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O Mestre Therion – Uma Nota Biográfica

por Aleister Crowley em Biografias

O Mestre Therion – Uma Nota Biográfica
História

O Mestre Therion – Uma Nota Biográfica

por Aleister Crowley

“Ainda assim há mascarados que são meus servidores”.
Liber AL II:58

UNS SEIS MESES após a morte de Eliphas Levi Zahed, no Ano (1875 e.v.[1]) da fundação da Sociedade Teosófica, nasceu uma criança do sexo masculino. Estando o signo de Leão no ascendente em sua natividade, ele é aqui chamado por aquele nome.

A família de Leão era tanto distinta quanto próspera; ele recebeu a melhor educação disponível na sua terra natal.

No início do terceiro ano (1897 e.v.) dos seus estudos na Universidade, ele passou por aquilo que pode ser chamado de o Transe da Tristeza. Ou seja, ele percebeu a futilidade de toda ambição mundana.

Então esta convicção o dominou de modo que ele renunciou, exatamente ali, a sua carreira, apesar da brilhante promessa que esta poderia, por outro lado, ter lhe proporcionado, e resolveu firmemente se devotar sem reservas à Grande Obra. Com isso, ele pretendia encontrar um meio pelo qual os esforços poderiam garantir o sucesso imune à ação do Tempo e de outras condições da existência humana. Pois a sua mente ainda era jovem e ainda não refinada.

Sua primeira leitura dos textos de Alquimia e assuntos correlatos, aos quais ele agora se dedicava, o convenceram sobre a existência de um Corpo Secreto de Iniciados competente para auxiliá-lo na sua pesquisa.

Instintivamente ele emitiu uma intensa corrente de Vontade, invocando os Mestres em tal Santuário para que viessem em seu auxílio.

Este chamado foi imediatamente ouvido. De fato, no momento da sua declaração (Páscoa de 1898 e.v.) ele estava em uma relação o mais estreita possível com um deles, embora este homem tenha ocultado sua verdadeira natureza de modo que Leão não descobriu a verdade até três anos depois, quando a sua necessidade evocou a ajuda deste Mestre.

No verão de 1898 e.v., quando Leão estava viajando pelas montanhas da Europa, se encontrou com um homem que provou ser um ávido estudante de Alquimia. Ele continuou esta relação, e exigiu dele a promessa de apresentá-lo a um adepto mais avançado. Este último o apresentou para aquela organização, de modo que ele obteve a sua primeira iniciação em 18 novembro de 1898 e.v..

Nesta Sociedade Leão fez um rápido progresso e alcançou no início de 1899 e.v. o grau mais elevado que o seu Chefe permitiu ser concedido. Dentro de um ou dois meses a partir daquele evento, aquele Chefe, que era nada mais que um representante visível dos Chefes Secretos, cometeu um equívoco tão grave, sendo o auge de uma série de equívocos, que ele acabou perdendo a confiança Deles. A Ordem Externa que dependia dele se dissolveu imediatamente em um caos.

Não familiarizado com as operações Internas da Ordem e percebendo a sua própria falta de habilidade para julgar um assunto além do seu conhecimento, Leão continuou abertamente leal ao Chefe caído; porém como ele sentia instintivamente que não poderia aprender nada mais desta fonte, ele se engajou em uma jornada de três anos rumo às partes mais remotas da terra, buscando incessantemente por uma iluminação maior.

Os Mestres, que o estavam observando, enviaram mensageiros de tempos em tempos, a fim de ensiná-lo a respeito de muitos caminhos secretos de iluminação. Em todos estes ele alcançou o maior sucesso; pode ser dito que no seu retorno ao país do seu nascimento em 1903 e.v. ele era o adepto mais avançado (tal como distinto de um Mestre) do mundo. E mesmo assim ele ainda estava longe de aceitar o seu progresso com satisfação, de modo que ele formalmente e finalmente abandonou a Grade Obra como sendo insignificante.

