Orobas, um Blog sobre a História da O.T.O. por Carlos Raposo
História

Origens Maçônicas da O.T.O.

por Carlos Raposo

Consideramos que a invenção de tradições
é essencialmente um processo de formalização e ritualização,
caracterizado por referir-se ao passado,
mesmo que apenas pela imposição da repetição.
(Eric Hobsbawm, em A Invenção das Tradições)

Na construção que se procura fazer do passado histórico das Ordens iniciáticas é muito comum encontrarmos toda sorte de informações fictícias propositalmente dispostas para dar um ar de antiguidade, de grandeza e de glória ao próprio passado. Assim, apenas como exemplos rasteiros, chegaram a creditar a Adão a origem da Maçonaria, aos egípcios a da Rosacruz e aos hiperbóreos e atlantes a da Grande Fraternidade Branca.

Excessos à parte, no caso do debate que procura traçar as origens da O.T.O., um ponto parece há muito estabelecido: são maçônicas. Gostaria de adicionar aqui alguns elementos sob o ponto de vista histórico. Espero com isso enriquecer um pouco o debate que repensa sadiamente tais origens.

Inicialmente, aponta-se para duas figuras fundadoras, tidas como centrais na história do surgimento da O.T.O.: Carl Kellner (1851-1905) e Theodor Reuss (1855-1923). Ao mesmo tempo, coube ao ritmo natural que cria as retrospectivas míticas repeti-los como “Maçons de alto grau”, sendo até mesmo atribuído a Kellner a fundação de uma sublime Academia Maçônica da qual fariam parte tanto mulheres quanto maçons altamente ranqueados. Repetindo a ode divulgada pelo senso comum, caberia a essa Academia – conduzida por Reuss após a morte de Kellner – a transmissão de alguns segredos de natureza maçônica e místico-sexuais, cujas bases serviriam de alicerce para a Ordo Templi Orientis.

Por agora, limitarei o post a esses dois personagens, bem como sobre a existência da Academia Maçônica de Kellner.

Carl Kellner

Carl Kellner

A respeito de Carl Kellner, praticamente todas as referências bibliográficas que encontrei o situam como alguém brilhante. Era empresário, industrial, inventor, intelectual, culto, etc. Em relação à Maçonaria, contudo, a referência mais segura que se tem demonstra que ele teria sido tão somente iniciado em uma Loja Húngara chamada Humanitas, que abrigava parte da nata intelectual daquela região. Em suma, relacionado à Arte Real, comprova-se que Kellner fora Aprendiz Maçom e nada mais. Ressalve-se que, a revelia dele não ter seguido qualquer carreira Maçônica (nem oficial e nem marginal, nem regularmente e nem irregularmente), sendo somente Aprendiz Maçom, isso não fez dele alguém melhor ou pior. Kellner sempre foi um sujeito bastante respeitado e admirado nos círculos que frequentou. Ao mesmo tempo, as mesmas referências indicam que Kellner possuía um grande conhecimento teórico e prático sobre o Yoga, sendo reconhecido como um dos primeiros ocidentais a ter domínio nessa prática. Assim, se por um lado, talvez por puro desinteresse no tema, Kellner tenha se mantido distante da Maçonaria; por outro, são numerosas as citações que apontam para uma aproximação grande sua em relação ao Yoga. Em outras palavras, o interesse de Kellner era o Yoga e não a Maçonaria. Desse modo, uma vez que o próprio Kellner nem possuía grau maçônico alto e nem mesmo sequer possuía interesse na Maçonaria, é um equívoco supor que ele tenha planejado uma “Academia Maçônica” voltada para Maçons de alto grau, como base para qualquer Ordem vindoura.

Theodor Reuss

Theodor Reuss

Por sua vez, Theodor Reuss, quando residia em Londres, por indicação de um amigo ex-maçom chamado Heinrich Klein, foi recebido e iniciado como Aprendiz na Loja Maçônica Peregrino nº 238. Conforme fontes Maçônicas que tiveram acesso aos Balaústres da referida Loja, Reuss, apontado como farmacêutico, foi descrito como um “jovem homem de negócios de Augsburgo”. Ele foi iniciado na Maçonaria Simbólica em 8 de novembro de 1876 e elevado ao grau de Companheiro em 8 de maio de 1877. Finalmente, em 9 de janeiro de 1878, Reuss era exaltado ao grau de Mestre Maçom. Em 1º de outubro de 1880, entretanto, possivelmente por não honrar seus compromissos com sua Loja, Reuss simplesmente foi definitivamente excluído desse Corpo Maçônico. Em seguida, graças a algumas aventuras rocambolescas que lhe renderiam péssima reputação (suspeita de espionagem, criador de factoides e enriquecimento através de comércio de patentes maçônicas, entre tantas outras “atividades”), Reuss fugiria de Londres e jamais entraria novamente em qualquer Corpo Maçônico regular. Seja dito que a partir daí, Reuss estabelece uma série de conexões que lhe renderiam uma quantidade fantasticamente incrível de títulos místicos-maçônicos-iniciáticos-esotéricos-etc. Para ser ter uma leve ideia da fleuma de Reuss, mesmo muito depois de ser afastado de sua Loja Simbólica, ele costumava resumidamente se descrever como “Soberano Grão Mestre Geral ad vitam das Ordens Maçônicas Unidas da Escócia, de Memphis e Misraim, e de todo Reich Alemão, Soberano Grande Comendador, Grande Absoluto Soberano, Pontífice Soberano, Soberano Grão Mestre dos maçons da O.T.O., Supremo Magus Soc. Frat. R.C., SI, 33º, Termaximus Regens I.O. (i.e., Illuminatorum Ordo), etc”.

