Thelemitas

Entrevista com Frater Keron-ε, Primeira Parte

por Jonatas Lacerda em Entrevistas

Thelemitas
Cultura

Entrevista com Frater Keron-ε, Primeira Parte

concedida a Jonatas Lacerda

Apresentação

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

A entrevista com Frater Keron-ε tem como objetivo tratar de alguns temas relacionados à A∴A∴, que nas palavras do próprio Frater Keron-ε é “uma irmandade de homens e mulheres dedicada a evolução espiritual valendo-se dos princípios estabelecidos por Frater D.D.S. (George Cecil Jones) e Frater To Mega Therion (Aleister Crowley). A forma de trabalho é individual baseada no método guru-shishya paramparā, onde o iniciado é orientado por um instrutor não havendo reuniões grupais e, na medida do possível, contato com outros membros.”.

Nesta primeira parte da entrevista, o foco é o adepto e a partir disso, alguns pontos básicos sobre a Fraternidade e de seu funcionamento.

Esperamos que a leitura seja proveitosa e construtiva. E aguarde a segunda parte que em breve estará disponível aqui, na Seção Thelemitas, do Espaço Novo Æon.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Jonatas Lacerda

Entrevista com Frater Keron-ε

Lamen de Frater Keron-ε

Lamen de Frater Keron-ε

Espaço Novo Æon: Quem é Frater Keron-ε e como foi iniciada a jornada deste Adepto na Fraternitatis AA?

Frater Keron-ε: Foi conhecendo To Mega Therion e a sua obra da maneira mais anti-glamourosa possível: o secretario da Loja Nova Isis era meu colega na faculdade - Frater Heru - e me chamou para fazer parte da ordem; fui iniciado logo em seguida na Semana Santa – ou Equinócio. Um dia estávamos conversando e o assunto enveredou pelo esoterismo de modo geral. Então ele me falou de um tal Aleister Crowley e da Lei de Thelema. Foi um tanto prolixo e entrou em Rosacrucianismo, O.T.O, A∴A∴ e não entendi muita coisa então me passou Liber AL e achei interessante, lembrava Nietzsche. De magick ele me emprestou algo que eu pudesse entender rapidamente: a parte de yoga do Liber ABA publicado por Frater Ever.

Nunca manifestei interesse especial pelo assunto, nunca tive visões, experiências místicas precoces, nunca procurei mestres mágicos, nada disso; eventualmente o assunto passava pela minha vida despertando curiosidade mas nunca parei para saber mais, tinha outras prioridades. Entrei o mais ignorante possível o que quase me levou a desistir daquilo, fora que eu cheguei até a atrapalhar a iniciação na Loja.

Saí da Loja Nova Isis pouco depois de um ano e, em seguida, fui convidado a fazer parte de outro grupo no estilo O.T.O. com outros que também deixaram a Loja e então e pedi entrada na AA∴ ao Frater Q.V.I.F.. Pouco depois me retirei dos trabalhos daquele grupo e fiquei apenas com a Santa Ordem.

Quanto ao quem sou, pergunta difícil essa. O que você quer saber exatamente? Se eu for técnico Keron-ε é o meu mote de Probacionista da Santa Ordem e, neste estágio, fui um indivíduo dedicado que cometeu os erros que todos nesse período cometem, mas que se saiu vitorioso no Conhecimento e Conversação com a A∴A∴.

É muito interessante notar o que você diz sobre o início de sua relação com o ocultismo, realmente muito diferente de todo o glamour que normalmente encontramos nos relatos de Adeptos. Mas o que realmente nos chamou à atenção foi sua menção a atrapalhar a iniciação, como foi isso? Qual foi o impacto dessa Iniciação em sua vida?

