Orobas, um Blog sobre a História da O.T.O. por Carlos Raposo
História

Uma reflexão sobre a questão da sucessão (I)

por Carlos Raposo

Os estudos devem ter por meta dar ao espírito
uma direção que lhe permita formular juízos sólidos
e verdadeiros sobre tudo que se lhe apresente
(René Descartes, em Regras para a Orientação do Espírito)

Uma das questões acerca da história da Ordo Templi Orientis que mais tem preocupado aqueles que nutrem algum interesse por esta Ordem diz respeito à linha de sucessores, aos herdeiros, aos nomes que a lideraram. Essa questão não somente é legítima, mas também se mostra de extrema relevância, tanto àqueles que pretendem se filiar a Ordem quanto àqueles que dela já fazem parte. Afinal, pelo menos, é preciso saber de onde vem o grupo onde se pretende entrar ou do qual se faz parte.

O propósito desse post é exatamente apresentar a primeira parte de uma reflexão a respeito. Para tal, examinarei, a voo de pássaro, ora o que se diz a respeito dessa questão ora o que a pesquisa mais recente tem demonstrado, contrapondo tanto a opinião sectária quanto a opinião do senso comum com as evidências trazidas a lume pela análise histórica apartidária, não comprometida com ideologias.

Num primeiro momento, boa parte dos discursos e opiniões encontrados estão construídos de modo a corroborar uma clara sequência de transmissão inciática, calcada nas seguintes linhas gerais: a O.T.O. teria sido fundada pelo austríaco Carl Kellner em 1895. Desse modo, o austríaco fica estabelecido como o primeiro Chefe Externo da Ordem, costumeiramente denominado de O.H.O. (acróstico para Outer Head of the Order). O mesmo discurso sustenta que Kellner fora sucedido por Reuss em 1905. Por sua vez, este teria legado a direção geral da Ordem para Aleister Crowley (1875-1947), que a conduziria aproximadamente a partir de 1925, um pouco depois da morte de Reuss em 1923. Em seguida, Crowley deixaria a O.T.O. para Karl Germer (1885-1962). Na sequência de sucessores, Germer indicaria “os Chefes” da Ordem como continuadores de seu trabalho.

Em suma, as primeiras quatro gerações de O.H.O. da Ordem, ou a linha de sucessão iniciática da O.T.O., seria traçada do seguinte modo:

  1. Carl Kellner
  2. Theodor Reuss
  3. Aleister Crowley
  4. Karl Germer

Porém, o que a pesquisa nos mostra a respeito?

Ao examinar a suposta sequência de quatro gerações de transmissão iniciática, o primeiro ponto que naturalmente brota diz respeito à própria fundação da Ordo Templi Orientis: teria sido realmente Kellner o seu fundador? Para respondê-la, lembro que aqui mesmo em Orobas (leia em Origens Maçônicas da O.T.O. e o texto sobre Carl Kellner) já foi demonstrado que não há nenhuma relação de Kellner com a O.T.O. e que de fato fora Reuss o criador dessa Ordem. Assim, como foi este último que fundou a Ordem, não há sentido algum considerá-lo – nem Reuss e nem qualquer outro – herdeiro ou sucessor Kellner no que quer que seja.

Depois, questiona-se para quem Reuss teria legado a sua Ordem. Curiosamente, a resposta é bastante simples, conquanto que mordaz: para ninguém. Em outras palavras, ninguém herdou a Ordem diretamente de Reuss.

Todavia, o problema sobre quem sucedeu Reuss não acaba aí. Como se essa vacância de herdeiro já não fosse suficiente para se questionar qualquer nome que pleiteasse posição destacada numa alegada cadeia iniciática de líderes da O.T.O., eis que, como mágica, aqui abrolha exatamente o nome de Aleister Crowley como O.H.O. da organização de Reuss. Acontece que se considerarmos pelo menos os últimos três anos da vida do criador da Ordem, tal fato chega a ser bizarro, senão absurdo, pois nesse período Reuss passaria a desaprovar completamente qualquer ingerência de Aleister Crowley na sua O.T.O., indo ao extremo de considerar Thelema – a religião fundada por Crowley – uma ideologia nociva e comunista[1]. Assim, Reuss purgaria de sua O.T.O. qualquer menção a Thelema, eliminado da Ordem todos os indícios da religião criada pelo afamado mago inglês. Como comprova a documentação disponível[2], de fato Reuss chegaria a romper qualquer contato com Crowley, dizendo inclusive que quaisquer ações do inglês não eram mais da conta nem dele e nem da Ordo Templi Orientis[3].

Aleister Crowley, como Baphomet XIº O.T.O.

Aleister Crowley, como Baphomet XIº O.T.O.

