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Um Memorando a Respeito do Livro da Lei

por Aleister Crowley em Lei de Thelema, O Livro da Lei

Um Memorando a Respeito do Livro da Lei
Filosofia

Um Memorando a Respeito do Livro da Lei

por Aleister Crowley

Quase todos os versos d’O Livro da Lei contém abundantes verdades matemáticas e filosóficas veladas em inglês aparentemente padrão, sendo que seu inglês tem, não obstante, o seu significado normal. Você terá notado que o estilo do Livro é na maior parte espantosamente sublime, e a maravilha inefável a respeito de tudo isso é por eu o ter escrito a partir do ditado de uma voz cujo dono eu não conseguia ver, exatamente uma hora para cada capítulo, em três dias consecutivos. É, portanto, muito certo que o autor seja alguém em posse de conhecimento e genialidade totalmente além da minha capacidade. Realmente, me sinto seguro em dizer que está além da capacidade de qualquer ser humano imaginável. A propósito, existem passagens no Livro que confundiram a análise crítica até que certos eventos, que estavam inteiramente fora do meu controle, se realizaram anos após tê-lo escrito, os quais ainda assim forneceram provas claras de que o Autor do Livro sabia o que iria acontecer ou era capaz de fazer com que os eventos se passassem.

Posso lhe dar um exemplo muito estranho?[1] Eu estudei o Livro todos estes dezoito anos. O Verso 19 do Capítulo III me intrigou totalmente. Como eu poderia “contar bem” o nome da Estela; ela nunca teve um nome! Mas eu brinquei com os números e de repente me ocorreu que 718 era o valor do nome “Estela 666”. “É isso”, eu disse para mim mesmo. “Num certo sentido a Estela é a minha Estela”. Mas eu não estava muito satisfeito, e então aquilo veio sobre mim como um terremoto, que afinal de contas, a Estela realmente possui um nome, sua descrição no catálogo do Museu em Bulaq – aquele nome, o único nome que ela teve, era realmente Estela 666.

Com relação ao controle de eventos externos, deixe-me lhe contar um incidente extraordinário. Em novembro de 1917, foi publicada a conclusão do meu artigo em The International, “O Renascer da Magia(k)”[2]. Ele desafiava os leitores a descobrir a quem era referido como 666 (meu Mote Mágico ΤΟ ΜΕΓΑ ΘΗΡΙΟΝ[3] soma 666). Uma noite de Janeiro, eu pedi a uma Inteligência[4] com a qual eu estava em contato, se eu poderia soletrar o meu mote em Hebraico de modo a obter novos números que pudessem lançar alguma luz sobre o assunto. Ela respondeu, “Sim”. Eu perguntei, “Todas as três palavras do nome ou apenas a última?” Ela disse, “Apenas a última”. Então eu tentei todas as possibilidades de soletração de Therion e não tive resultados. Aquilo foi numa noite de sábado. Eu fui para o escritório numa “Segunda-feira Sem Expediente” para verificar a minha correspondência. Nada ali. Porém na terça-feira Viereck[5] encaminhou uma carta endereçada à ele, a qual chegou na segunda-feira, tendo sido escrita na noite de sábado mais ou menos na hora na qual eu tinha feito a minha consulta. O autor do texto era totalmente desconhecido de todos nós. Ele pediu a Viereck para me contar que ele tinha resolvido o enigma no meu artigo de novembro e forneceu a soletração de Therion em Hebraico chegando ao valor 666. Isto foi espantoso o suficiente; porém muito mais estava por vir. O estranho assinava seu nome como Samuel bar Aiwaz bie Yackou de Sherabad, do que eu deduzi que o nome do seu pai era Aiwaz[6]. Este nome me foi dado como sendo do Autor d’O Livro da Lei; vide Capítulo I, Verso 7. Eu simplesmente ouvi o nome, o qual eu supunha que fosse um nome composto como Tzadquiel ou Taphthartharath[7]; Eu não tinha a menor ideia de que este era um nome humano normal. Eu tentei soletrá-lo e o transformei em 78. Agora, contudo, eu escrevi ao Amigo Samuel solicitando a soletração correta, a qual ele forneceu. Fiquei surpreso ao descobrir que o valor era 93, tal como o de Θελημα[8], a palavra da Lei, e Αγαπη[9], o método de executar aquela Lei. Portanto o Autor do Livro tinha, por assim dizer, assinado o mesmo, identificando-se infalivelmente através deste número com a essência da mensagem que ele veio transmitir.