Isso foi engraçado. Ao final do ritual havia a passagem da palavra semestral, no estilo telefone sem fio: fazíamos um círculo e a palavra era passada de ouvido a ouvido até chegar ao Saladino que havia iniciado o processo. Se chegasse diferente nele repetia-se até acertar. Acontece que eram quatro palavras e em hebraico – a única que eu conhecia nesse idioma era “Jeová”. Eu não entendia, pois a pessoa que me passava pronunciava aspirada, como deve ser feito. Depois de várias tentativas fui retirado do círculo e o processo foi concluído sem mim – posteriormente eu recebi a palavra de Frater Heru.

O impacto da iniciação deveu-se a sua característica de dramatização: é algo que fica reverberando pela cabeça durante muito tempo. Diria que até hoje retorna á minha mente de vez em quando. Basicamente era uma passagem pelos quatro elementos costurada por citações de Liber AL e mensagens de moral thelêmica. Creio que o meu desconhecimento técnico ajudou muito nisso, pois se tornou marcante pelo ineditismo. Se eu tivesse o conhecimento de hoje, saberia exatamente o que estava acontecendo e o significado de cada etapa tirando o “mistério” que o leva a meditar bastante no ocorrido ativando algumas faculdades superiores.

Dramatização, esse é um ponto muito importante. Austin Osman Spare, por exemplo, via a extrema dramatização dos rituais da Aurora Dourada como bobagem, como você vê o processo místico de rituais que empregam a dramatização, como por exemplo, os Ritos de Eleusis?

Extrema dramatização, de fato, deve ser ruim; rituais empolados em demasia dão sono e acabam inutilizando o processo, mas ela é parte importante da magia – ou magick – pois ajuda em vários aspectos: concentração, isolamento do ambiente externo, foco e por aí vai. Existe um componente neurolinguístico no processo que não pode ser descartado e é trabalhado em dramatizações e rituais. Magia, na sua definição mais primitiva, lidava com os mistérios naturais sejam externos ou internos e nos últimos 150 anos mais ou menos a ciência profana começou a disseca-la chegando a conceitos como a neurolinguística e a psicanálise.

No processo de organizações e ordens com um modelo parecido com a da Maçonaria, há muito “mistério” e até mesmo muitos “segredos”. Um dos destaques do trabalho de Therion é o fato de que ele procura expor o conhecimento de forma que o mistério não minasse o processo da Iniciação. Claro que não podemos nos esquecer da O.T.O. a qual possuía segredos desde a época de Therion e que de certa forma seguia na via contrária dos próprios objetivos dele. A exposição dos segredos e o fim dos mistérios não trabalhariam contra a Iniciação pela via de Ordens de estilo Maçônico?

Como quase tudo em magia, depende. Quais são esses mistérios e segredos? Qual o propósito?  Em relação ao último podem ter duas aplicações: destrutivas quando existem como ferramenta de manipulação ou são ocultos por um egoísta que deseja apenas para si e construtivas quando estimulam a busca; mas podem ser também, de fato, desconhecidos lembrando o que 666 escreveu no manifesto original da A∴A∴: “Não há qualquer mistério na A.·. A.·. e não deve-se confundir mistério com o desconhecido. Alguns dos itens desta REVISTA podem ser de difícil ou de impossível compreensão de primeira mas somente no sentido que Homero é ininteligível a uma pessoa ignorante em grego.

Você pode nos falar um pouco mais sobre o trabalho da Loja Nova Isis e sobre os motivos que levaram à sua saída?

Foi bem proveitoso. Eu conheci pessoas com as quais tenho contato até hoje e o convívio social foi bem interessante e havia pessoas bem capacitadas ali dentro, tecnicamente falando. Frater Heru morava em Niterói e o terreno da casa era grande, com muito mato e vivíamos lá; apelidamos de “Abadia de Thelema”. Praticamente todo final de semana nos reuníamos e estendemos as relações para fora da Nova Isis.