Ainda no que concerne à Academia Maçônica atribuída a Kellner, um pequeno addendum deve aqui ser feito: não deixa de ser curioso que absolutamente tudo que se saiba a respeito dessa Academia tenha origem justamente na pouco confiável palavra de Reuss.

Em suma, de tudo isso e tão somente a partir da documentação existente e do perfil tanto de Kellner quanto de Reuss, podemos inferir que:

Sobre Kellner:

  • Em termos de Maçonaria regular, Carl Kellner foi Aprendiz Maçom;
  • Não existe sequer um único indício seguro de que Kellner tenha fundado ou sequer planejado qualquer tipo de “Academia Maçônica”. Possivelmente, ela não passa de um factoide criado por Reuss;
  • Kellner jamais pretendeu transmitir algo que requereria “um conhecimento prévio de alguns segredos maçônicos”, mas, como demonstram seus textos, transmitir algum conhecimento teórico e prático de Yoga;
  • Não existe relação direta alguma entre Kellner e a Ordo Templi Orientis;

A respeito de Reuss:

  • Theodor Reuss, conforme a Maçonaria regular, chegou ao grau três, Mestre Maçom. Porém, foi excluído de sua Loja Simbólica e, a partir de então, jamais frequentou qualquer outro Corpo Maçônico Regular. Já quanto a maçonaria marginal (marginal no sentido da palavra inglesa “fringe”), Reuss foi grau máximo de “uma centena” de ritos, titulações sempre obtidas através de trocas ou comércio de patentes.
  • A Ordo Templi Orientis é uma criação exclusiva de Reuss e é posterior a Kellner (muito embora alguns outros nomes – mas não Kellner – tenham incidentalmente participado como coadjuvantes menores nos primeiros anos da O.T.O.).

Para quem quiser pesquisas que demonstrem com mais precisão o que acima foi apresentado, sugiro a leitura de:

  • “Theodor Reuss – Irregular Freemasonry in Germany, 1900-23″ por Ellic Howe, 33° – Originalmente publicado em Ars Quatuor Coronatorum – the Transactions of Quatuor Coronati Lodge No. 2076, UGLE in Volume 91 for the year 1978, p. 28. Versão on-line: http://freemasonry.bcy.ca/aqc/reuss/reuss.html.
  • “Fringe Masonry in England 1870-85″ por Ellic Howe, 33° – Originalmente publicado em Ars Quatuor Coronatorum, the Transactions of Quatuor Coronati Lodge No. 2076, UGLE in Volume 85 for the year 1972, p. 242. Versão on-line: http://freemasonry.bcy.ca/aqc/fringe/fringe.html.
  • Carl Kellner: Never a member of any O.T.O.; Por Peter Koenig – http://www.parareligion.ch/sunrise/ck.htm.

Dois outros textos meus disponibilizados aqui em Orobas ajudarão bastante a conhecer as vidas de Kellner e Reuss:

Creio que a leitura desses textos ajudará a esclarecer vários pontos ainda nebulosos desta história.

Por último, valerá dizer que, evidentemente, o que expus acima é algo bastante resumido, que está muito longe de fechar o assunto. Contudo, creio que no momento, o que foi apresentado basta para o fim que me propus: quem tiver um legítimo interesse nas supostas origens maçônicas da O.T.O. necessita seriamente repensar o que é repetido a respeito pelo senso comum.

Abraços a todos.

ps.: este post é uma adequação de uma mensagem originalmente enviada por mim para as listas ex-OTO e Thelema-br.

Crédito das Imagens

Kellner e Reuss: The O.T.O. Phenomenon.

© 2017 e.v. - Carlos Raposo





avatar

Carlos Raposo

O autor, Carlos Raposo, é historiador. Também é Maçom, M∴I∴ e grau 33 do R∴E∴A∴A∴. Pode ser contatado através do blog http://carlosraposo.wordpress.com/.

show
 
close
rss Follow on Twitter facebook youtube email