Thelemitas

Entrevista com Humberto Maggi

por Kayque Girão em Entrevistas

Thelemitas
Cultura

Entrevista com Humberto Maggi

concedida a Kayque Girão

Apresentação

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Meu primeiro contato com Huberto Maggi foi muito antes de conversar com o próprio, quando me enveredei nas pesquisas sobre magia cerimonial de cunho tradicional, conhecida também como magia grimórica ou tradição salomônica, em alusão ao mítico Salomão bíblico que, segundo a lenda corrente, prendeu 72 espíritos num vaso e o enterrou no esquecimento do tempo…

E foi justamente esse mito e “mistério” dessa tradição mágica que me chamou atenção. Como todo iniciante a goécia causa atração e medo na mesma medida que achava sublime dedicar “cada ato e pensamento a Adonai”na magia de Abramelin. A medida que minhas pesquisas avançavam fui encontrando em diversas fontes, como fóruns e amigos, indicações ao Humberto até que enfim travei contato com seus artigos em seu blog pessoal e em antigas publicações de cunho Thelêmico.

Humberto é um pesquisador sério dentro dessa senda e muito me arrisco a comparar seu senso engajado com o de Lon Milo DuQuette e sua pesquisa teórica e de campo a semelhança de Aaron Leitch em se doar ao empirismo e racionalidade nas práticas dessas vertentes e na produção de conteúdo atualizado aos magistas e acadêmicos interessados.

Vale a pena conferir.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Kayque Girão

Entrevista com Humberto Maggi

Humberto Maggi

Humberto Maggi

Kayque Girão: Humberto Maggi por ele mesmo. Fale um pouco sobre você.

Humberto Maggi: Uma das maneiras indiretas de se conhecer a Verdadeira Vontade é realizar uma anamnese, com o objetivo de se identificar os pontos característicos da pessoa e da sua vida – enquanto não se adquire uma comunicação direta com um guia que transcende nossa consciência comum. Também se diz que esse contato com o guia transcendente acontece de maneira sutil naquelas áreas onde manifestamos talento ou vocação. Para mim, hoje aos 44 anos, aparece de maneira muito clara que o que define a minha vida sempre foram os livros e a Magia. E o único talento e vocação que sempre demonstrei, desde pequeno, foi escrever. Escrever sobre Magia é, por isto, aquilo que me define, o exercício pelo qual eu me torno cada vez mais em ato aquilo que sou em potencial.

Meu interesse se dá no cruzamento entre o conhecimento acadêmico e a prática. Geralmente, meus textos misturam a experiência pessoal com pesquisa histórica, na busca de um entendimento mais completo, mais profundo. O método da Ciência é o meu método, mas minha visão de Ciência hoje é muito simples, significa simplesmente saber diferenciar entre fatos e hipóteses. A incapacidade de se ver esta diferença é o que leva ao que considero a grande falha epistemológica do ser humano, a crença. A crença nasce no momento em que a inteligência falha.

Minha praxis, por isso, tem sido colocar todas as variadas explicações tradicionais sobre os fenômenos mágicos de lado, experimentar estes fenômenos e, a partir deles, rever hipóteses e verificar fatos. Isto tudo eu tento por em prática dentro das dificuldades impostas pela vida cotidiana, de quem precisa trabalhar para viver. Estas dificuldades são bem-vindas, pois permitem manter um contato com a realidade onde nosso ego pode se aprimorar e evitar desequilíbrios e excessos, ilusões e desenganos. Existem também os pontos em que prática mágica e vida cotidiana se cruzam, tanto nas transformações e efeitos que trazemos da prática para o dia a dia, quanto nas interferências diretas da Magia no cotidiano, aquilo que alguns denominam Magia Prática. Assim, como se diz que Meditação e Magia são estradas paralelas, que se encontram no horizonte de eventos de um abismo que transcende, também a vida cotidiana e a prática da Magia seguem lado a lado em um processo crescente de fusão.

Por isto tudo, é que considero tão importante o exercício dos opostos, que Eliphas Levi ensinava a seus discípulos e que Crowley adotou, por que ele permite flexibilizar nosso entendimento e mover nosso pensamento além do “é isto” ou “é aquilo”; ajuda-nos a nos prepararmos para aquele salto de consciência que nos leva além do “isto e do aquilo”, e que não pode ser descrito.

