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Liber Cordis Cincti Serpente

por V.V.V.V.V. em ΘΕΛΗΜΑ

Liber Cordis Cincti Serpente

Sigillum Sanctum Fraternitatis A∴A∴
A∴A∴
Publicação em Classe A.

Liber Cordis Cincti Serpente

por V.V.V.V.V.

I

  1. Eu sou o Coração; e a Serpente está entrelaçada
    Ao redor do centro invisível da mente.
    Erguei-vos, Ó minha serpente! É chegada a hora
    da santa flor ocultada e inefável.
    Erguei-vos, Ó minha serpente, no brilho da floração
    Sobre o cadáver de Osíris flutuante na tumba!
    Ó coração de minha mãe, minha irmã, meu próprio,
    Tu fostes dado ao Nilo, ao terror de Tífon!
    Ah mim! mas a glória da tempestade voraz
    te amarra e te envolve no frenesi da forma.
    Ficai imóvel, Ó, minha alma! De modo que o encantamento possa dissolver
    Assim que os bastes forem erguidos, e os æons revolverem.
    Vede! na minha beleza o quão feliz Tu és,
    Ó Serpente que acaricias a coroa do meu coração!
    Vede! Nós somos um, e a tempestade dos anos
    Desce para o crepúsculo, e o Besouro aparece.
    Ó Besouro! O zumbido da Tua dolorosa nota
    Seja sempre o transe desta trêmula garganta!
    Eu aguardo o despertar! Os chamados do alto
    Do Senhor Adonai, do Senhor Adonai!
  2. Adonai falou para V.V.V.V.V., dizendo: Deve sempre haver divisão na palavra.
  3. Pois as cores são muitas, mas a luz é só uma.
  4. Portanto tu escreveste aquilo que é da mãe de esmeralda, e de lápis-lazúli, e de turquesa, e de alexandrita.
  5. Outro escreveu as palavras de topázio, de ametista profunda, e de safira cinza, e de safira profunda com uma cor como sangue.
  6. Portanto vos atormentais a si mesmos por causa disso.
  7. Não estejais satisfeitos com a imagem.
  8. Eu que sou a Imagem de uma Imagem digo isto.
  9. Não debateis a respeito da imagem, dizendo Além! Além!
    Um subiu até a Coroa pela lua e pelo Sol, e pela flecha, e pela Fundação, e pelo lar escuro das estrelas da terra negra.
  10. De outro modo vós não poderíeis alcançar o Ponto Suave.
  11. Nem é apropriado ao sapateiro dar palpites sobre o assunto Real. Ó, sapateiro! Reparai este sapato para mim, para que eu possa caminhar. Ó, rei! Se eu for o teu filho, falemos sobre a Embaixada para o Rei teu Irmão.
  12. Então houve silêncio. A fala nos deixou por algum tempo.
    Há uma luz tão vigorosa que não é percebida como luz.
  13. A praga do lobo não é tão cortante como o aço; ainda assim ela perfura o corpo mais sutilmente.
  14. Assim como beijos perversos corrompem o sangue, também as minhas palavras devoram o espírito do homem.
  15. Eu respiro, e há infinita doença no espírito.
  16. Como um ácido corrói o aço, como um câncer que corrompe totalmente o corpo; assim sou Eu sobre o espírito do homem.
  17. Eu não descansarei até que eu tenha dissolvido isso tudo.
  18. Assim também a luz que é absorvida. Um absorve pouco e é chamado branco e brilhante; um absorve tudo e é chamado negro.
  19. Logo, Ó meu querido, tu és negro.
  20. Ó meu belo, eu te comparei a um escravo Núbio da cor de azeviche, um garoto de olhos melancólicos.
  21. Ó, o sujo! O cão! Eles clamam contra ti.
    Porque tu és meu bem amado.
  22. Felizes são aqueles que te louvam; pois eles verão a ti com os Meus olhos.
  23. Eles não te louvarão falando alto; mas espreitando na noite um se moverá em segredo na proximidade, e te agarrará com o aperto secreto; outro lançará secretamente uma coroa de violetas sobre ti; um terceiro se arriscará com grande nobreza, e pressionará seus loucos lábios contra os teus.
  24. Sim! a noite cobrirá tudo, a noite cobrirá tudo.
  25. Há muito tempo tu estás Me buscando; tu correste adiante tão rápido que eu não fui capaz de te alcançar.
    Ó tu, tolo querido! Com que amargura tu coroaste os teus dias.
  26. Agora eu estou contigo; eu jamais deixarei o teu ser.
  27. Pois eu sou aquela macia e sinuosa que está entrelaçada ao redor de ti, coração de ouro!
  28. Minha cabeça está adornada com doze estrelas; Meu corpo é branco como o leite das estrelas; ele brilha com o azul do invisível abismo de estrelas.
  29. Eu descobri aquilo que não podia ser encontrado; eu encontrei um vaso de azougue.
  30. Tu instruirás o teu servo nos seus modos, tu falarás muitas vezes com ele.
