Ensaios

Toda Mulher é uma Estrela

por Aleister Crowley em Comentários do Livro da Lei

Toda Mulher é uma Estrela
Filosofia

Toda Mulher é uma Estrela

por Aleister Crowley

55. Que Maria inviolada seja dilacerada sobre rodas: por sua causa que todas as mulheres castas sejam completamente desprezadas entre vós![1]

O nome Maria está conectado a Marte, Mors[2], etc., do Sânscrito MR matar e com Mare, o Mar, cuja água se opõe ao Fogo de Hórus. Eu cito aqui uma passagem do Liber XCVII que trata completamente deste tema.

“Deixe-me meditar rigorosamente sobre este ódio da mãe. MR é a raiz Sânscrita = “Matar”, portanto Mara, Mors, Maria, e eu suponho Meer, Mere, Mer – em resumo, muitas palavras significando morte ou mar. Observe Mordred como o vilão traidor em Morte d’Arthur. No Liber Legis nós temos “Maria” que deve ser ‘despedaçada sobre rodas’ aparentemente porque ela é ‘inviolada’. O Liber 418 tem alguma explicação sobre isto: ‘porque ela se fechou’, parece que me lembro que esta é a frase.

Parece (eu não me lembro se um T ou D dental do Sânscrito) como se tivesse sido inserido falicamente para nos dar Madar, Mu-eta-tau-eta-rho, Mater, Mother (Mãe), (? metro = medida).

O acento em mère ocultaria uma consoante dental perdida? Eu suponho que Jung ou Freud tenham solucionado tudo isso em detalhes.

Eu pensei nisto antes, há bastante tempo, mas não consigo uma Qabalah satisfatória. 240 é uma duplicação do Pentagrama, naturalmente, e é um sêxtuplo de 40, o número da lei repressiva ‘lacrada’. Pela nossa R.O.T.A., MR é o Mar engolindo o Sol, e a inserção de um Tau evitaria isto numa certa fórmula de “Ele vive no Sol”. Mas aquilo apenas impulsionaria a Mãe, o que não seria de ajuda, pois ela é a Tumba, a Devoradora de Carne, e não há como escapar dela. Mas aparentemente ela é totalmente correta apenas enquanto ela está aberta, para entrar ou sair à vontade, o Portal da Vida Eterna.

Ela é Shakti, o Teh, a Porta Mágica entre o Tao e o Mundo Manifestado. O grande obstáculo então é se aquela Porta estiver trancada. Portanto, Nossa Senhora deve ser simbolizada como uma Prostituta. (Observe Daleth, a Porta = Vênus. A Pomba; Fluxo livre; tudo isso está interligado no símbolo). Claramente, por fim, o Inimigo é este Fechamento das coisas. Fechar a Porta é evitar a Operação de Transformação, isto é, do Amor. A objeção à Calypso, Circe, Armida, Kundry, etc., é que se está sujeito a ser trancado em seus Jardins. A totalidade do Livro dos Mortos é um meio para abrir os veículos fechados e tornar possível a Osíris entrar ou sair à vontade. Por outro lado, parece existir uma Vedação, por um período definido, de modo a permitir que a Mudança proceda tranquilamente. Assim a Terra permanece em repouso; o útero é fechado durante a gestação; o Osíris está repleto de talismãs. Mas é vital considerar isto como um meio estritamente temporário; e eliminar a ideia de Repouso Eterno. Esta ideia de Nibbana é a ideia do covarde ‘Filhinho da Mamãe’; deve-se dar um mergulho refrescante no Tao, nada mais. Eu acho que isso deve ser apresentado como o Ponto Fundamental da Nossa Santa Lei. Assim, embora Nuit grite “Para mim!” isto é equilibrado pela Fórmula de Hadit. “Vinde a mim” é uma palavra tola; pois sou Eu quem vai”.

