Sobre Thelema
Filosofia

Sobre Thelema

por Aleister Crowley

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

O Universo é a realização e a soma de todas as possibilidades. De fato se pode quase dizer que isto é assim por definição.

Um ser consciente – isto é, um centro de consciência individual, uma Mônada – pode não possuir qualidades em si mesmo. Sua ideia da existência não apenas do Universo mas de si mesmo é  evidentemente dependente e coincidente com aqueles conjuntos de possibilidades que ele próprio experimentou. Aquela parte do Universo que ainda não penetrou a esfera da sua experiência não possui existência para ele. Isto é um novo mundo – um universo esperando pela sua descoberta. Cada ser consciente, portanto, deve se diferenciar de todos os outros em virtude da sua posição no universo; não uma posição em termos de latitude e longitude, nem de tempo e espaço, porém muito mais uma posição de graduação ou estado de consciência, de ponto de vista. Sua identidade, de modo similar, precisa ser necessariamente de pura negação. O valor de qualquer ser é determinado pela quantidade e qualidade daquelas partes do universo que o mesmo descobriu e que, portanto compõe a sua esfera de experiência. Ele cresce ao ampliar essa experiência, ao expandir, por assim dizer, essa esfera. No caso de dois seres que possuam pouca ou nenhuma experiência em comum, uma compreensão mútua e claramente impossível. Portanto, a compaixão é considerada como uma questão de experiência, sendo aproximadamente coincidente ou pelo menos coincidente a respeito de uma grande proporção das experiências às quais um valor especial é atribuído por ambos. O valor real de qualquer experiência nova é determinado pela sua aptidão em aumentar a soma total de conhecimento ou o grau de compreensão e iluminação que esta lança sobre as experiências anteriores.

Então, como regra geral, quanto maior for a soma de experiências coincidentes de dois seres quaisquer, maior será a probabilidade da sua concordância geral. Assim, em um certo ponto no desenvolvimento é muito provável que o ser considere qualquer desacordo com ele como sendo um erro definitivo, e este é um estádio extremamente importante no progresso para se obter uma atitude mental habitual que perceba que qualquer visão divergente sobre uma determinada questão é devido não à dissimulação moral, mas à uma variedade maior de experiências assimiláveis. Tais indivíduos crescem de uma forma muito especial quando aprendem a acatar pontos de vista divergentes e experiências contrárias e buscam assimilá-las como se compreendendo que esta é a melhor maneira possível para adquirir de uma vez só uma imensidade de experiências novas ao invés de ter que passar por elas detalhadamente.

Deve estar claro desde o começo que, a Lei de Thelema “Faze o que tu queres” deve ser uma regra de conduta lógica para todo aquele que aceitar o acima citado, pois a Vontade definitiva de todo ser consciente deve ser a de ampliar a sua experiência geral de modo a compreender e a conhecer a si mesmo, o que ele consegue fazer apenas estudando e compreendendo a totalidade do universo. O fato de a tarefa não ter fim não constitui impedimento para esse processo, porém torna tudo mais interessante. Ele é o caminho do tao. Uma finalidade poderia enfastiar.

Agora então, com relação à explicação da Lei apresentada em alguma parte em O Livro da Lei, “Amor é a lei, amor sob vontade”[1], enquanto a vontade, como acima citada, é de validade lógica e ética absoluta, ela pode ser executada apenas através do processo de assimilação de todos os elementos estranhos; isso é, pelo amor. Recusar a se unir com qualquer fenômeno seja qual for é privar-se do eu valor – mesmo da própria vida, como no caso dos Irmãos Negros, trancados no Abismo, e condenados à desintegração consciente no reino das ideias e experiências desconexas, à “perecer com os cães da Razão”[2]. Esta recusa é promulgada apenas quando se está convencido de que o novo fenômeno é hostil ao conjunto de experiências já adquiridas e tornadas parte de si mesmo. Mas isto é uma séria marca de imperfeição, de falta grave em perceber os fatos na questão, em tomar esta atitude. Mesmo supondo, por um breve momento e meramente por causa do raciocínio, que a nova ideia em consideração é tão incompatível com as experiências já adquiridas e assimiladas que a sua destruição é necessária caso tenha que ser aceita, então um fato se destaca vividamente, mostrando claramente que o antigo conjunto de experiências é tão imperfeito quanto realmente inadequado para continuar a sua existência anterior; sua destruição seria uma vantagem para aquele ser, possibilitando uma reconstrução ao longo de caminhos diferentes – uma reconstrução que se prestaria mais facilmente à aquisição de novas experiências e ideias aparentemente contraditórias.