O cruzamento entre o academicismo e a prática mágica que você mesmo expôs é bem notável entre os autores de livros sobre grimórios do período medieval, como Aaron Leitch e Joseph Lisiewski, ambos de notável currículo superior. Aproveitando o ensejo, pode compartilhar conosco sobre sua formação acadêmica?

Eu tenho dois cursos incompletos, um de Comunicação Social pela UFF, e outro de Teologia pela João Paulo II.

Como foi seu primeiro contato com ocultismo e magia e o que lhe atraiu em Thelema para ter optado por esta?

É bem difícil de definir. Se eu faço agora uma rápida anamnese, me lembro do início do meu aprendizado escolar, onde meu interesse era a Paleontologia. Meu pai é geólogo e tinha livros sobre fósseis, colecionava selos de dinossauros. Este interesse foi fundamental para fundamentar minha visão científica, ainda criança eu concluí que a Bíblia estava errada por que estava em contradição com a Paleontologia; minha mãe sempre conta que eu perturbei uma professora de catecismo querendo saber em que era geológica viveram Adão e Eva.  Acho que por volta dos dez anos me interessavam as sociedades secretas, depois passei anos fascinado com um livro da coleção Prisma chamado “Magia Negra e Feitiçaria”. Comecei essa coleção por conta dos livros de Paleontologia que ela tinha. Colecionar também é uma característica forte em mim. Esse livro sobre Magia tem imagens maravilhosas, mas demorou alguns anos até eu consegui um exemplar, meu pai não via isso com muito gosto, possivelmente receava a influência que pudesse ter. Foi onde li sobre Crowley e a Aurora Dourada pela primeira vez, e fiquei fascinado. Crowley era um aventureiro que jogava xadrez e praticava Magia, e eu achei aquilo o máximo.

Foi só bem mais tarde, já com uns 25 anos, que descobri a Livraria do Francisco Laussue e pude ter contato direto com escritos de Crowley. Eu resolvi ler seus livros justamente por que pensei que, ele sendo tão universalmente criticado, devia ter alguma coisa boa. Isto foi na época em que a Internet ainda não existia ou era incipiente, na época comprar uma máquina de escrever elétrica ainda era um objetivo difícil de se conseguir… Eu me lembro de ter lido inicialmente o Diary of a Drug Fiend, que foi um começo excelente, por que na figura de King Lamus eu pude ver aquilo que era o real objetivo de Crowley, na figura idealizada do que ele gostaria de ter sido, e também entender o que em termos práticos ele queria dizer com viver a Verdadeira Vontade.

Hoje já não é correto dizer que opto por Thelema, ou mesmo me definir como Thelemita. Eu conservo muitos elementos do pensamento e do método de Crowley, algumas das minhas práticas principais ainda são a Greater Invocation, Israfel, Star Ruby, Star Sapphire… mas não vejo Thelema como algo absoluto, não tenho uma visão religiosa do Livro da Lei como uma revelação divina, etc. Em termos de prática, eu utilizo muito mais uma abordagem livre na linha da Magia do Chaos que me permite trabalhar com qualquer sistema de símbolos, e nesse contexto Thelema é o sistema de símbolos com que geralmente trabalho.

Ilustração de Jan Parker para o livro Magia Negra e Feitiçaria, publicado no Brasil na Série Prisma.

Ilustração de Jan Parker para o livro Magia Negra e Feitiçaria, publicado no Brasil na Série Prisma.

E o que você entendeu por “viver a Verdadeira Vontade” quando absorveu e assimilou os ensinamentos da Besta?

Eu não tenho uma resposta exatamente racional para isto; para mim é uma experiência de abertura a algo transcendente, que não se comunica por palavras, mas que é como uma luz sutil que se manifesta em você e que me inspira e me guia. Não como um ideal, mas uma presença, que se associa com encontros felizes pelos quais você recebe conhecimento.

Como veio a conhecer, e fazer parte, da Ordo Templi Orientis? O que pode nos falar a respeito da ordem na época que o atraiu tanto?