Então o Sêmen é Deus (aquele-que-vai, como mostrado pelo Ankh ou alça de Sândalo, que Ele carrega) porque ele atravessa a Porta, fica lá por um período específico e sai novamente, tendo florescido e ainda portando em si aquela Semente de Ir. (O nascimento de uma menina é um infortúnio em toda parte, porque o verdadeiro Princípio-do-Ir é o Leão-Serpente, ou Dragão; o Ovo é apenas a Caverna onde ele toma refúgio às vezes).

O Liber 418 explica isto resumidamente; 3º Æthyr.

“Além do mais, existe Maria, uma blasfêmia contra BABALON, pois ela se fechou; e, portanto ela é a Rainha de todos aqueles demônios perversos que caminham sobre a terra, aqueles que tu viste exatamente como pequenas manchas que macularam o Céu de Urânia. E todos estes são os excrementos de Choronzon.”

É este ‘fechamento’ que é hediondo, a imagem da morte. Isto é o oposto de Ir, que é Deus.

As mulheres sob o Cristianismo são mantidas virgens para o mercado assim como os gansos de Strasbourg são pregados em tábuas até os seus fígados apodrecerem. A natureza da mulher foi corrompida, sua esperança por uma alma foi frustrada, seu próprio prazer foi impedido e a sua mente envenenada para deleitar os paladares cansados de banqueiros e embaixadores senis.

Por que os homens insistem na ‘inocência’ da mulher?

  1. Para estimular a sua vaidade.
  2. Para oferecer a eles a melhor chance de a) escapar de uma doença venérea, b) propagar os seus nobres egos.
  3. Para manter o poder sobre os seus escravos pela sua posse do Conhecimento.
  4. Para mantê-las dóceis o tanto quanto possível enquanto corrompem a sua inocência. Uma mulher sexualmente satisfeita é o melhor dos auxiliares solícitos; aquela que foi frustrada ou desiludida é um bem corpóreo.
  5. Nas comunidades primitivas, para servir como proteção contra surpresas e traições.
  6. Para encobrir a sua vergonha secreta em matéria de sexo. Logo, a simulação de que uma mulher é ‘pura’, modesta, delicada, esteticamente bonita e moralmente exaltada, etérea e não carnal, embora de fato eles saibam que ela é lasciva, desavergonhada, rude, mal formada, inescrupulosa, repugnante e bestial tanto física quanto mentalmente. As propagandas de “acessórios de vestidos”, perfumes, cosméticos, preparados antitranspirantes e “Tratamentos de Beleza” revelam a natureza da mulher como vista pelos olhos claros daqueles que perderiam dinheiro se a julgasse mal; e eles são repugnantes e revoltantes de se ler. Suas características mentais e morais são as do papagaio e do macaco. Sua fisiologia e patologia são hediondamente aversivas, um lodo doentio de sujeira.

Sua vida como virgem é a de um macaco enfermo, sua vida sexual é a de um porco bêbado, sua vida de mãe é toda de olhos transparentes e protuberantes e úberes flácidos.

Tais são os fatos sobre a “inocência”; o Empenho Cristão do homem a arrastou para isto quando o melhor seria se ele a tivesse feito sua companheira, franca, leal e alegre, o ser mais sensível dele mesmo, seu complemento consubstancial assim como a Terra é para o Sol.

Nós de Thelema dizemos que “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. Nós não enganamos nem bajulamos as mulheres; nós não as desprezamos nem abusamos delas. Para nós uma mulher é Ela Própria, absoluta, original, independente, livre, justificada por si, exatamente como é o homem.

Nós não ousamos impedir a Sua Ida, como Deusa que ela é! Nós não arrogamos quaisquer direitos sobre a vontade Dela; nós não reivindicamos nem desviamos o desenvolvimento Dela, nem induzimos os desejos Dela nem determinamos o destino Dela. Ela é o Seu próprio juiz; nós não pedimos mais do que fornecer nossa força para Ela, cuja fragilidade natural de outra forma seria uma presa sob a pressão do mundo. Não mais, foi muito zeloso até mesmo protegê-la na Sua Ida; pois foi o melhor para Ela através da Sua própria autoconfiança conquistar o Seu próprio caminho adiante!