  31. (O escriba olhou para cima e exclamou) Amém! Tu o falaste, Senhor Deus!
  32. Mais adiante Adonai se dirigiu a V.V.V.V.V. e disse:
  33. Deleitemo-nos na multidão dos homens!
    Moldemos para nós um barco de madrepérola feito com eles, para que possamos navegar sobre o rio de Amrit!
  34. Tu vês aquela pétala de amaranto, soprada pelos ventos das baixas sobrancelhas doces de Hathor?
  35. (O Mestre a viu e se regozijou com sua beleza.) Ouças!
  36. (De um certo mundo veio uma lamúria infinita.)
    Aquela pétala que caía parecia aos pequenos uma onda que iria engolir seu continente.
  37. Então eles repreenderão teu servo, dizendo: Quem te determinou para nos salvar?
  38. Ele ficará dolorosamente aflito.
  39. Todos eles não compreendem que tu e eu estamos moldando um barco de madrepérola. Nós navegaremos através do rio de Amrit, exatamente para os bosques de teixos de Yama, onde poderemos nos regozijar extremamente.
  40. O prazer dos homens será o nosso raio prateado, sua angústia o nosso raio azul – tudo na madrepérola.
  41. (O escriba se irou por causa daquilo. Ele falou:
    Ó Adonai e meu mestre, eu carreguei o tinteiro de chifre e a pena sem pagamento, de modo que eu pudesse procurar esse rio de Amrit, e nele navegar como um de vós. Isto eu exijo como minha recompensa, que eu participe do eco dos seus beijos.)
  42. (E isso foi concedido a ele imediatamente.)
  43. (Não; mas nem após isso ele ficou satisfeito. Ele ambicionou com um infinito aviltamento até a vergonha. Então uma voz:)
  44. Tu lutaste sempre; mesmo na tua renúncia tu lutaste para ganhar – e vede! Tu não te rendeste.
  45. Ide tu para os lugares mais distantes e dominai todas as coisas.
  46. Dominai o teu medo e o teu descontentamento. Então – rende-te!
  47. Havia uma donzela que estava perdida entre o milho, e suspirava; então houve um novo nascimento, um narciso, e ali ela esqueceu seu soluçar e sua solidão.
  48. No mesmo instante Hades cavalgou pesadamente para cima dela, e a levou para longe.
  49. (Então o escriba conheceu o narciso no seu coração; mas porque ele não alcançou os seus lábios, por isso ele se envergonhou e não falou mais.)
  50. Adonai se dirigiu novamente a V.V.V.V.V. e disse:
    A terra está pronta para a colheita; comamos de suas uvas, e então nos embriaguemos.
  51. E V.V.V.V.V. respondeu dizendo: Ó meu senhor, meu pombo, meu excelente, como esta palavra parecerá aos filhos dos homens?
  52. E Ele respondeu: Não como tu não consegues ver.
    É certo que toda letra desta cifra tem algum valor; mas quem determinará o valor? Pois ele sempre varia, conforme a sutileza d’Aquele que o fez.
  53. E Ele respondeu: Não tenho eu a chave disto?
    Estou vestido com o corpo de carne; eu sou um com o Eterno e Onipotente Deus.
  54. Então disse Adonai: Tu tens a Cabeça do Falcão, e teu Falo é o Falo de Asar. Tu conheces o branco, e tu conheces o preto, e tu sabes que estes são um. Mas por que tu procuras o conhecimento da sua equivalência?
  55. E ele disse: Para que a minha Obra possa ser correta.
  56. E Adonai disse: O forte ceifador marrom atou o seu pacote e regozijou. O homem sábio contou os seus músculos, e ponderou, e não compreendeu, e estava triste.
    Ceifa tu, e regozijai!
  57. Então o Adepto estava alegre, e ergueu seu braço.
    Vede! Um terremoto, e praga, e terror sobre a terra!
    Uma queda daqueles que se assentam nos lugares altos; uma fome sobre a multidão!
  58. E as uvas caíam maduras e abundantes na sua boca.
  59. Tingido está o púrpura da tua boca, Ó brilhante, com a glória branca dos lábios de Adonai.
  60. A espuma da uva é como a tempestade sobre o mar; os navios tremem e se agitam; o capitão do navio está com medo.
  61. Aquilo é a tua embriaguez, Ó santo, e os ventos levam para longe a alma do escriba para o refúgio feliz.
  62. Ó, Senhor Deus! Que o refúgio seja lançado abaixo pela fúria da tempestade! Que a espuma da uva tinja minha alma com a Tua luz!
  63. Baco envelheceu, e era Silenus; Pan foi sempre Pan para sempre e mais ainda através dos æons.
  64. Intoxicai o mais íntimo, Ó meu amante, não o mais externo!
  65. Então foi isso – sempre o mesmo! Eu tenho buscado pelo bastão descamado do meu Deus, e alcancei; sim, eu alcancei.

