Ensaios

Religião – ΘΕΛΗΜΑ é uma “Nova Religião”?

por Aleister Crowley em Lei de Thelema, Religião

Religião – ΘΕΛΗΜΑ é uma “Nova Religião”?
Filosofia

Religião – ΘΕΛΗΜΑ é uma “Nova Religião”?

por Aleister Crowley

Cara Soror:

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

“Você descreveria o seu sistema como uma nova religião?” Uma questão pertinente, você poderia indubitavelmente supor; se ela vier a significar qualquer coisa é—é—é—bem, é o que devemos tentar esclarecer.

Correto, isto é um slogan da A∴A∴ “O método da ciência—o objetivo da religião”. E aqui a palavra  “objetivo” e o contexto ajudam na definição; esta deve significar a consecução do Conhecimento e do Poder nos assuntos espirituais—ou palavras para este efeito: assim que alguém seleciona uma frase, começa a desgastá-la! Ainda assim, ambos sabemos perfeitamente bem todo o tempo o que realmente queremos dizer com isso.

Mas, certamente este não é o sentido da palavra na sua pergunta. Ela pode elucidar as nossas mentes, como tantas vezes tem acontecido, se nós a examinarmos através das lentes do bom e velho Skeat[1].

Religião, ele diz, vem do Latim: religio, piedade. Congregação ou prestar atenção a: religens enquanto oposto a negligens, negligente; a atitude de Gallio. Mas esta também implica em reunião de ideias; de fato, um “corpo de doutrina”. Não é uma expressão incorreta.  Uma religião, então, é um conjunto mais ou menos coerente e consistente de crenças, com preceitos e proibições daí dedutíveis. Mas então há o sentido no qual Frazer (e eu) muitas vezes usamos a palavra: como em oposição à “Ciência” ou “Magia(k)”. A questão aqui é que as pessoas religiosas atribuem os fenômenos à vontade de algum Ser ou Seres postulado(s), aplacável e passível de comoção em virtude de sacrifício, devoção, ou apelo.  Contra tal coisa, a mente científica ou mágica acredita nas Leis da Natureza, afirma “Se A, então B”—se você fizer assim—e—assim, o resultado será assim—e—assim, longe de interferência arbitrária.  Joshua, alega-se, fez o sol ficar imóvel através da súplica, e Ezequias da mesma forma fez com que ele “retrocedesse perante Ahaz”[2];  Willett o fez atrasando o relógio, e recebendo um Ato do Parlamento para confirmar sua loucura.  Petruchio, também “Será a hora que eu quiser no relógio!”. Os dois últimos chegaram próximo do método mágico; pelo menos, no tocante ao que consiste em “enganar todas as pessoas o tempo todo”. Porém tal operação, caso a verdadeira Magia(k) fosse empregada, estaria além do poder de qualquer mago do meu conhecimento; pois isso iria desordenar completamente o sistema solar (Você se lembra do que aconteceu, e no que resultou, em um conto muito inteligente escrito por H.G. Wells.). Pois a verdadeira Magia(k) significa “empregar um conjunto de forças naturais em uma vantagem mecânica contra um outro conjunto”—Eu cito, tanto quanto a memória alcança, Thomas Henry Huxley, quando ele explica que quando ele ergue o seu jarro de água—ou o seu cotovelo—ele não “desafia a Lei da Gravidade”. Ao contrário, ele usa esta Lei; suas equações formam parte do sistema pelo qual ele ergue o jarro sem derramar a água.

Resumindo, o nosso sistema é uma religião simplesmente na mesma medida em que religião significa um entusiasmado agregado de uma série de doutrinas, sendo que nenhuma delas tem de entrar em conflito, seja como for, com a Ciência ou a Magia(k).

Chame isso de uma nova religião, então, se isso tanto agrada a vossa Graciosa Majestade; mas confesso que não vejo o que você ganhará ao fazer isso, e sinto-me obrigado a acrescentar que você pode facilmente causar um grande mal-entendido, e causar um tipo estúpido de injúria em particular.

A palavra não aparece em O Livro da Lei.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Fraternalmente,

666[3]

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Walter William Skeat (1835-1912). Filólogo inglês que escreveu Um Dicionário Etimológico da Língua Inglesa (1879-1882) e iniciou o estudo sistemático de nomes de localidades inglesas. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  2. Rei de Judá, filho e sucessor de Jotham. – Nota do Tradutor. ↵ voltar
  3. Θελημα não é uma religião: é um modo de Teurgia. Como tal, deve permanecer rigorosamente experimental e documental; ela segue escrupulosamente o método científico, tal como este foi definido por Descartes, Poincare, Russell, e Whitehead. Ela é, essencialmente, uma forma de pesquisa espiritual; nós usamos a palavra pesquisa aqui dentro da sua mais estrita definição científica. Entretanto, Crowley de fato renovou e inspirou a Santa Igreja Católica Gnóstica, que é, num certo sentido, uma forma de religião. Mas mesmo assim, a mensagem é, e deve permanecer, aquela gravada nos Capítulos 113 a 117 de Liber Aleph. – Comentário de Marcelo Ramos Motta. ↵ voltar

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Religião – ΘΕΛΗΜΑ é uma “Nova Religião”?

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.1 – 19/05/2012 e.v.
Nota:

Religião – ΘΕΛΗΜΑ é uma “Nova Religião”? é a 31ª carta publicada no livro Magia Sem Lágrimas (Magick Without Tears) de Aleister Crowley. A presente versão utilizou como base diversas edições do livro e traz alguns comentários de Marcelo Ramos Motta (realizados em sua edição, Magick Without Tears Unexpurgated Commented), não foram adicionados comentários em que Motta fazia referência à edição de Israel Regardie. Regardie suprimiu diversas partes do texto original (o que é extremamente condenável), mas não vemos motivos para continuar dando demasiada ênfase ao fato, o importante é o esforço para levar o texto completo ao leitor.


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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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