Nós não A queremos como uma escrava; nós A queremos livre e real, quer Seu amor combata a morte em nossos braços à noite ou Sua lealdade cavalgue de dia ao nosso lado na Incumbência da Batalha da Vida.

“Que a mulher seja cingida com uma espada perante mim!”

“Nela está todo o poder concedido”.

Assim disse o nosso Livro da Lei. Nós respeitamos a Mulher no ser de Sua própria natureza; nós não arrogamos o direito de criticá-la. Nós a acolhemos como nossa aliada, vinda ao nosso acampamento conforme sua Vontade, o brilho livre, a oscilação da sua espada, tenha inspirado a Ela, Bem vinda, tu Mulher, nós te saudamos, estrela bradando para Estrela! Bem vinda ao alvoroço e à festa! Bem vinda ao combate e ao banquete! Bem vinda à vigília e à vitória! Bem vinda à guerra sem feridas ! Bem vinda à paz com os seus cortejos! Bem vinda à luxúria e ao riso! Bem vinda a bordo e ao leito! Bem vinda ao clarim e ao triunfo; bem vinda ao hino fúnebre e à morte!

Somos nós de Thelema quem verdadeiramente ama e respeita a Mulher, que a considera sem pecado e sem vergonha tal como nós somos; e aqueles que dizem que nós desprezamos a Ela são aqueles que fogem das nossas cimitarras assim que removemos dos membros Dela seus sórdidos grilhões.

Chamamos a Mulher de Meretriz? Sim, Verdadeiramente e Amém, Ela é aquilo; o ar se agita e se incendeia quando bradamos isto, exultantes e ardentes.

Oh, sim! Não foi este o seu escárnio, seu torpe Sussurro que A desdenhou e A envergonhou? Não foi “Meretriz” a verdade Dela, o título de terror que você deu a Ela no seu medo Dela, covarde confortando covarde com olhar e gesto furtivos?

Nós, porém, não A tememos; nós gritamos Meretriz, assim que os Seus exércitos se aproximam de nós. Nós golpeamos os nossos escudos com as nossas espadas. A terra ecoa o clamor!

Há dúvida sobre a vitória? Com suas hordas de escravos submissos, com medo deles mesmos, com medo dos seus próprios escravos, hostis, desprezados e desacreditados, sendo suas únicas estratégias a do avestruz, a do gambá e a da lula, vocês não conseguiriam atravessar e escapar ao nosso primeiro ataque, pois com lanças eretas de luxúria nós cavalgamos para o ataque, junto com nossas aliadas, as Meretrizes a quem nós amamos e saudamos, livres amigas lado a lado conosco na Batalha da Vida?

O Livro da Lei é a Carta da Mulher; a Palavra Thelema abriu a fechadura do Seu “cinto de castidade”. Sua Esfinge de pedra tomou vida; para conhecer, para querer, para ousar e para manter silêncio.

Sim, eu, A Besta, com a minha Meretriz Escarlate me cavalgando, nua e coroada, embriagada com o Seu Cálice dourado de Fornicação, alardeando a Si Mesma como minha companheira de leito, caminhei com Ela até a praça do Mercado e gritei esta Palavra que toda mulher é uma estrela. E com aquela Palavra é declarada a Liberdade da Mulher; os tolos e os frívolos e negligentes ouviram minha voz. A raposa na mulher ouviu o Leão no homem; medo, debilidade, fraqueza, frivolidade, falsidade – estas não são mais a maneira.