A Ordo Templi Orientis era algo mítico para mim, depois de passar tanto tempo imerso na leitura de Crowley. Por um período eu pensava que fosse algo que tivesse desaparecido, lembremos que comecei a estudar o assunto naquele período pré-Internet. Eu fiquei muito entusiasmado quando a Ordem de fato veio ao Brasil, e fiz minhas primeiras iniciações em 1996. Todas as iniciações que fiz, do Minerval ao Perfeito Iniciado e Cavaleiro do Oriente e do Ocidente, foram marcos superimportantes na minha vida, momentos definidores e de definição. Essas iniciações me abriram para experiências mágicas importantes e foram sempre seguidas de mudanças radicais na minha vida.

Na maioria dos seus artigos, seja da antiga revista Safira Estrela ou de antigos artigos pela própria O.T.O, assinaste como Frater Djjal. Em sua opinião, qual a real finalidade de um “nome mágico” no curso iniciático e até que ponto ele se manifesta na vida como um todo? Ainda nesse assunto, em especial ao nome “Djjal”, pode compartilhar conosco o insight que o fez optar na época por essa manifestação pessoal de sua vontade?

Magia Enochiana, Humberto Maggi

Magia Enochiana, Humberto Maggi

Para ser sincero, eu me lembro na época de assinar textos como “Zarazaz”, não me recordo de ter usado Dajjal, mas pode ser que tenha feito – minha memória não é tão boa assim… Se o fiz, provavelmente devo ter utilizado a grafia assim, “Dajjal”, ou al-Dajjal. Meu email se escreve assim. O uso do nome mágico creio que se origina principalmente da prática da Aurora Dourada, que o Crowley continuou e tornou mais popular. Tinha por objetivo definir magicamente a pessoa naquele momento, ou algo que ela almejava realizar. Hoje,  se tornou uma prática extremamente popular, que me parece ter por objetivo expressar melhor do que o nome dado pelos pais as aspirações da pessoa, mas isto tem se dado atualmente em um nível mais profano. Temos ai centenas de sorors Babalon e fraters Baphometh no Facebook. O nome mágico ao mesmo tempo vela e desvela: vela a identidade civil, o que antigamente era muito importante se você fizesse parte de uma sociedade por alguma razão secreta, e desvela suas aspirações. Se eu cheguei a utilizar o nome Dajjal além de no meu e-mail, certamente foi por ser a grafia que reproduz a palavra em Árabe; “al-Masihad-Dajjal” seria uma figura Islâmica aproximada ao Anti-Cristo, logo, uma homenagem ou referência ao Crowley.

De onde veio a ideia da série de contos intitulada “Apophraz – Congressus com Dæmone”, em uma das edições do Safira Estrela e posteriormente num dos artigos do site oficial da O.T.O. – representação brasileira?

Era uma mistura de experiências pessoais, bastante romanceadas, com uma linha temática em que cada capítulo começava falando de um número. Creio que as principais inspirações eram o relacionamento amoroso que eu tinha na época e o contato com um dæmon, que no texto se me lembro bem eu chamava de “O Velho”. As experimentações com o Santo Daime de então também foram muito importantes na hora de escrever esses textos. Eu escrevi um pouco sobre o contato com esse dæmon em um texto recente intitulado “The Solomonic Spirit;” foi publicado pela Anathema Press no primeiro volume de uma coleção chamada Pillars.

É de conhecimento público em diversos blogs e sites do seu trabalho editorial e como escritor em livros voltados a magia cerimonial de cunho mais tradicionalista, voltada aos grimórios. O que o atraiu tanto a essa vertente em particular?

Alguns anos atrás eu descobri a editora Scarlet Imprint, através de uma amiga muito querida, foi um período em que práticas que popularmente são conhecidas como “goéticas” voltaram a se fazer presentes no meu trabalho. Eu li o Howlings, uma coleção de ensaios sobre estes tipos de práticas, e o True Grimoire de Jake Stratton-Kent. O True Grimoire, primeiro volume da Encyclopedia Goetica de Jake, me abriu para o trabalho com Grimorium Verum, que se tornou a base de uma parte muito importante do meu trabalho corrente. Duas coisas me fascinam na literatura dos grimórios, a parte da ascese, da purificação e do contato com o divino, e a parte do conhecimento e conversação com as entidades espirituais. Meu entendimento dessa sistemática também foi bastante influenciado pelo livro seminal de Aaron Leitch, Secrets of the Magickal Grimoires, que entre outras coisas trata com mais detalhes de algo que eu havia concluído muitos anos antes, lendo o livro de Mircea Eliade sobre Xamanismo: que praticamente não existe prática, técnica ou experiência mágicas que não tenha sido anteriormente conhecida pelos xamãs de sociedades primitivas. A diferença entre a prática medieval e renascentista dos grimórios e as diversas técnicas e resultados encontrados entre xamãs é muito mais uma diferença de interpretação filosófica e teológica, do que de prática. O que me atrai nos grimórios é justamente o método, mesmo que este se encontre muitas vezes incompleto. Mas, o fundamento é o mesmo, é universal.

