Ensaios

Sobre a Interpretação, o Comento e os Comentários do Livro da Lei

por Jonatas Lacerda em Comentários do Livro da Lei

Sobre a Interpretação, o Comento e os Comentários do Livro da Lei
Metodologia

Sobre a Interpretação, o Comento e os Comentários do Livro da Lei

por Jonatas Lacerda

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Em primeiro lugar, devemos observar que mesmo que o axioma diga “Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei“, ele não diz que não existem proibições, haja visto que nenhuma sociedade pode ser constituída sem tê-las. É também dito “A palavra de pecado é restrição“, porém mesmo pecado sendo restrição, nós precisamos estar sempre alertas para não entrar em conflito com a órbita de outras estrelas e de certo modo, fazendo isso, encontramos diversas proibições. Por exemplo, salvo alguns casos, somos realmente proibidos de matar o próximo, segundo a Lei de Thelema, e óbvio, segundo a Lei dos homens. Assim como roubar, agir de má fé, etc.. No caso da interpretação do Livro da Lei, acredito que o conceito de proibição (no Comento escrito pelo escriba) parte do ponto de vista de que não somos capazes de interpretar o Livro sem deturpá-lo. A Bíblia Cristã foi diversas vezes interpretada e esta interpretação causa um desentendimento completo do sentido original das palavras que lá estão escritas. Quando abrimos precedentes para a interpretação, nós tornamos a revelação suscetível à falha humana e aumentam as possibilidades da perda completa do sentido original dessa revelação.

Acho que um bom exemplo do quanto a exposição direta de uma interpretação do Livro da Lei é nociva ao estabelecimento da Lei de Thelema é o fato de que Marcelo Ramos Motta (que por alguns motivos especiais) usou sua interpretação pessoal na tradução do axioma “Do what thou wilt shall be the whole of the Law“, traduzindo-a como “Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei“. Automaticamente o axioma tornou-se anárquico: “tudo da Lei“, afirma que podemos fazer qualquer coisa, porque tudo está dentro da Lei. Quando na verdade “Faze o que tu queres” é a totalidade da Lei, que é muito diferente. Talvez, se Marcelo não tivesse traduzido o axioma dessa forma, ele poderia ter evitado o fanatismo de alguns de seus seguidores, como podemos ver na narrativa de Marcelo Ramos Motta: Um Enigma (de Euclydes Lacerda de Almeida): “Tal fanatismo (ou paranóia) chegou a tal ponto que, na Inglaterra, um desses discípulos tramou explodir a livraria de antigos e conhecidos editores britânicos (Routledge & Kegan), simplesmente porque Marcelo Motta estaria aborrecido com eles (Este estudante, erradamente, quase destruiu uma outra livraria. Preso, veio a falecer na prisão.).“. Quanto a tradução é importante observar o que há no Livro da Lei: “Este livro será traduzido para todas as línguas: mas sempre com o original na escrita da Besta; pois na forma ao acaso de suas letras e suas posições umas com as outras: nisto há mistérios que nenhuma Besta adivinhará….”, utlizar preceitos mágicos em uma tradução não é levar adiante um mistério, mas sim inibir a exposição natural dos mistérios que a tradução, livre da sede de resultado, pode nos trazer.

Aqui vale uma ressalva, sou um grande admirador do trabalho de Marcelo Ramos Motta e sem dúvida foi um trabalho gradioso e Thelêmico. Ele, foi sem dúvida um dos maiores divulgadores da Lei de Thelema no mundo, porém o fanatismo corrompe os objetivos e resultados de qualquer trabalho e a verdade, sem véus é o objetivo de tudo.

Falando de interpretação, todos nós interpretamos o Livro de uma forma muito particular e não há problema nenhum em fazê-lo, o problema está em tentar passar nossa interpretação como uma verdade para outras pessoas. Em um ponto outro, talvez todos nós passemos a nossa visão pessoal para outras pessoas, acho que precisamos apenas ter consciência do fato de que o que acreditamos não faz parte de uma verdade absoluta, única e verdadeira, mesmo que acreditemos que é uma grande verdade, talvez essa verdade seja uma grande mentira para outra pessoa. Acredito que apenas com o estudo em conjunto (Como irmãos lutai! AL III:59) sobre a essência e a aplicação da Lei de Thelema seja possível chegar a resultados sólidos, tanto na divulgação, quanto no estabelecimento dela.