Quanto ao trabalho em si da Loja, as primeiras instruções não foram muito estimulantes. Logo após a Iniciação passei a frequentar as reuniões de instrução e na primeira falaram-me que um dos maiores expoentes em Thelema no Brasil iria comparecer, um tal de Euclydes Lacerda de Almeida do qual nunca ouvira falar, discípulo de um certo Marcelo Motta, também redondamente ignorado por mim. Mas foi instrutor do Paulo Coelho -  esse sim eu conhecia, era aquele escritor de livros bacanas sobre magia…

Não houve instrução formal nesse encontro, mas uma conversa com o Euclydes onde ele falou um pouco de sua vida e muito de magia. Pois bem, se eu não sabia nada antes, a coisa piorou depois desse dia porque foram jogadas dezenas de informações técnicas e não peguei nada – o foco foi Kenneth Grant, imagine? Na segunda vez foi a mesma coisa: saí mais burro do que entrei; na terceira teve instrução, mas um dos irmãos da loja se meteu a explicar o Ritual Menor do Pentagrama fazendo uma algazarra tão grande que um dos novatos nunca mais voltou. Na seguinte o responsável comentou que eu não perguntava nada na instrução e eu respondi: “Não pergunto, pois não estou entendendo, de fato, nada do que vocês estão falando aqui.” O ruim da obra de 666 é a necessidade de absorver um número grande de informação; ele foi prolixo, quis mostrar o assunto por vários ângulos, mas dificultou por esse lado. Como tinha um convívio pessoa com Frater Heru ele me aplicou um intensivo do assunto o que facilitou bastante, além das instruções serem no Grajaú perto da minha casa em Vila Isabel. Daí foi só gastar dinheiro na Laissue, na Pororoca e com inúmeras xerox.

Em relação à minha saída, sem entrar em detalhes que não valem a pena, houve uma cisão na liderança da Loja: um dos fundadores, Frater Khaibit, saiu e alguns membros o seguiram e fui um deles.

Qual sua opinião sobre o convívio pessoal de Thelemitas e quais são implicações em organizações externas como a O.T.O. e em fraternidades de linhas puramente espirituais como a AA (sistema Guru-Shishya Paramparā, como você expôs em Um é pouco, dois é bom, três é demais)? Quando o convívio pessoal é bom e construtivo e quando ele vira dispersão?

Conviver em grupo é da natureza do ser humano e Thelemitas não são diferentes de outras pessoas. Ordens como a O.T.O. tem objetivo diferente das semelhantes à A∴A∴; sou fundamentalista nesse aspecto: o trabalho da Santa Ordem é pessoal e ocorre melhor no método guru-chela nado devendo existir contato entre os membros – apesar do próprio 666 ter relaxado essa regra algumas vezes.

O convívio é bom quando não existe Restrição no Caminho Espiritual do próximo, quando isso acontece o problema real aparece.

Vamos falar um pouco sobre Kenneth Grant… Naquele momento de sua jornada, o nível técnico da obra de Grant era muito superior ao alcançável, como você cita. Mas e hoje? Como você vê o trabalho de Grant?

Vejo o seu trabalho como fruto de uma mente criativa, cujas ideias caberiam melhor em literatura de ficção, mas não nego que ele indica direções interessantes a seguir. Ele foi pós-moderno ao máximo em sua época, unindo diversos conceitos abrindo espaço para novas visões como a Magia do Caos. De certa forma ele seguiu a multidisciplinaridade de 666 – que por sua vez inspirou-se em Blavatisky e na Golden Dawn . A maior crítica que faço ao Grant é a mesma que faço ao Crowley e ao método ocidental de modo geral: o foco demasiado na apreensão intelectual – ou no elemento ar. Considero alguns sistemas iniciáticos da Fraternidade Amarela, em especial o chinês, como mais completos do que os ocidentais, sem a menor dúvida. No caso do chinês a Alquimia Sexual Taoísta; é de uma completude, eficiência e simplicidade que torna a magia sexual ocidental grosseira. O chinês não ignora o corpo que é parte fundamental do processo iniciático, pois o bem estar físico é imprescindível em qualquer Obra por razões óbvias; a mística, o sexo e a medicina são inseparáveis. Não vou me estender aqui nas virtudes da acupuntura, chi-kung, tai chi chuan e outros mas a arte marcial merece um destaque: o corpo é o melhor assento no plano físico para qualquer trabalho mágico e algumas disciplinas marciais são bastante úteis nisso. Ok, existe a Yoga na Santa Ordem  mas considero o “sistema chinês” mais prático e completo fisicamente, tanto que adicionei parte dele nas minhas instruções.

