Ensaios

Um é pouco, dois é bom, três é demais

por Frater Keron-ε em Iniciação

Um é pouco, dois é bom, três é demais
Metodologia

Um é pouco, dois é bom, três é demais

por Frater Keron-ε

Guru-Shishya Paramparā

Guru-Shishya Paramparā

Agora estou confuso quanto ao meu dever e perdi toda a compostura devido à torpe fraqueza. Nesta condição, estou Te pedindo que me digas com certeza o que é melhor para mim. Agora sou Teu discípulo e uma alma rendida a Ti. Por favor, instrui-me.

Tendo falado essas palavras, Arjuna, o castigador dos inimigos, disse a Krishna, Govinda, ‘não lutarei’, e ficou calado.

Bhagavad-Gita

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Muitos dos que me procuram na A∴A∴ perguntam sobre atividades em grupo, apesar da conhecida natureza individual da Ordem. Para o espanto desses, eu digo que não existem. E mais, que elas são desnecessárias para a evolução espiritual na A∴A∴; e vou mais além: são dispensáveis em quaisquer religiões aos que visam a Iniciação.

A Grande Obra é um processo de introversão onde buscamos internamente D’us sendo, paradoxalmente, a melhor forma de se harmonizar com o mundo exterior. É a clássica relação Microcosmo-Macrocosmo e na alquimia transformar o chumbo em ouro – que consistia em retirar o ouro já existente no interior de outros metais menos nobres. Na maioria dos sistemas iniciáticos o processo acontece sob a orientação de alguém mais experiente que, tendo vivenciado antes, pode contribuir com eficiência tanto acelerando o processo quanto ajudando em momentos críticos. A base para Crowley na A∴Afoi a tradição hindu guru-shishya paramparā que, no final das contas, é a velha relação professor-aluno. Em Liber LXI[1] ele afirma: “Embora ninguém possa comunicar o conhecimento ou o poder para realizar isto que nós podemos chamar a Grande Obra é, todavia, possível que os iniciados guiem outros.[2].

Mestre Therion fazendo o Sinal do Silêncio

Mestre Therion, Sinal do Silêncio

A razão pela qual funciona melhor dessa forma é a mais simples possível: quanto menos ruídos externos mais torna-se audível a Voz do Silêncio. É tradição que o mundo externo, repleto de descompassos (padrões sociais, disputas de ego, busca pela fortuna minor) encobre as palavras de Adonai ao iniciante. Não é à toa que existe a figura de Harpócrates, o deus do silêncio, para reforçar essa ideia. E não pode esquecer-se de uma determinação em Liber LXI: “Qualquer um que conheça algum membro dessa Ordem como tal, jamais poderá conhecer outro, até que também tenha atingido a Maestria[3]. Isso não foi colocado em vão. Não ignoro que, na prática, vários membros se conhecem, pois somos poucos e muitos tiveram a mesma origem só que a interferência no trabalho do outro é evitada – claro que falo por mim e pelos que instruo. Porém, mais do que basear o meu raciocínio nas palavras de outrem, a minha experiência, tanto em ordens grupais quando na A∴A∴, me faz concordar com essa passagem e perceber a sua utilidade como ficará claro em seguida. Mas e os movimentos grupais? Qual a utilidade?

O homem não vive isolado, o grupo é característica antropológica marcante, pois favorece a defesa, transmissão de conhecimento e a reprodução. Nesse contexto as religiões[4] são excelentes agregadores de pessoas tendo tais efeitos passados de geração a geração. Temos o exemplo do Judaísmo, onde um povo, ao longo de séculos de dominação por diversos impérios, perdeu a escrita, o território, mas manteve-se unido na sua identidade até os dias de hoje. As grandes religiões carregam em sua origem ecos iniciáticos, resquícios do contato com algo divino, mas isso se perde ao generalizar a abordagem, por isso delas possuírem os seus braços místicos: o Cristianismo a Gnosis e os métodos monásticos, o Judaísmo a Cabala e o Islã o Sufismo, sempre instrutor-discípulo. Algumas tentam não separar o misticismo da abordagem grupal como o Budismo, mas o processo em si é sempre individual seja no Zen ou na sua manifestação sacerdotal tibetana. Mas, por querer atingir um número grande e diverso de pessoas, o foco iniciático se pulveriza sendo trabalhado apenas os baixos manas, mais especificamente, o kama-rupa (ou corpo de desejos). O que acontece em grandes grupos assim são estímulos emocionais na forma de sensação de pertencimento social, senso de propósito em lutar por uma causa[5], consolo por promessa de vida pós-morte. Dependendo da natureza dos trabalhos algumas práticas podem levar a resultados de fundo iniciático, mas de natureza superficial que precisam ser refinadas, como ressurgências atávicas – que já vi acontecer até na velha “brincadeira do copo”.