II

  1. Eu entrei na montanha de lápis-lazúli, exatamente como um falcão verde entre os pilares de turquesa, que está assentado sobre o trono do Leste.
  2. Então eu vim para o Duant, a morada estrelada, e eu ouvi vozes gritando alto.
  3. Ó Tu que te assentas sobre a Terra! (assim falou um certo Velado para mim) tu não és maior que tua mãe! Tu partícula de poeira infinitesimal!
    Tu és o Senhor da Glória, e o cão impuro.
  4. Inclinando-me, baixando minhas asas, eu vim até as moradas sombriamente esplêndidas. Lá naquele abismo informe me tornei um participante dos Mistérios Adversos.
  5. Eu experimentei o abraço mortal da Serpente e do Bode; eu prestei a reverência infernal à vergonha de Khem.
  6. Ali havia esta virtude, que o Um se tornou tudo.
  7. Ainda mais, Eu tive a visão de um rio. Havia ali um pequeno barco; e nele sob velas púrpuras havia uma mulher dourada, uma imagem de Asi moldada no mais fino ouro. Também o rio era de sangue, e o barco era de aço brilhante. Então eu a amei; e, desatando meu cinturão, me lancei na correnteza.
  8. Eu permaneci no pequeno barco, e por muitos dias e noites eu a amei, queimando belo incenso perante ela.
  9. Sim! Eu dei a ela da flor da minha juventude.
  10. Mas ela não se moveu; apenas pelos meus beijos eu a deflorei de modo que ela se alterou para a negrura perante mim.
  11. Ainda assim eu a adorei, e dei a ela da flor da minha juventude.
  12. Também isso se passou, que desse modo ela adoeceu, e se corrompeu perante mim. Quase Eu me lancei para dentro da correnteza.
  13. Então ao final designado seu corpo estava mais branco que o leite das estrelas, e seus lábios vermelhos e quentes como o por do sol, e sua vida de um calor branco como o calor do sol a pino.
  14. Então ela se ergueu do abismo das Eras de Sono, e seu corpo me abraçou. Eu me dissolvi completamente na sua beleza e estava feliz.
  15. O rio também se tornou o rio de Amrit, e o pequeno barco era a carruagem da carne, e as velas ali eram o sangue do coração que me nutria, que me nutria.
  16. Ó mulher serpente das estrelas! Eu, eu mesmo, Te moldei de uma imagem pálida de fino ouro.
  17. Também O Santo veio a mim, e eu contemplei um belo cisne flutuando no azul.
  18. Entre suas asas eu sentei, e os æons iam passando.
  19. Então o cisne voou e mergulhou e planou, ainda assim prosseguimos sem destino.
  20. Um garotinho louco que montava comigo se dirigiu ao cisne, e falou:
  21. Quem és tu que flutuas, e voas, e mergulhas e planas no vazio? Vede, estes muitos æons se passaram; de onde tu vieste? Para onde vais?
  22. E rindo eu o repreendi, dizendo: De nenhum lugar! Para nenhum lugar!
  23. Estando o cisne silencioso, ele respondeu: Então, se não há um destino, por que esta eterna viagem?
  24. E eu repousei a minha cabeça contra a Cabeça do Cisne, e ri, dizendo: Não há prazer inefável neste voo sem destino? Não haveria fadiga e impaciência para aquele que alcançasse algum destino?
  25. E o cisne estava sempre silencioso. Ah! Mas nós flutuamos no Abismo infinito. Prazer! Prazer!
    Cisne branco, que tu sempre me leves entre as tuas asas!
  26. Ó silêncio! Ó êxtase!
    Ó fim das coisas visíveis e invisíveis! Tudo isso é meu, que Não sou.
  27. Deus Radiante! Deixa-me moldar uma imagem de gemas e ouro para Ti! Que as pessoas possam lançá-la ao chão e esmagá-la com os pés até virar pó! Que a Tua glória possa ser vista por eles.
  28. Nem será falado nos mercados que eu sou aquele que deve vir; mas a Tua vinda será a única palavra.
  29. Tu Te manifestarás no imanifesto; nos locais secretos os homens se reunirão contigo, e Tu os subjugarás.
  30. Eu vi um triste garoto pálido que repousava sobre o mármore sob a luz do sol, e chorava. Ao seu lado estava o alaúde esquecido. Ah! Mas ele chorava.
  31. Então veio uma águia do abismo da glória e o ofuscou. Tão negra era a sombra que ele não era mais visível.
  32. Mas eu ouvi o alaúde discursando vivamente através do ar azul estagnado.
  33. Ah! mensageiro do Bem Amado, que a Tua sombra esteja sobre mim!
  34. Teu nome é Morte, pode ser, ou Vergonha, ou Amor.
    Então se tu me trazes notícias sobre o Bem Amado, eu não perguntarei o teu nome.
  35. Onde está agora o Mestre? Clamam os garotinhos loucos.
    Ele está morto! Ele está envergonhado! Ele está comprometido! E seu escárnio circulará pelo mundo.
  36. Mas o Mestre terá tido a sua recompensa.
    A gargalhada dos zombeteiros será uma onda no cabelo do Bem Amado.
  37. Vede! O Abismo da Grande Profundeza.
    Lá existe um poderoso delfim, agitando seus flancos com a força das ondas.
  38. Também há um harpista de ouro, tocando melodias infinitas.
  39. Então o delfim se deleitou ali, e despiu-se de seu corpo, e se tornou um pássaro.
  40. O harpista também pôs de lado a sua harpa, e tocou melodias infinitas na flauta de Pan.
  41. Então o pássaro desejou excessivamente este êxtase, e baixando suas asas se tornou um fauno da floresta.
  42. O harpista também pôs de lado a sua flauta de Pan, e com a voz humana cantou as suas melodias infinitas.
  43. Então o fauno estava extasiado, e seguiu adiante; por fim o harpista estava silencioso, e o fauno se tornou Pan no meio da floresta original da Eternidade.
  44. Tu não podes encantar o delfim com silêncio, Ó meu profeta!
  45. Então o adepto foi arrebatado em êxtase, e para além do êxtase, e excedeu o excesso do excesso.
  46. E seu corpo sacudiu e cambaleou com o fardo daquele êxtase e daquele excesso e daquele derradeiro indescritível.
  47. Eles gritaram Ele está embriagado ou Ele está louco ou Ele está em dores ou Ele está quase para morrer; e ele não os ouviu.
  48. Ó meu Senhor, meu querido! Como eu comporei canções, quando até mesmo a memória da sombra da tua glória é algo além de toda música, da fala, ou do silêncio?
  49. Vede! Eu sou um homem. Mesmo uma criancinha não conseguiria Te suportar. E vede!
  50. Eu estava só em um grande parque, e próximo a um certo outeiro havia um anel de grama profundamente esmaltado onde aqueles vestidos de verde, muito belos, brincavam.
  51. Em sua brincadeira Eu vim diretamente para a terra do Sono Mágico.
    Todos os meus pensamentos estavam vestidos de verde; muito belos eram eles.
  52. Por toda a noite eles dançaram e cantaram; mas Tu és a manhã, Ó meu querido, minha serpente que Te duplicas em volta deste coração.
  53. Eu sou o coração, e Tu és a serpente. Enrosca mais forte as Tuas espirais em torno de mim, de modo que nenhuma luz e nenhum êxtase possam penetrar.
  54. Espreme o meu sangue, como uma uva sobre a língua de uma garota Dórica branca que desvanece com seu amante sob a luz da lua.
  55. Então deixai o Fim despertar.
    Por muito tempo tu tens dormido, Ó grande Deus Terminus!
    Por longas eras tu tens aguardado nas margens da cidade e das estradas de lá.
    Desperta Tu! não espereis mais!
  56. Não, Senhor! Mas eu vim até Ti. Sou eu quem espera por fim.
  57. O profeta clamou contra a montanha; vinde tu até aqui, de modo que eu possa falar contigo!
  58. A montanha não se moveu. Portanto o profeta foi até a montanha, e falou com ela. Mas os pés do profeta estavam cansados, e a montanha não ouviu a sua voz.
  59. Mas eu chamei a Ti, e viajei até chegar a Ti, e isso não me foi de valia.
  60. Eu aguardei pacientemente, e Tu estavas comigo desde o início.
  61. Isto eu sei agora, Ó meu querido, e nós estamos espreguiçados e à vontade entre as vinhas.
  62. Mas estes teus profetas; eles precisam bradar e flagelar a si mesmos; eles devem cruzar desertos impenetráveis e oceanos insondáveis; na expectativa de que Tu estás no fim, e não no começo.
  63. Que a escuridão cubra a escrita! Que o escriba se desvie entre seus caminhos.
  64. Mas tu e eu estamos espreguiçados e à vontade entre as vinhas; o que é ele?
  65. Ó Tu Amado! não há um fim? De fato, mas há um fim. Desperta! Erga-te! Cingi os teus membros, Ó tu, corredor; levai tu a Palavra para as poderosas cidades, sim, para as poderosas cidades.