Seu relato não é inédito, muitas vezes ouvimos sobre desistências em vários grupos Thelêmicos pela falta de uma linha guia, de um currículo crescente que não torne todas as informações ininteligíveis. O próprio modelo prolixo de Therion dificulta o processo, como você bem colocou. Mas pela sua experiência, há algum outro método mais eficaz e que torne esse processo edificador em modelos grupais?

Eu imagino um modelo de células independentes focando em aspectos técnicos de magia moral thelêmica, sem graus ou títulos, apenas funções e responsabilidades. Um grupo qualquer se reuniria para estudos e realizaria eventos bancando a viagem de algum palestrante ou juntaria-se para comemorar alguma data especial como Equinócio, Solstício, aniversários ou casamentos bem ao estilo do cristianismo primitivo na época de São Paulo. Caso o objetivo seja a Iniciação, o trabalho individual, de fato, procurar alguma ordem específica para isso, como a A∴A∴.

E este outro grupo com o formato da O.T.O. o que te levou a ele e o que te fez se afastar?

Ele foi formado pelo Khaibit e embarquei com ele. Mas com o tempo não via muito sentido naquele trabalho quando existia um como o da Santa Ordem. Seria aplicação de energia em algo que não me daria retorno naquele momento.

Chegamos agora ao ponto: a AA. Você poderia nos contar como se deu o pedido de entrada na Fraternidade e o que o levou à Santa Ordem? 

Quando entrei na Nova Ísis tive contato com membros da A∴A∴ e o material da mesma. A ideia surgiu logo mas não me sentia pronto para assumir um Juramento; como disse, eu era um ignorante no assunto e resolvi esperar o melhor momento que apareceu depois de um ano ao sair da LNI. Ao ser chamado para o novo trabalho grupal ganhei um título de IX daquela ordem – que era o mesmo da O.T.O. no final das contas – e vi como um sinal de mudança e retomei a ideia de me juntar à Santa Ordem. Devolvi a patente e fiquei apenas na A∴A∴. O pedido iniciou-se através do mesmo Frater Heru que me apresentou ao Q.V.I.F. para quem solicitei a admissão.

Aproveitando a oportunidade gostaria de tocar num assunto chato, mas necessário ao esclarecimento de todos: há alguns anos certa pessoa vem dizendo que me instruiu na Santa Ordem e isso é mentira. Só tive um instrutor na A∴A∴, que foi Frater Q.V.I.F.. Digo isso porque já me chegaram através de várias fontes diferentes que o tal sujeito afirma isso. Não vou citar o nome, pois tal declaração não me foi feita diretamente, por óbvio. Em contrapartida, tenho em meus registros o pedido de avaliação do diário, feito por ele a mim na condição de superior dele na Santa Ordem. Para você entender melhor a sua postura, tenho uma mensagem de lista de discussão onde ele afirma ser o único que vingou na A∴A∴ via o ramo de Frater Ever (Marcelo Motta). Isso é um absurdo, pois ninguém tem condições de afirmar isso. Ever teve vários discípulos, assim como Thor. No máximo, poderia se colocar como um dos capazes de instruir. Agora, o único? Portanto, que fique aqui registrado: Você que ouviu algo diferente cuidado. E desculpe-me usar a entrevista para isso.

Se sentir pronto a assumir um Juramento: como uma pessoa pode saber se está ou não pronta a assumir um Juramento na Santa Ordem? Essa primeira autoanálise seria importante no processo da AA?