Em relação à obra de Aleister Crowley, o seu lado místico é a AA e o seu lado social são as ordens baseadas no sistema O.T.O.. Este método, em seu início, teve uma abordagem teoricamente iniciática nos planos de 666, mas não foi para frente até mesmo devido a sua origem confusa onde ninguém, nem após a reformulação de Crowley, galgou todas as etapas chegando ao último estágio dito exaltado. Houve relações com a kundalini e os chakras, mas não passou de um modelo teórico. Ela também padecia do mal em ter como um dos pontos altos o descobrimento de um segredo que, hoje em dia, já não pode ser mais chamado assim[6]. A vocação desse tipo de grupo estava em se tornar uma espécie de maçonaria thelêmica, visando atividades externas, além de garantir o bem estar dos seus membros no plano de discos. Ordens nesse estilo normalmente necessitam de recursos financeiros para existirem e isso leva a necessidade de manter pessoas agremiadas onde, não raro, apela-se para títulos pomposos, medalhas, graus e outras bajulações ou privilegiando algumas em detrimento de outras em prol dos recursos que ela possa trazer. Para perdurarem deve haver uma organização eficiente, lidando com aspectos administrativos que envolvem energia de várias pessoas no trabalho ao sabor das complexidades das relações humanas, caso contrário, o grupo se desfará. A Santa Ordem não pode ser destruída, pois os conflitos inerentes a uma sociedade não existem nela – numa relação paramparā[7] isso não acontece; o sistema independe da existência de um grupo de pessoas trabalhando em prol dela; ela não se encontra no plano de discos suscetível as suas variações. Ela não possuí segredos ou mistérios que a desmantelarão se descobertos – o mistério reside na Iniciação de cada pessoa. O único meio de atingi-la seria ninguém mais utilizar o seu método. Crowley entendia bem a diferença entre ambas as ordens e por isso nunca suprimiu a AA em função da O.T.O..[8]

Particularmente eu acredito que este modelo de ordens thelêmicas ao estilo maçônico está ultrapassado, se é que foi válido um dia – existe uma contradição inerente aos que trabalham com Liber AL através dessa abordagem: “Aqueles que discutem o conteúdo deste Livro deverão ser evitados por todos como centros de pestilência.[9]; seus belos títulos não servem para nada fora adular o ego; já os acho sem propósito na AA imagine nessas ordens? Mais valem pequenos grupos distintos (ou células) garantindo a transmissão de conhecimentos técnicos e moral thelêmica, divulgação da Lei de Thelema e da própria AA do que uma ordem estruturada prometendo a Experiência Espiritual que não tem condição de fornecer. Claro que esses grupos independentes têm as suas desvantagens, muitas semelhantes das ordens maiores por existir seres humanos no meio, mas os prós são maiores do que os contras. De qualquer forma toda experiência é válida, mesmo as ruins, afinal para o Iniciado, todo o mundo é utilizado como instrumento, porém a orientação efetiva via grupo não funciona.

