O Caminho da Mão Esquerda

Este artigo é um capítulo de Magia Sem Lágrimas

As consequências da restrição e da não-dissolução.

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Capítulo XII:
O Caminho da Mão Esquerda:
os “Irmãos Negros”

Cara Soror,

Faz o que tu queres será o todo da Lei.

Foi a introdução da palavra “self” que suscitou questões tão espinhosas. É realmente um pouco desconcertante; a sinalização “Caminho da Mão Direita”, “Caminho da Mão Esquerda”, parece um tanto indecifrável; e então, por um longo trecho, eles parecem exatamente iguais. Em que ponto eles divergem?

Na verdade, as respostas são bastante simples.

No que diz respeito à conquista ou consecução, os dois Caminhos são, na verdade, idênticos. Aliás, quase nos sentimos obrigados a postular alguma falsidade intrínseca, completamente impossível de detectar, inerente aos estágios mais iniciais.

Pois a decisão que determina a catástrofe só confronta o Adeptus Exemptus 7○=4□. Até que esse grau seja alcançado, e de fato alcançado plenamente, com todos os botões devidamente costurados, não se é capaz de compreender o que significa o Abismo. A menos que “tudo o que você tem e tudo o que você é” seja idêntico ao Universo, sua aniquilação deixaria um excedente.

Preste muita atenção a esta primeira distinção: o “Magista Negro” ou Feiticeiro não chega a ser nem mesmo um parente distante do “Irmão Negro”. A diferença entre um gatuno e um Hitler não é uma analogia tão ruim.

O Feiticeiro pode ser – e geralmente é – uma pessoa frustrada e desiludida, cujos objetivos são perfeitamente naturais. Muitas vezes, seu verdadeiro problema é a ignorância; e quando finalmente se torna um Magista Negro de renome, percebe que não está chegando a lugar nenhum e se encontra, a despeito de si mesmo, no Verdadeiro Caminho da Sabedoria.

“Invocando Zeus para aumentar o poder de Pã,
A oração perturba o homem demente;
A luxúria permanece tão imóvel quanto o Amor”1.

Então, como um bom menino, ele se livra de seus aparatos de feiticeiro, encontra a A∴A∴ e vive feliz para sempre.

O Caminho da Mão Esquerda é uma questão totalmente diferente. Vamos começar pelo começo.

Você se lembra de eu ter dito que apenas duas operações eram possíveis na Natureza: adição e subtração. Vamos aplicar isso ao progresso mágico.

O que acontece quando o Aspirante invoca Diana ou chama Lilith? Ele aumenta a soma de suas experiências nessas formas específicas. Às vezes, ele tem uma “experiência de ligação”, que conecta duas linhas principais de pensamento e, portanto, equivale a dezenas de ganhos isolados.

Ora, se existe alguma diferença entre o Adepto Branco e o Adepto Negro em casos semelhantes, é que um, agindo por “amor sob vontade”, consegue um casamento com a nova ideia, enquanto o outro, simplesmente agarrando-se, adiciona uma concubina ao seu harém escravizado.

O futuro Irmão Negro se restringe constantemente; contenta-se com um ideal muito limitado; tem medo de perder sua individualidade – o que lembra a lengalenga “nórdica” sobre “poluição racial”.

Você já viu aquelas rosas de areia do Saara? Tal é a violência do Khamsin2 que ele junta os grãos de areia, comprime-os e, por fim, os transforma em grandes blocos, grandes e sólidos o suficiente para serem usados como muros no oásis. E são lindos! Fiu-fiu! Apesar de tudo isso, não são rochas de verdade. Deixe-as em paz, sem qualquer interferência – e o que acontece? (Eu trouxe algumas para casa e as guardei “em segurança” como curiosidades e como testes psicométricos úteis.) Ai de mim! Tempo é o suficiente. Vá até a gaveta onde estavam guardadas; nada resta além de montinhos de poeira.

