os emancipou. Quanto mais sábios, menos dogmáticos eles são. Tais homens de fato formulam o seu conceito transcendental do cosmos mais ou menos claramente; eles podem explicar o mal como ilusão, etc., mas o coração da sua teoria é que o problema do sofrimento tem sido exposto de modo errado, devido aos dados superficiais ou incompletos apresentados pela experiência humana normal através dos sentidos, e que é possível para os homens, em virtude de algum treinamento especial (de Asana até a Magia(k) Cerimonial), desenvolver em si mesmos uma faculdade superior à razão e imune da crítica intelectual, e através de cujo exercício o problema original do sofrimento é resolvido satisfatoriamente.

O Livro da Lei afirma cumprir com as condições necessárias para satisfazer todos os três tipos de buscadores.

Primeiramente, ele afirma ser um documento não apenas verbalmente, mas literalmente inspirado. Não altere nem ao menos o estilo de uma letra; pois vede! tu, ó profeta, não vereis todos estes mistérios aqui ocultados … Este livro será traduzido em todas as línguas: mas sempre com o original na escrita da Besta; pois há o risco de alterar as letras e suas posições uma em relação com a outra: nestas existem mistérios que nenhuma Besta profetizará. Que ele não procure tentar: mas virá alguém após ele, de onde Eu não digo, que descobrirá a Chave de tudo isso.

O autor afirma ser um mensageiro do Senhor do Universo e, portanto fala com absoluta autoridade.

Segundo, ele afirma ser a declaração de uma verdade transcendental, e ter vencido a dificuldade de expressar tal verdade na linguagem humana naquilo que realmente corresponde à invenção de um novo método de comunicação pelo pensamento, não meramente uma nova linguagem, mas um novo tipo de linguagem; um código literal e numérico envolvendo as Cabalas Grega e Hebraica, a mais alta forma de matemática etc. Ele também afirma ser a expressão de uma mente iluminada que coincide com as ideias definitivas das quais o universo é composto.

Terceiro, ele afirma que oferece um método pelo qual os homens podem chegar independentemente à consciência direta da verdade sobre o conteúdo do Livro; entrar diretamente em comunicação, por sua própria iniciativa e responsabilidade, com o tipo de inteligência que o instrui, e resolver todos os seus problemas religiosos pessoais.

Em geral, O Livro da Lei afirma responder a todos os problemas religiosos possíveis. Fica-se impressionado pelo fato de que tantos deles são expostos e resolvidos separadamente num espaço tão curto.

Voltemos à questão geral da religião. O problema fundamental jamais foi explicitamente declarado. Nós sabemos que todas as religiões, sem exceção, foram demolidas no primeiro teste. A reivindicação da religião é completar, e (incidentalmente) reverter, as conclusões da razão por meio de uma comunicação direta de alguma inteligência superior em gênero àquela de qualquer ser humano encarnado. Eu perguntei a Maomé, ‘Como eu posso saber que o Corão não é a sua própria compilação?’.

É inoportuno responder que o Corão é tão sublime, tão musical, tão verdadeiro, tão cheio de profecias que o tempo cumpriu e confirmou através de tantos eventos miraculosos que Maomé não poderia tê-lo escrito por si mesmo.

O autor d’O Livro da Lei previu e procurou evitar todas estas dificuldades ao inserir no texto descobertas que eu meramente não veria durante muitos anos por vir, mas nem ao menos teria o maquinário para produzir. Algumas, de fato, dependem de eventos em cuja manifestação eu não tomei parte.

Pode ser dito que não obstante pode ter existido alguém em algum lugar do mundo que possuía as qualidades necessárias. Isso é novamente refutado pelo fato de que algumas das alusões se referem a fatos conhecidos apenas por mim. Somos forçados a concluir que o autor d’O Livro da Lei é uma inteligência tanto alheia quanto superior à mim mesmo, e ainda assim familiarizado com os meus segredos mais íntimos; e, o ponto mais importante de todos, que esta inteligência é desencarnada.