Sobre sua observação acerca da incompletude de alguns grimórios, a que se atribui geralmente a isso? Seria somente uma questão histórica de degeneração de material e consequente perca de conteúdo ao longo do tempo ou haveria mais motivos para que os grimórios sejam muitas vezes tidos como uma leitura de difícil apreensão?

Existe o aspecto da degeneração do texto, que necessitava ser copiado manualmente muitas vezes, mas existe também o aspecto da censura, promovida violentamente pelas instituições cristãs. Um bom exemplo é o desaparecimento de técnicas propiciatórias. Em textos como a Hygromanteia você ainda encontra passagens onde uma refeição é oferecida a um espírito. Trata-se de uma técnica recorrente em várias culturas, mas dentro do Cristianismo ela corria o risco de ser associada à idolatria ou à heresia. Os grimórios passam a se parecer muito com os manuais de exorcismo, onde o espírito é comandado e ameaçado, e um grimório que seguisse esta linha podia fazer com que seu dono fosse tratado com maior leniência, caso fosse a julgamento. Determinados segredos também podiam ser omitidos, uma vez que o possuidor de um grimório muitas vezes era um prestador de serviços para uma comunidade ou para indivíduos, e tinha interesse em manter seus “segredos profissionais”.

Em relação a magia grimórica ou salomônica é notável que ela tenha uma ambientação judaico-cristã e práticas típicas do pensamento do Velho Æon. Em AL II:05 é dito que“os rituais do tempo antigo são negros. Que os maus sejam atirados longe; que os bons sejam purgados pelo profeta! Então este Conhecimento seguirá corretamente”. Sendo assim, de uma forma prática, o que você aconselharia ao thelemita interessado nessas práticas quanto ao modo de praticá-las em conformidade com o Æon da Criança Coroada e Conquistadora? 

Me parece que esses versos do Livro da Lei se referiam primariamente aos rituais de iniciação da Aurora Dourada, não sei se tinham por objetivo serem aplicados a todo e qualquer ritual. Estes rituais e iniciações da Aurora Dourada supostamente se baseariam em princípios que deixaram de ser importantes e que deveriam agora serem substituídos. É o que o Crowley tentou realizar reformando o sistema da Aurora Dourada no da A∴A∴, e reescrevendo os rituais da O.T.O. Crowley criticou enfaticamente aquilo que chamava de “fórmula do deus moribundo,” que é o processo de morte-ressurreição. Agora, esse processo é o processo chave de toda iniciação xamânica, que ocorre espontaneamente ou é induzido. Ele acontece desde a pré-história, e vem ocorrendo por um período muito mais amplo do que a definição de qualquer Æons thelemico. A história de Cristo simplesmente repete o tema, que geralmente é acompanhado pelo desmembramento do xamã pelos espíritos, que em seguida o recriam como um ser de poderes mágicos. É um processo fundamental que reflete características nossas essenciais, e não vai deixar de acontecer e nem de ser fundamental só por que o Crowley o considerou obsoleto.

Essas injunções se baseiam no modelo thelêmico dos Æons, o qual é estritamente eurocêntrico e não-histórico. Não faz nenhum sentido você querer aplicar a divisão iniciática-histórica dos Æons thelêmicos, por exemplo, à história da China, da Índia, da África… é um conceito que se baseia na história do Ocidente, mais ainda, do Ocidente cristianizado. Historicamente falando, por exemplo, muitas das ideias que no século XIX e começo do século XX apoiavam a existência de um Æon de Ísis, de culto à natureza e com preponderância do matriarcado, foram posteriormente descartadas.