“Pô Mestre!” (Que tom de reprovação na sua voz!) Muito bem, muito bem! Mantenha a calma! – Eu sei que esse é o termo preciso usado em A Visão e a Voz para descrever o Grande Irmão Branco ou o Bebê do Abismo; mas para ele significa vitória; para o da Esquerda, significaria derrota, ruína devastadora, irremediável, definitiva. É exatamente isso que ele mais teme; e é a isso que ele deve chegar no fim, porque não há elemento compensatório em sua ideia de estrutura. As nações nunca crescem permanentemente por meio de métodos de saque e pilhagem; apenas se adquire um ponto de dor, como no caso da Lorena3, talvez até mesmo de Éire4. (Embora Éire esteja usando justamente essa fórmula de Restrição, se isolando em sua miséria, pobreza e orgulho idiota, quando um verdadeiro casamento e dissolução em um país vivo de verdade lhe dariam nova vida. A ideia do “caldeirão cultural” é a grande força da América.)

Consideremos a aristocracia de Faubourg Saint-Germain5 – hoje quase uma vaga lembrança sentimental. A guilhotina não os matou; foi a própria recusa deles em se adaptar às novas condições biológicas da vida política. Foi justamente a restrição imposta a eles que os corroeu em primeiro lugar; se Lafayette6 ou Mirabeau7 tivessem recebido plenos poderes e, com os recursos adequados, uma geração mais jovem e virtuosa, a monarquia talvez ainda governasse a França.

Mas então (você pergunta) como uma pessoa pode se desviar tanto depois de ter, como Adeptus Minor, alcançado o “Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião”?

Lembre-se da passagem no 14º Æthyr: “Eis para onde o teu Anjo te conduziu”, e assim por diante. Talvez o Irmão Negro abandone seu Anjo quando percebe o Programa.

Talvez seu erro estivesse tão profundamente enraizado, desde o princípio, que foi seu Gênio Maligno que ele evocou.

Nesses casos, a política do homem é, naturalmente, romper todos os laços com a Tríade Suprema e substituí-la pela invenção de uma coroa falsa, Daäth. Para eles, o Conhecimento será tudo, e o que é o Conhecimento senão a própria alma da Ilusão?

Ao recusar o verdadeiro alimento para todas as suas faculdades, elas perdem sua unidade estrutural e precisam ser fortalecidas por doses contínuas de drogas em uma angustiante autopreservação. Assim, todas as suas equações químicas tornam-se endotérmicas.

Espero estar me fazendo entender; é uma linha de raciocínio terrivelmente sutil. Mas creio que você conseguirá captar o teorema essencial; suas próprias reflexões, auxiliadas pelas passagens relevantes do Liber 418 e de outros textos, farão o resto.

Descrever a atitude alternativa deve esclarecer, por meio do contraste; no mínimo, a contemplação deve representar uma mudança agradável.

Cada acréscimo deve me modificar. Quero que assim seja. Quero assimilá-lo completamente. Quero torná-lo uma característica permanente do meu Templo. Não tenho medo de me perder nele, até porque ele também é modificado por mim no ato de união. Não tenho medo de que seja a coisa “errada”, porque toda experiência é uma “brincadeira de Nuit”, e o pior que pode acontecer é uma perda temporária de equilíbrio, que é imediatamente corrigida, assim que percebida, ao recordar e colocar em prática a fórmula da contradição.

Lembrem-se do Fāma Frāternitātis: quando abriram a cripta que guardava o Pāstōs de nosso Pai Christian Rosenkreuz, “todas essas cores eram brilhantes e cintilantes”. Ou seja, se um painel medisse 10 x 40 polegadas, o símbolo (digamos, amarelo) ocuparia 200 polegadas quadradas, e o fundo (nesse caso, violeta) as outras 200. Por isso, elas deslumbravam; a limitação, a restrição, a demarcação, desapareciam; e o resultado era uma ideia equilibrada de forma e cor que transcende a compreensão física. (Em certa ocasião, Picasso tentou desenvolver essa ideia em uma tela.) Destrua esse equilíbrio por um décimo de milionésimo de polegada, e o efeito se perde. O elemento desequilibrado se destaca como um civil no meio de um regimento.

