Orobas, um Blog sobre a História da O.T.O. por Carlos Raposo

Herança Templária: história ou mitologia retrospectiva?

por Carlos Raposo em História, Ordo Templi Orientis

Orobas, um Blog sobre a História da O.T.O. por Carlos Raposo
História

Herança Templária: história ou mitologia retrospectiva?

por Carlos Raposo

Não basta constatar o embuste.
É preciso também descobrir seus motivos.
(Marc Bloch, em Apologia da História)

Num primeiro momento, por associação direta, a designação nominativa Ordo Templi Orientis (“Ordem dos Templários do Oriente”) evoca a imediata lembrança da histórica Ordem do Templo, da qual fizeram parte os famosos Cavaleiros Templários, também conhecidos como os Pobres Cavaleiros de Cristo. Daí surge a inevitável indagação: qual a verdadeira conexão existente entre estas duas Ordens? O presente post visa responder essa questão, bem como explorar as razões pelas quais algumas Ordens buscam cercar de glórias as suas supostas raízes.

No que diz respeito à famosa Ordem do Templo, apesar dela ter sido agraciada como uma vasta estrutura, pretensamente capaz de tudo suportar, os historiadores menos inclinados a elucubrações românticas são duramente taxativos quando afirmam a completa supressão da instituição templária (Demurger, 2002:262). Porém, dentro das especulações acerca dos legendários Cavaleiros Templários é perfeitamente possível supor que alguns deles tenham escapado da atroz perseguição imposta à Ordem, a qual desembocou, ainda no alvorecer do século XIV, na extinção da instituição. Embora a grande maioria deles tenha sido subjugada, encarcerada ou morta (Demurger, 1986:276), admitindo-se uma possibilidade de fuga, ora os Cavaleiros remanescentes se uniriam a diferentes Ordens Militares ora subsistiriam em outros lugares, sob nova denominação. Assim, uma vez consentindo a existência de uma doutrina templária tanto secreta quanto iniciática (Evola, 1987:132) e uma vez aceitando que alguns Templários haveriam escapado, estima-se que, deste modo, seus remanescentes puderam de alguma forma dar prosseguimento à disseminação do conhecimento que possuíam, chegando até mesmo a – como a lenda se esforça por sustentar – continuar com o padrão iniciático que se crê ter sido secretamente praticado pelos Templários na época da Ordem do Templo. Estritamente condicionada a esta frágil possibilidade, acredita-se, então, que os mistérios outrora pertencentes aos Cavaleiros Templários tenham, de alguma forma não muito clara, permanecidos até os dias atuais.

Templários

Templários

A partir da hipótese acima construída, são inúmeros aqueles que se avigoram no sentido de procurar estabelecer vínculos históricos entre a Ordem do Templo e movimentos contemporâneos entendidos como possuidores de natureza templária ou, quiçá, neo-templária. Contudo, em que se pese todo esse empenho, até o presente momento, tanto a revelia da opinião expressada pelo senso comum quanto das paixões suscitadas pelo tema, não há estudo confiável sob o ponto de vista histórico que demonstre claramente qualquer linha de transmissão dos alegados mistérios templários até os nossos dias, assim como supostamente cultivados pelos Cavaleiros do Templo. Aliás, até mesmo a afirmação de terem sido os Templários possuidores de conhecimentos espirituais ocultos, secretos, inefáveis e iniciáticos, encontra-se hoje tão cercada por folclores e superstições, que mesmo um pesquisador pouco ajuizado tenderá a apreciar com sérias reservas a hipótese de uma alegada herança Templária naquilo que diz estrito respeito a sua pretensa doutrina mística. Inserido neste contexto, costuma-se citar, por exemplo, o caso do mais famoso ídolo templário. Apesar de contar com grande popularidade no permissivo meio esotérico atual, tantos são os absurdos ditos acerca de Baphomet, que não mais se ousa afirmar que o ídolo realmente existiu no seio da Ordem do Templo, mas que ele não passa – conjetura esta que tem ganhado força – de uma simples estrutura imaginária tardia, um mito posterior aos próprios Cavaleiros do Templo de Jerusalém.[1]

Consequentemente, ante a impossibilidade de se demonstrar, de modo taxativo, uma herança templária, algumas Ordens contemporâneas têm nitidamente mudado o enfoque de seus discursos, esforçando-se no sentido de traçar paralelos entre as suas atividades e as atividades da antiga Ordem do Templo. Segundo o novo enfoque, embora de fato não exista nada conclusivo sobre a herança templária, a partir de certos pontos considerados comuns entre as Ordens seria então possível aceitar nos grupos contemporâneos a existência daquele anseio religioso, a influência do espírito sagrado outrora presente naquela antiga Ordem. Neste sentido, as atuais Ordens promoveram a transformação dos eventos das antigas Confrarias de Cavalaria em alegorias místicas. Assim, por exemplo, viagens ao oriente misterioso foram adequadas a jornadas iniciáticas simbólicas, realizadas no interior de templos; percalços da peregrinação em direção ao sagrado, transformadas em pequenas provações, ordálios e trotes ritualísticos; conquanto que a própria Irmandade de Cavalaria a salvaguardar os peregrinos nos longos e perigosos percursos à Terra Santa, convertida em uma Ordem Iniciática a proteger seus adeptos na tortuosa senda individual em demanda do conhecimento sagrado.

