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Um tipo Estúpido de Injúria. Thelema é uma Religião?

por Frater Aletheuo em Religião

Um tipo Estúpido de Injúria. Thelema é uma Religião?
Filosofia

Um tipo Estúpido de Injúria. Thelema é uma Religião?

por Frater Aletheuo

Aqui está uma questão que pode ser mais interessante do que parece à primeira vista. (Pelo menos, tenho a impressão de que algumas pessoas ainda não compreenderam bem a resposta.).

Imaginemos que façamos uma pergunta a alguém. Ele nos dá uma resposta. Vinte anos depois, perguntamos a mesma coisa novamente e obtemos uma resposta diferente que contradiz a primeira.

Em tal situação, a primeira reação de qualquer pessoa seria apontar a inconsistência e pedir a ele para explicar por que suas duas respostas são tão diferentes. Mas e se as duas respostas estão em livros escritos entre décadas de diferença, por um autor já falecido? Não podemos pedir nada ao autor senão através do estudo de seus escritos. Se ele nunca explicou de que forma ele chegou a mudar seu ponto de vista, ou como as duas respostas são mais compatíveis do que se parece, então talvez não seja possível chegar a uma conclusão clara e certa; é provável que um elemento de dúvida permaneça.

Mesmo assim, alguns pontos parecem ser inegáveis, de modo que devemos admiti-los:

  1. O autor de fato dá duas respostas diferentes;
  2. Ambas as respostas devem ser levadas em consideração, seja mostrando que elas são harmoniosas, ou aceitando que elas entram em conflito;
  3. Se elas entram em conflito, a última resposta, não a primeira, deve ser considerada como representativa do ponto de vista final do autor;
  4. Se elas entram em conflito, um argumento crível baseado na autoridade do autor não pode ser feito usando a primeira resposta, já que o próprio autor posteriormente a rejeitou.

O que traz isso à mente são as recentes discussões se Thelema é ou não é uma religião. Um número de pessoas citou as palavras de Aleister Crowley do Blue Equinox e outras fontes de origem semelhante para o efeito de que Thelema é uma “nova religião”, uma “religião científica”, e assim por diante, suportando sua alegação de que Thelema é uma religião. Alguns deles têm acompanhado estas citações com frases do tipo: “Como alguém pode negar isso?” ou observações presunçosas no sentido de que as pessoas que discordam obviamente não estão familiarizados com os escritos de Crowley ou não são sérias em manifestar a visão de Crowley para a O.T.O..

No entanto, a verdade do assunto é um pouco mais complexa do que isso. Eu não acho que qualquer pessoa envolvida neste debate nega, ou ignora que Crowley parece ter promovido Thelema como uma nova religião pelo menos até a publicação do Blue Equinox. Os defensores de que “Thelema é uma religião”, por outro lado, curiosamente parecem não querer reconhecer as observações de Crowley de mais de vinte anos depois no Capítulo XXXI de Magick Without Tears:

Chame isso de uma nova religião, então, se isso tanto agrada a vossa Graciosa Majestade; mas confesso que não vejo o que você ganhará ao fazer isso, e sinto-me obrigado a acrescentar que você pode facilmente causar um grande mal-entendido, e causar um tipo estúpido de injúria em particular.

Aqui Crowley não está explicitamente dizendo que Thelema não é uma religião; mas pelo menos ele parece desinclinado a descrevê-la como uma. Ele “não consegue ver o que você ganhará”, chamando Thelema de religião, e receia que isso “possa facilmente causar um grande mal-entendido, e causar um particular tipo estúpido de injúria”.