É verdade que essa faculdade, esse senso de equilíbrio, precisa ser adquirido; mas, uma vez conquistado, torna-se um guia infalível. O desconforto instantâneo serve de alerta; o impulso de coçar (a analogia é perfeita demais para ser rejeitada!) é irresistível.

E, nossa!, como isso é imperativo!

A menos que seu Universo seja perfeito – e a perfeição inclui a ideia de equilíbrio – como você pode chegar sequer ao Ātmadarśana? Os hindus podem afirmar que o Ātmadarśana, ou pelo menos o Śivadarśana, é o equivalente a atravessar o Abismo. Cuidado com tais conclusões! Os Estados de Transe são simplesmente experiências isoladas, abruptamente separadas da vida mental normal. Atravessar o Abismo é uma revolução permanente e fundamental em todo o seu ser.

Mais sobre estar à beira do Abismo. Se faltar ou houver um único átomo redundante, toda a monstruosa e portentosa massa tenderá a se mover com um impacto irresistível, em uma direção que restaure o equilíbrio. Para desviá-la, pense em um giroscópio! Como então destruí-la com um único gesto estupendo? Ah! Ouça A Visão e a Voz.

Talvez seja melhor e mais simples selecionar as passagens mais importantes e reuni-las como um apêndice a esta carta. Também, em contraste, as alusões aos “Irmãos Negros” e ao “Caminho da Mão Esquerda”. Isso deve lhe dar uma ideia clara do que cada um é e faz; do que distingue seus respectivos métodos, de maneiras tão confusamente semelhantes. Espero sinceramente que você afie sua Adaga Mágica na Pedra dos Sábios e maneje com destreza e determinação tanto o Buril de Cabo Branco quanto o de Cabo Negro. Ao tentar expressar essas opiniões, sou constantemente assombrado pelo medo de estar deixando escapar algum ponto crucial, ou mesmo permitindo que uma mera objetividade passe por argumento. Isso só piora quando alguém se habitua tanto às ideias Neschamicas, a ponto de saber, mesmo antes de falar, que o que vai dizer é necessariamente falso, tão falso quanto é contraditório. Então, que diferença faz o que se diz?

Essas dúvidas são desanimadoras!

“Chega de Porque! Seja ele danado como um cão!”

Seguem abaixo as citações de A Visão e a Voz.

“O Anjo reaparece.

A escuridão se acumula ao redor, tão densa, tão aderente, tão penetrante, tão opressiva, que todas as outras trevas que eu já concebi seriam como uma luz brilhante ao lado dela.

Sua voz vem em um sussurro: Ó tu que és o mestre dos cinquenta portões do Entendimento, não é minha mãe uma mulher negra? Ó tu que és mestre do Pentagrama, o ovo do espírito não é um ovo preto? Aqui reside o terror e a dor cega da Alma, e vede! mesmo eu, que sou a única luz, uma faísca apagada, permaneço no sinal de Apófis e Tifão.

Eu sou a cobra que devora o espírito do homem com a lascívia de luz. Eu sou a tempestade cega na noite que envolve o mundo em desolação. Chaos é meu nome, e escuridão densa. Saiba tu que a escuridão da terra é avermelhada e a escuridão do ar é cinza, mas a escuridão da alma é pretidão total.

O ovo do espírito é um ovo de basilisco, e os portões do entendimento são cinquenta, esse é o signo do Escorpião. Os pilares ao redor do neófito são coroados com chamas, e a cripta dos Adeptos é iluminada pela Rosa. E no abismo está o olho do falcão. Mas o Mestre do Templo não encontrará nem estrela nem lua sobre o grande mar.