Pergunta difícil, pois depende, no final, de cada um; algo que o candidato deve perceber ser genuíno, puro. Mas eu poderia dizer as razões pelas quais não assinar um Juramento: mera curiosidade, acompanhar outra pessoa, por fazer um cursinho esotérico ou ser amigo de um membro da Ordem. A pessoa deve “sentir” que é o momento; mas como identificar esse “sentir”? Aí que reside a complexidade da resposta – mas pode-se começar a solucionar a questão lendo o que 666 escreveu sobre a Baqueta em Liber ABA.

E sua decisão em devolver a patente teve relação com uma necessidade de uma entrega maior ao trabalho da Santa Ordem?

Não, apenas total desestímulo quanto ao trabalho grupal naquele momento.

O que você pode nos falar a respeito do tema linhagem? Qual é a importância desse tema na AA? E de forma prática, qual é sua linhagem na Santa Ordem?

Eu compreendo uma linhagem como uma cadeia identificada de instrução/instrutores. A importância é relativa, pois depende da qualidade do ramo, alguns são organizados, outros não. Em hipótese alguma é indispensável, mas possui as vantagens do compartilhamento de experiências anteriores que pode acelerar o processo iniciático. Venho da linhagem de Frater Ever (Marcelo Ramos Motta) via Frater Thor (Euclydes Lacerda de Almeida).

O que você pode compartilhar sobre a linhagem de Frater Ever? Na página 276 do The Kabbalah, Magick, and Thelema: Selected Writings Vol. II, Phyllis Evalina Seckler (Soror Meral), tenta invalidar Frater Ever, insinuando inclusive que ele não passava do 1º=10 da AA e afirmando que ela era a Soror Sênior quando da morte de Karl Germer (Frater Saturnus). O que você pode nos falar sobre o assunto?

A velha estória de querer denegrir Frater Ever. Ainda continuam com isso? Ele os deixa inseguros até hoje?

Ever era uma pedra no sapato daqueles estadunidenses: um latino americano, sem influência ou poder financeiro que gozava da estima de SATVRNVS (Karl Germer), sério candidato a ficar com o espólio de Aleister Crowley -  espólio esse que valia muito dinheiro. Hoje a linhagem da Meral não está mais em sintonia com o chamado Califado O.T.O. mas na época da morte de Germer eram unidos. Duvido que fossem mostrar qualquer evidência das alegações de Motta sobre a A∴A∴ou O.T.O.; na minha opinião isso tudo deveu-se aos direitos das obras de Aleister Crowley sendo a O.T.O. o meio legal de obtê-los. Motta no seu texto “Os Serviços de Inteligência não são Inteligentes” afirma haver uma carta de SATVRNVS, datada de 12 de outubro de 1962, reconhecendo-o como guiado por Adonai, logo algo perto de Tiphareth (apesar de uma referência a Magister Templi); ele também escreve que Meral mandou uma carta, em 9 de dezembro de 1962, reconhecendo-o como “herdeiro místico” de SATVRNVS, por constar assim no testamento deste e, por fim, a carta de Sasha Germer (esposa de Karl), chamando-o de “The Follower” (O Seguidor) – com iniciais maiúsculas mesmo, mas não referindo-se a ninguém da O.T.O. estadunidense ou aos seus membros da A∴A∴; ninguém. Dessas três cartas, apenas a última foi publicada, as restantes não e isso é um problema – apesar de Motta deixar claro no início do texto que possuía tudo documentado oferecendo-se a enviar caso os interessados custeassem.

Ele publicou “Os Serviços de Inteligência não são Inteligentes” em 1983 no The Oriflamme, vol: VI nº 3 – época em que a Meral estava viva – eu não li o livro mencionado por você mas nele consta a negação da carta do dia 9 de dezembro? E das outras que ele cita? Meral até poderia ser hierarquicamente superior ao Ever na época, mas ele, sendo guiado pelo Supremo Hierofante, adquirira independência espiritual e o grau superior dela evocaria apenas respeito e não autoridade – por mais que o próprio Motta gostasse de criar relação de subordinação ao se dizer superior na Santa Ordem. Se é para remexer vamos fundo: e o saque da biblioteca do Germer? E a penúria da Sasha? Quem espalhou as cartas de Ever extremamente pessoais a SATVRNVS? Que tipo de iniciado de alto grau faz isso? Motta podia ser bipolar, passional mas não era ladrão. Eles tem cartas dizendo que Meral estava acima de Tiphareth, ok, mas nada impede que tenha sucumbido numa qliphoth; poderia me estender mais nos questionamentos mas não é produtivo. Coisas assim são tão sem propósito quanto os “mottianos” que repetem a pior parte do ego Marcelo Motta tentando desclassificar outros nessa política “Highlander” (“só pode haver um”).