III

  1. Verdadeiramente e Amém! Eu passei através do mar profundo, e pelos rios de águas correntes que abundam por lá, e eu cheguei à Terra do Não Desejo.
  2. Na qual havia um unicórnio branco com um colar de prata, onde estava entalhado o aforismo Linea viridis gyrat universa.
  3. Então a palavra de Adonai veio a mim pela boca do meu Mestre, dizendo: Ó coração que estás circundado pelas espirais da velha serpente, erga-te até a montanha da iniciação!
  4. Mas eu me lembrei. Sim, Than, sim, Theli, sim, Lilith! essas três estavam à minha volta há tempos. Pois elas são uma.
  5. Bela eras tu, Ó Lilith, tu serpente-mulher!
  6. Tu eras macia e deliciosa ao paladar, e teu perfume era de almíscar misturado com âmbar cinzento.
  7. Firmemente estavas tu abraçada com tuas espiras ao coração, e era como o prazer de toda energia.
  8. Porém eu percebi em ti uma certa macula, mesmo naquilo em que eu me deleitava.
  9. Eu percebi em ti a macula de teu pai o símio, do teu ancestral, o Verme Cego do Lodo.
  10. Eu olhei fixamente para o Cristal do Futuro, e vi o horror do teu Fim.
  11. Além disso, eu destruí o tempo Passado, e o tempo Vindouro – não tinha eu o Poder do Relógio de areia?
  12. Mas na mesma hora eu percebi a corrupção.
  13. Então eu disse: Ó meu querido, Ó Senhor Adonai, eu oro a ti para soltar as espiras da serpente!
  14. Mas ela estava muito apertada sobre mim, de modo que a minha Força estava estagnada pela sua absorção.
  15. Eu também orei ao Deus Elefante, o Senhor das Causas, para que destruísse a obstrução.
  16. Estes deuses vieram rapidamente em meu socorro. Eu os observei; eu me uni a eles; eu estava perdido em sua amplidão.
  17. Então eu observei a mim mesmo circundado pelo Círculo Infinito de Esmeralda que circundava o Universo.
  18. Ó, Serpente de Esmeralda, Tu não tens tempo Passado, nem tempo Vindouro. Verdadeiramente Tu não és.
  19. Tu és delicioso além de todo paladar e toque, Tu não-és-para-ser-contemplado pela glória, Tua voz está além da Fala e do Silêncio e a Fala dali, e o Teu perfume é de puro âmbar cinzento, que não é comparado com o mais refinado de todo o ouro mais fino.
  20. Também Tuas espiras são de alcance infinito; o Coração que Tu circundas é um Coração Universal.
  21. Eu, e Mim, e Meu estavam sentados com alaúdes na praça do mercado da grande cidade, a cidade das violetas e das rosas.
  22. A noite caiu, e a música dos alaúdes terminou.
  23. Surgiu a tempestade, e a música dos alaúdes terminou.
  24. A hora passou, e a música dos alaúdes terminou.
  25. Mas Tu és Eternidade e Espaço; Tu és Matéria e Movimento; e Tu és a negação de todas estas coisas.
  26. Pois não existe Símbolo de Ti.
  27. Se eu digo Vinde sobre as montanhas! as águas celestiais fluem ao meu comando. Mas tu és a Água além das águas.
  28. O coração vermelho com três ângulos foi estabelecido no Teu santuário; pois os sacerdotes menosprezaram igualmente o santuário e o deus.
  29. Ainda assim Tu estavas oculto ali o tempo todo, como o Senhor do Silêncio está oculto nos botões do lótus.
  30. Tu és Sebek o crocodilo contra Asar; tu és Mati, o Matador no Abismo. Tu és Tífon, a Fúria dos Elementos, Ó Tu que transcendes as Forças na sua Conjunção e Coesão, na sua Morte e na sua Ruptura. Tu és Píton, a terrível serpente junto ao fim de todas as coisas!
  31. Eu girei em torno de mim por três vezes em toda direção; e por fim sempre eu me deparei Contigo.
  32. Eu percebi muitas coisas indiretas e imediatas; porém, não mais as contemplando, eu Te contemplei.
  33. Vinde tu, Ó Bem Amado, Ó Senhor Deus do Universo, Ó Vasto, Ó Minúsculo! Eu sou o Teu bem amado.
  34. Todo dia eu canto sobre o Teu deleite; toda noite eu me delicio na Tua canção.
  35. Não há outro dia ou noite como estes.
  36. Tu estás além do dia e da noite; eu sou Tu mesmo, Ó meu Criador, meu Mestre, meu Companheiro!
  37. Eu sou como o cãozinho vermelho que senta sobre os joelhos do Desconhecido.
  38. Tu me trouxeste em grande deleite. Tu me deste da Tua carne para comer e do Teu sangue para uma oferenda de embriaguez.
  39. Tu cravaste as presas da Eternidade na minha alma, e o Veneno do Infinito me consumiu completamente.
  40. Eu me tornei como um demônio voluptuoso da Itália; uma mulher bem forte com faces cansadas, consumida pela fome de beijos. Ela viveu como meretriz em vários palácios; ela deu o seu corpo às feras.
  41. Ela matou sua parentela com forte veneno de sapos; ela foi flagelada com muitos bastões.
  42. Ela foi feita em pedaços sob a Roda; as mãos do enforcado a prenderam nela.
  43. As fontes de água se desprenderam sobre ela; ela lutou com tormento excessivo.
  44. Ela foi rompida pelo impacto com o peso das águas; ela afundou no Mar terrível.
  45. Assim sou eu, Ó Adonai, meu senhor, e tais são as águas da Tua insuportável Essência.
  46. Assim sou eu, Ó Adonai, meu bem amado, e Tu me rompeste completamente pelo impacto.
  47. Eu estou derramado como o sangue jorrado por sobre as montanhas; os Corvos da Dispersão me carregaram totalmente para longe.
  48. Portanto o selo está desatado, o qual guardava o Oitavo abismo; portanto o vasto mar é como um véu; portanto há uma divisão de todas as coisas.
  49. Sim, também verdadeiramente Tu és a água fria parada da fonte do feiticeiro. Eu me banhei em Ti, e me perdi na Tua quietude.
  50. Aquele que adentrou como um bravo garoto com belos membros acabou como uma donzela, como uma criancinha para perfeição.
  51. Ó Tu, luz e deleite, arrebata-me para longe no oceano leitoso das estrelas!
  52. Ó Tu, Filho de uma mãe que transcende a luz, bendito seja o Teu nome, e o Nome do Teu Nome, por toda a eternidade!
  53. Vede! Eu sou uma borboleta na Fonte da Criação; deixa-me morrer antes da hora, caindo morto na Tua correnteza infinita!
  54. Também a correnteza das estrelas flui mais majestosa sobre a Morada; carrega-me para longe no Seio de Nuit!
  55. Este é o mundo das águas de Maim; esta é a água amarga que se tornou doce. Tu és belo e amargo, Ó dourado, Ó meu Senhor Adonai, Ó tu Abismo de Safira!
  56. Eu Te sigo, e as águas da Morte lutam tenazmente contra mim. Eu atravesso as Águas para além da Morte e além da Vida.
  57. Como eu responderei ao homem tolo? De jeito nenhum ele virá à Tua Identidade!
  58. Mas eu sou o Louco que não teve cautela com o Jogo do Mago. A mim a Mulher dos Mistérios instruiu em vão; eu rebentei os elos do Amor e do Poder e da Adoração.
  59. Portanto a Águia se tornou uma com o Homem, e as forcas da infâmia dançam com o resultado do justo.
  60. Eu desci, Ó meu querido, nas águas negras brilhantes, e eu Te puxei como uma pérola negra de infinita preciosidade.
  61. Eu desci, Ó meu Deus, no abismo de tudo, e eu Te encontrei no meio sob a máscara de Nada.
  62. Mas como Tu és o Último, Tu és também o Próximo, e como o Próximo eu Te revelo na multidão.
  63. Aqueles que sempre Te desejaram Te alcançarão, mesmo no Fim do seu Desejo.
  64. Glorioso, glorioso, glorioso és Tu, Ó meu amante celeste, Ó Ser do meu ser.
  65. Pois eu Te descobri igualmente no Mim e no Ti; não há diferença, Ó meu Belo, meu Desejável! No Um e nos Muitos eu Te descobri; sim, eu Te descobri.

