Ensaios

Sobre a Liberdade Sexual

por Aleister Crowley em Moralidade Thelêmica, Sexualidade

Sobre a Liberdade Sexual
Filosofia

Sobre a Liberdade Sexual

por Aleister Crowley

I

As secreções corporais, quando suprimidas, se infiltram nos tecidos, envenenando-os. O sêmen acumulado de forma não natural obstrui o cérebro assim como faz a bílis; isso resulta em sintomas mentais e morais patológicos. Sexo é um processo fisiológico; a interferência o deturpa. Sexo não tem implicações morais, exceto no bem estar da raça. As superstições sexuais tornaram o sexo proeminente. A dor de dente tiraniza o pensamento; o nervo parece ser Toda a Realidade. A doença destrói a proporção e a precisão da percepção. Órgãos obstruídos perturbam e desarranjam todo o sistema; o sangue envenenado infecta o cérebro, a mente e todo o corpo, os sentidos instruem erroneamente o espírito, a razão interpreta erroneamente a informação, a vontade emprega mal o poder, e o músculo traduz errado o impulso.

II

Na Abadia de Thelema em Céfalu o sexo é estudado cientificamente sem constrangimento ou subterfúgio. As paixões são analisadas fisiologicamente; todos os atos são permitidos, se não ferirem aos outros; são aprovados, se não ferirem o ser. Esta liberdade, longe de fomentar a luxúria, destrói a obsessão sexual. A febre sexual é mitigada; a imaginação inflamada recupera a sua proporção adequada; a função, livre de conflito, atua automaticamente. Nós nos esquecemos dela assim como um homem quase afogado se esquece do ato de respirar assim que os seus pulmões estão novamente desobstruídos. “A palavra de Pecado é Restrição”. “Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei”.[1]

III

Seres humanos saudáveis que inocentemente obedecem ao instinto não são mais responsáveis por causar problemas do que os outros animais; as calamidades sexuais são criações artificiais de uma superstição selvagem. Cães da raça mastim acorrentados se tornam perigosos; leis repressivas geram revolucionários.

Os hospícios transformaram deficientes mentais inofensivos em maníacos homicidas; a amabilidade e o reconhecimento dos seus direitos superam o desespero do alienado.

Sexo é a canção sagrada da alma; sexo é o santuário do Ser.

Escarneça; o sacerdote se encolhe ou fala com rispidez. Proteste; ele se torna fanático ou ardiloso. Persiga; ele abjura sua fé, é martirizado por ela, ou, o cetro é substituído pela espada, e a reivindica contra o agressor.

Em qualquer caso, a sua concentração íntima é afetada, sua individualidade é invadida; o seu Absoluto é profanado pela sua reação ao Relativo. Sexo é o supremo sacramento, através do qual corpo e sangue são ofertados à alma. Os elementos destes devem ser honrados, sua consagração deve ser absoluta. Eles devem ser completamente consumidos, o Deus na Matéria e Movimento é sacrificado para o sustento do Deus em Espírito e Alma. Esta Eucaristia é inalienável e exclusiva de cada homem; que nenhum homem ouse se aproximar do altar de outro! Quem se atreveria a impor leis para o inescrutável, ou arrogar autoridade sobre um Absoluto alheio? Quem critica o sexo, desconsiderando isto, condenando aquilo, não apenas usurpa o Universo para si mesmo e proclama seus preconceitos polivalentes, mas também abdica da sua própria autonomia ao manifestar seus próprios Mistérios, e implorando aos profanos para que profanem seu sacerdócio ao parodiar a sua Missa, que pode ser para eles nada mais que zombaria, e agora para ele não mais que mentira formal, vendo que ele deu à sua própria Isis um valor menor que sua vaidade, achando que os homens o bajularam ao maculá-la!

Aquele que censura e reprime o caráter sexual do outro não apenas faz de si mesmo a medida do Universo, mas coloca a si mesmo contra inexorável Necessidade, negando a Ordem da Existência, e impedindo os direitos da Realidade; mas também se condena, pois ele é uma das causas do Cosmos, e restringe a si mesmo, pois alterar o curso do outro provocaria uma reação, um contrapeso caindo sobre ele.

Todas as almas existem, eternamente; idênticas na essência, individuais na expressão. Cada uma é igualmente inefável, impenetrável, inacessível. A natureza de cada uma é necessária, portanto todo Destino é também Desígnio, e o seu Modo não mais do que o nome de Vontade. Ninguém pode ser nada mais do que é; se quisesse ser qualquer outra coisa, aquela vontade seria a norma da sua natureza; autocontradição pode ser a sua qualidade adequada, simplesmente como a ideia um número ao quadrado contém aquelas duas raízes iguais de sinais opostos cuja auto multiplicação o produz com propriedade imparcial. Portanto cada alma é absoluta e independente, não menos, porém mais pela sua identidade inerente consigo mesma, está implicitamente envolvida nesta coexistência consubstancial com uma infinidade de pares coordenados. Cada procura interpretar a si mesma, e a ampliar a si mesma (sem prejudicar a sua integridade) ao se imaginar em um meio ilusório – matéria, movimento, e mente. Isto a capacita a adquirir experiência indireta de outras almas, do mesmo modo que nós transmitimos o pensamento (mais ou menos exatamente) ao criar símbolos convencionais para representar as nossas ideias.

