Sobre a Criação dos Filhos
Metodologia

Sobre a Criação dos Filhos

por Aleister Crowley

A Palavra de Pecado é Restriçãoem relação à Verdadeira Vontade, no sentido da sua descoberta. Como lidar então com o Pecado? Os Kennedys[1] deveriam se conscientizar da sua própria natureza, serem treinados a observar seus mecanismos de reação (Liber III[2] a melhor prática de toda a A∴A∴) mostrar como guiar suas ações em seus próprios interesses. Punições por atos inconscientes ou semiconscientes é estupidez, exceto aquelas auto-inflingidos na descoberta em si de tendências enganosas.

Em relação ao furto de Dionysus[3], ele deve entender que será prejudicado por isso no final das contas e também a abolir este comportamento.

1 – Autoanálise é a base de todo treinamento moral. Nenhum ato de vontade deve ser deixado ao Inconsciente;

2 – O efeito de cada ato cônscio, e benéfico, deve ser explicado. Por exemplo, Roubar é algo arriscado por causa do desenvolvimento da Lei, do mesmo modo que uma escalada o é por causa da Lei da Gravidade e da fragilidade do corpo humano;

3 – Autocontrole deve ser ensinado sistematicamente como o Caminho para o Sucesso na Vida. Conhecimento, atenção e autodomínio são as três virtudes (Coragem e Verdade são essenciais em todas as três)

Algumas paixões produzem um estado de automatismo que escapam ao controle da vontade. Por exemplo, o amigo médico de Naish, que teve a chance de pegar a mulher na hora. Ele não pôde se conter, não que a sua Vontade fosse fraca, mas porque perdeu a consciência de como aconteceu.

Crianças devem ser alertadas cedo deste perigo. Elas devem ser treinadas a temer o automatismo. que possui como uma das características. a propriedade de anular a Vontade. Maus hábitos podem ser mudados apenas desta maneira. Per contra, formar bons hábitos libera a força de Vontade para agir em outras questões. Porém este vínculo das ações ao Subconsciente deve ser fundamentado e bem cuidado para que tudo funcione corretamente. Por exemplo, uma rotina de horas pré-estabelecidas pode ser entrave para a um trabalho de primeira qualidade, eu me remoendo por trabalhar até tarde, me desestabilizo fazendo com que a minha Vontade fraqueje.

As crianças devem ser ensinadas a prestarem atenção em pequenos movimentos musculares e então controlá-los e que isso seja natural e não por razões como “Eu disse a você”, “Por que é Certo” ou “Por que é melhor”.

Qualquer “falha” deve ser tratada com dor, além de demonstrar, racionalmente, aonde pode levar, quase como uma dramatização de Karma, especificamente na situação em questão. Por exemplo, no caso de Dionysus, ficar de olho até pegá-lo em flagrante e fazer uma coisa por vez: “Bem, eu não posso cozinhar para você até que eu ache a minha faca”, encontre-a na ausência dele, mostrando como você fez para achar. Então humilhe, bata e ponha de castigo, dando uma lição sobre as limitações da vida. A criança deve aprender que roubar trará, inevitavelmente, problemas para ela.

[Nota:] O mais importante: tirar os pertences dela para que possa sentir na pele (a) o incômodo da perda  (b) o medo de se perder alguma coisa que lhe pertença.

Então procure saber se ela realmente tinha consciência do que estava fazendo na hora do furto. Se o ato tiver origem em um comportamento automático treine as mãos da criança para avisá-la de quaisquer movimentos suspeitos. Se o controle da vontade for fraco (se ela não estiver mesmo distraída) use Liber III escolhendo práticas duras como aguentar dor, resistir a coceiras, ou evitar matar pernilongos quando estiverem picando o braço, recitar poesias enquanto é beliscada, ou estocar-se com um alfinete.

Traga todas as ações automáticas à consciência, mesmo parecendo insignificantes: de fato, quanto mais frívola for mais útil é a lição.