IV

  1. Ó, coração de cristal! Eu a Serpente, Te agarro; eu penetro a minha cabeça no núcleo central de Ti, Ó Deus meu bem amado.
  2. Exatamente como nas retumbantes alturas de Mitylene açoitadas pelo vento onde alguma mulher semelhante à divindade que lança à parte a lira, e com seus cachos em chamas como uma auréola, mergulha no coração encharcado da criação, também assim eu, Ó Senhor meu Deus!
  3. Há uma beleza indescritível neste coração de corrupção, onde as flores estão em chamas.
  4. Ai de mim! Mas a sede do Teu prazer resseca esta garganta, de modo que não consigo cantar.
  5. Eu farei para mim um pequeno barco com a minha língua, e explorarei os rios desconhecidos. Pode ser que o sal eterno venha a se tornar doçura, e que a minha vida possa não mais ser sedenta.
  6. Ó vós que bebeis da salmoura do vosso desejo, vós estais próximos da loucura! Vossa tortura aumenta enquanto vós bebeis, ainda assim vós continuareis a beber. Vinde através das enseadas até a água fresca; eu estarei aguardando por vós com meus beijos.
  7. Como a pedra-bezoar que é encontrada no ventre da vaca, assim é o meu amor entre os amantes.
  8. Ó menino de mel! Traz-me Teus membros frios para cá! Sentemos por algum tempo no pomar, até que o sol se ponha! Festejemos sobre a grama fria! Trazei vinho, vós escravos, para que as faces do meu menino possam ficar coradas.
  9. No jardim dos beijos imortais, Ó Tu Brilhante, irradiai! Fazei da Tua boca ópio-de-papoula, para que um beijo seja a chave para o sono infinito e lúcido, o sono de Shi-loh-am.
  10. Em meu sono eu percebo Universo como um cristal claro sem uma única impureza.
  11. Existem os miseráveis que se arrogam como se ricos fossem e que ficam na porta da taverna e tagarelam bêbados de vinho sobre seus feitos.
  12. Existem os miseráveis que se arrogam como se ricos fossem e que ficam na porta da taverna e ultrajam os convidados.
  13. Os convidados flertam sobre divãs de madrepérola no jardim; o ruído dos homens tolos é escondido deles.
  14. O estalajadeiro teme apenas que os favores do rei venham a lhe ser negados.
  15. Assim falou o Mestre V.V.V.V.V. a Adonai seu Deus, enquanto eles brincavam juntos sob a luz das estrelas no poço negro e profundo que está no Lugar Santo da Casa Santa sob o Altar do Santíssimo.
  16. Mas Adonai riu, e brincou mais languidamente.
  17. Então o escriba tomou nota, e estava feliz. Mas Adonai não tinha medo do Mago e do seu jogo.
    Pois foi Adonai que havia ensinado todos os seus truques ao Mago.
  18. E o Mestre entrou no jogo do Mago. Quando o Mago riu, ele riu; tudo como um homem deve fazer.
  19. E Adonai disse: Tu estás enredado na teia do Mago. Isto Ele disse sutilmente, para experimentá-lo.
  20. Mas o Mago deu o sinal do Mestrado, e riu voltando-se para Ele: Ó Senhor, Ó amado, estes dedos relaxam sobre os Teus cachos, ou estes olhos se desviam dos Teus?
  21. E Adonai se deleitou excessivamente com ele.
  22. Sim, Ó meu mestre, tu és o amado do Amado; o Pássaro Bennu não está estabelecido em Philæ em vão.
  23. Eu que era a sacerdotisa de Ahathoor regozijo no teu amor. Ergue-te, Ó Deus-Nilo, e devorai o lugar santo da Vaca do Céu! Que o leite das estrelas seja bebido por Sebek o habitante do Nilo!
  24. Ergue-te, Ó serpente Apep, Tu és Adonai o amado! Tu és meu querido e meu senhor, e o Teu veneno é mais doce que os beijos de Isis a mãe dos Deuses!
  25. Pois Tu és Ele! Sim, Tu engolirás Asi e Asar, e os filhos de Ptah. Tu derramarás uma enxurrada de veneno para destruir as obras do Mago. Apenas o Destruidor Te devorará; Tu enegrecerás sua garganta, onde habita o seu espírito. Ah, serpente Apep, mas eu Te amo!
  26. Meu Deus! Deixe que a Tua presa secreta perfure até o tutano do ossinho secreto que eu mantive contra o Dia da Vingança de Hoor-Ra. Que Kheph-Ra ressoe seu élitro de zangão! Que os chacais do Dia e da Noite uivem no deserto do Tempo! Que as Torres do Universo oscilem, e que os guardiões corram para longe! Pois o meu Senhor Se revelou como uma poderosa serpente, e o meu coração é o sangue do Seu corpo.
  27. Eu sou uma languida cortesã amorosa de Corinto. Eu brinquei com reis e capitães, e os tornei meus escravos. Até hoje eu sou a escrava da pequena víbora da morte; e quem desprenderá o nosso amor?
  28. Exaustão, exaustão! Disse o escriba, quem me conduzirá até a visão do Êxtase do meu mestre?
  29. O corpo está exausto e a alma está dolorosamente exausta e o sono pesa nas suas pálpebras; ainda assim sempre permanece a indubitável consciência do êxtase, desconhecido, ainda assim conhecido naquilo em que seu ser é infalível. Ó Senhor, sede meu auxílio, e traz-me ao êxtase do Bem Amado!
  30. Eu vim até a casa do Bem Amado, e o vinho era como fogo que voava com asas verdes através do mundo das águas.