É desnecessário dizer, naturalmente, que é necessário na prática real fazer uso do seu julgamento na escolha do fenômeno que se propõe a assimilar em seguida. Não se deve necessariamente dar um tiro em si mesmo ou em outro apenas por mera curiosidade. O direito de escolha pertence ao indivíduo. Ao mesmo tempo deve ser lembrado que “A palavra de Pecado é Restrição”[3]. Nenhum outro indivíduo tem qualquer direito de determinar ou restringir a escolha do outro exceto em casos nos quais a experiência de um inclua, para todos os efeitos práticos, a experiência do outro; como no caso dos pais e crianças pequenas. Há muitos outros casos onde o livre arbítrio do indivíduo deve ser restrito na medida em que uma escolha desimpedida possa interferir com a igualdade de direitos dos outros. Mas isso não é de modo algum uma questão abstrata de certo e errado, mas uma questão prática de política.

A frase “amor sem piedade,” às vezes jogada com escárnio nas faces dos Thelemitas, embora não apareça em O Livro da Lei, não obstante possui certa justificativa. Piedade implica em dois erros muito graves – erros que são completamente incompatíveis com as visões do universo resumidamente indicadas acima.

O primeiro erro ali é uma presunção implícita de que algo está errado com o Universo, e que além do mais se está tão insidiosamente obcecado pelo Transe da Tristeza de modo a ter fracassado completamente na tarefa de resolver o enigma da Tristeza, e atravessado a vida com o gemido de um animal ferido – “Tudo é Tristeza”[4]. O segundo erro é ainda maior uma vez que ele envolve o complexo do Ego. Ter piedade por outra pessoa implica que você é superior a ela, e você falha em reconhecer o seu direito absoluto de existir como ela é. Você se afirma superior a ela, um conceito completamente oposto à ética de Thelema—“Todo homem e toda mulher é uma estrela”[5]  e cada ser é uma Alma Soberana. Portanto, um momento de reflexão será suficiente para mostrar o quão completamente absurda é qualquer atitude desse tipo, com referência aos fatos metafísicos subjacentes.

“…pois existe amor e amor. Existe a pomba, e existe a serpente”[6]. Compaixão, obviamente, é o estado de espírito mais correto, pois é um amor sem piedade envolvendo na realidade uma identificação de si mesmo com o outro; isto é, portanto, um ato de amor verdadeiro. “Não existe laço que possa unir o dividido além do amor”[7].

Se nós traduzirmos a palavra grega em latim e dissermos “compaixão” ao invés de “simpatia”, o processo de degeneração da linguagem lhe concede uma falsa conotação. Deve ser lembrado que a palavra grega pathein[8] não significa necessariamente sofrer no mesmo sentido etimológico de sub fero[9], que implica em inferioridade e, portanto piedade. Sobre compaixão, não está escrito “Compaixão é o vício dos reis?”[10].

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Liber AL I:57. ↵ voltar
  2. Liber AL II:27. A A.·. A.·. nos ensina que aqueles Adeptos que não conseguem ou não querem entregar os seus egos no Ordálio do Abismo permanecem lá para se tornarem Irmãos Negros, buscadores equivocados que confundem seus próprios egos com a Divindade. Vide Liber 418 e “Uma Estrela à Vista”. ↵ voltar
  3. Liber AL I:41. ↵ voltar
  4. Dukkhā é a percepção de que tudo que está ligado ao mundo físico conduz à dor e sofrimento. É a “Primeira Nobre Verdade” do Buddha. ↵ voltar
  5. Liber AL I:03. ↵ voltar
  6. Liber AL I:57. ↵ voltar
  7. Liber AL I:41. ↵ voltar
  8. Uma palavra que significa “sofrer, ser afetado”. ↵ voltar
  9. Do latim, sub (“sob”) e fero (“suportar”), isto é, aturar ou estar sujeito a, e a etimologia da palavra inglesa “sofrer”. ↵ voltar
  10. Liber AL II:21. ↵ voltar

© 2016 e.v. - O.T.O. - Ordo Templi Orientis





Sobre Thelema

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Nina Castro
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 20/06/2011 e.v.

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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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