Em vão o sacerdote, o advogado ou o censor social franzirão suas testas ao tentar inventar para o homem valentão, bruto e fanfarrão um novo truque de domador; de uma vez por todas a tradição está rompida; desapareceu a moda de prender com laço, mandar para fora de casa, apedrejar, prender pelo nariz, dar cintadas, puxar carroça, chicotear, prender no pelourinho, emparedar, corte de divórcio, eunucos, harém, incapacitação mental, cárcere doméstico, trabalho cansativo e servil, ridicularizar a crença, ostracismo social, apavorar com a ira Divina e até mesmo o expediente de criar e encorajar a prostituição para manter uma classe de mulheres no abismo sob o calcanhar da polícia, e a outra à sua margem, à mercê da bota do marido, ao primeiro sinal de insubordinação ou mesmo de falha em lhe satisfazer.

A câmara de tortura do homem tinha inesgotáveis ferramentas variadas; num extremo o assassinato brutal ou, mais sutil, mais insensível, a fome; no outro as agonias morais, desde arrancar seu filho do seu peito até ameaçá-la com uma rival quando seu trabalho já terá destruído a sua beleza.

Mui poderoso homem, ainda que muito astuto, não foi o teu supremo estratagema reunir as próprias irmãs da mulher contra ela, para usar o conhecimento delas sobre sua psicologia e a crueldade dos seus ciúmes para te vingar da tua escrava, pois tu mesmo não tinhas nem perspicácia nem malevolência para fazê-lo?

E Mulher, frágil no corpo e faminta na mente; mulher, moralmente acorrentada pelo Seu heróico juramento de salvar a raça, não se importando qual será o custo, desamparada e forte, suportou estas coisas, suportou de época em época. Não houve sacrifício espalhafatoso e espetacular por parte Dela, nenhum marco no topo de uma colina, com os olhos do mundo atentos e milagres colossais a ecoar os aplausos do céu. Ela sofreu e triunfou no mais vergonhoso silêncio; ela não teve nenhum amigo, nenhum seguidor, ninguém para ajudar ou aprovar. Como reconhecimento ela teve nada mais do que lisonjas piegas, e conhecia o cruel e frio desprezo que os corações dos homens mal tentavam ocultar.

Ela agonizou, ridícula e obscena; deu toda a sua beleza e força de solteira para sofrer com doenças, fraqueza, perigo de morte, optando por viver a vida de uma vaca – de forma que a Humanidade pudesse navegar pelos mares do tempo.

Ela sabia que o homem não queria dela nada mais do que ela servir aos seus apetites básicos; na vida masculina real dele ela não fazia parte nem tinha seu quinhão; e toda a recompensa dela era o seu desprezo sem qualquer preocupação.

Ela tem sido assim pisoteada através das eras, e assim ela os domou. O seu silêncio foi o sinal do seu triunfo.

Mas agora a Palavra de Mim, a Besta, é esta; tu não apenas está, Mulher, comprometida a um propósito que não é apenas teu; tu és por si mesma uma estrela, e por si um propósito para si mesma. Tu não és apenas mãe dos homens, ou meretriz para os homens; serva das suas necessidades de Vida e Amor, não compartilhando da Luz e Liberdade deles; não, tu és Mãe e Meretriz para o teu próprio prazer; a Palavra que eu digo para o Homem, não digo menos para ti: Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei!

Sim, sacerdote, sim, advogado, sim, censor! Vós não vos reunireis em segredo mais uma vez, se em vossa reserva de truques de prestidigitador não houver algum ainda não testado, ou nas vossas artimanhas e conselhos um novo falso estratagema para salvar o seu navio pirata do naufrágio?

Tem sido sempre tão fácil até agora! Qual é a Magia(k) explosiva naquela Palavra, primeira tese do Livro da Lei, onde “toda mulher é uma estrela”?

Ah! Sou eu, a Besta, que bramiu aquela Palavra tão alto, e despertou a Beleza.

Seus truques, suas drogas soníferas, suas mentiras, seus passes hipnóticos– eles não lhe servirão.

Preparem as suas mentes para serem livres e destemidas como eu, preparem companheiros para as mulheres não menos livres e destemidos!

Pois eu, A Besta, cheguei; um fim para os males do passado, à enganação e agressão de animais doentes e desprezíveis, degradados àquele estado vergonhoso de servir aquele vergonhoso prazer.