  31. Eu senti os lábios vermelhos da natureza e os lábios negros da perfeição. Como irmãs elas afagaram a mim, seu irmãozinho; elas me enfeitaram como uma noiva; elas me prepararam para a Sua câmara nupcial.
  32. Elas voaram para longe na Tua chegada; eu estava sozinho perante Ti.
  33. Eu tremi na Tua chegada, Ó meu Deus, pois o Teu mensageiro era mais terrível do que a Estrela da Morte.
  34. Na soleira permaneceu a fulminante figura do Mal, o Horror da vacuidade, com seus olhos sinistros como poços venenosos. Ele permaneceu, e a câmara estava corrompida; o ar estava pestilento. Ele era um peixe velho e enrugado mais medonho do que as conchas de Abaddon.
  35. Ele me envolveu com seus tentáculos de demônio; sim, os oito terrores se apoderaram de mim.
  36. Mas eu estava ungido com o genuíno óleo suave do Mestre; eu deslizei do abraço como uma pedra arremessada por um garoto dos bosques.
  37. Eu estava plano e duro como marfim; o horror não se apossou. Então ao ruído do vento da Tua chegada ele foi dissolvido, e o abismo da grande voz foi aberto perante mim.
  38. Através do mar sem ondas da eternidade Tu cavalgaste com Teus capitães e Tuas hostes; com Tuas carruagens e cavaleiros e lanceiros Tu viajaste através do azul.
  39. Antes que eu Te visse, Tu já estavas comigo; eu fui transpassado pela Tua lança maravilhosa.
  40. Eu fui atingido como um pássaro pelo raio de Júpiter; eu fui perfurado como um ladrão pelo Senhor do Jardim.
  41. Ó meu Senhor, velejemos por sobre o mar de sangue!
  42. Há uma profunda mácula sob o êxtase inefável; é a macula da geração.
  43. Sim, embora a flor na onda cintile ao brilho do sol, a raiz é profunda na escuridão da terra.
  44. Louvor a ti, Ó bela terra escura, tu és a mãe de um milhão de miríades de miríades de flores.
  45. Também eu contemplei o meu Deus, e o Seu semblante era mil vezes mais brilhante do que o raio. Ainda assim no seu coração eu observei o Lento e Escuro, o antigo, o devorador dos Seus filhos.
  46. Nas alturas e no abismo, Ó meu belo, não há nada, realmente, não há nada em absoluto, que não seja completamente e perfeitamente formado para o Teu deleite.
  47. A Luz se fixa na Luz, e a sujeira na sujeira; com orgulho um despreza o outro. Mas não Tu, que és tudo, e mais além; que estás absolvido da Divisão das Sombras.
  48. Ó dia de Eternidade, que a Tua onda irrompa em glória sem espuma de safira sobre o laborioso coral de nossa criação!
  49. Fizemos para nós um anel de areia branca brilhante, sabiamente espalhada no meio do Oceano Encantador.
  50. Que as palmeiras brilhantes floresçam sobre a nossa ilha; nós comeremos do seu fruto, e seremos felizes.
  51. Mas para mim a água da purificação, a grande ablução, a dissolução da alma naquele abismo retumbante.
  52. Eu tenho um filho pequeno que é como um bode travesso; minha filha é como uma jovem águia ainda sem penas; eles terão barbatanas, a fim de que possam nadar.
  53. Que eles possam nadar, Ó meu bem amado, nadar para longe no mel cálido do Teu ser, Ó abençoado, Ó garoto de beatitude!
  54. Este meu coração está circundado com a serpente que devora suas próprias espiras.
  55. Quando haverá um fim, Ó meu querido, Ó quando o Universo e o Senhor deste serão completamente engolidos?
  56. Não! quem devorará o Infinito? Quem desfará o Erro do Início?
  57. Tu gritaste como um gato branco sobre o teto do Universo; não há ninguém para Te responder.
  58. Tu és como uma pilastra solitária no meio do mar; não há ninguém para Te contemplar, Ó Tu que contemplas tudo!
  59. Tu desmaiaste, tu falhaste, tu, escriba; gritou a Voz desolada; mas eu te preenchi com um vinho cujo sabor tu não conheces.
  60. Será proveitoso embriagar o povo da velha esfera cinza que rola no Remoto infinito; eles lamberão o vinho como os cães que lambem o sangue de uma bela cortesã transpassada pela Lança de um cavaleiro que passa veloz através da cidade.
  61. Eu também sou a Alma do deserto; ainda assim tu me buscarás novamente no deserto de areia.
  62. Na tua mão direita um grande soberano e um galante; na tua mão esquerda uma mulher vestida de tênue tecido e ouro e portando as estrelas no seu cabelo. Vós viajareis para longe em uma terra de pestilência e infortúnio; vós acampareis à margem do rio de uma louca cidade esquecida; lá vós vos encontrareis Comigo.
  63. Lá eu farei a Minha morada; eu virei adornado e ungido como que para núpcias; lá a Consumação será realizada.
  64. Ó meu querido, eu também aguardo pelo brilho da hora inefável, quando o universo será como um cinturão para o centro do raio do nosso amor, estendendo-se para além do fim permitido do Eterno.
  65. Então, Ó tu, coração, eu a serpente te devorarei totalmente; sim, eu te devorarei totalmente.