Estas afirmações merecem uma análise cuidadosa. Elas parecem estar em conflito com a promoção aberta de Crowley de Thelema como uma “religião” muitos anos antes; de fato, eu não vejo como elas podem ser conciliadas com eles, e também não vi nenhuma tentativa dos atuais defensores de que “Thelema é uma religião” em conciliá-los. Mas desde que as cartas pessoais compreendendo Magick Without Tears datam de muitos anos depois do Blue Equinox, parece-me, pela discussão acima, que a menos que estas declarações contraditórias possam ser conciliadas, a posição mais recente em Magick Without Tears deve ser tomada como representante da posição final de Crowley sobre o assunto: Ele não incentiva as pessoas a verem Thelema como uma religião e pensa que isso poderia causar problemas.

A pergunta que fica é: Por que ele acredita nisso? Como ele chegou a essa conclusão? Que tipo de mal-entendidos, que “tipo estúpido de injúria” ele viu saindo da visão de Thelema como uma religião? Talvez nunca venhamos a saber com certeza, mas acho que há provas suficientes para fazer uma suposição razoável. No capítulo citado acima de Magick Without Tears, Crowley analisa a etimologia e o uso da palavra “religião”, observando que em seu próprio uso, ela muitas vezes denota algo contrário à ciência — em uma palavra, superstição. Esta afirmação é confirmada por suas outras menções de “religião” em Magick Without Tears, que incluem o seguinte:

Deve ser particularmente notado que a Magia, tão frequentemente misturada com a ideia popular de uma religião, não tem nada a ver com isso. Ela é, de fato, o exato oposto da religião; ela é, até mais do que a Ciência Física, seu inimigo irreconciliável… [Religião] pretende ignorar as leis da natureza, ou escapar delas apelando a um poder postulado que se supõe tê-las renunciado. O homem religioso é, como tal, incapaz de compreender o que as leis da Natureza realmente são. (Capítulo 6).


Toda a sanidade, que é toda a Ciência, é fundada sobre Limite. Temos de ser capazes de isolar, definir, medir. Naturalmente, então, seus opostos, Insanidade e Religião, têm como principal característica, o Indefinível, o Incompreensível, o Imensurável. (Capítulo 78).

Isto é fundamentalmente semelhante, e bastante compatível, com a forma como o termo “religião” foi usada por Frazer em O Ramo de Ouro, e também com as definições de religião desenvolvidas por cientistas sociais modernos, tais como Rodney Stark — consulte, por exemplo, o A Theory of Religion de Stark e Bainbridge (Rutgers University Press).

Chamar Thelema de “religião”, então, incentiva pessoas educadas a considerá-la supersticiosa e antagônica à ciência. É realmente isso o que queremos? No momento em que Crowley escreveu Magick Without Tears, ele já vinha promovendo Thelema por mais de 30 anos. Ele teve muitas oportunidades para ver que tipo de pessoas eram atraídas pela ideia de uma “nova religião”, e que tipo não era. Atrair as pessoas erradas e não atrair as pessoas certas pode muito bem ser um aspecto do “tipo estúpido de injúria” com o qual ele estava preocupado.

Recentemente ouvi o argumento de que a rotulagem de Thelema como uma “religião” não é uma questão de marketing, mas sim simplesmente de precisão fatual. Eu acho isso inconvincente por pelo menos duas razões.

Primeiramente, “precisão” pura sem levar em conta o contexto ou o propósito é um objetivo falso. A maioria das declarações é verdadeira, na melhor das hipóteses, somente dentro de um contexto em particular. Duvido muito que a declaração “Thelema é uma religião” (ou não) se qualifica como sendo De Toda a Verdade (na linguagem de Hermes Trismegisto). Uma questão muito mais interessante, que Crowley chama a atenção quando escreve, “não vejo o que você ganhará fazendo isso”, é qual vantagem há em insistir espalhafatosamente em que Thelema é uma religião. É ajudado o progresso em direção de algum objetivo prático? Se sim, qual é esse objetivo? Se não, por que se preocupar?