Não duvido que a AA tenha sido jogada nessa bagunça por causa dos pertences de Crowley. Motta não era ingênuo, ele sabia o quanto isso valia e necessitava provar o seu direito sobre a O.T.O. – já que o ninguém possuía de fato; o problema é que não foi muito habilidoso em seus movimentos e ofendia meio mundo por conta disso: a Weiser, Shecker, Regardie, McMurtry e quem mais publicasse material de Crowley – e tal postura voltou-se contra ele no julgamento da Califórnia; aqui ele fez aqui ele pagou por não “refinar o êxtase”.

Por tudo o que vivenciei, pelo o que eu estudei, pelas pessoas que tive contato da época de Ever, ele era um iniciado acima de Tiphareth ao final da sua carreira. Ele foi um dos poucos, como 666, que se abriu por completo em suas obras, expondo-se de maneira íntima – até sexualmente – nos fornecendo elementos para a compreensão da sua Jornada, principalmente os seus erros. Qual dos seus questionadores na Santa Ordem fez isso? Qual destes bateu no peito e assumiu por si seus próprios graus abrindo-se ao mundo? Qual desses dedicou toda a sua vida gastando suas economias divulgando a Santa Ordem e a Lei de Thelema?

Não acompanho muito os norte-americanos mas parece que o frater superior da linhagem da Meral rompeu com essa insegurança juvenil sobre a validação de Ever na Santa Ordem e realiza o seu trabalho deixando os mortos descansarem em paz.

Você não acha que a concentração dos direitos da Obra de Aleister Crowley em apenas uma empresa poderia atrapalhar a  AA∴ de alguma maneira?

Muito tarde para isso. A Santa Ordem não existe no plano físico por assim dizer. Ela está nos seus membros; posso considerar que os libri são manifestações dela também, mas são públicos e de fácil acesso. Eu tenho todos. Vários Irmãos também. Se houver qualquer proibição de venda do material de Aleister Crowley, não afetaria a Santa Ordem, principalmente com a evolução tecnológica que temos hoje. Na pior das hipóteses voltaríamos á época de 666 onde ele mesmo mandava os livros para os candidatos. Quem conseguiu os direitos que faça o que bem entender com o material; “Dai a César o que é de César”.

Eu tenho certeza de uma coisa: não estaríamos aqui falando da AA∴ se Frater Ever não tivesse existido ou cometido os seus “desatinos”. Pelo que a história mostra haveria Restrição ao material da Santa Ordem e ele garantiu uma significativa disseminação da AA∴ e da Lei de Thelema pelo mundo; cumpriu muito bem a sua Missão.

Existe uma informação de que Frater Thor deixou oficialmente, em uma rede social, a informação de que Frater Keron-ε seria o responsável pela recepção de estudantes na AA, o que você pode nos contar?

Eu sempre mantive contato com ele desde o tempo da Nova Ísis; anualmente o visitava nas férias após mudar-me do Rio de Janeiro. Numa delas compartilhei o meu adeptado e ele começou a abrir-se mais sobre a própria Iniciação também. Em 2008 ele decidiu reconhecer a minha disposição e capacidade em realizar o trabalho da Santa Ordem de forma estruturada e recomendou-me publicamente.

Anúncio no Orkut (perfil de Euclydes Lacerda), informando que os interessados na A∴A∴ deveriam entrar em contato com Frater Keron-ε, reconhecido por ele [Euclydes] como representante da A∴A∴ no Brasil.