E isto era também o Plano dos Mestres.

Tendo renunciado à sua Verdadeira Vontade até ao ponto de se casar (agosto de 1903 e.v.) e estabelecer uma vida de homem comum, e construído uma fortaleza de rancor contra toda investida espiritual, Leão ainda assim se tornou um instrumento adequado para por em prática os desígnios inescrutáveis dos Mestres.

Ao fim de uma expedição esportiva na Ásia ele permaneceu no Cairo durante a Estação junto com a sua jovem esposa, uma mulher sem qualquer impulso ou interesse, além das mais frívolas diversões mundanas.

Agora os Mestres, os Chefes Secretos da Ordem à qual ele devia a sua primeira iniciação, são os dirigentes do destino espiritual deste planeta. Estes homens escolheram esta mulher (dentre todas as mulheres) para levar adiante a Sua Vontade ao Aspirante que havia renunciado à sua aspiração.

Leão recebeu a mensagem deles com uma discreta zombaria: ele concordou em por em prática as instruções comunicadas pela sua esposa dentro de um espírito de ironia, decidido demonstrar o absurdo da afirmação da mesma de estar em comunicação com uma Inteligência supra-humana.

O principal destas instruções consistia em se trancar dentro de certo aposento da sua casa durante uma hora por dia durante três dias (8-10 de abril de 1904 e.v.) de modo que fosse possível escrever o que então lhe seria comunicado.

Ele ficou completamente atônito quando, ao chegar a hora aguardada, ele ouviu tons de uma voz humana, falando em inglês (uma língua que ele compreendia o suficiente para este propósito) e continuou até que os sessenta minutos exatos tivessem passado.

Isto ocorreu durante os dois dias sucessivos: o resultado é o Manuscrito conhecido como Liber AL vel Legis; ou O Livro da Lei.

Outras comunicações foram feitas neste período por parte dos Chefes Secretos. Eles provaram, acima de todas as possibilidades de dúvida por parte de Leão, um cético convicto acostumado aos métodos matemáticos e científicos de crítica, a sua própria existência e a sua posse de poder e conhecimento que excedem de longe qualquer coisa concebida e referida como humana.

Esta prova, pelo menos a maior parte dela, uma porção suficiente para estabelecer a tese acima, é extensa; ela está contida implicitamente no manuscrito do próprio Liber AL, e é acessível a qualquer tempo para qualquer Aspirante à Sabedoria Secreta.

Também foi neste livro, que os Chefes Secretos conferiram à Leão o título de ΤΟ ΜΕΓΑ ΘΗΡΙΟΝ, com o seu número correspondente DCLXVI; como Mestre Therion, portanto, que ele seja assim referido daqui para frente. (Não demorou muitos anos para que ele se adequasse a fim de assumir o seu ofício no seu objetivo integral; ele assim o fez em outubro de 1915 e.v.).

Eles o instruíram a assumir o controle e a direção definitivos da Ordem, assumindo a vaga deixada pela queda do Chefe original; e a publicar abertamente a totalidade do conhecimento secreto em sua posse de modo que este pudesse sobreviver à catástrofe geral de toda a civilização, a qual Eles perceberam como iminente. (A Guerra de 1914-18 e.v. deve ser considerada como a escaramuça preliminar deste vasto conflito mundial.).

O efeito disso sobre Therion traria dois elementos contraditórios ao seu caráter.

Por um lado: ele estava absolutamente convencido da verdade das afirmações dos Chefes Secretos, dos seus feitos supra-humanos, e do Seu direito e poder para dirigir o curso dos eventos sobre este planeta. Mais ainda, ele tinha obrigações junto a Eles devido ao seu juramento original na sua primeira iniciação.

Por outro lado: ele estava completamente em desacordo com o grande volume de filosofia e ética, apresentados no Liber AL. Ele foi inundado, em suma, por duas correntes conflitantes de entusiasmo e ressentimento.

