Orobas, um Blog sobre a História da O.T.O. por Carlos Raposo
História

Rudolf Steiner e a O.T.O.

por Carlos Raposo

A menor verdade,
logo que ela pertença propriamente a alguém,
torna feliz quem a descobriu: por exemplo,
uma correção feita num livro impresso ou num manuscrito.
(Friedrich Nietzsche em Escritos sobre a História)

A partir de 1906 com a fundação da sua O.T.O., Theodor Reuss, agora conhecido também como Frater Merlin Peregrinus Xº, decidiu concentrar suas energias no sentido de promover ao longo do restante da primeira década do século XX a sua nova Ordo Templi Orientis. O estratagema imediatamente usado pelo O.H.O. – iniciais de Outer Head of the Order, Chefe Externo da Ordem, cargo exercido por Reuss como líder supremo da O.T.O – foi buscar representatividade de peso, criteriosamente selecionando múltiplos renomados personagens do cenário místico-ocultista mundial, sobremodo europeu. Essencialmente, o plano de Reuss consistia em nomeá-los representantes da O.T.O. e de suas demais Ordens para diversos países da Europa e da América. Todavia, praticamente todas as alianças firmadas por Reuss fracassaram, não resultando a tão esperada expansão da Ordem e frustrando por completo suas grandes expectativas a respeito.

Dentro deste contexto, um dos nomes que primeiro aparece é o do notório austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), idealizador da Antroposofia. O objetivo deste post é exatamente esse: avaliar qual é a relação que une seu nome à Ordo Templi Orientis.

As informações acerca da participação do pai da Antroposofia como um membro ativo e proeminente da O.T.O. mais parecem tender ao sensacionalismo do que a realidade. Como de costume, ao que tudo indica a confusão falaciosa começou quando Reuss, numa edição de 1906 de seu Oriflamme, escreveu e publicou o seguinte:

O Irmão Dr. Rudolf Steiner, 33°, 95°, de Berlim, e os Irmãos e Irmãs associados a ele, tem permissão de formar em Berlim um Capítulo e um Grande Conselho sob o título de “Mystica Aeterna”. O Dr. Steiner foi nomeado Grande Mestre Deputado com jurisdição sobre os membros já existentes ou a serem recebidos por ele. A Irmã Marie von Sievers (finada esposa de Steiner) foi nomeada Grande Secretária Geral para as Lojas de Adoção (cit. Howe & Möller, 1979:37-38).

Por mais impreciso que possa parecer, esse registro foi suficiente para que autores mais afoitos, como Kenneth Grant (1992:12), tanto deduzissem que Reuss teria iniciado Steiner na Ordo Templi Orientis, quanto passaram a repeti-lo como um mestre de Memphis e Misraim e da O.T.O. (Grant, 1992:206). Das elucubrações que a partir daí surgiram, ora é afirmado que Steiner havia, por volta de 1906, constituído uma Loja maçônica irregular chamada Mysteria Mystica Aeterna (Webb, 1989:218) ora, apressadamente, conclui-se que Steiner indiscutivelmente era um ativo e importante membro da Ordo Templi Orientis. Tão importante ele seria que seu nome às vezes é diretamente mencionado como ninguém menos do que o próprio representante de Reuss em Berlim (Wasserman, 1990:94). A mesma nota do Oriflamme acima transcrita, que em um primeiro momento parece estabelecer uma inequívoca conexão entre Steiner e Reuss, levou a afirmações de que aquele haveria sido patenteado justamente para dirigir Lojas dos Templários Orientais, Lojas estas que teriam sido criadas por Steiner para trabalharem como uma espécie de “Maçonaria Oculta”, cujos três primeiros graus eram bem parecidos com os da Maçonaria regular. Seguindo esta linha de pensamento, também se diz que os templos maçônicos na Alemanha sob a direção de Steiner estavam interligados às atividades secretas da O.T.O. desenvolvidas nesse país e que Heinrich Klein e o Dr. Franz Hartmann teriam sido os responsáveis pela entrada, ainda em 1902, de Steiner no tal rito maçônico-ocultista secreto (King, 1989:206). Uma outra referência consultada ainda sustenta que Steiner haveria sido bastante criticado por ter recebido e aceito poderes de Reuss para liderar uma Loja da O.T.O. (Ahern, 1984:93).

Todavia, uma abordagem mais atenta desvelará uma realidade bastante diferente.

Rudolf SteinerEm 1902, longe de qualquer tipo de filiação a organismos secretos, esotéricos ou para-maçônicos, a participação de Steiner em grupos considerados de natureza ocultista se limitava apenas a Secretaria Geral de uma variação alemã da Sociedade Teosófica, ramificação essa que não estava diretamente vinculada ao movimento de Helena P. Blavatsky. Ocorre que Steiner não era exatamente um Teosofista segundo os moldes da tradição de Adyar. Ele, aliás, nem mesmo tinha bom relacionamento com a londrina Annie Besant (1847-1933), expoente do movimento iniciado por Blavatsky. Posteriormente, foi somente em 1912 que Steiner se uniria a alguns dissidentes da Sociedade Teosófica e fundaria a Sociedade Antroposófica (Howe & Möller, 1979:37-38).

Em 1906, provavelmente visando expandir sua área de influência e prestígio, Reuss simplesmente toma a iniciativa de escrever para Steiner, nomeando-o 33º e 95º, dando-lhe autorização para fundar o grupo citado na nota do Oriflamme.