A existência da religião verdadeira pressupõe aquela de alguma inteligência desencarnada, quer a chamemos de Deus ou de qualquer outra coisa. E é isso exatamente o que nenhuma religião jamais provou cientificamente. E isso é o que O Livro da Lei realmente prova por evidência interna, totalmente independente de qualquer declaração minha. Esta prova é evidentemente o passo mais importante que a ciência já possa ter dado: pois ela nos abre um caminho inteiramente novo para o conhecimento. A imensa superioridade desta inteligência particular, AIWASS[12], comparada com qualquer outra com quem a humanidade já tenha estado em comunicação consciente é demonstrada não meramente pelo caráter do próprio livro, mas pelo fato dele abranger perfeitamente a natureza da prova necessária para demonstrar o fato da sua própria existência e as condições daquela existência. E, além do mais, por ter fornecido a prova requerida.

A AFIRMAÇÃO D’O LIVRO DA LEI DE ESTABELECER
COMUNICAÇÕES COM INTELIGÊNCIA DESENCARNADA

Na seção acima eu expus que o fracasso das religiões anteriores se deve, não tanto à crítica hostil, mas ao seu defeito positivo. As suas alegações não foram bem elaboradas. Foi mostrado acima que O Livro da Lei realmente demonstra a posição primária da religião da única maneira possível. O único argumento possível, por outro lado, é que uma comunicação não poderia ter sido feita através de uma inteligência desencarnada, porque tal não existe. Isto realmente constitui a suprema importância d’O Livro da Lei. Porém não existe uma razão a priori para duvidar da existência de tais seres. Nós estamos familiarizados há bastante tempo com muitas forças desencarnadas. Especialmente nos últimos anos a ciência tem se ocupado principalmente com as reações, não meramente de coisas que não podem ser percebidas diretamente pelos sentidos, mas de forças que não possuem nenhum ser no velho sentido da palavra.

Ainda assim o homem de ciência mediano ainda nega a existência dos Elementais dos Rosacruzes, os Anjos dos Cabalistas, os Nats, Pisachas e Devas do sul da Ásia[13], e os Jinn do Islamismo, com a mesma misosofia[14] cega como na época Vitoriana. Aparentemente não ocorreu a ele que a sua posição de duvidar da existência da consciência, exceto com relação a certos tipos de estrutura anatômica, é realmente idêntica àquela dos Evangélicos geocêntricos e antropocêntricos de mente mais estreita.

Nossas ações podem ser ininteligíveis para as plantas, elas podem demonstrar plausivelmente que nós somos inconscientes. O nosso motivo real para atribuir consciência aos homens nossos irmãos é que a similaridade da nossa estrutura nos capacita a nos comunicarmos através da linguagem, e assim que nós inventarmos uma linguagem na qual possamos falar com qualquer coisa que seja, então começaremos a descobrir evidências de consciência.

Logo o caminho está claro para mim para ir em frente e afirmar positivamente que eu estabeleci comunicação com tal inteligência; ou, melhor, que eu fui escolhido por ele para receber a primeira mensagem de uma nova ordem de seres.

O CONCEITO HISTÓRICO NO QUAL
O LIVRO DA LEI SE BASEIA

Assim como O Livro da Lei reconcilia uma interpretação impessoal e infinita do cosmos com um ponto de vista egocêntrico e prático, igualmente o faz com a fala sobre ‘espaço infinito’ na linguagem de uma deusa e lida com os detalhes sobre comer e beber:

Sejais graciosos portanto: vesti-vos todos em finos trajes; comeis ricas comidas e bebeis vinhos doces e vinhos que espumam! Também, tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes! Mas sempre a mim.

A emancipação da humanidade de todas as limitações quaisquer que sejam é um dos principais preceitos do Livro.

Nada ateis! Que não se faça diferença entre vós e uma coisa e qualquer outra coisa; pois disto resulta dor.