Consequentemente, após uma tentativa desdenhosa em essência de levar adiante formalmente as Suas primeiras instruções, agindo de modo como se para frustrar os seus próprios esforços aparentes, ele se revoltou abertamente. A experiência o havia forçado a abandonar sua atitude mundana deliberada, mas ele fez o máximo para seguir a sua própria carreira por um Caminho que não fosse o Deles.

Os próximos anos o viram engajado nesta luta desesperada contra Eles. Pouco a pouco eles quebraram a sua falsa vontade. Muitas foram as torturas pelas quais Eles o forçaram a renovar a sua obediência: muitos foram os sinais pelos quais Eles manifestaram a Sua vigilância e a Sua virtude.

Ele lutou em cada metro de chão com tenacidade desesperada; não houve rendição imediata por parte dele, mas foi a firme compulsão do poder Deles, que o trouxeram de volta ao Caminho Verdadeiro.

Agora os Chefes Secretos o haviam escolhido como o Seu representante na terra, como o veículo da Manifestação. E devido a ele ainda não estar preparado através de iniciação total para realizar os Seus desígnios, era imperativo que Eles deveriam evitar que ele, mesmo quando lhe fosse consentido executar os Seus mandamentos, fizesse uma aparição prematura. Isso não foi totalmente fácil de garantir, pois apesar da sua própria determinação em abandonar a sua carreira mundana, ele havia obtido eminência em dois caminhos amplamente distintos de atividade humana; de modo que qualquer coisa que ele pudesse escolher para expressar certamente receberia a devida atenção do mundo em geral.

Tão precavido quanto corajoso, tão hábil e sutil quanto cheio de recursos ele era, que não deu a Eles a menor sombra de motivo para reprová-lo; ainda assim Eles destruíram o seu amor, a sua esperança e a sua paz de espírito. Eles o isolaram de cada único amigo e auxiliar; ele foi traído várias vezes até mesmo por aqueles que buscaram ser totalmente leais a ele e que teriam morrido mil mortes para servi-lo.

Eles o mascararam tão grotescamente, horrivelmente, obscenamente, que dificilmente era possível para qualquer homem penetrar o segredo da sua verdadeira personalidade.

Ainda assim durante todo esse tempo, Eles o conduziram ao longo de vários caminhos por meio de ordálios cada vez mais enaltecidos, até que Eles o instalaram no topo da Ordem, naquele grau de iluminação que (ou como assim é dito) é alcançado por qualquer homem ainda vivo em seu corpo não mais do que uma vez a cada Dois Mil anos.

O clímax do relacionamento deles com ele ocorreu nas semanas imediatamente precedentes e as que seguiram ao Equinócio da Primavera de 1924 e.v.. Nesta ocasião ele estava gravemente enfermo. Ele estava completamente a sós; pois Eles nem ao menos permitiriam a presença daqueles poucos a quem Eles haviam determinado por Si Mesmos para ajudá-lo na sua iniciação final. Neste último ordálio a parte terrena dele foi dissolvida na água; a água foi evaporada no ar; o ar foi totalmente rarefeito, até que ele estivesse livre para fazer o último esforço e atravessar por entre as vastas cavernas do Limiar que guarda o Reino do Fogo. Nessa condição nenhum humano pode atravessar aquelas imensidões. Então naquele Fogo ele foi completamente consumido e como puro Espírito ele retornou, pouco a pouco, durante os meses que se seguiram, ao corpo e à mente que pereceram naquele grande ordálio sobre o qual ele não pode dizer mais nada além de: eu morri.

Porém tendo sido completados esses seis meses, surgiu uma Virgem, em obediência aos Chefes Secretos, por cujo toque ele retomou o contato com a sua vida humana.