Estes dois incidentes são simples amostras selecionadas dentre um número imenso. Eu espero me reunir este mês com um Catedrático de matemática[10] de modo que possamos reunir, classificar e esclarecer as inúmeras evidências de que este livro é de origem supra-humana. Você finalmente compreenderá porque eu o considero incomparavelmente o mais importante documento humano existente. Você me desculpará, de fato, se eu pareço um tanto insano sobre este assunto; mas realmente, dificilmente se passa um momento sem a descoberta de algum segredo novo e importante nas suas páginas secretas. Os próprios erros no Livro, como possam parecer, ocultam estranhos segredos. Por exemplo: Capítulo III, Verso 47 – “este círculo quadrangular na sua falha”. Os Hebreus ocultaram o valor π no Nome do Deus ALHIM[11], que está incorreto na quarta posição.[12] Mas ao atribuir à nossa chave secreta ShT para santificar este nome nós obtivemos 3.141593, π correto em seis posições (observe 31 e 93).[13]

Mas esta observação não deve ser tão infinita quanto os decimais de π! Você deve perdoar um homem doente e solitário por lhe impor o assunto mais próximo do seu coração. Eu estou realmente muito ansioso para que você traga a Lei de Thelema ao seu trabalho como uma solução para o horrível desespero, a futilidade e a estupidez desta vida de perplexidade. “Faze o que tu queres” explica e justifica a existência. Nós fazemos o que fazemos porque esta é a nossa natureza; os Geis[14] que impomos sobre nós mesmos para se ter uma noção da nossa Ideia Secreta. A “Ânsia por resultado” arruína a nossa obra e a torna ridícula. Não pode haver resultado. Estamos aprisionados pela nossa própria ilusão – Auto inventada. A vida de Manuel[15] foi Sucesso, sendo totalmente a auto realização simbólica de um garoto criativo – uma série de ilusões que resultaram em nada e que ainda assim lhe permitiu ver, externada, a reação do Universo sobre as várias facetas do diamante Alma. A excursão de Jurgen foi um fracasso, porque ele trabalhou com “ânsia de resultado” para obter alguma coisa fora de si mesmo, não sabendo o que (e menos ainda, que nada do gênero existe), porque ele não pôde encarar o fato de que ele tinha vendido o poeta ao prestamista.[16] Eu li para você corretamente? Eu estava um pouco triste quanto ao capítulo 22 de Jurgen[17], sentindo que de algum modo você havia entendido mal a minha mensagem. Pois nenhum de nós, nem mesmo o menos espiritualmente desenvolvido, pode se tornar totalmente pleno através da autossatisfação. Cada um de nós tem uma Vontade de eterna importância, necessariamente relacionada com tudo o que existe, e todos os nossos desejos conscientes são muitas máscaras – uma expressão constate ocultando a nossa infinita variedade. Todos nós somos Triângulos Ideais, e todo triângulo que nós desejamos nada mais é do que um simples caso verídico exclusivo, embora ocultando e até mesmo negando todas as outras possibilidades da Verdade real, inexprimível na forma, e tão menosprezada como ilusão pelos espíritos aprisionados aos sentidos.

