Pílulas Vermelhas por Frater Keron-ε
Cultura

Dica de Livro: Demian

por Frater Keron-ε

- Está bem. Para que vamos discutir? Seja como for, a vida de um ébrio ou de um libertino deve ser provavelmente mais intensa do que a de um burguês exemplar. E, além disso…li-o não sei onde…. a vida de libertino é uma das melhores preparações para o misticismo. Sempre são indivíduos como Santo Agostinho que logo se tornam videntes. Também ele começou entregando-se ao prazer.

Cheio de desconfiança, e não querendo deixar-me dominar por Demian, respondi com ar indiferente:

- Cada um que proceda como goste! Quanto a mim, devo confessar que não tenho a menor intenção de chegar a vidente ou coisa que o valha.

Demian lançou-me um olhar penetrante através das pálpebras levemente cerradas.

- Meu caro Sinclair – disse lentamente – não quis dizer-te nada desagradável. Além disso, nem tu nem eu sabemos com que fim bebes agora. Mas o que constitui em ti o nódulo e a essência de tua vida já o sabes perfeitamente. E sempre é bom termos consciência de que dentro de nós há alguém que tudo sabe, tudo quer e age melhor do que nós mesmos.

Demian

 

Demian, do alemão Hermann Hesse (1877-1962), é um daqueles livros para se ler na juventude e refazê-lo de tempos em tempos. Trata da vida de um garoto chamado Emil Sinclair ao se cruzar com um jovem enigmático chamado Max Demian, e sua família, que o leva à uma abordagem diferente da realidade. O livro toca com perfeição o processo de crescimento de um menino, as descobertas que faz do mundo e mostra a interferência de pessoas, cujos padrões diferem do tradicional, levando-o a um questionamento com viés místico; este último manifestando-se em metáforas religiosas como o gnosticismo e na lenda da marca de Caim. O primeiro aparece no símbolo de Abraxas expressando dualidade que reúne demoníaco e divino e o último possui um significado totalmente diverso do original: Caim representava os fortes, marcado visivelmente pelo deus criador a fim de alertar os fracos – representados por Abel – da existência de uma linhagem de homens “perigosos”. Hesse trabalha antagonismos considerando o caminho libertino como possibilidade – ás vezes, necessidade – lembrando um certo contemporâneo inglês adepto de semelhante pensamento libertário.

Muitos de nós, na juventude, tiveram a oportunidade de conhecer alguém como Demian, uma pessoa que abre seus horizontes questionando o status quo. Tive duas assim mas que não eram relacionadas a ordens iniciáticas: um professor de português e teatro oriundo dos movimentos políticos dos anos 60 e 70 e o padrinho do meu pai, membro do mosteiro de Swami Sivananda nos anos 50 em Resende, RJ. Ao ler Demian, já adulto, fui transportado para o passado graças a prosa mágica de Hesse além de perceber o aspecto transcendental da sua escrita.

Vencedor do Nobel em 1946, filho de missionário, Hesse largou o seminário interrompendo seus estudos em teologia. Saindo da Europa foi morar na Índia e bebeu das filosofias orientais. Profundo conhecedor da obra de Jung e Nietzsche, Hesse combinou ocidente com oriente e outros três de seus livros, pelo menos, interessam aos magistas: Sidarta, O Jogo de Contas de Vidro e o Lobo da Estepe. Sidarta fala de um hindu que, após encontrar Buda, dispensa seus ensinamentos e busca sozinho a iluminação; o segundo se passa em 2200 onde, numa comunidade mística beneditina, um monge conhecido como “Magister Ludi” (Mestre do Jogo) ensina aos seus habitantes uma atividade complexa que o leva a rebelar-se contra a ordem vigente e o último fala de um homem nos seus 50 anos, entregando-se a autodescoberta oscilando entre a vida libertina da noite e o tédio burguês diurno; dizem alguns ser o crepúsculo de Demian. Existem escritores que tocam o coração do leitor, Hesse toca a alma. Se eu pudesse definir esses livros, em poucas palavras, diria que versam sobre questões do espírito num subplano confessional; Hermann Hesse é o que Paulo Coelho será quando crescer.

Demian pode ser um excelente começo para os que desconhecem a obra do alemão, não apenas pela temática em si, mas por ser um livro que fala da juventude sendo, inevitavelmente, um início; quem sabe um início da descoberta em si mesmo da Marca de Caim.

Hermann Hesse - Montagnola

Hermann Hesse - Montagnola

© 2017 e.v. - Frater Keron-ε





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Frater Keron-ε

Frater Keron-ε conheceu Thelema nos anos 90 juntando-se a A∴A∴ no ramo de Frater Thor. O seu trabalho externo é o site www.astrumargentum.org.

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