Ele a conduziu rapidamente ao Deserto do Saara, para que em comunhão silenciosa com a sua Alma ele pudesse se conscientizar da natureza particular da sua Obra para os Mestres; pois ela era verdadeiramente um símbolo da Noiva Virgem, cuja redenção é o mistério da Perpetuação da Divindade.

Agora quando eles embarcaram num navio e se dirigiram exatamente ao meio do Mar Mediterrâneo, veio a ele novamente uma transmissão dos Chefes Secretos: de anotar na forma mais sucinta possível uma declaração sobre a sua natureza e propósito.

E isso ele fez no seguinte manifesto:

AO HOMEM

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Tendo sido o meu Mandato sobre a Terra estabelecido no ano da fundação da Sociedade Teosófica, eu tomo para mim mesmo, por minha vez, o pecado de todo o Mundo, para que as Profecias possam ser cumpridas, de modo que a Humanidade possa dar o Próximo Passo, da Fórmula Mágica de Osíris para a de Hórus.

E tendo agora chegado a minha Hora, eu proclamo a minha Lei.
A palavra da Lei é Θελημα.
Outorgado no centro do
Mar Mediterrâneo
Ano XX, Sol em 3° de Libra die Jovis
por mim ΤΟ ΜΕΓΑ ΘΗΡΙΟΝ DCLXVI
ΛΟΓΟΣ ΑΙΩΝΟΣ Θελημα
Todo aquele que compreendeu poderá buscar.

Então sobre isso está aqui escrito; “Eu tomo para mim mesmo, por minha vez, o pecado de todo o Mundo para que as Profecias possam ser cumpridas”, isto deve ser compreendido não apenas como experiências espirituais definidas que determinam o fato, mas também como a totalidade da sua vida, suas alegrias, seus sofrimentos, suas viagens para tantas terras, suas realizações e tantos caminhos, suas relações com tantos tipos de homens e mulheres de tantos climas e lugares são, em resumo, uma experiência universal que o capacitou a cumprir ao máximo o grande Juramento que ele assumiu na sua iniciação ao grau de Mestre do Templo; como segue abaixo:

  1. Eu, O.M., etc., um membro do Corpo de Deus, por meio do presente juro em nome de Todo o Universo, exatamente como estamos agora fisicamente atados à cruz do sofrimento:
  2. que eu levarei uma vida pura, como um servo devoto da Ordem:
  3. que eu compreenderei todas as coisas:
  4. que eu amarei todas as coisas:
  5. que eu realizarei e suportarei todas as coisas:
  6. que eu prosseguirei no Conhecimento e Conversação do meu Santo Anjo Guardião:
  7. que eu trabalharei sem apego:
  8. que eu trabalharei em verdade:
  9. que eu contarei apenas comigo mesmo:
  10. que eu interpretarei cada fenômeno como uma relação particular de Deus com a minha Alma.
    E se eu fracassar nisto, possa a minha pirâmide ser profanada, e o Olho fechado para mim.

Portanto esta proclamação desta palavra é o cumprimento do seu Juramento na sua iniciação ao grau de Magus (exatamente como Gautama Buddha proclamou a Palavra ANATTA, Lao-Tze a Palavra TAO, Dionísio a Palavra IAO, Maomé a Palavra ALLAH, e assim com o restante, nos devidos intervalos ao invés dele). Pois a função do Magus é proclamar uma nova Lei em virtude de uma Palavra na qual reside uma Fórmula de Sabedoria.

Segue aqui o livro chamado O Livro do Magus[2], e que declara àquele que compreendê-lo, as condições daquele ofício.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Era Vulgar. ↵ voltar
  2. O Livro do Magus, tecnicamente chamado Liber B vel Magi svb figvrâ I, pode ser encontrado em www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/livros/liber-b-vel-magi/. ↵ voltar

© 2017 e.v. - O.T.O. - Ordo Templi Orientis





O Mestre Therion – Uma Nota Biográfica

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Nina Castro
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 06/08/2011 e.v.

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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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