Muito correto é afirmar que tal horizonte, por vago e lato em termos de uma autêntica herança espiritual, não soa algo convincente. Entretanto, seja dito que para muitos grupos simplesmente é isso o que lhes restou.

Destarte, respondendo a questão inicialmente proposta, não existe qualquer conexão plausível entre a O.T.O. e os Cavaleiros Templários.[2] Contudo, embora esta prática seja adotada por poucos, existem ramificações da O.T.O. que aproveitam a óbvia associação nominativa, tendendo discretamente a incentivá-la, no sentido de sedimentar em seus membros a tácita certeza de que eles não somente fazem parte de algo sagrado, mas também de uma Ordem inegavelmente histórica, antiga, a qual, por séculos a fio, teria sido de grande valia para os rumos místicos do ocidente. Com este fito, antes de qualquer investida expositiva sobre a história da O.T.O., tornou-se voga nestas ramificações, apresentar-se – a título de “introdução” – uma série de informações generalistas sobre os Cavaleiros Templários, de modo a produzir um automático e hipotético vínculo advindo de um possível legado templário.[3] Ao mesmo tempo, pretende-se com aquelas informações introdutórias, seguindo a idéia central de sedimentar a natureza do sagrado e do antigo, a partir da expectativa de que o conhecimento dos Templários houvesse sido preservado, estabelecer a existência nos nossos dias de uma espécie de revival esotérico (Wasserman, 1990:92), o qual teria indiscutível origem na fundação da Ordem dos Cavaleiros Templários, por Hughes de Payens, em 1118.

A O.T.O., assim apresentada chega a ser erroneamente interpretada por alguns como uma natural herdeira dos Cavaleiros Templários. Historicamente, entretanto, não existe qualquer evidência, ou sequer vestígio, que possa unir estes àquela. Porém, também seja dito, dentro do contexto de alguns grupos iniciáticos atuais, há a premente necessidade de se fomentar tal tipo de falsa conexão, por um motivo de fato bem simples: por vezes ela é a força motriz que impulsiona o espírito ideológico responsável pela existência dos próprios grupos.

Não são raros os exemplos de Ordens a se utilizarem daquilo que, academicamente, pode ser chamado de mitologia retrospectiva, ou seja, manipular consideravelmente os fatos tendo em vista a construção de um fictício passado glorioso. Como freqüentemente dito pelos totalitaristas, na falta de um passado convincente é perfeitamente possível se forjar um. No embalo deste furor ideológico, há até uma facção da O.T.O., a qual, extrapolando quaisquer dos limites sugeridos pelo bom senso, ao abusar da fórmula das mitologias retrospectivas, além de forçar um elo com os antigos Cavaleiros Templários, faz exatamente o mesmo com diversas correntes de pensamento iniciático, como a Maçonaria, o Gnosticismo, a Teosofia, a Rosacruz, o Iluminismo, as Escolas Pagãs, etc. Conforme os seguidores desta ramificação, estes movimentos iniciáticos nada mais representariam senão a agitação da natureza, o imbróglio necessário à germinação da verdadeira Ordem, a qual seria representada por eles mesmos. Deste modo, conforme este canhestro discurso, a O.T.O. seria o produto final de uma espécie de histórica e magistral confluência de divergentes correntes de sabedoria (sic).

Concluindo, segue a recomendação: ao tomar contato com qualquer Ordem que alegue possuir ascendência na Ordem do Templo e que alegue ter raízes nos Cavaleiros Templários, antes de simplesmente aceitar o que é dito, valerá muito mais buscar referências seguras a respeito disso. Afinal, todo o rebuscado romantismo que cerca as Ordens iniciáticas é um instrumento que tende a levar o neófito ao crer, mas nunca ao saber.

Bibliografia

DEMURGER, Alain. 1986: Auge y Caída de los Templários. Barcelona: Martinez Roca.
_____. 2002: Os Cavaleiros de Cristo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

EVOLA, Julius. 1987: O Mistério do Graal. São Paulo: Pensamento.

WASSERMAN, James (aka fr. Ad Veritatem). 1990: “An Introduction to the History of the OTO”. In: BETA, Hymenaeus (Ed.) The Equinox, Vol. III, nº X. Maine: Samuel Weiser, pp 87-99.

Crédito das Imagens

Templários (acervo pessoal)

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. A esse respeito, ver minha pesquisa Os Mistérios de Baphomet. ↵ voltar
  2. Não seria exagero afirmar que o mesmo se aplica a diversas outras Ordens contemporâneas que alegam possuírem heranças diretas dos Templários. ↵ voltar
  3. A utilização ritualística de personagens históricos, por exemplo, como Saladino, é uma outra forma bem clara de sugerir uma possível herança ancestral. ↵ voltar

© 2016 e.v. - Carlos Raposo





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Carlos Raposo

O autor, Carlos Raposo, é historiador. Também é Maçom, M∴I∴ e grau 33 do R∴E∴A∴A∴. Pode ser contatado através do blog http://carlosraposo.wordpress.com/.

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