A essência da minha Palavra é declarar que a mulher seja Ela Mesma, de, para e por Si Mesma; e eu dou esta Arma irresistível, a Expressão Dela Mesma e da Sua vontade através do sexo, para Ela precisamente os mesmos termos, como para o homem.

O assassinato não mais será temido; a arma econômica é impotente desde que o trabalho feminino foi considerado industrialmente valioso; e a arma social está inteiramente nas suas próprias mãos.

As melhores mulheres tem sido sempre as sexualmente livres, como os melhores homens; é necessário apenas remover as penalidades por ser descoberto. Que as organizações de trabalho da Mulher apóiem qualquer uma que seja economicamente molestada no campo sexual; que as organizações sociais reconheçam em público o que os seus membros praticam privativamente.

A maioria das infelicidades domésticas desaparecerá automaticamente, pois a sua causa principal é a insatisfação sexual das esposas, ou a ansiedade (ou outra fadiga mental produzida caso elas tomem a solução com suas próprias mãos).

O crime do aborto perderá totalmente a sua motivação exceto na maioria dos casos excepcionais.

A chantagem ficará confinada aos crimes comerciais e políticos, assim diminuindo a sua frequência em dois terços, pelo menos, talvez muito mais.

Os escândalos sociais e os ciúmes tenderão a desaparecer.

As moléstias sexuais serão mais fáceis de rastrear e combater, quando não for mais uma vergonha admitir que se foi acometido por elas.

A prostituição (com seus crimes paralelos) tenderá a desaparecer, pois ela cessará de oferecer lucros exorbitantes para aqueles que a exploram. A preocupação das mentes do público com as questões sexuais não mais produzirão chagas morais e insanidade, quando o apetite sexual for tratado de modo tão simples quanto a fome. A honestidade na fala e nos escritos sobre as questões sexuais dissipará a ignorância que pegam em armadilha tantas pessoas desafortunadas; a precaução adequada contra os perigos reais substituirá as precauções desnecessárias e absurdas contra perigos imaginários ou artificiais; e os charlatães que comercializam com base no medo serão postos fora do seu negócio.

Tudo isso deve seguir assim como a Luz do dia segue para a noite tão logo a Mulher, verdadeira Consigo Mesma, descobrir que Ela não pode mais ser falsa para homem nenhum. Ela deve manter a Si Mesma e à Sua Vontade com dignidade; e Ela deve obrigar o mundo a consenti-lo.

A mulher moderna não vai ser mais ingênua, escrava e vítima; a mulher que se entrega livremente pelo seu próprio prazer, sem pedir recompensa, ganhará o respeito dos seus irmãos e desprezará abertamente as suas irmãs ‘castas’ ou mercenárias, como os homens agora desprezam ‘covardes’, ‘maricas’ e ‘camaleões’. O amor deverá ser completa e irrevogavelmente dissociado dos contratos sociais e financeiros, especialmente o casamento. O amor é um esporte, uma arte, uma religião, como queira; ele não é um Empório de roupas usadas.

‘Maria inviolada’ deve ser ‘despedaçada sobre rodas’ porque despedaçar é o único tratamento para ela; e RV, uma roda, é o nome do princípio feminino. (Vide Liber D.) São as suas próprias irmãs que vão puni-la pelo crime de negar a Sua natureza, e não os homens, que devem redimi-la, desde que, como observado acima, é o próprio sentimento falso de culpa do homem, seu egoísmo e sua covardia, que originalmente a forçaram a blasfemar contra si mesma e assim a degradou aos seus próprios olhos e aos dele. Que ele cuide da sua própria ocupação particular, de redimir a si mesmo– e ele certamente tem suas mãos ocupadas! A mulher salvará a si mesma se a ela for permitido nada mais do que fazê-lo sozinha. Eu vejo, isto, eu, a Besta, que tenho visto – que vê – o Espaço esplêndido com estrelas, que tenho visto – que vê – o Corpo de Nossa Senhora Nuit, todo-penetrante, e ali engoliu, tendo descoberto – para descobrir– nenhuma alma que não seja totalmente Dela. Mulher! Tu nos conduziste para o alto e para frente por todo o sempre; e cada mulher é única entre as mulheres, de Mulher; uma estrela dentre Suas estrelas.