Verdadeiramente e Amém! Minha solidão silenciosa nesta Abadia[18], com suas janelas abertas sobre o Eterno e seus portões fechados para o Condicionado[19] fortalece constantemente a minha convicção de que tão grande Mestre de Pensamento e Linguagem como você não ousa deixar o mundo sem Esperança. A sua mais profunda, até então, tem sido proclamar uma Fé irracional de que o Heroísmo altruísta de algum modo se vale de um homem contra a insanidade abjeta e sem propósito da vida. Você não pode parar ali. Deve ser provado que a energia é indestrutível, que nada é desperdiçado, que toda Obra Verdadeira vale a pena. E eu espero que os meus Mestres possam estar lhe usando para colocar Sua Chave em suas mãos, que você possa abrir as portas do Palácio Secreto do Rei e mostrar às pessoas que riquezas inesgotáveis são as deles – justamente quando parecia que a Penúria era total. Você mostrou que nada no mundo, por mais grandioso e glorioso, vale a pena de se esticar uma mão para agarrar; mostrou agora que tudo no mundo, por menor e mais desprezível, vale os sofrimentos e os perigos de uma vida para se obter. (Você fez isto, de uma forma, em Domnei.)[20]. Eu quero um livro que complete o grupo Jurgen-Manuei em uma Trilogia, e observe o Grande Tolo, nada sabendo por que está identificado com o Todo (que, não sendo dividido contra si mesmo, não pode ser conhecido), nada fazendo porque está fazendo a sua Verdadeira Vontade, cumprindo a Vontade Universal ao não opor nenhuma resistência à ela numa tentativa de arrebatar alguma ilusão, e nada sofrendo porque percebe que tudo o que acontece para ele é uma descrição refletida dele mesmo. Ele segue rindo e dançando através do mundo, e destrói todo mal e sofrimento por onde ele passa, pelo simples método de mostrar a todos a quem encontra que os seus vícios e os seus desgostos surgem da ignorância, que cada um deles é perfeito ao seu modo, cada um é uma ilusão necessária por meio da qual o Todo se torna consciente de si mesmo (assim como o Tolo interpreta a si mesmo para si através do seu próprio conjunto de ilusões) e cada um é apenas um estorvo para si e para os outros ao seguir falsos Ideais, interferindo com os outros por várias razões equivocadas, e assim por diante, assim causando todo tipo de colisões, perdendo o seu caminho e então se desesperando em busca da Direção, temendo o Futuro, lamentando o Passado e usando de forma errada – o Presente. O Tolo mostra a cada um o seu caminho apropriado e o coloca nele; logo parece que há espaço no mundo para todos em igualdade, que todos são igualmente dignos de se maravilhar e venerar, aquela Perfeição que é inerente no Todo, e que o objetivo da Vida (que é movimento) é mostrar um cortejo todo mutante, então capacitando cada um a se tornar consciente do Todo, que de outra forma permaneceria homogêneo, vazio de quantidade e qualidade, Desconhecido e Desconhecível.

Eu realmente espero que você perceba este ponto de vista. Isto me livrou do desespero espiritual, tornou todas as coisas inteligíveis e adoráveis para mim, me proporcionou um radiante deleite na minha Obra, a qual eu quase havia abandonado como se fosse uma idiotice; eu estou enamorado com a vida, e pronto para cavalgar com a Morte rumo a uma nova Aventura.

O mundo está morrendo de desgosto com a sua própria vaidade horrível; a tarefa é monótona e árdua, a maçã de Sodoma é seu único alimento[21], o esquecimento é seu único prazer, e “Não tenha Esperança” é a sua palavra final de sabedoria. Você declarou esta sentença mais terrivelmente do que qualquer homem desde Gautama[22]; pois você não deixou nenhuma saída, seja no tempo ou no espaço, ou condição de existência, para qualquer ser, de Koshchei até Dame Lisa[23]. O mundo está esperando que você pronuncie a palavra mágica Thelema, que transforma toda maldição em Bênção, dá sentido a mais incoerente insensatez e carrega a árvore mais estéril de frutas amadurecidas ao sol. Esqueça este discurso extenso! Minhas palavras são de pouca importância; mas se você ler O Livro da Lei o suficiente, o Espírito do Senhor que está em você lhe mostrará o esplendor desta Liberdade, e lhe inspirará a propagar a sua luz solar através do prisma da sua Arte, para que os homens possam contemplar o seu “Arco Íris entre as Nuvens”[24] e saber que o dilúvio diminuiu sobre a face da Terra.