E eu estava para responder-lhe: “A luz está dentro de mim”. Mas antes que eu pudesse enquadrar as palavras, ele me respondeu com a grande palavra que é a Chave do Abismo. E ele disse: Entraste na noite; ainda cobiçais o dia? Sofrimento é meu nome, e aflição. Estou cingido de tribulação. Aqui ainda está pendurado o Crucificado, e aqui a Mãe chora pelos filhos que não deu à luz. Esterilidade é meu nome, e desolação. Intolerável é a tua dor e incurável a tua ferida. Eu disse, Que a escuridão me cubra; e eis que estou rodeado por uma escuridão que não tem nome. Ó tu, que lançaste a luz à terra, assim deveis fazer para sempre. E a luz do sol não brilhará sobre ti, e a lua não te emprestará do brilho dela, e as estrelas estarão escondidas, porque tu foste além destas coisas, além da necessidade destas coisas, além do desejo destas coisas.

O que eu pensava serem formas de rochas, mais sentidas do que vistas, agora parecem ser Mestres velados, sentados absolutamente imóveis e em silêncio. Nem pode ser distinguido qualquer um dos outros.

E o Anjo diz: Eis para onde o teu Anjo te conduziu! Tu pediste fama, poder e prazer, saúde e riqueza e amor, e força e longevidade. Tu sustentaste a vida com oito tentáculos, como um polvo. Tu procuraste os quatro poderes e os sete deleites e as doze emancipações e os vinte e dois Privilégios e as quarenta e nove Manifestações, e eis! tu te tornaste como um Destes. Curvadas estão as costas deles, sobre as quais repousa o universo. Velados estão os rostos deles, que contemplaram a glória Inefável.

Esses adeptos parecem Pirâmides – seus capuzes e mantos são como Pirâmides.

E o Anjo diz: Verdadeiramente a Pirâmide é um Templo de Iniciação. Verdadeiramente, também é uma tumba. Pensastes que havia vida dentro dos Mestres do Templo, que se sentam encapuzados, acampados pelo Mar? Verdadeiramente, não há vida neles.

As sandálias deles eram de luz pura, e eles as tiraram de seus pés e as jogaram no abismo, pois este Æthyr é solo sagrado.

Aqui nenhuma forma aparece, e a visão de Deus face a face, que é transmutada no Athanor chamado dissolução, ou martelada em uma forja de meditação, neste lugar é apenas uma blasfêmia e uma zombaria.

E a Visão Beatífica não existe mais, e a glória do Altíssimo não existe mais. Não há mais conhecimento. Não há mais bem-aventurança. Não há mais poder. Não há mais beleza. Pois este é o Palácio do Entendimento: pois tu és um com as coisas Primais.

Beba a mirra de minha fala, que está ferida com o fel do roca, e dissolvida na tinta do choco, e perfumada com a mortal erva-moura.

Este é o teu vinho, que era bebido sobre o vinho de Iacchus. E como pão comerás sal, ó tu, do grão de Ceres que engordaste! Pois assim como o ser puro é nada puro, assim é pura sabedoria pura —8, e assim também o entendimento puro é silêncio, e quietude, e escuridão. O olho é chamado de setenta, e o Aleph triplo pelo qual tu o percebes, se divide no número da palavra terrível que é a Chave do Abismo.

Eu sou Hermes, que fui enviado pelo Pai para expor todas as coisas discretamente nestas últimas palavras que ouvirás antes de te sentares entre estes, cujos olhos estão selados e cujos ouvidos estão tapados e cujas bocas estão cerradas, aqueles que estão dobrados sobre si mesmos, de cujos corpos o licor se secou, de modo que nada resta senão uma pequena pirâmide de pó.