Anúncio no Orkut (perfil de Euclydes Lacerda), informando que os interessados na A∴A∴ deveriam entrar em contato com Frater Keron-ε, reconhecido por ele [Euclydes] como representante da A∴A∴ no Brasil.

O projeto do site com informações sobre a AA foi iniciado no início de sua jornada? O que você pode nos contar a respeito desse trabalho?

Ele foi uma tarefa de Probacionista. Na época eu era web designer alocado numa estatal o que foi uma escolha até lógica. Inicialmente recebi a demanda de realizar apenas o design e a estrutura e outro Irmão popularia o site mas como ele demorou bastante eu mesmo pedi para fazer; no final isso foi muito útil pois, na pesquisa para fazê-lo, eu aprendi muito.

Para os que entendem de tecnologia, no trabalho conheci o Director 6 (pai do Flash) que salvava animações no formato Shockwave para internet e fiz a introdução com a Árvore da Vida que chamou bastante a atenção na época. Eram tempos sombrios para designers, eu usava um programa chamado “Gif Clean” para limpar algoritmos de impressão dos gifs feitos no Photoshop – as conexões eram discadas, qualquer  imagem de 100k era pesada. O site nasceu no Go Live.

E como continuou o projeto? Pode ser considerado o mesmo site desde o começo ou passou por mudanças? O que é o trabalho do site hoje?

O mesmo não. Ele mudou em algumas coisas, afinal eu era um Probacionista. No início tinha o objetivo de apresentar a Santa Ordem e o seu método focando em um de seus livros, Liber 220, mas evolui para que contivesse material mínimo capaz de levar alguém a Tiphareth e creio ter conseguido com a tradução de Liber 418. Melhorias sempre haverá mas ele atende ao meu objetivo principal.

Não vamos entrar em detalhes sobre seu alerta, já que é uma questão muito pessoal. No entanto, normalmente vemos pessoas extremamente crentes e que acreditam em tudo o que ouvem, que processo você indica para essas pessoas validarem as informações no que tange Thelema?

Bezerra da Silva disse uma vez: “Todo dia sai um otário e um malandro de casa; o problema é quando se encontram”. Tem gente que vai cair sempre em armadilhas, não tem jeito; é parte da vida. Mas tentando minimizar o problema, o processo de validar passa tanto pelo viés intelectual como procurar informações sobre a pessoa ou ordem, ler o que escreveram, procurar opiniões isentas tanto quanto o viés sutil através de métodos divinatórios como o tarô por exemplo.

“Quem és tu?” é a pergunta de um milhão de dólares e acredito que é a essencial de cada um de nós e sua resposta técnica foi mais do que suficiente! O que você pode falar sobre os erros comuns de um Probacionista da Santa Ordem? E qual mensagem você pode dar aos Estudantes e Probacionistas da Santa Ordem?

Existem erros e erros; os que devem ser evitados são aqueles que nos tiram do Caminho; outros, chamados assim pelo profano, são eventos que, aparente ou tecnicamente equivocados, auxiliam. Posso citar um: ainda na época da Nova Isis, após almoçar uma feijoada, tive a brilhante ideia de fazer pranayama de barriga cheia e mais, elevei-me nos planos. Sentei numa confortável cadeira de balanço, sem realizar qualquer banimento, comecei uma respiração abdominal e a visualizar-me saindo do corpo – ou seja, fiz tudo errado. Resumo: houve um início de incorporação -  o que muito me assustou – mas tal “possessão” completou-se em outras experiências e mostrou-se importantíssima para a minha Iniciação. Os erros que tiram do Caminho são comuns a todos que nos impedem de continuar qualquer tarefa: postergação, indolência, ânsia, medo de fracasso, mas o grande “assassino” de Probacionistas – e Iniciados – é o dia-a-dia, os assuntos “banais” e cotidianos que, lenta e sutilmente, nos tiram da Jornada.