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Isto foi escrito para o romancista americano James Branch Cabell (1879-1958), o autor de Jurgen: Uma Comédia de Justiça (1919). O Capítulo 22 de Jurgen foi baseado livremente no “Liber 15” de Crowley, a Missa Gnóstica da O.T.O.. ↵ voltar
  2. Vide “O Renascer da Magia(k)”, página 13. ↵ voltar
  3. Grego, “a Grande Besta”, o mote de Crowley como um Magus 9º=2 A∴A∴. ↵ voltar
  4. Amalantrah; a entrevista em questão foi realmente em 24 de Fevereiro. Vide “Liber 729, A Operação de Amalantrah”, O Equinócio IV (3). Crowley fornece outro relato deste episódio no Livro 4, Parte III, Apêndice 3. ↵ voltar
  5. George Sylvester Viereck (1884-1962), o empregador de Crowley como editor do The International. ↵ voltar
  6. Samuel Aiwaz Jacobs (c.1891-1971) era um tipógrafo e estilista de livro que fundou a Golden Eagle Press. Um ensaio de Jacobs (que – como Jurgen – faz uma paráfrase à Missa Gnóstica) é republicado como o Epílogo desta coleção de ensaios. A carta holográfica de Jacobs sobrevive na Yorke Collection, Warburg Institute, Universidade de Londres, e aparece como apêndice ao “Liber 729”, loc.cit. ↵ voltar
  7. Tzadkiel é do hebraico tzaddiq (“correto, justo”) e El, Deus. Aqui, ele é o anjo da justiça. O nome Taphthartharath vem da obra de Paracelso sobre talismãs, onde o espírito do planeta Mercúrio é identificado como Tophtharthareth. Sem qualquer etimologia conhecida, ele se qualifica como um “nome inventado”. ↵ voltar
  8. Grego, thelema, vontade. ↵ voltar
  9. Grego, agape, amor. ↵ voltar
  10. Norman Mudd (c.1890-1934) foi educado em Cambridge e era professor de matemática na Grey University College, Bloemfontein, África do Sul, antes de se unir a Crowley na Abadia de Thelema em Cefalù. Ele realizou um estudo determinado da interpretação matemática de O Livro da Lei, mas o levou a extremos tais que Crowley chegou a rejeitar os resultados. ↵ voltar
  11. Geralmente transliterado como Elohim, “os deuses”, אלהים  = 86. ↵ voltar
  12. O professor de Crowley, Allan Bennett, explicou isto no seu ensaio “Uma Nota Sobre o Gênesis”, O Equinócio I (2) (1909), p.183. “Escreva as letras deste Nome em qualquer Pentagrama de Invocação; e o Pentagrama de Banimento deste terá o valor 3.1415 (através da Qabalah das nove Câmaras)”. Ou seja, arrumando estas cinco letras como um pentagrama, pode-se lê-las de trás para frente enquanto se retiram os zeros nos seus valores numéricos hebraicos. Isso resulta em הימאל (respectivamente 3 1 4 1 5) , ou seja, 31415. ↵ voltar
  13. ShT é שט, cujos valores numéricos hebraicos 9 e 300 se tornam 9 e 3 através da Qabalah das nove Câmaras, ou seja, 93. Vide Livro 4, Parte IV (O Equinócio dos Deuses), cap. 7, §3. ↵ voltar
  14. Literalmente “tabu”, do gaélico geas, “proibição, tabu”, e geasa, “obrigação”, seja mágica ou relacionada à honra. ↵ voltar
  15. Conde Manuel é o herói das Figuras da Terra de Cabell e o regente da terra de Poictesme. ↵ voltar
  16. Em Jurgen, o personagem título é um prestamista de meia-idade que, ao receber um ano de juventude, deixa sua esposa, Dame Lisa, em troca de aventuras eróticas na terra de Poictesme. ↵ voltar
  17. O capítulo que levou ao “Liber 15, Ecclesiae Gnosticae Catholicæ Canon Missæ” de Crowley, a Missa Gnóstica da O.T.O.. ↵ voltar
  18. Crowley estava escrevendo da Abadia de Thelema em Cefalù, Sicília. ↵ voltar
  19. Os textos datilografados exibem “próximo do Estipulado”, provavelmente em erro. ↵ voltar
  20. James Branch Cabell, Domnei: Uma Comédia da Adoração da Mulher (1920); vide Obras Citadas. Este foi o livro de Cabell depois de Jurgen. ↵ voltar
  21. Em O Livro das Mentiras, o capítulo 67 é intitulado “Maçãs de Sodoma”. Em seu comentário, Crowley observa que “é inútil tentar abandonar a Grande Obra”. ↵ voltar
  22. Gautama Buddha (c. 563 – 483 Antes da Era Comum), fundador do Budismo. ↵ voltar
  23. Koshchei é uma figura do conto de fadas russo “A Morte de Koshchei o Imortal” No Livro Vermelho das Fadas de Andrew Lang. No Jurgen de Cabell, Dame Lisa é a esposa que Jurgen abandona; eles voltam a se unir no final. ↵ voltar
  24. Gênesis 9:13. ↵ voltar

© 2016 e.v. - O.T.O. - Ordo Templi Orientis





Um Memorando a Respeito do Livro da Lei

Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Nina Castro
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 - 16/11/2011 e.v.

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Aleister Crowley

Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12/10/1875, Royal Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra - 01/12/1947, Hastings, East Sussex, Inglaterra), ocultista britânico e Profeta do Novo Æon de Hórus.

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