Carta A

Este artigo é um capítulo de Magia Sem Lágrimas

Instruções práticas diárias para uma discípula.

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Carta A

19 de março de 1943

Cara Soror,

Faz o que tu queres será o todo da Lei.

Fiquei muito contente ao constatar, pela nossa conversa de ontem à tarde, que você tem a séria intenção de se dedicar à Grande Obra com o espírito adequado. Suas críticas à experiência anterior, adquirida ao longo de suas aventuras, pareceram-me singularmente sensatas e justas. Como prometido, escrevo esta carta para tratar de alguns pontos práticos que não tivemos tempo de discutir e que, de qualquer forma, acho melhor resolver por correspondência.

1. É de suma importância que você compreenda minha posição pessoal. Não é exatamente errado me considerar um professor, mas certamente pode levar a conclusões equivocadas. Colega de estudo, ou, se preferir, companheiro de sofrimento, parece ser uma definição mais apropriada.

O ponto culminante da minha vida foi o que ficou conhecido como o Trabalho do Cairo, descrito em detalhes minuciosos em O Equinócio dos Deuses. Naquela época, grande parte do Livro da Lei era completamente ininteligível para mim, e boa parte dele – especialmente o terceiro capítulo – era extremamente antipática. Lutei contra esse livro por anos; mas ele se mostrou irresistível.

Não creio estar me vangloriando injustamente ao afirmar que minhas pesquisas pessoais foram de grande valor e importância para o estudo da Magia e do Misticismo em geral, especialmente minha integração dos diversos sistemas de pensamento do mundo, notadamente a identificação do sistema do Yì Jīng com o da Cabala. Mas asseguro-lhe que toda a minha obra, mesmo multiplicada por mil, não valeria nem um décimo do valor de um único versículo do Livro da Lei.

Creio que você deveria ter um exemplar de O Equinócio dos Deuses e fazer do Livro da Lei seu estudo constante. O valor que meu trabalho possa ter para você não passará de um auxílio na interpretação deste livro.

2. Pode ser que mais tarde você queira uma cópia de Oito Palestras Sobre Yoga, então estou separando uma para você, caso queira.

3. Com relação à O.T.O., creio que posso encontrar para você uma cópia datilografada de todos os documentos oficiais. Se assim for, disponibilizarei a você para leitura, e você poderá decidir se deseja se filiar ao Terceiro Grau da Ordem. Consequentemente, caso decida se filiar, revisarei com você o roteiro dos Rituais e explicarei o significado de tudo, comunicando, além disso, o verdadeiro segredo e o conhecimento significativo que a Maçonaria comum não possui.

4. O horóscopo; eu realmente não gosto de fazê-los, mas faz parte do acordo com o Grande Tesoureiro da O.T.O. que eu os faça em casos merecedores, se solicitado. Mas prefiro manter a figura em segredo para referência futura, caso algum evento significativo torne a consulta desejável.

Agora, há uma questão realmente importante. A única coisa, além do Livro da Lei, que está na fronte da batalha. Como lhe disse ontem, o primeiro requisito essencial é a dedicação de tudo o que se é e de tudo o que se possui à Grande Obra, sem qualquer reserva. Isso deve ser mantido constantemente em mente; a maneira de fazer isso é praticar o Liber Resh vel Helios sub figura CC (pgs. 425-426 do Magick). Existe outra versão dessas Adorações, um pouco mais completa; mas as do texto são perfeitamente adequadas. O importante é não esquecer. Terei que ensinar-lhe os sinais e gestos que acompanham as palavras.

Também é recomendável, antes de iniciar uma refeição formal, realizar o seguinte diálogo: Bata 3-5-3: diga: “Faz o que tu queres será o todo da Lei.” A pessoa na outra ponta da mesa responde: “Qual é a tua Vontade?” Você: “Minha Vontade é comer e beber.” Ela: “Com que propósito?” Você: “Para que assim meu corpo seja fortalecido.” Ela: “Com que propósito?” Você: “Para que eu possa realizar a Grande Obra.” Ela: “Amor é a lei, amor sob a vontade.” Você, com uma única batida: “Comei.” Quando estiver sozinha, faça disso um monólogo: assim, Bata 3-5-3. Faz o que etc. É minha Vontade etc., que meu corpo etc., que eu possa etc., Amor é etc. Bata: e comece a comer.

É impossível exagerar a importância de realizar essas pequenas cerimônias regularmente e de ser o mais preciso possível quanto aos horários. Você não deve se importar em parar no meio de uma avenida – com ou sem pessoas – e recitar as Adorações; e não deve se importar em ignorar seu convidado – ou seu anfitrião – se ele ou ela se mostrar ignorante em sua parte do diálogo. Talvez seja porque essas questões parecem tão insignificantes e triviais que elas proporcionam um treinamento tão excelente. Elas ensinam concentração, atenção plena, coragem moral e social, e uma série de outras virtudes.

Como a dama perfeita que sou, guardei o melhor para o final. É absolutamente essencial começar um diário mágico e mantê-lo atualizado diariamente. Você começa com um relato da sua vida, remontando até mesmo ao período antes do seu nascimento, à sua ancestralidade. Em conformidade com a prática que você talvez queira adotar mais tarde, descrita em Liber Thisarb sub figura CMXIII, parágrafos 27-28 no Magick, pp. 420-422, você deve encontrar uma resposta para a pergunta: “Como vim parar neste lugar, neste momento, envolvido neste trabalho específico?”. Como você verá no livro, isso dará início à descoberta de quem você realmente é e, por fim, a levará a recuperar a memória de encarnações anteriores.

Como é difícil que você venha à cidade, exceto em ocasiões raras e irregulares, permita-me sugerir um plano que já se mostrou muito útil: uma carta semanal. Eliphas Lévi fez isso com o Barão Spedalieri, e a correspondência é uma das suas obras mais interessantes1. Você faz as perguntas que deseja ver respondidas, e eu respondo da melhor maneira possível. Eu, naturalmente, acrescento observações espontâneas que possam surgir das minhas observações sobre o seu progresso e da leitura do seu diário mágico. Este, é claro, deve ser escrito apenas em um lado de cada folha, para que a página oposta fique livre para comentários, e deve-se combinar que ele seja consultado em intervalos regulares.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Fraternalmente,

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  1. «Publicada como Curso de Filosofia Oculta, Editora Pensamento.» ↩︎


Capítulo traduzido por Alan Willms em julho de 2026. As anotações entre «aspas especiais» são do tradutor.

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