Treine a criança para que fique atenta a movimentos sem importância e a reagir a cada ligeira mudança. Puna a desatenção incisivamente dizendo: “um dia você poderá se distrair, cair e se machucar ou pegar sem querer um carvão em brasa”. Insista nesta prática até ela se cansar e então estimule a aguentar mais até o esgotamento total.

Observe atentamente os automatismos da criança:

  1. Prove que ela faz determinada coisa;
  2. Faça a entender porquê o faz;
  3. Faça-a saber aonde tais ações levam;
  4. Faça-a avaliar a utilidade delas;
  5. Ensine-a a nunca mais se portar da maneira errada.

Tudo isso deve ser feito em paralelo com análise, julgamento e controle de todos os atos conscientes.

  1. Faça-a repetir todas as noites os principais eventos do dia;
  2. Pergunte sobre eles; porque comeu, foi ao mercado, trouxe água, aprendeu poesia, nadou, etc.;
  3. Faça-a entender que, além do resultado imediato de cada ação, existem consequências posteriores;
  4. Mostre-a como todas as suas ações funcionam em conjunto para um propósito maior, além da finalidade específica de cada uma;
  5. Que ela tenha essas ideias sempre em mente e que cite as próprias ações realizadas no dia;
  6. Ensine-a que atos inconscientes e tolos e inúteis anulam o efeito de outros. Mostrar como a insensatez pode estragar muitos planejamentos. Por exemplo, deixar cair uma xícara e assim derramar o chá que estava bebendo, tendo que comprar uma nova (ao invés do brinquedo que tanto queria) e ter que ir para a cidade comprar ao invés de brincar (usar situações cotidianas);
  7. Mostrar como uma ação pode ser feita em benefício de outra. Exemplo: levar água e lamparina, assim Ninette terá tempo para fazer um novo casaco para ela; além de ficar cansada, comer e assim dormir melhor. Ou aprender a escrever para que não precise pedir a Giosué, ele mesmo fazer por si;
  8. Mostre o uso da memória e da atenção. Exemplo: durante três ou quatro dias não fazer nada para ela. Quando pedir alguma coisa diga: “Oh, esqueci!”. Ao perceber que a criança está dispersa, retire a comida (caso esteja comendo), dê uma rasteira (se estiver andando) etc. Caso esqueça alguma coisa, mostre uma consequência natural do processo e da qual irá se lembrar (via exageros). E fingindo não ligar deixe o sabão entrar nos olhos dela quando estiver lavando o seu rosto e diga: “Oh, eu não estava prestando atenção!”;
  9. Não misture as práticas. Pegue um ponto forte e o fraco correspondente e martele em casa durante três ou quatro dias até que doa de fato! Repita alternando até que ela aprenda;
  10. Atente para ações inúteis, tolas e sem sentido por parte da criança especialmente àquelas fruto de qualquer aborrecimento. Analise sob vários pontos de vista. Não negligencie. Quando ela vadiar, ficar indiferente ou apática dê uma opção: ou começar alguma atividade ou brincadeira ou ir para a cama por 12 horas (cama significa também uma dieta rigorosa);
  11. Cuidado com a interpretação de quaisquer atitudes da criança, mesmo que pareçam insensatas ou prejudiciais; ao fazê-lo medite seriamente sobre a relação de cada uma (consciente ou automática) com o todo. Tente compreender o que realmente significa, principalmente sobre a ótica simbólica: isto poderá revelar algo sob a Verdadeira Vontade da criança sendo uma indicação de seu gênio. Por exemplo, ter uma mania de matar animais para em seguida abri-los. Isso não significa necessariamente Sadismo, mas pode ser a manifestação de um dom para medicina; uma ávida curiosidade sobre o mecanismo da vida. Do mesmo modo, “fazer caretas”, inconscientemente, pode revelar um gênio para psicologia – na tentativa de associar as feições com aquilo que se está pensando. Ou movimentos longos e contínuos ritmados de seus membros enquanto sentado quieto e absorto poderia indicar um gênio musical ou poético.Quaisquer desses sintomas devem ser analisados como algo corriqueiro, se algum for  realmente significativo não irá desaparecer, mas irá se evidenciar cada vez mais. Evite tentativas reais de suprimi-los mas finja querer fazê-lo. Caso sejam genuínos tal postura irá gerar ressentimentos, via de regra. Ela deverá, então, ser ensinada a compreendê-los para desenvolvê-los de forma inteligente. Não aceite de primeiro qualquer explicação que aparecer, a criança provavelmente estará mentindo para protegê-los. (Algumas mentiras são justificáveis; em determinadas situações elas podem ser sinais da Verdadeira Vontade, cuja pureza, dignidade e preciosidade delineia tais justificativas);
  12. Não falte em absoluto com o Respeito a Ela e a Sua Vontade. A sua função é servi-La por quaisquer métodos que sejam. Convença a criança de que ela pode amar e confiar em você e a cooperar prontamente. Estimule o Respeito próprio dela ao mesmo tempo em que ridiculariza as presunções e vaidades; faça-a ver que as suas falhas são insultos a Ela mesma e incite ofensas de terceiros mais tarde. Mostre que impulsos não organicamente construídos em si, para servir ao seu Self, são distrações que enfraquecem a sua vontade e talvez a prejudique mais tarde;