Porém, como então Crowley despontaria como O.H.O. da O.T.O? Em 1925, um pouco depois da morte de Reuss, Crowley arranja um encontro onde além de um reduzido número de discípulos seus, foram convidados os líderes nacionais da Ordem e algumas outras lideranças ocultistas de pouca expressividade. Em carta a um dos líderes nacionais da O.T.O., Crowley deixava bem claro seu objetivo em realizar a reunião: ele queria dominar TODAS as Ordens existentes. Não levando em consideração a baixa presença – praticamente nenhum líder nacional da O.T.O. compareceu, bem como praticamente nenhuma liderança ocultista – a reunião mesmo assim se realizou. E foi nela que Crowley apresentou uma declaração (escrita por ele mesmo) exigindo que todos que ali estavam a assinassem, reconhecendo-o como ninguém menos do que o próprio “Redentor da Humanidade”.[4] Para resumir o que acontecera ali a partir de então, após uma certa revolta de alguns presentes, reunião foi encerrada com Crowley reconhecido por quase meia dúzia de assinaturas (de seus discípulos) como o “Redentor da Humanidade”. A partir desse fato, inadvertidamente se costuma dizer que Crowley teria sido “eleito” como O.H.O da Ordo Templi Orientis. Contudo, apesar do capricho de Crowley em exigir ser reconhecido pelos presentes como o “Redentor da Humanidade”, absolutamente nada fora decidido a respeito do nome que ocuparia a função de O.H.O. da Ordem de Theodor Reuss.

Ao que tudo indica, passado alguns meses depois disso, como ninguém parecia se importar com o destino da O.T.O. de Reuss[5], Crowley meramente passaria a se apresentar como o líder, ou O.H.O., de uma nova O.T.O., agora inteiramente transformada e convertida como um instrumento de disseminação de sua religião thelêmica. Por mero desinteresse, ninguém o questionaria e ele assim permaneceu como líder da Ordem. Em outras palavras, oficialmente, Crowley jamais sucedeu quem quer que seja como líder da O.T.O., mas apenas se impôs como Chefe de um grupo inteiramente novo e, de certo modo, espúrio em relação à Ordem de Reuss.

Depois, encontramos Karl Germer na linha de sucessão da Ordo Templi Orientis. De fato, Aleister Crowley deixou por escrito em seu testamento que a sua O.T.O. ficaria para Germer. Embora isso não se questione, não deixam de ser notáveis as diversas declarações lamuriosas de Germer no sentido de não querer esse peso sobre seus ombros. Mais ainda, para ele, o herdeiro natural de Crowley deveria ter sido Kenneth Grant (n. 1924).

Contudo, o que finalmente parecia muito bem definido, pelo menos em relação à sucessão Crowley-Germer, acabou por desmbocar numa uma grande confusão. Quem sucederia Germer?

Primeiro, Kenneth Grant, aquele que Germer considerava herdeiro natural de Crowley, começou a desenvolver um inédito trabalho com a Loja inglesa Nova Ísis, elaborando seus próprios rituais, desenvolvendo-os de acordo com a doutrina a qual chamou de “transplutoniana”. Furioso com a iniciativa e independência de Grant, ainda na década de 1950, Germer o expulsa sumariamente dos quadros da Ordem.

Mas a confusão começa mesmo quando, alguns anos depois, Germer deixa um documento que além de não delegar ninguém como seu sucessor, indica explicitamente que os “Chefes” da O.T.O. deveriam dirigir a Ordem após a sua morte. Assim, com o falecimento de Germer em 1962, aos poucos, começam a entrar em cena como líderes da Ordem os nomes que comporiam uma suposta 5ª geração de O.H.O. simultâneos da Ordem: o suíço Joseph Metzger (1919-1990), o já citado inglês Kenneth Grant, o americano Grady Louis McMurtry (1918-1985) e o brasileiro Marcelo Ramos Motta (1931-1987). Nesse sentido, Metzger promoveu uma “eleição”, onde participaram apenas aqueles que já estavam sob sua tutela, e foi “eleito” Chefe mundial da Ordem. Por sua vez, Grant fechou a Loja Nova Ísis, começou a publicar livros a respeito de Crowley, da O.T.O, de Thelema e de vários assuntos correlatos, e também se promoveu como chefe mundial da Ordem. Nos EUA, McMurtry evocou alguns documentos os quais chamou de “emergenciais” e se disse chefe mundial da Ordem. No Brasil, o mesmo foi feito por Marcelo Motta, que por ter sido considerado por Germer como o “Seguidor”, também se achou no direito de se proclamar chefe mundial da Ordem.