Isto reconcilia os conceitos cosmológicos que transcendem tempo e espaço com um ponto de vista convencional, histórico. Em primeiro lugar, ele anuncia a verdade incondicional, porém em segundo lugar é cauteloso ao declarar que a ‘Fórmula Mágica’ (ou sistema de princípios) na qual a parte prática do livro está baseada não é uma verdade absoluta por meio de uma relativa ao tempo terrestre da revelação (É um ponto forte a favor do Livro o fato de que ele não tem qualquer pretensão de resolver os problemas práticos da humanidade de uma vez por todas. Ele se contenta em apontar par um estágio na evolução).

O Livro da Lei presume a existência de um corpo de iniciados comprometidos em zelar pelo bem estar da humanidade e comunicar a sua própria sabedoria pouco a pouco conforme a capacidade do homem para recebê-la.

O iniciado está muito bem consciente de que a sua instrução será mal interpretada com malícia, desonestidade e estupidez: e, não sendo onipotente, ele tem de relevar a perversão dos seus preceitos. Isso é independente do jogo. O Liber I vel Magi[15] diz para o Magus (aqui definido como o iniciado encarregado com o dever de comunicar uma nova verdade para a humanidade) sobre o que ele pode esperar.

Existem muitos instrutores mágicos, mas na história registrada temos escassamente uma dúzia de Magi no sentido técnico da palavra. Eles podem ser reconhecidos pelo fato de que a sua mensagem pode ser formulada como uma única palavra, cuja palavra deve ser tal que derrube todas as crenças e códigos existentes. Podemos tomar como exemplos a Palavra de Buddha-Anatta (ausência de um atman ou alma), que deitou o seu machado sobre a raiz da cosmologia, teologia e psicologia Hindu, e que a propósito fez ruir as fundações do sistema de castas; e certamente de toda moralidade aceita. Maomé, novamente, com a simples palavra Allah, fez a mesma coisa com os politeísmos, notoriamente pagãos ou camuflados como Cristãos, do seu período.

Similarmente, Aiwass, expressando a palavra Thelema (com todas as suas implicações), destrói completamente a fórmula do Deus Moribundo[16]. Thelema implica não meramente numa nova religião, mas numa nova cosmologia, uma nova filosofia, uma nova ética. Ela coordena as descobertas desconexas da ciência, da física à psicologia, em um sistema coerente e consistente. Seu propósito é tão vasto que é impossível até mesmo deixar entrever a universalidade da sua aplicação. Porém a totalidade da minha obra, desde o momento da sua manifestação, ilustra alguma fase da sua potencialidade, e a estória da minha própria vida desde este período não é nada mais do que um registro das minhas reações a ela.

Para recapitular a base histórica d’O Livro da Lei, deixe-me dizer que a evolução (dentro da memória humana) apresenta três grandes passos: 1. a adoração da Mãe, quando o universo era concebido como simples alimento extraído diretamente dela; 2. a adoração do Pai, quando o universo era imaginado como catastrófico; 3. a adoração da Criança, na qual viemos a perceber os eventos como um crescimento contínuo compartilhando em seus elementos ambos estes métodos.

A teologia egípcia previu este progresso da humanidade e o simbolizou na triada de Ísis, Osíris, Hórus. A cerimônia do neófito da Aurora Dourada me preparou para o Novo Æon[17]; pois, no Equinócio, o oficial que representou Hórus no Oeste tomou o trono de Osíris no Leste.

O Livro da Lei é cauteloso ao indicar a natureza da fórmula implicada pela afirmação de que o oficial residente do templo (a terra) é Hórus, a Criança Coroada e Conquistadora. E novamente, a egiptologia e a psicologia nos auxiliam a compreender o que está implícito, e qual efeito esperar, no mundo do pensamento e da ação.

Hórus vingou seu pai Osíris. Nós sabemos que o sol (de fato, todo elemento da natureza) não está sujeito à morte.