  13. Insista na disciplina em todas as atividades. Ele deve comer nas refeições, nunca entre elas e neste caso não fazer nada a não ser comer. Da mesma maneira ao dormir, brincar, trabalhar e todo o resto. Puna a distração parando o que estiver fazendo; caso esteja bancando o bobo durante a refeição, tire-o da mesa. Se estiver na cama, “Ok, você vai levantar e dar uma caminhada de cinco horas, agora”, etc. Quando a tarefa for desagradável, pare, mas faça-a sentar até que peça para começar novamente (não antes de 10 minutos) não indo embora até que a cota definida seja alcançada;
  14. Covardia – livre-se disso logo cedo mostrando para ela a parte ruim daquilo que teme. Por exemplo: medo de água; forçá-la a mergulhar (ou queimá-la para mostrar que fugir de uma coisa é correr para outra) até que encare o medo. Parece cruel, mas tenha certeza de que ela sofrerá mais do que pensava no começo. Ao demonstrar coragem, pare imediatamente e conforte-a;
  15. Falsas impressões – isso também deve ser tratado cedo. Mostre que a realidade é fundamental para a sua felicidade em questões como reações sensoriais e impulsos motores. Por exemplo, experiências onde ela é enganada de várias formas, em questões corporais e ludibriando a vontade. Arranje um jeito de irritá-la acreditando na mentira dela. Por exemplo, se ela negar ter quebrado um copo “Bem, isto não está quebrado, beba nele, então” ou num roubo de biscoito – “Você não gosta de biscoito – o restante fica para os outros”. “Essas mulheres cortaram o meu pinto”. “Você tem que ficar em casa por uma semana; elas poderiam cortar a sua cabeça”. Minta para ela (logo depois que a criança o fizer de um jeito que cause o máximo de dor possível além de alguns problemas também. Mostre como uma mentira leva à outras piorando a situação ainda mais;
  16. Crueldade – inflija dor igual  nela (o máximo que você achar pertinente) e pergunte: “O prazer de provocar a dor foi igual ao de senti-la?” Mostre como isso impede a criança de ter afeição da vítima, provoque ódio e sentimento de vingança, amedronte-a;
  17. Malícia. Ver o item 16, porém trate em um escopo mais amplo;
  18. Preguiça – mostre como a indolência toma conta das pessoas; mande-a para cama e deixe-a lá até ficar extremamente entediada. “Se você deixar a preguiça tomar conta de você, vai ficar na cama pelo resto da vida”;
  19. Inveja – um insulto a própria Alma. Às vezes ela nem sabe que sente isso e assim a dor tende a ser incurável e a piorar se não for eliminada. Mostre as desvantagens e amarguras de se senti-la e das possibilidades de se encontrar prazer e orgulho de si mesma ao invés de ceder ao sentimento;
  20. Vaidade – mostre como é ridícula por (a) atacando diretamente (b) imitando e levando a sério o processo. Faça a criança perceber, através de dor, que é uma ofensa à dignidade do Verdadeiro Ser, mostre que o verdadeiro brio é imune a essa aflição;
  21. Negligência – o tempo logo dá um jeito nisso, caso contrário, crie situações que necessitem de cuidado constante e atenção com algumas consequências aborrecedoras, mas não perigosas (cautela vem bem a calhar);
  22. Teimosia – vencê-la em seu próprio jogo; deixe-a ver você se divertindo enquanto ela sofre. Não a machuque. Quando ela ceder, pare;
  23. Mau humor – seja agradável com ela, mas quando se aproximar imite o comportamento. Seja pior do que ela (geralmente funciona);
  24. Timidez – (geralmente advém de alguma falha na educação) quando natural é parte orgulho parte medo, via de regra. Tire o medo do amor-próprio como visto no item 12. Coloque-a em situações embaraçosas e mostre o quão besta é esse sentimento: ela ganhará confiança rindo de si mesma;
  25. Intromissão – um sintoma de dependência dos outros. Resolve-se isso ensinando a criança a ter autoconfiança e interesse próprio e não a expulsando como uma peste;
  26. Desobediência, insubordinação – respeite isso como um sinal de determinação, porém, mostre a criança que os Limites provém dela mesma, que existem, por sua vez, para servir a sua própria Vontade. Ensine que tais atitudes levarão, necessariamente, a alguma desordem na sua própria vida e que sofrerá diretamente por causa delas;
  27. Temperamento difícil – devido à doença ou má criação. Imite-a e deixe os seus rompantes causarem algum transtorno resultando em algo perceptível: “Você me fez esquecer de comprar o doce!”;
  28. Maus hábitos – “Você irá ficar com os empregados, agora” – coloque-a em trabalhos humilhantes e servis;
  29. Impaciência e falta de perseverança – Mostrar como adiar ou abandonar as tarefas as torna mais difíceis no final das contas;
  30. Precocidade sexual deve ser cuidadosamente analisada – é pura em si, é uma valiosa indicadora dos Verdadeiros Eu e Vontade da criança. E difere bem do que acontece com um adulto. A questão deve ser tratada (se for o caso) na origem, ou seja, pelo total esclarecimento dos fatos relativos ao sexo e fazendo a criança querer controlá-los tratando como um problema;