Neste momento acho importante tratar do trabalho do Comento e dos Comentários que o escriba deveria fazer. Antes de prosseguir, vejamos o que está escrito no Livro: “Meu escriba, Ankh-af-na-khonsu, o sacerdote dos príncipes, não mudará em uma letra este livro; mas, para que não haja tolice, ele o comentará pela sabedoria de Ra-Hoor-Khu-it.” – AL I:36; “Tudo isto e um livro para dizer como tu chegaste aqui e uma reprodução desta tinta e papel para sempre – pois nisto está a palavra secreta & não apenas no Inglês – e teu comento sobre este Livro da Lei será impresso belamente em tinta vermelha e preta sobre belo papel feito à mão; e, para cada homem e mulher que tu encontres, seja para jantar ou para beber com eles, esta é a Lei a ser dada. Então eles terão a chance de permanecer nesta felicidade ou não; isto não é problema. Faze isto rapidamente!” – AL III:39; “Mas o trabalho do comento? Isso é fácil; e Hadit queimando em teu coração fará rápida e segura a tua caneta.” – AL III:40. O escriba, realmente escreveu o comento, indicando que todas as questões da Lei devem ser decididas somente com apelo aos seus escritos, cada um por si. O comento parece indicar que não devemos obrigar a nossa visão pessoal do Livro à outras pessoas, por isto, cada um por si.

Crowley escreveu o Comento e também escreveu Comentários sobre as passagens do Livro. Sobre os comentários, eu tenho uma visão extremamente pessoal que tentarei expor nas linhas que seguem: O Novo Æon precisava ser estabelecido e o Livro da Lei é a base de toda a revelação, essa revelação foi ditada para um escriba (Ankh-f-na-Khonsu / Aleister Crowley), porém eu creio que ela foi arquitetada de forma que pudesse ser minimamente entendida pelo escriba, indo de encontro com seus conhecimentos e com suas crenças pessoais. Assim como a língua (o inglês), seria inútil ditar o livro em português, por exemplo; ou ainda, utilizar termos e linguagem completamente desconhecidos pelo escriba. A Lei deveria ser minimamente compreendida para que pudesse ser levada à outras pessoas. Utilizando esta ótica, é possível entender o porquê comentar o Livro é um trabalho específico do Profeta, já que o Livro pode ter sido arquitetado para seu entendimento, somente sua visão poderia nos trazer Luz.

Talvez, para entendermos melhor os problemas de um comentário feito por alguém que não está profundamente ligado ao Livro (tão profundamente quanto o escriba), irei reproduzir o comentário feito por Aleister Crowley (em Os Comentários mágicos e Filosóficos do Livro da Lei) e o comentário feito por Panyatara (em O Livro da Lei para o Povo Suplicante – 2007 e.v.) da passagem “A palavra da Lei é Thelema” – AL I:39: Os Comentários Mágicos e Filosóficos do Livro da Lei:

Compare com Rabelais. Também pode ser traduzido como “Que vontade e ação estejam em harmonia”.

Mas também pode significar vontade no mais alto senso do ponto-de-vista mágico, e no senso usado por Schopenhauer e Ficht.

Existe, provavelmente, uma outra interpretação secreta. Eu sugiro:

The (A) = O essencial, Azoth, etc.. Word (Palavra) = Chokmah, Thoth, o Logos, a Segunda Emanação. Of (d’) = O Partitivo, Binah a Grande Mãe. the (a) = Chesed, poder paternal, reflexão “De Cima”. Law (Lei) = Geburah, a severa restrição. Is (é) = Tiphareth, existência visível, a harmonia equilíbrio Brada dos mundos. Thelema = A ideia envolvendo toda esta sentença em uma palavra.

ou:

The (A) = O Leão. Tu deves unificar todos estes símbolos na forma de um Leão. Word (Palavra) = A letra do Alento, o Logos. Of (d’) = O Equilíbrio. The (a) = 418, Abrahadabra. Law (Lei) = O Enforcado, ou Redentor. is (é) = 0 (Zero, Nuit, que é existência). Thelema = A soma de tudo.

O Livro da Lei para o povo Suplicante:

A palavra da Lei é VONTADE, tradução do vocábulo grego Thelema. Embora pequeno, este versículo aporta uma mensagem transcendental para a Nova Era de Aquário, quando serão vivenciadas pela humanidade as energias do 7º Raio (o Raio do Ritual e da Magia), intimamente relacionado com o 1º Raio (Raio da Vontade e Poder).

Embora a quase totalidade dos seres humanos não goste de admitir, jamais experimentaram esta energia denominada Vontade, vivenciada até agora apenas pelos Grandes Instrutores do mundo e pelos verdadeiros Magos. Quando movimentada pela mente humana, tem um poder fantástico e assemelha-se ao conceito de fé, enunciado pelo Mestre Jesus quando disse “se tiverdes fé do tamanho do grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá e ele passará. Nada vos será impossível” (Mt. 17, 20).