E aquela luz brilhante de conforto, e aquela espada penetrante da verdade, e todo aquele poder e beleza que eles fizeram de si mesmos, são expulsos deles, como está escrito: “Eu vi Satanás cair como um raio do Céu”. E como uma espada flamejante caiu no abismo, onde as quatro bestas observam e vigiam. E aparece no céu de Júpiter como uma estrela da manhã ou como uma estrela do entardecer. E sua luz brilha até mesmo à terra e traz esperança e ajuda aos que habitam nas trevas do pensamento, e bebem do veneno da vida. Cinquenta são os portões do entendimento, e cento e seis são suas estações. E o nome de cada estação é Morte.”

E quanto à sua Obra posterior?

“Assim, entramos na terra, e há uma figura velada, em absoluta escuridão. No entanto, é perfeitamente possível vê-lo, de modo que os mínimos detalhes não nos escapem. E sobre a raiz de uma flor ele derrama ácido para que essa raiz se contorça como se fosse uma tortura. E outra ele corta, e o guincho é como o guincho de uma mandrágora arrancada pela raiz. E outra ele cauteriza com fogo, e ainda outra ele unge com óleo.

E eu disse: Pesado é o trabalho, mas realmente grande é a recompensa.

E o jovem me respondeu: Ele não verá a recompensa, ele cuida do jardim.

E eu disse: O que lhe acontecerá?

E ele disse: Isso tu não podes saber, nem é revelado pelas letras que são os totens das estrelas, mas apenas pelas estrelas.

E ele me diz, de maneira bastante desconexa: O homem da terra é o aderente. O amante dá sua vida ao trabalho entre os homens. O eremita segue solitário, e só dá de sua luz aos homens.

E eu lhe pergunto: Por que ele me diz isso?

E ele diz: eu não te digo. Tu disseste a ti mesmo, pois pensaste nisso por muitos dias e não encontraste a luz. E agora que tu és chamado NEMO, a resposta para cada enigma que não encontraste surgirá em tua mente, inesperadamente. Quem pode dizer em que dia uma flor desabrochará?

E tu darás a tua sabedoria ao mundo, e esse será o teu jardim. E a respeito do tempo e da morte, nada tens a ver com essas coisas. Pois embora uma pedra preciosa esteja escondida na areia do deserto, ela não prestará atenção ao vento do deserto, embora seja apenas areia. Pois o trabalhador trabalhou nisso; e porque é clara, é invisível; e porque é dura, não se move.

Todas essas palavras são ouvidas por todos que se chamam NEMO. E com isso ele se aplica ao entendimento. E ele deve compreender a virtude das águas da morte, e deve compreender a virtude do sol e do vento, e do verme que revolve a terra, e das estrelas que cobrem o jardim. E ele deve compreender a natureza separada e a propriedade de cada flor, senão como ele deve cuidar de seu jardim?”

(Ibid. 13º Æthyr.)

Isso quanto aos Mestres do Templo; mas e quanto aos Irmãos Negros?

“Pois Choronzon é como se fosse a casca ou excremento desses três caminhos e, por isso, sua cabeça está levantada para Däath e, portanto, a Irmandade Negra o declarou como filho da Sabedoria e do Entendimento, que é apenas o bastardo da Suástica. E isso é o que está escrito na Santa Cabala, a respeito do Redemoinho e Leviatã, e da Grande Pedra.”

— (Ibid. 3º Æthyr)

“Além disso, há Maria, uma blasfêmia contra BABALON, pois ela se fechou; e, portanto, ela é a Rainha de todos aqueles demônios perversos que andam sobre a terra, aqueles que tu viste até mesmo como pequenas manchas pretas que mancharam o Céu de Urânia. E todos estes são excrementos de Choronzon.