Então por que certas ilusões deveriam conflitar com outras, e fazer com que seus criadores sofram? Poder-se-ia supor que estas aparências ilusórias se mesclariam como sombras em um quarto com várias fontes de luz. Porém, nós concebemos expressamente as nossas aparências ilusórias de forma que elas possam fazer contatos definidos; assim, embora A e B sejam arbitrários e não símbolos substanciais para sons sem significado, nós não podemos usá-los indiscriminadamente, como se alguém pudesse escrever Blight[2] ao invés de Alight[3].

Nós sofremos quando as nossas ilusões fazem contatos desarmônicos com outras ilusões, porque nós algumas vezes (muitas vezes!) esquecemos a sua natureza e a nossa própria. Achamos que nós mesmos estamos envolvidos no conflito, embora saibamos que a resolução da luta é o próprio meio através do qual nos tornamos conscientes de nós mesmos e da nossa relação com os outros, o antagonismo aparente sendo não mais que uma oportunidade para ampliar a nossa compreensão do cosmos e da nossa capacidade de contê-lo. O “patriota” protesta contra a palavra “amour”, e sofre a punição da sua ilusão de que a palavra “amor” é a realidade do amor, a única expressão da ideia; o filósofo aceita “amour” como sinônimo, está feliz porque a luta entre os símbolos é uma farsa, e se deleita ao descobrir que “amor” nos seus lábios de Oxonian[4] se fundem em “amour” nos lábios do seu namorada[5] enquanto se beijam à sombra da Sorbonne e percebem a sublimidade da sua Individualidade, e o êxtase de entregar o seu Ser um para o outro, ambos, Dois como Um – regozijando em Autoconhecimento alcançado pelo Mistério da separação em espírito e da manifestação na matéria.

Mas uma alma pode estar tão absorta no seu erro a ponto de achar que a real incompatibilidade é possível. Eles são assim levados a tomar de assalto uma série de ilusões e a buscar evitar a sua projeção.

A natureza sexual de um homem é a sua expressão mais intensa de si mesmo; seu subconsciente se esforça desse modo para informar ao seu consciente sobre a sua Vontade. Portanto o sexo é raramente inteligível para o seu possuidor, salvo em condições muito parciais e ambíguas. Este é sumamente sagrado para ele e interferir na sua expressão, ou tentar omiti-lo, é um crime abominável. Porém é esta sacralidade que faz algumas pessoas pensarem que as suas peculiaridades pessoais são verdades universais. Este erro tem causado mais desastres do que todos os outros combinados; pois o confronto armado é um erro absoluto e é conduzido com insana crueldade por conta do sofrimento atroz infligido até mesmo por feridas insignificantes, que quase sempre mutilam, e raramente matam. A maldição da deformação moral é hereditária, e todo o organismo está infectado pela doença por esta parte, que é a ideia geradora pela qual o caráter do todo é determinado.

Exige-se uma investigação elaborada e esforços infatigáveis para eliminar o erro. A ferida deve ser examinada e completamente limpa antes que possa ser curada. Anestésicos e bálsamos pioram o caso.

Nós não podemos entrar em detalhes aqui sobre tratamento de cura, o qual difere para cada paciente.

Mas o princípio subjacente em tudo está em estabelecer a compreensão sobre a natureza do sexo, se familiarizar com todas as suas formas, e todas igualmente adequadas para a pessoa que as prefere. O paciente está acostumado a analisar o “choque” e então se tornar imune a ele. Ele é ensinado a observar suas próprias reações quanto a várias práticas, a fim de aperfeiçoar sua técnica.

Enquanto a cura se processa ocorre constantemente que várias aberrações do instinto, que se supõe inextirpáveis desaparecem, ou pelo menos perdem a sua importância.

Isso termina em autoconfiança serena e em destruição total do poder de irritação perversa em interromper as funções da mente.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Liber Al vel Legis I:41, I:40. ↵ voltar
  2. Nota do Tradutor: ferrugem – doença das plantas. ↵ voltar
  3. Nota do Tradutor: pousar – verbo. ↵ voltar
  4. Nota do Tradutor: nativo ou habitante de Oxford. ↵ voltar
  5. Uma palavra arcaica para concubina, namorada ou amante. ↵ voltar

© 2017 e.v. - Ordo Templi Orientis





Sobre a Liberdade Sexual

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 15/04/2011 e.v.

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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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