De certo modo, a O.T.O. então passa a ser algo parecido a um Cérbero, só que com quatro cabeças, com quatro chefes mundiais a conduzi-la de modo mutuamente independente. Algo aqui deve ser ressaltado: se por um lado tanto Metzger quanto Grant trabalham como líderes sem qualquer tipo de interferência no trabalho alheio, por outro, o mesmo não pode ser dito a respeito de McMurtry e Motta. Mas isso é algo que examinaremos no futuro.

Atualmente, o quadro internacional da O.T.O. é o seguinte: os remanescentes de Metzger continuam reservadamente com o seu trabalho na Suíça; Grant segue trabalhando e divulgando seus livros e a sua O.T.O., hoje chamada de Tifoniana; McMurtry estabeleceu o Califado que hoje se encontra em diversos países, com diversos Corpos filiados trabalhando no tradicional modo de iniciações presenciais; e os que se consideram sucessores de Motta e de sua Sociedade Ordo Templi Orientis, seguem em diversas iniciativas pessoais e locais, com um trabalho bastante fragmentado e praticamente sem consistência. Cada um desses grupos reclama para si a autenticidade do próprio trabalho, considerando-se herdeiro absoluto e único da Obra que teria sido iniciada por Kellner.

Em breve, abordarei aqui em Orobas separadamente cada uma desses grupos remanescentes. Todavia, por agora, resumo da seguinte forma o pitoresco quadro histórico de sucessores da O.T.O., que na verdade mais parece seguir uma espécie de estranha linha não inciática:

  1. Kellner nem fundou nem nunca pertenceu a qualquer O.T.O., logo, ninguém pode afirmar que teria herdado dele esta Ordem;
  2. Theodor Reuss, o verdadeiro criador da O.T.O., não a delegou para quem quer que seja, não nomeou herdeiro ou sucessor, não determinou seu substituto como O.H.O e líder supremo de sua Ordem. Em decorrência disso, pode-se afirmar que a autêntica Ordo Templi Orientis simplesmente nasceu e morreu com Theodor Reuss.
  3. Depois, sem consultar ninguém a respeito, Aleister Crowley, que inicialmente pretendia “apenas” ser aclamado o “redentor do mundo”, simplesmente se impôs como O.H.O. de uma versão completamente nova da O.T.O., agora transformada em uma Ordem religiosa, cujo objetivo maior era disseminar pelo mundo a sua religião de Thelema. A nova O.T.O. thelêmica, assim, passa a ser considerada espúria em relação à Ordem de Reuss;
  4. Aleister Crowley, de fato, legou a sua nova O.T.O. thelêmica para Karl Germer.
  5. Por sua vez, Karl Germer não legou a Ordem especificamente para alguém, deixando-a para os seus “Chefes”, sem declarar que Chefes eram esses;
  6. Praticamente todos os grupos que atualmente subsistem sob a denominação “O.T.O.” têm origem em pelo menos um dos quatro “Chefes” que se julgaram no direito de serem O.H.O., ou líderes supremos da O.T.O., a saber: Marcelo Ramos Motta, no Brasil; Kenneth Grant, na Inglaterra; Grady L. McMurtry, nos EUA e Joseph Metzger, na Suíça.

Por último, em relação ao item (6) acima, entre querelas, decisões judiciais, etc, paira a eterna dúvida: quem possui legitimidade para desenvolver o trabalho da O.T.O.? É o que veremos nos próximos posts.

Créditos das Imagens

Alesiter Crowley: www.lashtal.com

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Ironicamente, em sua juventude Reuss se declarou militante da causa comunista. Ver post sobre Theodor Reuss, aqui mesmo em Orobas. ↵ voltar
  2. Por ser apenas uma breve reflexão, não é objetivo do presente post apresentar essa documentação. Contudo, em breve postaremos um texto que demonstrará quais foram as desavenças que fizeram com que Reuss rompesse definitivamente qualquer contato com Aleister Crowley. ↵ voltar
  3. Há pesquisas que sugerem que Crowley fora expulso da O.T.O. por Reuss. ↵ voltar
  4. Muito possivelmente, Crowley estaria bastante impressionado e influenciado pela disseminada ideia teosófica a respeito do “Instrutor do Mundo”. ↵ voltar
  5. Ninguém tinha interesse no legado de Reuss, possivelmente consequência de sua péssima fama e praticamente nenhuma credibilidade (para conhecer um pouco de sua vida, leia o texto sobre Theodor Reuss). ↵ voltar

© 2016 e.v. - Carlos Raposo





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Carlos Raposo

O autor, Carlos Raposo, é historiador. Também é Maçom, M∴I∴ e grau 33 do R∴E∴A∴A∴. Pode ser contatado através do blog http://carlosraposo.wordpress.com/.

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