A influência judaico-cristã, que o Livro da Lei parece associar com “os rituais do tempo antigo,” na magia cerimonial salomônica é quádrupla: (1) Define a cosmologia do praticante; (2) Define a teologia do praticante; (3) Define a visão que o mesmo tem sobre os espíritos; e (4) Influencia a moral em que o praticante exerce suas práticas.

Quando mencionei acima que parte da minha abordagem é deixar de lado as definições tradicionais herdadas da Filosofia e da Religião, experimentar diretamente e, reunindo dados, com o tempo tentar diferenciar entre hipóteses e fatos, eu me referia primariamente a deixar de lado essas quatro influências principais.

Isto nos deixa, em primeiro lugar, com uma fundação de práticas e técnicas que, como disse, remontam aos primórdios da cultura humana, e que também, e isto é muito importante, podem ser redescobertas a qualquer momento. As práticas e técnicas não mudaram com o passar do tempo simplesmente por que nossa neurologia e fisiologia permanecem as mesmas. Aquilo que pode nos levar ao transe, à concentração, à conversação com espíritos etc. é basicamente o mesmo, não mudou com nenhuma suposta transição de æons.

Entretanto, é muito difícil você se livrar dessas influências, pois elas estão imersas em cada palavra dos grimórios. Eu estou lendo um livro chamado “The Woman Magician: Revisioning Western Metaphysics from a Woman’s Perspective and Experience”, que trata sobre a dificuldade de mulheres magistas lidarem com toda essa carga simbólica herdada pela Magia Ocidental, que é fundamentalmente masculina, patriarcal e machista, por exemplo. Não existe caminho fácil para realmente se lidar com esta herança cultural, mas eu tenho algumas diretrizes, que derivam de exercícios cabalísticos e de conceitos da Magia do Chaos.

Eu entendo que todo o simbolismo de um texto mágico reflete uma interpretação, culturalmente definida pela época e lugar onde foi escrito, de uma experiência mágica. Aquele autor, naquele século, teve uma experiência e a relatou e definiu da maneira que ele sabia, ou que ele podia. Obviamente, a interpretação neste caso era cristã. Qualquer ser espiritual que um mago entrasse em contato seria catalogado como anjo ou demônio, por exemplo, as categorias conhecidas e aceitas. Determinadas vivências só poderiam ser entendidas como sendo manifestações da Virgem, do Espírito Santo, de Jesus, não que realmente o fossem, em um sentido objetivo e absoluto.

Vamos relembrar que ninguém nunca teve uma experiência mística com Jesus Cristo sem antes o ter conhecido culturalmente, mas experiências que podem ser posteriormente interpretadas como sendo um contatocom Jesus Cristo sempre existiram. Um thelemita que queira fazer uso da literatura dos grimórios pode ter este entendimento interior, que os nomes judaicos, cristãos ou de qualquer outra origem, se referem a uma experiência universal que recebeu uma descrição cultural em determinado momento, podendo utilizá-los com essa flexibilidade no uso dos símbolos que aprendemos na Magia do Chaos, e também no estudo de atributos da Árvore da Vida.

Ou, pode simplesmente trocar os nomes e os textos.

Interessante sua resposta sobre substituir os nomes para se harmonizar com o paradigma do praticante. Mas, de uma maneira prática, esse raciocínio de substituição poderia ser estendido aos elementos materiais da prática grimórica, como substituir um material específico e raro como cinto de leão, por exemplo, como descrito no Clavícula Salomonis? A corrente mais tradicionalista segue o grimório dizendo ser prejudicial qualquer tipo de substituição que possa afetar a pureza da operação. Qual seu posicionamento acerca dessa questão?