A melhor mensagem que eu posso dar é a seguinte: “Be not animal; refine thy rapture! If thou drink, drink by the eight and ninety rules of art: if thou love, exceed by delicacy; and if thou do aught joyous, let there be subtlety therein! But exceed! exceed![1].

Falando sobre assuntos “banais”, como você vê as inúmeras brincadeiras de Internet e a possível banalização do assunto em redes sociais? Mais a fundo, qual é a postura esperada de um aspirante à AA?

Coisas assim são normais em qualquer área, é parte do jogo. A banalização, no final das contas, acontece apenas em cada pessoa, naquela que a faz e naquela que a aceita. Existem pessoas que não acreditam nessas coisas e as tratam assim. Sendo sincero, eu mesmo já fiz isso com assuntos considerados caros a outrem – e quem de nós já não o fez?  Se você banaliza algo que eu considero sério, problema seu. A coisa em si não perderá o valor para mim porque você a tratou jocosamente. Eu sou vigilante tanto em mim mesmo quanto em meus discípulos para que não sejamos fiscais da AA∴ ou da Lei de Thelema. Tem gente que fica preocupada com a imagem de ambos, más traduções de libri na web, no que dizem de fulano e de beltrano, para onde vai Thelema etc. Perda de tempo com o “folk folly”[2]. Já ouvi que devemos zelar por Thelema no Brasil, que devemos divulgar Thelema com responsabilidade. Besteira. O que é “responsabilidade”? Eu não sei. 666 foi irresponsável ás vezes com sucesso, devemos sê-lo de vez em quando. No máximo eu diria “com legalidade” senão pode-se sofrer alguma sanção penal. Existem forças maiores guiando isso, façamos o nosso trabalho da melhor forma possível, o resto se ajusta. Ainda nessa linha, não confundo brincadeiras banais com humor da mesma forma que seriedade e respeito não são inimigas da informalidade e do próprio humor. Ainda existem os que esperam discursos empolados e construções frasais complexas mas não cabe e como citado por 666 no “The Equinox”: “Os Irmãos da A.·. A.·. recomendam experimentos simples e os descreverão por sua canetas na linguagem mais simples possível.”.

Quanto a postura do Aspirante em relação a isso? “Be not animal; refine thy rapture![3].

Sigillum Sanctum Fraternitatis A∴A∴

Fontes de Referência

Notas de Rodapé    (↵ voltar)
  1. Não sejas animal; refina o teu êxtase! Se beberes, bebe pelas oito e noventa regras da arte: se tu amas, excede por delicadeza; e se tu fazes qualquer coisa prazerosa, que haja sutileza ali! Mas excede! excede!” – AL II:70-71. ↵ voltar
  2. AL III:17. ↵ voltar
  3. “Não sejas animal; refina o teu êxtase!” – AL II:70. ↵ voltar

© 2017 e.v. - Espaço Novo Æon







As opiniões expressas tanto pelo entrevistado, quanto pelo entrevistador com relação à Lei de Thelema e ao Æon de Hórus são pessoais e é muito importante ter em mente que toda informação coletada a respeito da Era de Aquário/Leão deve ser validada, cada um por si e que a nossa pedra fundamental é O Livro da Lei, que pode ser aqui encontrado em português, inglês e ainda na reprodução digital de seu manuscrito.

Entrevista com Frater Keron-ε, Primeira Parte

Revisão: Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.1 – 12/11/2012 e.v.

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Jonatas Lacerda

Jonatas Lacerda é Thelemita e programador de sistemas para Internet, com ênfase no setor bancário. Fundou o Blog Thelemitas e o Espaço Novo Æon (do qual é o seu o atual editor). Há mais de 13 anos estuda e procura aplicar os princípios da Lei de Thelema em sua vida. Após um encontro com o irmão Euclydes Lacerda de Almeida, focou seu trabalho pessoal na difusão da Lei de Luz, Vida, Amor e de Liberdade: Thelema. A base desse trabalho é o estudo dos princípios filosóficos e da aplicabilidade da Lei de Thelema no contexto individual e na vida em sociedade.

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