V

  1. Ah! meu Senhor Adonai, que flertais com o Mago na Casa dos Tesouros de Pérolas, deixa-me ouvir o eco dos teus beijos.
  2. O céu estrelado não é sacudido como uma folha pelo trêmulo arrebatamento do teu amor? Não sou eu a esvoaçante centelha de luz lançada em rodopio pelo grande vento da tua perfeição?
  3. Sim, eu gritei para O Santo, e da Tua centelha eu acenderei ao Senhor uma grande luz; eu queimarei através da grande cidade na terra velha e desolada; eu a limparei da sua grande impureza.
  4. E tu, Ó profeta, verá estas coisas, e tu não prestará atenção a elas.
  5. Agora o Pilar está estabelecido no Vazio; agora Asi está repleta com Asar; agora Hoor desce para a Alma Animal das Coisas como uma estrela flamejante que cai por sobre a escuridão da terra.
  6. Através da meia noite tu és lançado, Ó minha criança, meu conquistador, meu capitão cingido com a espada, Ó Hoor! E eles te encontrarão como uma pedra negra sulcada cintilante, e eles te adorarão.
  7. Meu profeta fará profecia a respeito de ti; as donzelas dançarão ao redor de ti, e bebês esplendorosos nascerão delas. Tu inspirarás os orgulhosos com orgulho infinito, e os humildes com um êxtase de humilhação; e tudo isso transcenderá o Conhecido e o Desconhecido algo que não tem nome. Pois isto é como o abismo do Arcano que está aberto no secreto Local do Silêncio.
  8. Tu vieste para cá, Ó meu profeta, através de caminhos sombrios. Tu comeste do estrume dos Abomináveis; tu te prostraste perante o Bode e o Crocodilo; os homens maus fizeram de ti um joguete; tu tens perambulado como uma meretriz pintada, encantando com um doce perfume e tinturas chinesas, nas ruas; tu escureceste as covas dos teus olhos com Kohl; tu pintaste teus lábios com cor escarlate; tu cobriste as tuas faces com esmaltes de marfim. Tu agiste como devassa em cada portal e atalhos da grande cidade. Os homens da cidade te cobiçaram para abusar de ti e para te espancar. Eles abocanharam as lantejoulas douradas de pó fino com as quais tu adornaste o teu cabelo; eles açoitaram a tua carne pintada com os seus chicotes; tu sofreste coisas indizíveis.
  9. Mas eu queimei por dentro de ti como uma pura chama sem óleo. À meia noite eu era mais brilhante do que a lua; à luz do dia eu excedia completamente o sol; nos atalhos do teu ser eu incendiei, e dissipei a ilusão.
  10. Portanto tu és totalmente puro diante de Mim; portanto tu és a Minha virgem pela eternidade.
  11. Portanto eu te amo com amor incomparável; portanto aqueles que te desprezam adorarão a ti.
  12. Tu serás amável e deplorável com relação a eles; tu os curarás do mal inexprimível.
  13. Eles se modificarão na sua destruição, exatamente como duas estrelas negras que colidem entre si no abismo, e fulguram num incêndio infinito.
  14. Tudo isso enquanto Adonai perfurava o meu ser com sua espada que tem quatro lâminas; a lâmina do raio, a lâmina da Torre, a lâmina da serpente, a lâmina do Falo.
  15. Também ele me ensinou a santa palavra inefável Ararita, de modo que eu fundi o ouro sêxtuplo em um único ponto invisível, sobre o qual nada pode ser falado.
  16. Pois o Mestrado desta Obra é um mestrado secreto; e o sinal do seu mestre é um certo anel de lápis-lazúli com o nome do meu mestre, que sou eu, e o Olho está no Centro deste.
  17. Ele também disse: Isto é um sinal secreto, e tu não o revelarás ao profano, nem ao neófito, nem ao zelator, nem ao practicus, nem ao philosophus, nem ao adepto menor, nem ao adepto maior.
  18. Porém ao adeptus exemptus tu te revelarás se tu necessitares dele para as operações menores da tua arte.
  19. Aceita a adoração dos tolos, a quem tu odeias. O Fogo não é corrompido pelos altares dos Ghebers, nem a Lua é contaminada pelo incenso daqueles que adoram a Rainha da Noite.
  20. Tu habitarás entre as pessoas como um precioso diamante entre diamantes turvos, e cristais, e pedaços de vidro. Apenas o olho do mercador justo te perceberá, e terá apenas a ti mergulhado em sua mão e te glorificará perante os homens.
  21. Mas tu não darás atenção a nada disso. Tu serás sempre o coração, e eu, a serpente, me enroscarei fortemente ao teu redor. Minha espira jamais relaxará ao longo dos æons. Nem modificação, nem pesar, nem a não substancialidade terá a ti; pois tu terás passado para além de todas estas.
  22. Exatamente como o diamante resplandecerá vermelho para a rosa, e verde para a folha da rosa; assim tu habitarás aparte das Impressões.
  23. Eu sou tu, e o Pilar está estabelecido no vazio.
  24. Também tu estás além das estabilidades do Ser e da Consciência e do Êxtase; pois eu sou tu, e o Pilar está estabelecido no vazio.
  25. Também tu discorrerás sobre estas coisas para o homem que as escreveu, e ele compartilhará delas como um sacramento; pois eu que sou tu sou ele, e o Pilar está estabelecido no vazio.
  26. Da Coroa até o Abismo, assim isto segue único e ereto. Também a esfera ilimitada cintilará com o brilho disto.
  27. Tu regozijarás nos poços de água adorável; tu adornarás tuas damas com pérolas de fecundidade; tu acenderás chamas como línguas flagelantes do licor dos Deuses entre os poços.
  28. Também tu converterás o ar todo abrangente nos ventos de água opaca, tu transmutarás a terra num abismo azul de vinho.
  29. Rubros são os brilhos de rubi e ouro que ali cintilam; uma gota embriagará o Senhor dos Deuses meu servidor.
  30. Também Adonai se dirigiu a V.V.V.V.V. dizendo: Ó meu pequeno, meu meigo, meu pequeno amoroso, minha gazela, meu belo, meu menino, deixemos o pilar do Infinito repleto com um beijo infinito!
  31. De modo que o estável foi abalado e o instável ficou imóvel.
  32. Aqueles que contemplavam isto gritaram assustados num formidável tumulto: O fim das coisas chegou até nós.
  33. E foi assim mesmo.
  34. Eu também estava na visão do espírito e observei um cortejo parricida de ateus, que seguia de dois em dois no êxtase celestial das estrelas. Eles riam e regozijavam excessivamente, estavam vestidos com túnicas púrpuras e embriagados com vinho púrpuro, e toda a sua alma era uma chama como uma flor púrpura de santidade.
  35. Eles não contemplavam a Deus; eles não contemplavam a Imagem de Deus; portanto eles foram erguidos até o Palácio do Esplendor Inefável. Uma espada afiada golpeou com força diante deles, e o verme Esperança se contorceu na sua agonia de morte sob os seus pés.
  36. Assim como o seu êxtase lançou distante a Esperança visível, também o Medo Invisível voou para longe e não mais existia.
  37. Ó vós que estais além de Aormuzdi e Ahrimanes! Benditos sois vós pelas eras.
  38. Eles forjaram a Dúvida como uma foice, e colheram as flores da Fé para suas grinaldas.
  39. Eles forjaram o Êxtase como uma lança, e perfuraram o antigo dragão que se sentava sobre a água estagnada.
  40. Então as fontes de água fresca foram abertas, de modo que o povo sedento pudesse ser saciado.
  41. E novamente eu fui trazido à presença do meu Senhor Adonai, e o conhecimento e a Conversação do Santo, o Anjo que me Protege.