A criança não é meramente um símbolo de crescimento, porém de completa independência e inocência moral. Então nós podemos esperar que o Novo Æon liberte a humanidade da sua pretensão de altruísmo, sua obsessão pelo medo e a sua consciência de pecado. Ela não possuirá consciência do propósito da sua própria existência. Não será possível persuadi-la de que ela deva se submeter a padrões incompreensíveis; ela sofrerá com espasmos de paixão transitória; ela será absurdamente sensível à dor e sofrimento de terror sem sentido; ela será completamente sem consciência, cruel, desamparada, afetuosa e ambiciosa, sem saber o porque; ela será incapaz de raciocinar, e ainda assim ao mesmo tempo será intuitivamente consciente da verdade. Eu poderia continuar a enumerar indefinidamente os estigmas da psicologia infantil, mas o leitor poderá fazê-lo igualmente por si mesmo, e toda ideia que vier a ele como sendo característica de crianças o chocarão, como sendo aplicáveis aos eventos da história desde 1904, da Grande Guerra à Proibição. E se ele possuir qualquer capacidade para compreender a linguagem do simbolismo, ele ficará estupefato pela justeza e exatidão do resumo do espírito do Novo Æon apresentado em O Livro da Lei.

Eu posso agora salientar que o reinado da Criança Coroada e Conquistadora está limitado pelo tempo pelo próprio O Livro da Lei. Nós soubemos que Hórus será por sua vez sucedido por Thmaist, Aquela da Dupla Baqueta; ela que trará os candidatos à plena iniciação, e embora pouco saibamos a respeito das suas características peculiares, nós sabemos pelo menos que seu nome é justiça.

A ÉTICA D’O LIVRO DA LEI

Toda cosmografia implica em algum tipo de teoria ética. O Æon de Osíris foi sucedido pelo de Hórus. Uma vez que a Fórmula Mágica do Æon não é mais a do Deus Moribundo, mas a da Criança Coroada e Conquistadora, consequentemente a humanidade deverá governar a si mesma. Um ato ‘correto’ pode ser definido como o que executa a Fórmula Mágica existente. Os motivos que eram válidos no Æon de Osíris são hoje pura superstição. Quais eram aqueles motives e sobre qual base eles se apoiaram? O antigo conceito era de que o homem nasceu para morrer; que a vida eterna deveria ser obtida por um ato mágico, exatamente da mesma forma que o sol tinha de ser trazido à vida a cada manhã pelo sacerdote.

Não há necessidade de desenvolver a ética de Thelema em detalhes, pois tudo salta com absoluta lógica a partir do princípio singular, ‘Faze o que tu queres será o todo da Lei’. Ou, colocado de outro modo, ‘Não existe lei além de Faze o que tu queres’. E, ‘tu não tens direito além de fazer a tua vontade’. Esta fórmula inevitavelmente salta por si mesma a partir do conceito do individual delineado na seção anterior. ‘A palavra de Pecado é Restrição’. ‘É uma mentira, esta loucura contra o ser’. A teoria é de que todo homem e toda mulher tem cada um atributos definidos cuja tendência, considerada na devida relação ao ambiente, indica um curso de ação apropriado em cada caso. Buscar este curso de ação é realizar a verdadeira vontade do indivíduo. ‘Faze isto, e nenhum outro dirá não’.

O paralelo físico é válido ainda. Em uma galáxia cada estrela tem a sua própria magnitude, características e direção, e a harmonia celestial é mantida melhor ao se ocupar com sua própria vida. Nada poderia ser mais subversivo para aquela harmonia do que se um número de estrelas se estabelecesse num padrão uniforme de conduta que insistisse em todos buscando alcançar a mesma meta, seguindo no mesmo passo, e assim por diante. Mesmo uma simples estrela, ao se recusar a fazer a sua própria vontade,  ao se restringir daquela maneira, imediatamente produziria desordem.

Nós temos uma ideia sentimental de auto sacrifício, o tipo que é mais estimado pelo plebeu e é a essência do Cristianismo popular. É o sacrifício do forte para o fraco. Isso é totalmente contra os princípios da evolução. Qualquer nação que faz isto sistematicamente numa escala suficientemente ampla, simplesmente destrói a si mesma. O sacrifício é em vão; os fracos não são nem sequer salvos. Considere a ação de Zanoni[18] ao caminhar para o cadafalso a fim de salvar a sua esposa estúpida. O gesto foi magnânimo; foi a evidência da sua própria coragem suprema e sua força moral; mas se todos agissem por aquele princípio a raça iria deteriorar e desaparecer.

