Ensaios

Os Caçadores do Porão Perdido

por Tom Whitmore em O Livro da Lei

Os Caçadores do Porão Perdido
História

Os Caçadores do Porão Perdido

por Tom Whitmore

Tom Whitmore – 12 de julho de 1984. Originalmente publicado em Izzard 9, 1987, editado por Patrick e Teresa Nielsen Hayden.

Quando você compra uma casa, provavelmente há lixo no porão. Nossa casa não foi exceção. A antiga proprietária deveria vir e cumprir o compromisso de tirar tudo, mas ela teve que sair da cidade e atrasou a limpeza após eu e Deb termos nos mudado. No dia da mudança, após o caminhão de 4,5 metros se descarregar em 45 minutos, eu decidi olhar e ver se havia alguma coisa interessante no lixo.

Colchões velhos. Pedaços de madeira velha – bem, nós podemos queimar isso na lareira do Larry. Antigos livros escolares do ensino médio – ninguém quer esses. Um par de caixas de cartas velhas e lixo… é melhor olhar isso. Um recorte de jornal dos anos 20 sobre Aleister Crowley? Um carbono de algo chamado AMRITA que parece ser um ritual da O.T.O. para a juventude eterna? Estas caixas valem a pena olhar com mais cuidado!

Para aqueles de vocês que tiveram uma infância protegida e não se interessaram pelo oculto, um pouco de cenário. Aleister Crowley era um hedonista infame e o magista mais famoso do início deste século. Ele controlava diversas organizações em várias épocas, provavelmente a mais conhecida das quais era a Ordo Templi Orientis, ou Ordem dos Templários Orientais, conhecida geralmente como O.T.O.. Ele é o autor de muitos livros estranhos, incluindo uma autohagiografia, e tomou para si a denominação de ‘666’, referindo-se à Besta do Apocalipse. Ele morreu em 1947. A O.T.O. ainda está por aí, e recentemente ganhou um processo contra Peter Straub por desvirtuá-la em um de seus livros.

Achei que poderíamos encontrar algumas cartas de Crowley nas caixas: essas seriam de interesse para praticamente qualquer estudante do oculto, e eu certamente não me importaria de ter uma delas. Elas também seriam bastante valiosas. Então eu levei a caixa para o andar de cima, e ao longo dos dias seguintes eu a revirei.

O que eu encontrei foram duas caixas de documentos relacionados a Karl e Sascha Germer. Eu nunca tinha ouvido falar deles, mas eu logo descobri que Karl era executor literário de Crowley e o cabeça da O.T.O. após a morte de Crowley. De fato havia cartas de Crowley, cerca de meia dúzia delas. Mais interessantes eram as dezenas de pastas de arquivos contendo os carbonos frágeis de cartas que documentam uma porção de rompimentos na O.T.O., rixas que soam tanto como AH, DOCE IDIOTICE que chegar a não ser engraçado. E o mais esquisito foi o que parecia ser três rituais em um manuscrito estranho, abrangendo 65 folhas de papel.

A escrita não se parecia com a das cartas de Crowley. O envelope em que estavam (que estava na maior parte desintegrado) foi enviado da Inglaterra em 1948. Mas eu pensei que eles poderiam estar no estilo da escrita automática de Crowley (escrita guiada pela mão de um espírito, que muitas vezes parece diferente da escrita normal de uma pessoa), e que pode haver alguma razão para ele ter sido enviado em 1948. Então eu comecei a perguntar por aí para ver se alguém sabia como a escrita automática de Crowley parecia. Uma pessoa me disse que havia um monte de reproduções disso na parte de trás da maioria das edições do LIVRO DA LEI, também conhecido como LIBER AL VEL LEGIS ou abreviado como LIBER AL. Decidi que o que eu deveria fazer era copiar tudo e procurar uma cópia do LIBER AL para comparar com ele. Antes que eu pudesse fazer isso eu almocei com uma amiga minha, e resolvi perguntar a um colega de trabalho dela, Josh Gordon, sobre o assunto.

Eu sabia que Josh era um membro da O.T.O. – ele mencionou isso algumas vezes na loja. Então eu apenas coloquei uma cópia das primeiras seis páginas sobre a mesa dele, e disse: “Você sabe o que é isso?”