Vamos imaginar que os leões se extinguem, ou que (esperemos) o controle ecológico evolua a ponto de que o couro deste animal não esteja mais disponível. Os espíritos deste grimório não poderiam mais ser contatados?  Se estivermos considerando os espíritos como tendo uma existência objetiva em relação ao praticante, ou como sendo figmentos de sua mente, não importa, o fato é que não se pode considerar que o acesso a eles dependa de um ou outro detalhe de um único texto. Se a censura cristã tivesse tido êxito a ponto de queimar todos os grimórios e assassinar todos os magos, isto não significaria o fim deste tipo de magia, ela renasceria geração após geração simplesmente por que sempre vão existir pessoas que, de uma maneira ou de outra, vão partilhar do conhecimento e conversação com os espíritos. É mais importante estar atento aos princípios gerais da Magia Cerimonial, que você consegue apreender estudando diferentes textos, os princípios ou etapas como a purificação (do mago e do ambiente), a consagração, a proteção, a invocação, o despedimento, etc. E, acima de tudo, ter em mente que o contato com as entidades espirituais é não só o fim desta prática, mas também seu princípio: são os espíritos que ensinam ao mago, e os grimórios são apenas métodos particulares aprendidos dos próprios espíritos, e que tem por objetivo dar início ao processo. Depois que o contato se inicia, os espíritos te orientam sobre como fazer para aprofundar seu trabalho mágico, e esta orientação pode ir muito além e até mesmo contradizer as primeiras instruções de um texto.

Ao longo de todo seu tempo de prática, com qual grimório você mais possui afinidade e gosta de trabalhar? E qual foi o de consecução mais complicada?

Nos últimos anos eu tenho trabalhado principalmente com o Grimorium Verum e os Sexto e Sétimo Livros de Moisés. Nenhum deles teve uma “consecução complicada”. Eu, com o passar do tempo, simplifiquei muito minha maneira de operar, basicamente eu utilizo os sigilos e as preces e invocações. O importante é você poder despertar sua percepção, aquilo que lhe permite adquirir o “conhecimento e conversação” com os espíritos, esta é a chave que realmente abre as portas dos grimórios.

De uma maneira geral, o que você também aconselharia aos interessados no estudo e prática dos grimórios? Que obras também você também recomenda para quem está em começo de jornada?

A melhor obra de introdução é o livro de Aaron Leitch, Secrets of the Magickal Grimoires. É bom ter um currículo de leitura geral, estudando os textos diferentes para se adquirir uma compreensão geral das técnicas. A leitura de antologias de praticantes, onde eles escrevem sobre suas experiências, é também um grande recurso disponível hoje, e temos também excelentes grupos on-line, como os do próprio Aaron Leitch e do Jake Stratton-Kent. Eu defendo o uso de uma conduta respeitosa e amistosa, mas cuidadosa, com os espíritos. Se eles têm uma existência objetiva, nada justifica que o mago tente impor-se a eles por ameaças; isto é uma conduta derivada das superstições cristãs e se baseia em contradições bem bestas, tentando justificar algo que, por definição, é injustificável: a busca de contato de um cristão com um ser espiritual, que sua própria crença diz estar condenado pela eternidade por seu opor à divindade. Dizer que esses espíritos estão obrigados a servir ao mago ou que se beneficiam do seu controle está na mesma linha das argumentações teológicas de que os povos colonizados das Américas e da África se beneficiavam espiritualmente da violência da escravidão.

Por outro lado, se o mago advoga que a experiência mágica é meramente subjetiva, ele deveria se questionar sobre o tratamento agressivo e ameaçador com que está lidando com sua própria psique.

Por fim, eu recomendo a prática da meditação, pois ela permite preparar sua mente para estabelecer e manter o contato com os espíritos. É preciso desenvolver a quietude da mente e a concentração, pois é importante aprender a diferenciar os processos usuais da mente do conhecimento que você recebe durante a conversação com os espíritos; ou, se, mais uma vez, seguimos a interpretação subjetiva, saber diferenciar a origem interior das imagens e palavras que se recebe durante a prática mágica.

Também ficou publicamente conhecido a sua aventura na Abadia de Thelema, em Cefalú. Pode nos contar mais a respeito (de onde veio a ideia, suas impressões do local, etc.)? Atualmente a Abadia ainda se encontra abandonada ou já é propriedade de alguém ou alguma instituição? Na sua opinião, saberia nos dizer os motivos que a levaram ao abandono e porque, a exceção de projetos como “Save the Abbey of Thelema”, ela ainda não foi reformada e preservada como um local histórico “especial” (poderia dizer sagrado, mas corro o risco de passar uma impressão religiosa) aos thelemitas e simpatizantes?