Em segundo lugar, antes que se possa dizer que a proposição de que Thelema é uma religião seja “precisa” ou “imprecisa”, devemos ter uma definição estável e consensual sobre a palavra “religião” para a qual podemos comparar Thelema para ver se ela se encaixa. A única definição que vi proposta pelos defensores modernos de que “Thelema é uma religião” é aquela de Stark e Bainbridge, em seu livro mencionado acima. Para realmente fazer justiça à sua definição, seria necessário ler pelo menos os primeiros capítulos de seu livro, porque a definição é baseada em um conjunto de axiomas e definições, muitas das quais não são exatamente o que a maioria dos leitores esperam. Mas, com essa advertência em mente, o cerne de sua definição de “religião” pode ser resumido da seguinte forma:

  1. Uma religião é um sistema de compensadores baseado em hipóteses sobrenaturais.
  2. Um compensador é uma promessa não verificável de alguma recompensa futura. Algumas religiões, por exemplo, prometem recompensas após a morte para os seus adeptos; essa promessa é um compensador.
  3. Sobrenatural refere-se a entidades ou coisas que estão separadas do universo físico, ou que sejam capazes de violar ou suspender as leis deste universo.

Thelema se encaixa nessa definição de “religião”? Não, ela não se encaixa. Nada em Thelema depende de “hipóteses sobrenaturais”. Por exemplo, Thelema não afirma nada sobre Aiwass que requer que ele seja capaz de violar as leis naturais; além disso, as “divindades” Nuit, Hadit e Ra Hoor Khuit são explicitamente declaradas por Crowley (em sua introdução à edição de 1938 da O.T.O do Livro da Lei e em outros lugares) como sendo símbolos metafísicos passíveis de compreensão racional, não entidades fora da natureza. Thelema também não é um “sistema de compensadores” no sentido de Stark e Bainbridge; pelo contrário, Liber AL nos diz que podemos ter “certeza, não fé, enquanto em vida” (I: 58), e Crowley projetou o sistema da A∴A∴ para ajudar aspirantes a alcançar a verdadeira compreensão através de sua própria experiência prática. Thelema se apresenta a nós sem promessas não verificáveis ou hipóteses sobrenaturais. Portanto, pela definição de Stark e Bainbridge, Thelema não é uma religião.

Pode ser que por alguma outra definição nós todos possamos concordar que Thelema é uma religião. Tal definição ainda não foi proposta pelos defensores de “Thelema é uma religião”. Também pode ser que nós não entendemos completamente o propósito de Crowley em dizer que chamar Thelema de religião pode causar mal-entendidos e “um tipo estúpido de injúria em particular”. No que diz respeito a isso, pode ser que nós realmente não entendamos por que ele a chamou de uma “religião científica”, em primeiro lugar. Talvez nunca venhamos a saber com certeza as respostas para estes enigmas. Mas, até agora, tais evidências conforme disponíveis me levam a crer que por volta do final de sua vida, ele preferiu não descrever Thelema como uma religião.

Mas mesmo se eu estiver correto nisso, certamente todos nós temos o direito de discordar dele e fazer valer nossa própria compreensão. Eu não acredito que alguém esteja dizendo que devemos aceitar o julgamento de Crowley sem questionar. O que me incomoda, porém, é a aparente inclinação de pelo menos algumas das pessoas, que defendem chamar Thelema de religião, de ignorar completamente as palavras de Crowley em Magick Without Tears e se concentrar em declarações muito anteriores que parecem não refletir sua visão final do assunto. É erudição honesta ignorar a evidência que não suporta a teoria preferida? Isso é prova de integridade intelectual? Acho que não.

© 2016 e.v. - Frater Αληθέυω





Um tipo Estúpido de Injúria. Thelema é uma Religião?

Tradução: Alan Willms
Revisão: Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 - 31/01/2011 e.v.
Nota:
O complemento do título (ou subtítulo) “Thelema é uma Religião?” não fazia parte da versão original e foi adicionado apenas para referência sobre assunto.

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Frater Aletheuo

Mais informações sobre Frater Αληθέυω, assim como outras notas e ensaios de sua autoria podem ser encontradas em seu site, http://aletheuo.ath.cx/.

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