Em caso de dúvidas O Livro da Lei é o guia absoluto da conduta apropriada.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. O artista Leon Engers Kennedy. – Nota dos Editores. ↵ voltar
  2. Liber Jugorum sub figurâ III, publicado em Equinócio I, 4 e em Magia(k) na Teoria e na Prática. O livro contém práticas para o fortalecimento da Vontade e pode ser encontrado em www.astrumargentum.org/arquivos/ht/libri/libri_3.htm. – Nota dos Editores. ↵ voltar
  3. Filho de Leah Hirsig (Soror Alostrael), em Céfalu. – Nota dos Editores. ↵ voltar

© 2016 e.v. - O.T.O. - Ordo Templi Orientis





Sobre a Criação dos Filhos

Tradução: Frater Keron-ε
Revisão: Keron-ε & Jonatas Lacerda
Edição: Keron-ε & Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 12/06/2012 e.v.
Nota:

Esta passagem ocorreu na Tunísia em 1923 e.v. (a entrada no diário data de 25 de setembro às 05:30 da manhã). O filho de Leah Hirsig (Soror Alostrael), chamado por Therion (Aleister Crowley) de Dionysus, cometeu um pequeno furto que inspirou uma entrada no diário de 666. A presente edição foi preparada originalmente por Frater Keron-ε e publicada no website da A∴A∴ (www.astrumargentum.org), sob o título “Como Criar os Filhos”.


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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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