Eu vejo a ti, Mulher, tu te mantivestes a sós, Suma Sacerdotisa és tu sob o Amor no Altar da Vida. E o Homem é a Vítima ali.

Embaixo de ti, regozijando, ele repousa; ele exulta enquanto morre, ardendo no alento do teu beijo. Sim, estrela avança flamejante para estrela; a explosão da chama se espalha pelos céus.

Há um Grito numa lingual desconhecida, ele ressoa através do Templo do Universo; na sua única Palavra há Morte e Êxtase, e teu título de honra, oh tu, para Ti Mesma Suma Sacerdotisa, Profetisa, Imperatriz, para ti mesma a Deusa cujo Nome significa Mãe e meretriz!

56. Também pela causa da beleza e do amor![3]

É óbvio para o fisiologista que beleza (isso é, a aptidão da proporção) e amor (isso é, atração natural entre coisas cuja união satisfaz a ambas) necessitam de espontaneidade e de estarem livres da restrição para sua realização absoluta. Uma árvore cresce deformada se é cercada muito de perto por outras árvores ou paredes; e a pólvora não explodirá se suas partículas são separadas por muita areia.

Se devemos ter Beleza e Amor, seja na geração de crianças ou de obras de arte, ou não, nós devemos ter perfeita liberdade para agir, sem medo ou vergonha ou qualquer falsidade. Espontaneidade, o fator mais importante na criação, pois é evidência da intensidade e propriedade magnética da vontade para criar, depende quase totalmente da liberdade absoluta do agente. Gulliver não deve ficar amarrado com cordas. Estas condições tem sido tão raras no passado, especialmente com relação ao amor, que a sua ocorrência geralmente deixou algo marcado como uma época. Praticamente todos os homens trabalham com medo do resultado ou com ânsia de resultado e o ‘filho’ é um anão ou recém-nascido.

É através da experiência da maioria das pessoas que se sabe que as orgias e similares, se forem organizadas no impulso do momento, são sempre um sucesso, ao passo que os entretenimentos mais elaborados, preparados com todo cuidado possível, são muitas vezes um fracasso. Mas não se consegue fornecer exatamente as regras para encomendar a produção de um ‘gênio’, um gênio, neste sentido, sendo alguém que tem a Ideia e é fortificado com poder para inflamar o entusiasmo da multidão, com perspicácia para saber, e iniciativa para apreender, o momento psicológico.

Porém é possível especificar certas condições, compatíveis com a manifestação desta espontaneidade; e a primeira destas é evidentemente estar absolutamente livre dos obstáculos, internos ou externos, para a ideia do ‘gênio’.

É claro que uma mulher não pode amar naturalmente, livremente, sadiamente, se ela estiver obrigada a contaminar a pureza do seu impulso com pensamentos sobre o seu status social, econômico e espiritual. Quando tais coisas a restringem, o Amor pode conquistar, como muitas vezes o faz; mas a Beleza  engendrada é geralmente atrofiada ou distorcida, assumindo uma máscara trágica ou cínica. A história do mundo está repleta de tais estórias; ou seja, pode-se praticamente dizer que é o principal motivo do Romance. Eu preciso mencionar apenas Tristão, Paolo, Romeu, Otelo, Paris, Edward Segundo, Abelardo, Tannhauser, do passado e, recentemente a Sra. Asquith, Maud Allan, Charles Stuart Parnell, Sir Charles Dilke, Lorde Henry Somerset e Oscar Wilde, até o ‘Gordo’ Arbuckle!