Em verdade, o ser humano comum ainda não é “um produto acabado” que possa “metabolizar” esta energia adequadamente; seu cérebro ainda não está suficientemente desenvolvido para manejá-la com aproveitamento. As exceções (Napoleão, Hitler, e alguns tipos que alcançaram destaque pela firmeza de suas atitudes) apresentaram-se à humanidade de forma desequilibrada e foram tremendamente destruidores, embora haja exceções com grande aproveitamento como foi o caso de Apolônio de Tiana, Conde de Saint Germain, Cagliostro e vários outros grandes taumaturgos, inclusive aquele que recebeu nos Evangelhos o nome de Jesus; estes, souberam utilizar essa energia em nível raramente capaz de ser expressado pela mente humana em seu atual estágio de desenvolvimento.

O homem comum utiliza esta energia apenas em sua expressão mais deletéria, relacionada ao chacra Manipura e ao plexo solar, na forma daquilo que conhecemos como desejo; nada mais do que isso, a não ser em raras ocasiões e em circunstâncias tão fortuitas que considera seus resultados como milagres.

Na Era de Aquário, esta energia estará atuando sobre toda a humanidade e já se está fazendo presente, de forma inequívoca, sobre os tipos mais adiantados, levando-os a uma consciente VONTADE de viver em harmonia, fraternidade e em progresso. O resultado tem sido as grandes alianças políticas e econômicas em desenvolvimento na Europa e nas Américas, embora sua ação sobre os tipos menos evoluídos, venha provocando, em contrapartida, o sentimento de ódio e revolta organizada, como atualmente presenciamos em todas as partes do mundo.

Mas a Lei para o novo Éon é VONTADE, vontade com Amor e Amor sob Vontade; sem ela as energias do 7º Raio (Ritual e Magia) poderão causar novamente grande retrocesso ao progresso da humanidade, como já ocorreu na Atlântida e na Lemúria, daí a coerência do Liber Legis em afirmar: A PALAVRA DA LEI É THELEMA.

Não irei comentar nenhum dos dois textos, porém, é muito importante ter em mente que uma pessoa que entre em contato com a Lei de Thelema por meio de um Comentário do Livro da Lei pode ter sua visão alterada de acordo com a visão daquele que o comentou e é um fato que essa visão pode estar distorcida e, por estar distorcida, ela poderá guiar o leitor para um caminho que não é o caminho da Lei. Portanto, eu acredito que a única pessoa que tinha toda autoridade necessária para comentar o Livro é aquela que o recebeu, isto é, o Sacerdote dos Príncipes, Ankh-f-na-Khonsu (Aleister Crowley), simplesmente porque o seu conteúdo foi arquitetado para o seu entendimento e por este motivo podemos entender que ele detinha a compreensão mínima necessária para a transmissão desta Lei para outras pessoas. Quando digo isto, não digo de forma absoluta, já que outros estudiosos que se focam na mesma fonte de conhecimento do profeta podem sim encontrar outras chaves e outros mistérios que ali estão escondidos e não há como transmitir essas chaves e mistérios sem fazer um mínimo comentário, muitas vezes até mesmo quando escrevemos textos despretensiosos, como este, podemos acabar comentando algo do Livro da Lei, a questão toda está na abordagem e no método adotado no texto que está sendo escrito. A palavra de Lei está no Livro e no Livro está totalidade daquilo que acreditamos, todo o resto é importante, mas ele é o marco zero, o início, o meio e o fim.

Este texto é apenas um primeiro passo em direção do esclarecimento da Interpretação, do Comento e dos Comentários do Livro da Lei, ainda há muito a ser estudado e muitos mistérios do Livro ainda serão revelados, trazendo luz às nossas vidas.

Amor é a lei, amor sob vontade.

© 2016 e.v. - Jonatas Lacerda





Sobre a Interpretação, o Comento e os Comentários do Livro da Lei

Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 11/06/2011 e.v.

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Jonatas Lacerda

Jonatas Lacerda é Thelemita e programador de sistemas para Internet, com ênfase no setor bancário. Fundou o Blog Thelemitas e o Espaço Novo Æon (do qual é o seu o atual editor). Há mais de 13 anos estuda e procura aplicar os princípios da Lei de Thelema em sua vida. Após um encontro com o irmão Euclydes Lacerda de Almeida, focou seu trabalho pessoal na difusão da Lei de Luz, Vida, Amor e de Liberdade: Thelema. A base desse trabalho é o estudo dos princípios filosóficos e da aplicabilidade da Lei de Thelema no contexto individual e na vida em sociedade.

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