Existe aqui um conflito entre moralidade privada e pública. Nós não deveríamos proteger o fraco e o perverso dos resultados de sua inferioridade. Ao fazer assim, nós perpetuaremos os elementos de dissolução no nosso próprio corpo social. Nós deveríamos, ao invés disso, auxiliar a natureza sujeitando todo recém-chegado aos testes mais rigorosos da sua adequação para lidar com o seu ambiente. A raça humana cresceu em estatura e inteligência enquanto a coragem individual ofereceu segurança, de modo que as pessoas mais fortes e mais hábeis foram capazes de reproduzir o seu tipo dentro das melhores condições. Porém quando a segurança se generalizou por meio da operação do altruísmo as mais degeneradas das pessoas muitas vezes foram a prole do mais forte.

O Livro da Lei considera a comiseração como desprezível. A razão é parcialmente indicada no parágrafo acima. Porém, ainda mais, ter pena de outro homem é insultá-lo. Ele é também uma estrela, ‘una, individual e eterna’. O Livro não condena a luta – ‘Se ele for um Rei, tu não poderás feri-lo’.

Há muitas prescrições éticas de um caráter revolucionário no Livro, mas eles são todos casos particulares do preceito geral de realizar a sua própria Divindade absoluta e agir com a nobreza que se origina daquele conhecimento. Praticamente todos os vícios surgem da falha em fazer isso. Por exemplo: a falsidade é invariavelmente a filha do medo sob uma forma ou outra.

Com relação ao que são comumente consideradas ofensas contra a moralidade, os resultados indesejáveis muitas vezes observados são devidos ao mesmo erro. Homens fortes e bem sucedidos sempre se expressam plenamente, e quando eles são suficientemente fortes nenhum mal resulta disso seja para eles próprios ou para os outros. Quando isso ocorre, é praticamente sempre devido à situação artificial acarretada por pessoas que, não tendo nada para fazer com relação à sua vida, se intrometem na vida das outras pessoas. É possível mencionar os casos de Sir Charles Dilke e Charles Steward Parnell. Nada importa a ninguém fora do insignificantemente pequeno círculo dos seus relacionamentos o que estes homens faziam nas suas vidas privadas, mas a Inglaterra perdeu o seu maior ministro de relações estrangeiras e a Irlanda o eu maior líder, porque foi descoberto que eles estavam fazendo exatamente o mesmo que praticamente todos os demais de sua classe. Novamente com relação ao ciúme pessoal e à paixão desajustada, seria demasiado dizer que nove décimos da miséria social não oriunda da pobreza surgem destas alucinações? O Livro da Lei as varrem para fora da existência. ‘Não haverá direito de propriedade sobre a carne humana’. Ninguém tem o direito de dizer o que qualquer outro deverá ou não fazer com o seu próprio corpo. Estabeleça este princípio de respeito absoluto pelos outros e todo o pesadelo do sexo será dissipado. A chantagem e a prostituição perderão automaticamente a sua raison d’être[19]. A influência corrupta da hipocrisia se partirá como um junco podre. O suor da ‘labuta feminina banalizada pela prostituição’ (como diz Bernard Shaw) se tornará impossível.