O que deve ser primeiramente observado é que a autorização de Reuss não faz qualquer menção a O.T.O., mínima que seja, limitando-se aos Ritos marginais os quais “liderava”, como o Rito de Memphis e Misraim (o que é percebido graças à graduação citada na nomeação). Depois, ao que tudo indica, Steiner, embora a tenha aceitado, logo em seguida não reagiu muito bem a tal nomeação, ora ignorando-a ora desaprovando completamente a iniciativa de Reuss.

Outro ponto que merece redobrada atenção é que, afora esta nomeação e a brevíssima nota publicada no Oriflamme, absolutamente nada mais existe que sugira a existência de qualquer contato posterior entre ambos. Até mesmo em contraposição a idéia de que entre eles houvesse vínculos iniciáticos duradouros, é sabido que Steiner, em sua autobiografia, não dá qualquer valor ao curto episódio que envolveu seu nome com o de Reuss. Como se o fato significasse uma nódoa em sua vida mística, o nome do Frater Superior da O.T.O. é caprichosamente mantido fora de seu texto autobiográfico, não sendo citado sequer uma só vez. Muito vagamente, Steiner (2006: 349) se refere a todo o episódio de Memphis e Misraim, O.T.O. e Reuss, mencionado economicamente “um certo grupo” que fazia parte da corrente representada por John Yarker (1833-1913), de onde recebera tão somente uma nomeação formal. No mais, não obstante a esta confessada formalidade, Steiner é extremamente taxativo quanto a qualquer alegada influência da mencionada corrente sobre as atividades por ele desenvolvidas, afirmando sem medir palavras que sua instituição não adotaria definitivamente nada vindo da instituição de Yarker (Steiner, 2006:351). Reproduzindo as palavras de Steiner, ele diz:

O fato de mais tarde terem querido obter, em atestados escritos por Marie von Sivers e por mim, em conexão com a instituição histórica de Yarker, o ponto de partida para todo tipo de calúnias, é algo que trata o ridículo com a grimaça do sério a fim de alcançar seu objetivo. [...] enquanto colocávamos nossas assinaturas, eu disse com toda a clareza: “Tudo isso é formalidade, e a instituição que estou lançando não irá adotar nada da instituição de Yarker”.

Enfim, a partir do que aqui foi demonstrado, pode-se chegar a duas conclusões bem óbvias. Primeiro, é mais correto supor que Steiner não cultivava qualquer simpatia e nem sequer conhecia direito Theodor Reuss, além de não manter qualquer ligação com as Ordens por este dirigida (Howe, 1989:89). Depois, quanto à sua suposta participação em Memphis e Misraim, Steiner não desenvolveu qualquer tipo de trabalho maçônico relacionado a este Rito. Pelo contrário, ele até mesmo evitou – propositadamente – qualquer traço do Rito nos trabalhos aos quais esteve à frente.

Dizer, portanto, que Steiner representava Reuss, seja como líder da O.T.O. em Berlim seja como um braço de Memphis e Misraim é, hoje em dia algo considerado, no mínimo, equivocado. Dito de outro modo, Steiner jamais participou de qualquer atividade relacionada à Ordo Templi Orientis.

Apesar de tudo, parece que citar Steiner como destacado iniciado da O.T.O. é algo que continua em voga. Muito possivelmente, a confusão sobre sua participação (bem como a participação de diversos outros importantes nomes do cenário místico mundial) na O.T.O. não seja consequência de má fé, mas sim do excessivo afã presente em alguns dos integrantes dos atuais grupos remanescentes desta Ordem. Nesse caso, há muito é sabido que para eles, qualquer demonstração histórica que os contradigam simplesmente não importará, pois prevalecerá sempre a ânsia de mostrar a própria Ordem como um grupo de destacada grandeza. É exatamente isso que tem levado seus integrantes a colori-la profusamente com nomes de personagens de sabido valor, como o de Rudolf Steiner.

Bibliografia

AHREN, Geoffrey. 1984: Sun at Midnight. Wellingborough: Aquarian Press.

GRANT, Kenneth. 1991: The Magical Revival. London: Skoob Books Publishing.
_____. 1992: Hecate´s Fountain. London: Skoob Books Publishing.

HOWE, Ellic. 1989: “German Occult Groups”. In: CAVENDISH, Richard (ed.) e RHINE, J.B (cons.). Encyclopedia of the Unexplained. London: Arcana, pp 89-92.

HOWE, Ellic & MÖLLER, Helmut. 1979: “Theodor Reuss – Irregular Freemasonry in Germany, 1900-23”. In: BATHAM, Cyril N. (ed) Ars Quatuor Coronatorum – Transactions of Quatuor Coronati Lodge, Vol. 91 for the Year 1978. Oxfordshire: Burgess & Sons, pp 28-46.

KING, Francis. 1989: Modern Ritual Magic. Dorset: Prism Press.

STEINER, Rudolf. 2006: Minha Vida. São Paulo: Ed. Antroposófica.

WASSERMAN, James (aka Ad Veritatem). 1990: “An Introduction to the History of the OTO”. In: BETA, Hymenaeus (Ed.) The Equinox, Vol. III, nº X. Maine: Samuel Weiser, pp 87-99.

WEBB, James. 1989a: “Rosicrucians”. In: CAVENDISH, Richard (ed.) e RHINE, J.B (cons.). Encyclopedia of the Unexplained. London: Arcana, pp 215-218.

Crédito das Imagens

Rudolf Steiner: Wikipedia

© 2016 e.v. - Carlos Raposo





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Carlos Raposo

O autor, Carlos Raposo, é historiador. Também é Maçom, M∴I∴ e grau 33 do R∴E∴A∴A∴. Pode ser contatado através do blog http://carlosraposo.wordpress.com/.

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