Humberto Maggi na Abadia de Thelema

Humberto Maggi na Abadia de Thelema

A ida a Abadia foi um momento muito importante, precioso na minha vida mágica. O que eu ouvi dos irmãos italianos da Ordem é que o problema da Abadia é o seu dono atual, o qual aparentemente não quer aceitar nenhum tipo de proposta de venda. A construção está muito precária, é uma casa pequena e muito antiga. As descrições de Crowley sobre o tamanho da mesma são muito exageradas.

 

Eu penso que o foco devia deixar de ser salvar a estrutura, que está correntemente ao lado do estacionamento de um estádio de futebol, e se concentrar em simplesmente remover e salvar as pinturas que permanecem; as pinturas são a única coisa de valor que existe lá.

Interessante notar também que em uma das fotos registradas na Abadia você apresenta um tipo diferente de estela diferente da tradicional “Estela da Revelação”. O que o motivou a elaborar esse novo modelo e qual o seu significado?

É uma estela que substitui a original com a imagem do Atu XX na frente. O Atu XX é uma reelaboração da imagem da estela original, sobre um novo ponto de vista. Nas estela original nós olhamos de lado o sacerdote que conversa com a divindade; no Atu XX nós olhamos diretamente o deus, pois na concepção do Novo Æon cada um deve ser seu próprio sacerdote. Por isto, durante um bom tempo, eu quis fazer uma estela assim para mim, mas não sabia o que colocar na parte de trás. Até uma madrugada em que veio subitamente à minha mente a ideia de colocar o Atu XI no verso. Isto combinou bem por que XI + XX = 31, e Crowley têm várias passagens onde ele elabora exatamente sobre a importância desses dois Atus juntos. Ele diz que os dois Atus representam a totalidade do panteão thelêmico, pois na frente se tem Nuit, Hadit e Hórus, e no verso a Besta e a Mulher Escarlate. Eu escrevi na época um liber com ideias que vieram à minha mente sobre o uso desta versão da estela, e um texto falando a respeito. Ainda se encontra on-line, em um dos meus blogs antigos.

Atualmente, vem trabalhando em algum novo projeto (editorial ou não)? Poderia compartilhar conosco?

Estou finalizando o segundo volume da coleção Thesaurus Magicus, focando nas tradições mágicas associadas ao nome de São Cipriano em Portugal e Espanha, e ao mesmo tempo trabalhando na versão para o Inglês do mesmo que deve sair pela Nephilim Press. O terceiro volume do Thesaurus está iniciado, esperando algumas autorizações para o uso de certos textos, e uma edição chamada Ars et Scientia, reunindo textos antigos e traduções em Português dos textos publicados pelas editoras estrangeiras também está prevista. Enquanto isto, a minha pesquisa e as minhas práticas mágicas na elaboração de um projeto intitulado Summa Goetica prosseguem.

Bom, estamos chegando ao fim da entrevista na qual a equipe do Espaço Novo Æon sente-se honrada em realizar e, como de praxe, temos o costume de deixar as palavras finais ao entrevistado. Caso queira dizer algo que ainda não tenha tido a oportunidade, sinta-se à vontade.

Eu agradeço bastante por esta oportunidade; como disse no começo, minha vida gira em torno desse estudo e dessas práticas, algo que se recebe do Universo e que volta para o Universo quando escrevemos ou compartilhamos esse conhecimento. Quando faço isto, eu me sinto feliz, e ser feliz me parece ser o selo de que você realizou nesse momento a sua Verdadeira Vontade.

 

Fontes de Referência

© 2017 e.v. - Espaço Novo Æon







As opiniões expressas tanto pelo entrevistado, quanto pelo entrevistador com relação à Lei de Thelema e ao Æon de Hórus são pessoais e é muito importante ter em mente que toda informação coletada a respeito da Era de Aquário/Leão deve ser validada, cada um por si e que a nossa pedra fundamental é O Livro da Lei, que pode ser aqui encontrado em português, inglês e ainda na reprodução digital de seu manuscrito.

Entrevista com Humberto Maggi

Revisão: Jonatas Lacerda
Edição: Jonatas Lacerda
Versão: 1.0 – 14/04/2013 e.v.

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Kayque Girão

Kayque Girão é Thelemita e estudioso das Ciências Ocultas, com ênfase em Magia(k). Um buscador da senda dos mistérios, blogueiro e escritor amador.

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