Eu tenho escrito longamente nos anos recentes sobre a ética, tanto quanto sobre os problemas cosmográficos resolvidos pela Lei de Thelema. Eu não preciso aqui me aprofundar ainda mais neles. Mas os eventos subsequentes da minha vida fornecerão uma constante ilustração de como a cada vez que eu transgredi a Lei, como fiz algumas vezes com aquilo que fui estúpido o suficiente para chamar de motivos mais nobres, eu acabava entrando em uma confusão – e fracassava em beneficiar aqueles em nomes dos quais optei por fazer um tolo de mim mesmo.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Referência ao The Confessions of Aleister Crowley – An Autohagiography, do qual o presente ensaio é um extrato. ↵ voltar
  2. Esta era a intenção de Crowley; que não foi cumprida. No entanto, ele viu o aparecimento d’O Livro da Lei, e todo material relevante, incluindo um fac-símile do roteiro original, em uma publicação separada e magnificamente produzida, O Equinócio dos Deuses, em 1937. ↵ voltar
  3. A esposa de Crowley, Rose. ↵ voltar
  4. Cada elemento – terra, fogo, ar, água – tem os seus próprios elementais ou habitantes. Os silfos habitam os reinos do ar. ↵ voltar
  5. Nota do Tradutor: Cairota: natural do Cairo, Egito. ↵ voltar
  6. Samadhi: o objetivo da Yoga, a união com o Senhor, é raramente alcançada apenas por adeptos avançados do Caminho Espiritual. ↵ voltar
  7. O Museu Boulak não existe mais; suas antiguidades estão agora no Museu Nacional, Cairo. ↵ voltar
  8. A G∴D∴ (Golden Dawn – Aurora Dourada) era a Primeira ou Ordem Externa de uma fraternidade universal conhecida como Grande Fraternidade Branca. Mathers que, com outros, fundou a Aurora Dourada, foi também membro de uma ordem Rosacruciana conhecida como a Ordem da Rosa Vermelha e da Cruz Dourada (Rosæ Rubeæ et Aureæ Crucis); essa constituía a Segunda Ordem da Grande Fraternidade Branca. A Terceira Ordem da Grande Fraternidade Branca era a Estrela de Prata, a Astrum Argenteum ou a A∴A∴. Crowley iniciou sua carreira mágica como um neófito da G∴D∴ e trabalhou seu caminho até a Terceira (ou Interna) Ordem da A∴A∴. ↵ voltar
  9. Ra-Heru-Khuti-Ba-Hadit é a deidade Egípcia particular sobre a qual é dito ter regido o 2º Decanato de Áries, em 1904, de 1º de Abril a 10 de Abril. ↵ voltar
  10. Inteligências não humanas (ou ainda inteligências mais que humanas). ↵ voltar
  11. Gnana-Yoga, a união através do conhecimento. Um típico Gnana-yogi de uma ordem elevada foi Shri Ramana Maharshi (1879-1950) de Tiruvannamalai, S. India. ↵ voltar
  12. Aiwass, a inteligência que comunicou O Livro da Lei, não disse a Crowley como era a grafia de seu nome. Em Grego é Aiwass e na Cabala Grega o nome tem o valor numérico de quatrocentos e dezoito, o número da Grande Obra; em Hebraico é Aiwaz, e soma noventa e três, o número chave d’O Livro da Lei. Crowley usava Aiwass ou Aiwaz, dependendo da natureza do trabalho que ele estava realizando, isto é, se seus experimentos fossem de natureza mística (Aiwaz), ou de natureza mágica (Aiwass). ↵ voltar
  13. Elementais da cosmologia Hindu: Nats, espíritos das árvores; Pisachas, espíritos de fêmeas sedutoras das águas; Devas, Seres Brilhantes ou deuses. ↵ voltar
  14. Nota do Tradutor: Misosofia – Ódio da Sabedoria. ↵ voltar
  15. O relato de Crowley do Grau de Magus. Veja O Equinócio, vol. I, nº. VII e Magick, p. 423. A sua realização deste exaltado  grau, equivalente àquele de Buda ou Cristo, é descrito no capítulo 81 da presente obra. ↵ voltar
  16. O ‘Deus Morimbundo’ é Cristo; isto significa que Thelema transcende o Cristianismo. ↵ voltar
  17. Nota do Tradutor: do latim, Æon (também grafado como Aeon ou Éon), “Era”. ↵ voltar
  18. Zanoni por E. G. E. Lytton Bulwer-Lytton. ↵ voltar
  19. Nota do Tradutor: do francês, “razão de ser”. ↵ voltar

© 2017 e.v. - O.T.O. - Ordo Templi Orientis





O Advento do Æon de Hórus

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Nina Castro
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 21/08/2011 e.v.
Nota:

O Advento do Æon de Hórus é um excerto da terceira parte (49º capítulo) do livro The Confessions of Aleister Crowley – An Autohagiography, a autobiografia (ou ainda autohagiografia) de Aleister Crowley.


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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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