“Claro, é um xerox da edição do manuscrito do LIVRO DA LEI”.

“Pô, eu tenho o original em casa.”

(pausa)

“O… original?”

“Quanto você quer por ele? Ah meu Deus, o que posso dizer? Você entende que eu sou membro da OTO, e estouamarradoporleieporjuramento… “ Ele rapidamente se tornou incoerente. Eu fui capaz de descobrir que a O.T.O. vinha procurando o original por mais de 10 anos; que ele não estava entre os documentos de Germer quando ele morreu; que Josh realmente sentia que ele tinha de contar ao secretário da Ordem que ele havia sido encontrado; que ele era propriedade roubada; e que ele era o ser humano mais alucinado que eu já havia visto. Ali mesmo e logo em seguida ele telefonou para o secretário de seu escritório, e sem dizer meu nome disse-lhe que LIBER AL havia sido encontrado. Combinamos que eu iria me encontrar com o secretário (Bill Heidrick) e Josh algum tempo depois que eu falei com Debbie e Larry sobre o que fazer com estas coisas. Josh também disse: “Há pessoas lá fora que matariam pelo manuscrito”. Eu acreditei nele.

Então o que você faz quando você tem um problema e precisa de conselhos? Você chama seus amigos que sabem algo sobre o assunto. Ora, nós sabíamos que Patrick Nielsen Hayden e Alan Bostick conheciam bastante sobre Crowley. Então nós os chamamos naquela noite. Depois que cada um fez o pickoff de sua respectiva base, eles produziram uma grande quantidade de informação que foi muito útil. Patrick produziu a informação de que o livro havia sido supostamente ditado a Crowley pelo anjo Aiwass no Egito em 1904. Patrick também disse que a única pessoa conectada com a O.T.O. que todo mundo respeita é Israel Regardie, secretário de Crowley durante muitos anos, que aparentemente consegue ficar sem brigar com ninguém. Alan confirmou isso, e disse que a descoberta desse manuscrito em um porão era um pouco como encontrar um dos Manuscritos do Mar Morto. O LIVRO DA LEI era o livro fundamental da filosofia de Crowley.

Eu estava em um dilema difícil neste momento. Parecia-me que as cartas e manuscritos realmente pertenciam à O.T.O., ou pelo menos que eles tinham uma forte reivindicação moral para com eles. Por outro lado, este foi um dos livros raros mais espetaculares que eu já encontrei. Eu não queria apenas dá-lo para as primeiras pessoas que afirmassem que era delas.

Levemente apreensivos, eu e Deb decidimos nos encontrar com Heidrick. Telefonamos para Josh e marcamos um encontro na loja para irmos de carro até a casa de Heidrick. Dissemos a Larry onde estávamos indo e que se ele não tivesse notícias nossas pela manhã, ele deveria fazer alguma coisa. Empacotei o primeiro terço do manuscrito e alguns dos registros financeiros, e nos deslocamos por volta das 21h.

Descobri que Bill mora em Marin County. Chegamos lá, e contamos a história e tiramos a seção do manuscrito. Bill olhou para ele calmamente, pegou sua edição da cópia impressa do manuscrito, e confirmou, verificando manchas e assim por diante, que era legítimo, então ele disse, muito calmamente, “É o manuscrito verdadeiro. Estou cagando um tijolo.” Josh disse: “Não seria divertido contar a todos na Ordem sobre isso de uma vez, e observar as suas reações?” Bill respondeu: “Não, você só pode assistir tantos tijolos serem cagados antes que eles obscureçam a audiência.” Nós conversamos sobre se e quando Bill deveria contar a Grady McMurtry, o atual Cabeça Externa (na verdade, presidente) da O.T.O. Grady é um cliente ocasional nosso, e tem problemas cardíacos. Não quero que ele saiba até que tenhamos concluído os detalhes da devolução.

Bill parecia razoável para nós, mas nós não queríamos abrir mão do manuscrito sem ao menos alguma verificação com um observador de fora. Então perguntamos se eles se importariam se ligássemos para Regardie e pedíssemos seu conselho. Bill disse tudo bem; mas que ”ele tem mais de 70 anos e vive no Arizona, por isso não deveriam telefonar pra ele assim tarde da noite; aqui está o seu número”. Nós partimos, todos um pouco abalados com a velocidade com que as coisas estavam indo. Josh voltou conosco, e nós conversamos sobre a história da O.T.O. todo o caminho de casa.