O modelo paramparā é o ideal e não pode ser relaxado; não adianta velar vícios com palavras virtuosas atribuindo necessidades como “luta pela causa”, “unir thelemitas” para criar grupos em nome da AA. O trabalho é melhor executado a dois. A relação com o Instrutor tem grande força por causa do Voto da Santa Obediência, uma grande barreira contra a ação do ego[10], funcionando como uma preparação para sintonizar a voz de Adonai deixando de lado a estática dos planos menos elevados. No final das contas todo o processo de orientação pelo guru envolve fazer com que o shisva caminhe pelas próprias pernas e possa interpretar o Universo sozinho; Liber AL traduz isso com perfeição quando afirma que “Todas as questões da Lei devem ser decididas apenas com base em meus escritos, cada qual por si mesmo.”.[11] Como dizemos no meio thelêmico: quando o discípulo está pronto o mestre desaparece.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Liber LXI vel Causæ. ↵ voltar
  2. Iniciação não é absorção de conhecimento, isso pode ser feito sozinho. Outra pessoa auxilia em suas reações na Caminhada mostrando onde tropeçamos, coisa que raramente vemos. ↵ voltar
  3. Mas como tudo tem uma exceção, 666 escreveu Liber XXVIII, A Cerimônia dos Sete Reis Santos, como auxílio a certos Probacionistas. Isso ecoa os anos iniciais da A∴A∴ que era uma nova versão da Golden Dawn ainda guardando resquícios da abordagem grupal apesar de não ser uma atividade social; por isso da Ordem conter títulos maçônicos sendo um contrassenso ao seu trabalho individual. ↵ voltar
  4. “Religião” aqui é usada em um sentido elástico como todo culto relacionado a seres superiores. ↵ voltar
  5. Na A∴A∴ não existe qualquer causa externa, apenas a pessoal, não existe obrigação em divulgar a Lei – a leitura de Liber AL é indicada apenas no grau de Zelator da mesma forma que outros livros ao longo da Jornada. ↵ voltar
  6. O “Mistério é inimigo da verdade” ficou apenas na A∴A∴. Mas sendo condescendente com 666, diria que é sim inimigo da verdade, mas isso não quer dizer que a resposta deva ser dada de mão beijada. ↵ voltar
  7. Desavenças podem existir, pois ainda são seres diferentes interagindo e o ego sempre apronta das suas, por isso que faço questão de manter uma “distância profissional”. Muitos já chegaram nos primeiros contatos me considerando um amigo coisa que rechaço imediatamente colocando a perspectiva adequada. Em ordens de grupo tal atitude é impensável, pois o objetivo é fazer com que o indivíduo permaneça nela. Na A∴A∴ isso está fora de questão, como dito num conhecido filme: “Os senhores chegaram até aqui pelas suas próprias pernas, ninguém, absolutamente ninguém os convidou.”. ↵ voltar
  8. Mas tentou misturar os conceitos na Ordem dos Thelemitas que nunca saiu do papel pelas razões apresentadas aqui. ↵ voltar
  9. Those who discuss the contents of this Book are to be shunned by all, as centres of pestilence.”. – Liber AL vel Legis, O Livro da Lei: O Comento. ↵ voltar
  10. Não que a possibilidade de seguir sozinho inexista, pensar deste modo seria Restrição; a pessoa teria que possuir uma pré-disposição nata para a tarefa sabendo explorar profundamente a própria natureza, sem enganar a si mesma. Muitos não aceitam submeter-se a outra pessoa forjando uma falsa imagem de criatura especial. Mas citaria como exemplo de um que conseguiu, o médico Carl Jung, pois, em cima das suas próprias neuroses (e de terceiros), galgou os degraus da Iniciação em grande parte sozinho – pois contou com um treinamento preliminar de Freud. Próximo a nossa realidade destacaria a Umbanda, onde o indivíduo deve se relacionar por si só com suas entidades guia sendo as responsáveis pelas barreiras contra o ego, exigindo do “cavalo” um aperfeiçoamento constante – mas ele não deixa de contar com uma ajuda do Babalorixá. ↵ voltar
  11. All questions of the Law are to be decided only by appeal to my writings, each for himself.Liber AL vel Legis, O Livro da Lei: O Comento. ↵ voltar

© 2017 e.v. - Frater Keron-ε





Um é pouco, dois é bom, três é demais

Revisão: Frater Keron-ε e Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.1 – 22/05/2012 e.v.

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Frater Keron-ε

Frater Keron-ε conheceu Thelema nos anos 90 juntando-se a A∴A∴ no ramo de Frater Thor. O seu trabalho externo é o site www.astrumargentum.org.

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