E por isso BABALON está sob o poder do Magista, porque ela se submeteu à obra; e ela guarda o Abismo. E nela há uma pureza perfeita daquilo que está acima; no entanto, ela é enviada como a Redentora para aqueles que estão abaixo. Pois não há outro caminho para o Mistério Superno a não ser por meio dela e da Besta sobre a qual ela cavalga; e o Magista é colocado além dela para enganar os irmãos das trevas, para que não façam para si uma coroa; pois se houvesse duas coroas, então Yggdrasil, aquela árvore anciã, seria lançada no Abismo, arrancada e lançada no Abismo Mais Externo, e o Arcano que está no Ádito seria profanado; e a Arca seria tocada, e a Loja espionada por aqueles que não são mestres, e o pão do Sacramento seria o esterco de Choronzon; e o vinho do Sacramento seria a água de Choronzon; e o incenso seria dispersão; e o fogo sobre o Altar seria ódio. Mas ergue-te; fica de pé, sê corajoso, pois observa! será revelado a ti o Grande Terror, a coisa de temor que não tem nome.”

— (Ibid. 3º Æthyr)

“E agora Ela surge novamente, montada em um golfinho. Agora, novamente, vejo aquelas almas errantes que buscaram o amor restrito, e não compreenderam que “a palavra do pecado é restrição”.

É muito curioso; elas parecem estar procurando umas pelas outras ou por alguma coisa, o tempo todo, constantemente apressando-se. Mas elas batem uma contra a outra e ainda assim não se enxergam, ou não conseguem se enxergar, porque estão tão fechadas em seus mantos.

E uma voz soa: É terrível para aquele que se fechou e se tornou rápido contra o universo. Pois os que estão acampados à beira do mar, na cidade das Pirâmides, estão realmente fechados. Mas eles deram seu sangue, até a última gota, para encher a taça de BABALON.

Estes que vês são de fato os Irmãos Negros, pois está escrito: “Ele rirá de sua calamidade e zombará deles quando seu medo vier”. E, portanto, ele os exaltou ao plano do amor.

E mais uma vez está escrito: Ele não deseja a morte de um pecador, mas antes que ele se desvie de sua maldade. Agora, se um desses fosse se desfazer de seu manto, ele veria o brilho da senhora do Æthyr; mas eles não farão isso.”

E novamente: —

“Ó, vejo vastas planícies sob os pés dela, enormes desertos salpicados de grandes rochas; e vejo pequenas almas solitárias, correndo desamparadamente, criaturas negras diminutas como os homens. E eles mantêm um uivo muito curioso, que não posso comparar a nada que já ouvi; no entanto, é estranhamente humano.

E a voz diz: Estes são os que alcançaram o amor e se apegaram a ele, orando sempre aos joelhos da grande deusa. Estes são os que se fecharam nas fortalezas do Amor.”

— (Ibid. 7º Æthyr.)

Além disso:

“E este é o significado da Ceia da Páscoa, o derramamento do sangue do Cordeiro sendo um ritual dos Irmãos das Trevas, pois eles selaram o Pilone com sangue para que o Anjo da Morte não entrasse nele. Assim, eles se fecham para a companhia dos santos. Assim, eles se protegem da compaixão e do entendimento. Eles são amaldiçoados, pois enclausuram o sangue em seus corações.

Eles se protegem dos beijos de minha Mãe Babilônia, e em suas fortalezas solitárias rezam para a lua falsa. E eles se comprometem com um juramento e uma grande maldição. E de sua malícia eles conspiram juntos, e têm poder e domínio, e em seus caldeirões preparam o vinho forte da ilusão, misturado com o veneno de seu egoísmo.

Assim, eles fazem guerra ao Santo, enviando sua ilusão aos homens e a tudo que vive. De modo que sua falsa compaixão é chamada de compaixão, e seu falso entendimento é chamado de entendimento, pois este é o seu feitiço mais poderoso.

No entanto, de seu próprio veneno eles perecem, e em suas fortalezas solitárias serão devorados pelo Tempo que os enganou para servi-lo, e pelo poderoso demônio Choronzon, seu mestre, cujo nome é a Segunda Morte, pois o sangue que eles aspergiram em seu Pilone, que é uma barreira contra o Anjo Morte, é a chave pela qual ele entra9.”

— (Ibid. 12º Æthyr.)