  42. Ó Santo Exaltado, Ó Ser além do ser. Ó Imagem Auto Luminosa do Nada Inimaginável, Ó meu querido, meu belo, vindes Tu e segui-me.
  43. Adonai, divino Adonai, que Adonai inicie um galanteio refulgente! Então eu ocultei o nome do Seu nome que inspirou o meu êxtase, perfume de cujo corpo encanta a alma, a luz de cuja alma rebaixa este corpo até aos animais.
  44. Eu suguei o sangue com os meus lábios; eu drenei o sustento da Sua beleza; eu A degradei diante de mim, eu A subjuguei, eu a possuí, e a Sua vida está dentro de mim. No Seu sangue eu gravei os enigmas secretos da Esfinge dos Deuses, que ninguém entenderá – salvo apenas o puro e voluptuoso, o obsceno, o andrógino e o hermafrodita que passaram para além das barras da prisão que o velho Lodo de Khem colocou nos Portões de Amenti.
  45. Ó meu adorável, meu delicioso, toda noite eu derramarei a libação nos Teus altares; toda noite eu queimarei o sacrifício de sangue; toda noite eu balançarei o turíbulo do meu deleite perante Ti, e o fervor das orações embriagará as Tuas narinas.
  46. Ó Tu que vieste da terra do Elefante, cingido com a pele do tigre, e coroado com o lótus do espírito, Tu inebrias a minha vida com a Tua loucura, que Ela salte à minha passagem.
  47. Ordenai que as Tuas donzelas que Te seguem cubram para nós uma cama com flores imortais, para que nós possamos obter ali o nosso prazer. Ordenai que os Teus sátiros juntem espinhos entre as flores, para que nós possamos obter ali a nossa dor. Que o prazer e a dor sejam misturadas em uma oferta suprema ao Senhor Adonai!
  48. Também eu ouvi a voz de Adonai, o Senhor, o desejável se preocupando com aquilo que está além.
  49. Que os habitantes de Thebai e dos templos de lá não tagarelem nenhuma vez sobre os Pilares de Hercules e o Oceano do Oeste. Não é o Nilo uma bela extensão de água?
  50. Que o sacerdote de Isis não descubra a nudez de Nuit, pois cada passo é uma morte e um nascimento. O sacerdote de Isis ergueu o véu de Isis, e foi morto pelos beijos de sua boca. Então ele foi o sacerdote de Nuit, e bebeu do leite das estrelas.
  51. Que o fracasso e a dor não desviem os adoradores. As fundações da pirâmide foram talhadas na rocha viva antes do por do sol; o rei lamentou na alvorada que a coroa da pirâmide ainda não foi trabalhada na terra distante?
  52. Havia também um pássaro sussurrante que falou para a cerastes de chifres, e rogou a ela por veneno. E a grande serpente de Khem o Santo, a real serpente Uræus, respondeu a ele dizendo:
  53. Eu velejei sobre o céu de Nu na carruagem chamada Milhões-de-Anos, e eu não vi criatura alguma em Seb que fosse igual a mim. O veneno da minha presa é a herança do meu pai, e do pai do meu pai; e como eu o darei a ti? Vive tu e teus filhos como eu e meus pais vivemos, mesmo em cem milhões de gerações, e pode ser que a piedade dos Poderosos possa conceder aos teus filhos uma gota do veneno da velhice.
  54. Então o pássaro sussurrante ficou aflito em seu espírito, e ele voou para as flores, e foi como se nada tivesse sido falado entre eles. Ainda assim em um pequeno instante uma serpente o atacou e ele morreu.
  55. Porém um Ibis que meditava sobre a margem do Nilo, o belo deus ouviu. E ele deixou de lado seu modo de Ibis, e se transformou numa serpente, dizendo Porventura em cem milhões de milhões de gerações de meus filhos, eles obterão uma gota do veneno da presa do Exaltado.
  56. E vede! Antes que a lua crescesse três vezes ele se tornou uma serpente Uræus, e o veneno da presa ficou estabelecido nele e na sua semente por todo o sempre.
  57. Ó tu Serpente Apep, meu Senhor Adonai, é uma partícula do tempo mais ínfimo, esta viagem através da eternidade, e à Tua vista os marcos de fronteira são de mármore bem claro intocados pelo instrumento do escultor. Portanto Tu és meu, nesse momento e para sempre e por toda a eternidade. Amém.
  58. Além disso, eu ouvi a voz de Adonai: Selai o Livro do Coração e da Serpente; com o número cinco e sessenta sela tu o santo livro.
    Como ouro fino que é transformado num diadema para a leal rainha do Faraó, como grandes pedras que são cimentadas juntas na Pirâmide da cerimônia da Morte de Asar, igualmente tu unirás as palavras e as escrituras, de modo que em tudo haja um Pensamento de Mim teu deleite Adonai.
  59. E eu respondi dizendo: Isto é feito exatamente de acordo com a Tua palavra. E assim foi feito. E aqueles que leram o livro e debateram sobre ele passaram para a terra desolada das Palavras Estéreis. E aqueles que selaram o livro no seu sangue foram os escolhidos de Adonai, e o Pensamento de Adonai era uma Palavra e uma Escritura; e eles habitaram na Terra que os viajantes de locais distantes chamam de Nada.
  60. Ó terra além do mel e dos temperos e toda perfeição! Eu habitarei ali com o meu Senhor para sempre.
  61. E o Senhor Adonai se deleitou em mim, e eu levei o Cálice da Sua alegria para os fatigados da velha terra cinza.
  62. Aqueles que dele beberam foram afetados com doenças; a abominação os dominou, e seu tormento é como a grossa fumaça preta da morada do mal.
  63. Mas os escolhidos beberam dele, e se tornaram exatamente como o meu Senhor, meu belo, meu desejável. Não existe vinho igual a este vinho.
  64. Eles estão reunidos em um coração cintilante, como Ra que reuniu suas nuvens ao Seu redor ao entardecer em um mar derretido de Prazer; e a serpente que é a coroa de Ra os atou com o cinto dourado dos beijos da morte.
  65. Assim também é o final do livro, e o Senhor Adonai está ao redor deste em todos os lados como um Raio, e uma Torre, e uma Serpente, e um Falo, e no centro deste ele é como a Mulher que lançou o leite das estrelas dos seus mamilos; sim, o leite das estrelas dos seus mamilos.

© 2017 e.v. - O.T.O. - Ordo Templi Orientis





Liber Cordis Cincti Serpente

Título Técnico: Liber LXV - Liber Cordis Cincti Serpente sub figurâ אדני
Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso
Revisão: Nina Castro
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.1 - 28/01/2012 e.v.
Nota:

Um relato das relações do Aspirante com o seu Sagrado Anjo Guardião. Este livro é dado aos Probacionistas, pois o conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião é a Coroa do Colégio Externo. Similarmente Liber VII é dado aos Neófitos, pois o grau de Mestre do Templo é o próximo local de descanso e Liber CCXX ao Zelator, uma vez que ele o leva ao mais alto de todos os graus possíveis. Liber XXVII é dado ao Practicus, já que neste livro está a fundação última da mais elevada Qabalah teórica e Liber DCCCXIII ao Philosophus, já que ele é a fundação da mais elevada Qabalah prática. Este livro foi recebido entre 30 de outubro e 03 de novembro de 1907 e.v..


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V.V.V.V.V.

V.V.V.V.V. (Vi Veri Vniversum Vivus Vici, Pela força da Verdade Eu Conquistei o Universo Ainda Vivo) é o mote tomado por Crowley quando de seu juramento de Mestre do Templo.

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