Na manhã seguinte, telefonei para Regardie. Eu me apresentei, disse que Bill sugeriu que eu ligasse, e então eu disse: “Parece que eu encontrei o manuscrito original do LIVRO DA LEI no meu porão.”

“Ah, então você é um cara muito sortudo!”

“O que você acha que eu deveria fazer com ele?”

“Bem, você pode guardá-lo, ou você poderia vendê-lo…”

“Eu estava pensando em devolvê-lo à O.T.O.”

“Isso seria uma coisa muito legal de se fazer!”

“Bem, se eu fosse fazer isso, a quem eu deveria entregá-lo?”

“Bem, X é um lunático delirante, e só Deus sabe o que Y ou Z fariam com ele… Bill e Grady realmente são as únicas pessoas adequadas. Mas o que eu gostaria de saber é como é que o manuscrito foi parar no seu porão?”

“Eu mesmo gostaria de saber. Se algum dia eu descobrir, eu te avisarei.”

“Este realmente é um grande dia na história thelêmica”.

Ele era um homem muito agradável, e a primeira pessoa que agiu como se acreditasse na doutrina thelêmica, “Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei”. Uma vez que esta é a maneira como todos os bons Crowleyanos começam suas cartas, e o princípio mais importante da doutrina de Crowley, é bom saber que um deles acredita nisso! (Na verdade, o “tu” refere-se ao eu divino e não o temporal, por isso não é tão simples, mas não consigo resistir a um trocadilho ocasional). Trocamos algumas brincadeiras mais, e eu desliguei e liguei pro Josh. Ele veio e pegou o manuscrito, levando-o a Bill que chamou Grady. Ele agora repousa em um cofre cuja localização é conhecida apenas por três pessoas, e eu não sou uma delas.

O resto é um pouco anticlimático. Descobrimos que a única pista que tínhamos a respeito de como os documentos foram parar no porão era falsa; talvez nós nunca saibamos. Dentre os papéis encontramos as cartas que Crowley enviou tornando Germer seu herdeiro nos Estados Unidos, a patente original da O.T.O. conforme dada a Crowley em 1920, e várias cartas de Gerald Yorke sobre o manuscrito de LIBER AL. Uma das cópias de AMRITA estava anotada pela mão de Crowley. Havia também um grande número de formulários de direitos autorais originais dos livros de Crowley. Os documentos dos direitos autorais e algumas das cartas de Crowley serão fundamentais para uma ação que a O.T.O. está movendo sobre quem tem os direitos autorais das obras de Crowley. As repercussões disso no mundo mágico local serão divertidas de se assistir.

Eu pude segurar uma carta de Crowley, e a O.T.O. me dará algum tipo de honorários de intermediário e possivelmente algum dinheiro a mais se os materiais forem apresentados ou publicados. E eu tenho uma história sobre a qual eu posso jantar fora por algum tempo. Estimativas sobre o valor médio do manuscrito variam do palpite ingênuo de várias pessoas de US$ 10.000,00 até um palpite de alguém informado de US$ 250.000,00. Com quase nenhum manuscrito de Crowley em circulação e a natureza fundamental desta obra em particular, o seu palpite provavelmente é tão bom quanto qualquer outro.

Mas se eu algum dia descobrir como ele foi parar no porão, vou avisá-lo!

© 2016 e.v. - Tom Whitmore





Os Caçadores do Porão Perdido

Tradução: Alan Willms
Revisão: Alan Willms
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 04/06/2012 e.v.
Nota:

Publicado em Inglês no site Hermetic.com (Raiders of the Lost Basement – http://hermetic.com/legis/raiders-of-the-lost-basement.html) e reproduzido em português com a autorização do autor, Tom Whitmore.


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Tom Whitmore

Tom Whitmore é escritor técnico, trabalha com organização de conferências, comercializa livros raros e pinturas, e é licenciado como praticante de massagem (LMP) no estado de Washington (U.S.A.). Mais informações e detalhes sobre Tom Whitmore podem ser encontrados em seu site, www.tswhitmore.com.

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