Finalmente:

“No entanto, aquele que entende deve ir para o Abismo mais externo, e lá deve falar com quem que está posto acima do terror quádruplo, os Príncipes do Mal, até mesmo com Choronzon, o poderoso demônio que habita o Abismo mais externo. E ninguém pode falar com ele, ou entendê-lo, exceto os servos da Babilônia, que entendem, e os que não têm entendimento, seus servos.

Vede! não entra no coração nem na mente do homem conceber este assunto; pois a doença do corpo é morte, e a doença do coração é desespero e a doença da mente é loucura. Mas no Abismo mais externo está a doença da aspiração, a doença da vontade e a doença da essência de tudo, e não há palavra nem pensamento onde a imagem de sua imagem é refletida.

E todo aquele que passa para o Abismo mais externo, exceto aquele que entende, estende as mãos e inclina o pescoço para as correntes de Choronzon. E como um demônio ele anda pela terra, imortal, e destrói as flores da terra, e corrompe o ar fresco; e torna a água venenosa; e o fogo que é amigo do homem, e o testemunho de sua aspiração, visto que ele se eleva sempre para cima como uma pirâmide, e vendo que o homem o roubou em um tubo oco do Céu, mesmo aquele fogo ele transforma em ruína e loucura, e febre, e destruição. E tu, que és um monte de pó seco na cidade das pirâmides, deves entender estas coisas. «…»

Acautela-te, portanto, ó tu que estás designado a entender o segredo do Abismo Mais Externo, pois em cada Abismo tu deves assumir a máscara e a forma do Anjo dele. Se tivesses um nome, ficarias irrevogavelmente perdido. Verifica, portanto, se ainda há uma gota de sangue que não foi recolhida na taça de Babilônia, a Bela, pois naquela pequena pilha de pó, se pudesse haver uma gota de sangue, ela estaria totalmente corrompida; criaria escorpiões e víboras, e o gato do lodo.

E eu disse ao Anjo: Não há um vigilante designado?

E ele disse:

Eloi, Eloi, lama sabacthani.

Tal êxtase de angústia me atormenta de tal forma que não consigo expressá-lo, mas sei que não é nada senão a angústia do Getsêmani.”

(Ibid. 11º Æthyr.)

Amor é a lei, amor sob vontade.

Fraternalmente,

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  1. «Trecho de Orpheus, de Aleister Crowley.» ↩︎

  2. «Khamsin é um vento quente, seco e arenoso que sopra esporadicamente do sul sobre o norte da África e a península Arábica durante cerca de 50 dias na primavera. Caracterizado por transportar areia e poeira, causando tempestades, afeta principalmente o Egito e o “Levante”.» ↩︎

  3. «Território francês que foi conquistado pela Alemanha em 1871, reavido pela França em 1919, ocupado pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial (1940-1944) e reavido pela França em 1945.» ↩︎

  4. «É a palavra irlandesa para “Irlanda”. Após a guerra pela independência entre 1919 e 1921, o país sofreu uma guerra civil de 1922 a 1923.» ↩︎

  5. «Um distrito histórico de Paris, onde vivia a antiga aristocracia que perdeu o poder após a revolução francesa, mas que tentava conservar seus hábitos de nobreza e preservar suas linhagens.» ↩︎

  6. «Marie-Joseph Paul Yves Roch Gilbert du Motier, Marquês de La Fayette (1757-1834).» ↩︎

  7. «Honoré Gabriel Riqueti, Conde de Mirabeau (1749-1791).» ↩︎

  8. Suponho que somente um Magus conseguiria ouvir esta palavra. ↩︎

  9. (Eu acho que o problema com essas pessoas foi que eles quiseram substituir o sangue de alguém pelo sangue deles, porque eles queriam manter suas personalidades.) ↩︎


Traduzido por Alan Willms em setembro de 2026. As notas entre «aspas angulares» são do tradutor.

Próximo capítulo em breve!
Sistema da O.T.O. »