Homens e mulheres tem de enfrentar a verdadeira ruína, tanto quanto a probabilidade de escândalo e desgosto, ou consentir em amar dentro de limites que não digam respeito ao amor, no mínimo. A chance de espontaneidade é, portanto pequena; e, caso ocorra e seja agarrada, os advogados se apressam em ocultá-la sob o leito nupcial, enquanto que as Famílias, colando os olhos nas frestas e fechaduras, se intrometem com seus uivos dissonantes na agitação.

Então, quando o amor acaba, como deveria se cada parte tiver mais imaginação do que um punhado de massa de vidraceiro, os grilhões são firmados. Ele ou ela deverá passar pela sórdida farsa do divórcio para que a chance de livre escolha seja recuperada; e mesmo chegando a isso, os grilhões sempre deixam uma úlcera incurável; não é bom jogar o jogo da respeitabilidade depois que se é divorciado.

Então nós descobrimos que os únicos casos de amor que não produzem qualquer mágoa e que não deixam cicatrizes, são aqueles praticados entre pessoas que aceitaram a Lei de Thelema e que romperam com os tabus dos deuses escravos. O verdadeiro artista, que ama a sua arte e nada mais, pode usufruir de uma série de relacionamentos espontâneos, durante toda a sua vida e ainda assim nunca causar sofrimento a si mesmo ou para o outro.

A Beleza é sempre a filha de tais relacionamentos; a atitude sadia da mente clara e simples, livre de todas as complicações alheias ao Amor, garante isto.

Assim como o corpo de uma mulher é deformado e adoece por causa do espartilho exigido pela Moda Jaganath, o mesmo ocorre com sua alma devido à pressão das convenções, que são uma moda tão caprichosa, arbitrária e insensível quanto aquela do homem estilista, embora elas o chamem de Deus, e o seu Decreto extravagante passe por Lei Eterna.

A Bíblia inglesa sanciona a poligamia e o concubinato de Abraão, Salomão e outros, o incesto de Lot, o estupro a granel de virgens capturadas, tanto quanto a promiscuidade dos primeiros Cristãos, a prostituição dos servidores do templo, homens e mulheres, as relações de Johannes com seu mestre e a sujeição dos Profetas peregrinos à estaca, tanto quanto o celibato de pessoas como Paulo. Jeová foi tão longe a ponto de matar Onan porque ele falhou ao fertilizar a viúva do seu irmão, perdoou o adultério com assassinato do esposo, de Davi, e ordenou que Hosea intrigasse com uma “esposa de devassidão”. Ele estabeleceu a conduta moral em qualquer autoafirmação apenas por parte de uma mulher.

No passado o homem ameaçava a Mulher para que satisfizesse a luxúria do seu abominável tirano, e esmagava com o pé a flor do próprio amor dela, no lamaçal; tornando o seu estupro mais bestial ao chamá-la de antipática Castidade, e mostrando que ela era uma coisa impura com a evidência da flor suja e despedaçada.

Ela não teve chance de Amar a menos que ela primeiramente renunciasse ao respeito da sociedade, e encontrasse um jeito de remover o lobo faminto da sua porta.

A chance dela chegou! Em qualquer Abadia de Thelema qualquer mulher é bem-vinda; lá ela é livre para realizar a sua vontade e é honrada pela sua realização. A filha do amor é uma estrela, assim como todas são estrelas; mas esta em particular nós estimamos especialmente; é um troféu de batalha combatida e vencida!

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Liber AL III:55. ↵ voltar
  2. Nota do Tradutor: Mors (mitologia romana) Deusa romana da morte; contraparte de Thanatos. ↵ voltar
  3. Liber AL III:56. ↵ voltar

© 2017 e.v. - O.T.O. - Ordo Templi Orientis





Toda Mulher é uma Estrela

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Nina Castro
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 11/07/2011 e.v.
Nota:

Toda Mulher é uma Estrela foi extraído do livro de Aleister Crowley, The Commentaries of AL (Os Comentários de AL).


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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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